6ª Feira

Dia 1 da greve convocada pelo S.TO.P. (disseram-me que é assim que deve ser grafado, a bem do rigor), sendo ainda muito cedo para qualquer tipo de balanço que não seja pré-impressionista.

No entanto, já me é possível fazer algumas considerações sobre o que tenho consumido da “comunicação” do S.TO.P. quanto a “estratégias” ou “tácticas” de “luta”.

E, realmente, nota-se um pouco um gap geracional porque parte das pessoas que falam agora, não viveram ou não tomaram bem atenção ao que se passou principalmente entre 2007 e 2009. Dá a sensação de terem ouvido, a partir de um olhar externo do que se passou, como foi ensaiada a resistência, como aconteceram as manifestações, até parece terem percebido alguma da mecânica (em mais de um plano) da coisa, nomeadamente o funcionamento em rede dos contactos e da troca de informações, mas claramente não terão compreendido ou interiorizado que, apesar de muita coisa boa e nova ter acontecido, o saldo final foi claramente negativo, pois praticamente nada se conseguiu travar em definitivo ou sequer reverter. Duvido, por exemplo, que o actual sistema de quotas seja, em termos práticos, muito melhor do que o dos “titulares”. Formalmente desapareceu o que era considerado mais ofensivo, mas permaneceu em funcionamento a lógica do funil, agora sem nome específico, para quem consegue saltar as duas barreiras.

Falo da carreira docente, claro. Porque sobre a situação dos contratados, não me parece que absolutamente nada tenha melhorado e não me venham apenas com a troika, porque, de 2005 a 2022, eles só cá estiveram 3 anos e o governo de passos-portas durou 4. Não me digam que quem governou nos restantes 13 não tem responsabilidades. Ou quem durante toda uma legislatura ou mesmo mais, deu suporte à governação.

Mas isso agora não é o essencial.

O essencial é que quem anda por aí a “descobrir” coisas, entenda que elas já foram antes descobertas, e que quem pensa replicar o que foi feito no passado, entenda que não se saldou num sucesso, a menos que nos satisfaçamos com a realização de grandes manifestações que não se traduziram em “conquistas” efectivas, pois tudo foi desbaratado em entendimentos e acordos em 2008, 2012 e, mais tarde, em 2018. Há que entender que a tal “mecânica” das coisas produziu até bastante impacto mediático e político, mas que o pântano venceu.

Logo… ou fazem diferente ou precisam de fazer melhor. E é isso que me está a parecer curto. Ter o Garcia Pereira a explicar a parte jurídica da problemática já foi feito, assim como colocar gente a dizer às audiências o que elas querem ouvir e confundir uma intensa mobilização num raio de 50 metros com o país. Fazer vigílias, mais ou menos frentistas. Concentrações em pontos estratégicos de vilas e cidades. Sondagens online. Há quem se lembre disso, mesmo quem ainda não tem 35-40 anos. E há quem se lembre, mas que andava na altura a defender outro tipo de causas.

Se não sabem muito disto, informem-se. Mas informem-se para além de conversas de ocasião. Já aqui escrevi o espanto com que li a “descoberta” que uma pessoa fez, em Novembro de 2022, que em 2008 tinham existido movimentos organizados de professores, independentes de qualquer sindicato. Ontem, verifiquei que muita gente não conhece sequer o contexto político de 2008 e os protagonistas de bastidores que cozinharam a trégua com o sindicalismo tradicional, aquele que assina acordos que depois se traduzem em leis. Se não querem informar-se, são opções, mas em regra acabam mal, porque não se aprende com os erros ou as ineficácias passadas. Não posso é ter gente que nem sequer leu com atenção o ECD, a lei da greve ou a lei do trabalho em funcões públicas a convocar coisas e só depois a pedir aconselhamento jurídico em formato acelerado.

Sim, talvez por ser de História, trago o passado sempre na cabeça, até porque vivi parte dele por dentro. Não vou buscar coisas anteriores, porque antes de 2006 as redes sociais e os contactos virtuais eram residuais neste tipo de movimentações. E se refiro o passado não é para o glorificar, mas sim para que percebam que, se formos realistas e sinceros, esse passado é o de uma derrota. Eventualmente honrosa, possivelmente uma espécie de inútil “vitória moral”, mas uma derrota. Há que viver com isso, aprender e fazer diferente. Pessoalmente, detestaria passar por outro ciclo de inconseguimentos.

20 opiniões sobre “6ª Feira

  1. Gostava de lembrar ao Paulo que a sua arrogância é sempre má conselheira e que os mais importantes quadros do STOP estiveram sim nas lutas de 2008 e seguintes. Alguns até formaram a APEDE. Por outro lado, os importantes esclarecimentos do dr. Garcia Pereira na véspera da greve fazem todo o sentido, são muito bem vindos e contribuem para tranquilizar algumas pessoas menos informadas sobre os meandros kafkianos da legislação. Se o Paulo não fosse tão sectário, deveria antes louvar o STOP por essa iniciativa que nenhum outro sindicato alguma vez realizou, embora tendo meios infinitamente mais chorudos que esta pequena agremiação. De facto, já há muito nos fomos habituando a esta verve corrosiva. Fazer o quê?

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    1. Arrogância?
      Sectário?
      Corrosiva? 😀

      E no seu caso é… humilde, plural e hidratante?

      Poderia identificar os “mais importantes quadros” que estiveram na APEDE?
      É que eu reuni-me muitas vezes com o pessoal da APEDE e… lembro-me do António, do Ricardo, do Francisco, do Mário, etc, etc, etc, mas…
      O Mário já escreveu que se lembra do André, desses tempos. Isso, também eu. Lembro-me.
      Por acaso, lembro-me de algumas outras pessoas, mas o que fizeram na APEDE?

      Porque lida tão mal com opiniões diferentes, que não sigam apenas a sua forma de ver as coisas?
      Limito-me a alinhar o que penso sobre isto.
      Isso incomoda-o?
      Discorda.
      Argumente, sem ser na base dos adjectivos.
      Prefere que lhe digam apenas o que quer ouvir?
      Então, ontem ficou feliz, porque quem nada arrisca, os mandou avançar, sem medos.

      Ontem, fui o primeiro a divulgar parte do que se passou durante essa sessão.
      O que quer? Adesão acrítica? Em nome do unanimismo? Nesse caso, estaria a fazer o mesmo que o pessoal da fenprof quer.

      Não percebeu que essa lógica apenas replica a daqueles que criticam?
      Isso, sim, é sectarismo.

      Como escrevi… há uma certa “curteza”…

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  2. Greves

    A venda do Coxa entrou em greve por tempo indeterminado . Os compadres bem clamam ( ou reclamam) : porra, façam stop a essa m…da. Mas o Coxa responde-lhe à letra -” stop façam vocês ao mata- bicho, seus chaparros”.

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    1. Já lhe chamei a atenção para o facto de nem sempre conseguir sequer perceber o que lê.
      Eu é que não me lembro do que fez a APEDE?
      Realmente… anda a precisar de tomar uma geleia real, uma vitamina B12, para o desgaste mental.

      Quer factos?

      Uma das primeiras reuniões de 2008.

      Uma Reunião Produtiva Seguida de Almoço A Condizer

      Mas se ler o material de todo o mês não perde nada:
      https://educar.wordpress.com/2008/01/

      Resumo da matéria dada:
      https://www.fnac.pt/08-03-08-Memorias-da-Grande-Marcha-dos-Professores-Paulo-Guinote/a945280

      Se quiser, tenho um arquivo com milhares de documentos dessa altura, tomadas de posição de escola, individuais, etc. Que me mandaram, que publiquei, que apenas reservei para efeitos de “memória”.
      E eu não sou professor de “história”, mas de História, ok?

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  3. Se reparar e parar para pensar, a sério, verá que as conquistas sigificativas nunca foram feitas com/por sindicatos. Veja o que se passou na China, onde sem sindicatos as pessoas revoltadas e em acção directa conseguiram fazer recuar o todo poderoso Partido Comunista. Lamento, mas com essa atitude e desrespeito pela História da luta de classes, ou o que lhe quiser chamar, até pode ser só a nossa história recente, não vamos a lado nenhum.

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      1. A resposta era para o José Oliveira. A luta sindical estará sempre à mercê da propaganda, quer do governo quer da “concorrência” certificada para o efeito. A população, que engole tudo como papinha para bebé, não alinha e vê com desconfiança estes atentado contra os direitos dos consumidores e clientes da escola. O que fazer? Pois, apetece-me algo…como no anúncio do Ferrer Rocher, mas sem motorista.

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  4. O Paulo tem razão ao dizer que isto não pode ser apenas fogo de vista e a mobilização alcançada agora não pode ser traída depois por aqueles que dizem ser nossos representantes.
    Acredito firmemente que isto não vai ser fogo fatuo porque agora é mesmo para vencer as orgânicas velhas e viciadas e serem substituídas por novas e honestas!

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  5. Ninguém se deveria esquecer – aqueles que viveram esse período – de que Maria de Lurdes Rodrigues, esse ser abominável, estava para se demitir quando os lutadores de sempre lhe estenderam a mão, comeram pizas e bolinhos, beberam chá e a perpetuaram no poder.

    Foram essas figuras que salvaram a megera e são a causa de tudo o que veio a seguir. A nossa derrota em 2008 tem nomes e rostos. Padre António Vieira escreveu que o polvo é o maior traidor [do mar] e que o é mais do que Judas, o símbolo da traição entre a humanidade; eu diria que 2008 e anos seguintes conheceram outros traidores que não ficam atrás do referido peixe.

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  6. Gostaria de estar em total desacordo com o Paulo, mas de facto não estou. A natureza humana é isto não é por acaso que há um Judas no livro sagrado. Este processo é muito maior do que a Educação. Todos os partidos envolvidos têm um pé ou os dois no poder autárquico e professores já lá estão muitos. Ninguém quer ficar de fora do presépio.

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  7. Sobre a APEDE, quem quiser saber mais e recordar a História… ela está testemunhada por aí na blogosfera:
    http://apede.blogspot.com/
    https://apede08.wordpress.com/

    A APEDE fez um percurso interessante, difícil, desafiante, e que deve orgulhar todos os que nela se envolveram de modo genuíno, desinteressado e com real empenho no reforço da luta de professores. A APEDE foi realmente um movimento independente de professores e, em conjunto com outros companheiros de estrada, fizemos um percurso de intervenção cívica que deve orgulhar a classe docente. É justo dizer aqui que a grande alma da APEDE (com todo e respeito e consideração por muitos outros companheiros) foi o meu querido amigo Mário Machaqueiro e que, a partir do seu afastamento voluntário, não era fácil, como não foi, manter o movimento em ação. Mas para além do Mário Machaqueiro muitos outros deram o seu contributo, foi uma viagem incrível e de grande aprendizagem, deixo o meu abraço a todos os companheiros, incluindo ao Zé Manel (joseoliveira) que lá esteve também, praticamente desde a 1ª hora.

    Ao lado da APEDE, e com a APEDE esteve também o meu estimado amigo Ilídio Trindade e o seu trabalho incansável com o MUP, a quem se deve, em grande medida a tomada de decisão final em manter a manifestação de 15 de novembro de 2008 (um momento único e marcante da História da Democracia em Portugal). Fica aqui uma entrevista dele que também ajudará a perceber melhor a sua postura na luta:
    https://passapalavra.info/2009/03/2551/

    Claro que não podem esquecer-se outros nomes marcantes desses tempos de luta, nomeadamente o Paulo Prudêncio (também ele membro da APEDE), o Mário Carneiro, o António Ferreira, o pessoal de Leiria, de Braga, enfim, tantos e tantos nomes, não quero ser injusto com ninguém e só posso agradecer tudo o que deram à luta dos professores.

    Finalmente, não posso também esquecer aqui a figura ímpar do Paulo Ambrósio, sindicalista filiado no SPGL e que, infelizmente, já não está entre nós. Se todos os sindicalistas tivessem sido, e fossem como ele, se seguissem o seu exemplo, sem sectarismos e com honestidade intelectual e nobreza de carácter, estaríamos hoje num lugar muito melhor quanto às nossas condições laborais e de carreira.

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    1. Queridos colegas, estamos todos, mais ou menos no mesmo barco. Fico triste, como professor, que ainda haja professores a lutar contra a existência de sindicatos. É de uma ignorância lamentável. Francamente lamentável!!!
      Não concordar com determinadas posições, chama-se a isso democracia.
      Sou sócio da FENPROF, SPZN e também estou muito desiludido nesta fase da nossa luta, mas não é por isso que me descindicalizo ou defendo o fim dos sindicatos. As iniciativas da APEDE foram bonitas, mas líricas e não tenho nada contra o lirismo, só que acho que não é o caminho. O mesmo se passa com esta forma de luta do S.TO.P. pode ser bonita e cheia de boa vontade, mas irrialista, mal organizada e penso que até irresponsável porque nos descredibiliza. Um greve por tempo indeterminado pode funcionar com enfermeiros (têm fundos… lembram-se?)
      nos pilotos de aviação civil. Connosco não funciona e nunca vai funcionar.
      Não esqueçam que, de um modo geral, estamos todos bem controlados pelos salários baixos, o Salazar já usava essa tática.
      Então, o que fazer? Não sei. Sei só que temos de ser mais unidos e mais inteligentes.

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      1. “O mesmo se passa com esta forma de luta do S.TO.P. pode ser bonita e cheia de boa vontade, mas irrialista, mal organizada e penso que até irresponsável porque nos descredibiliza.”

        O que tem feito a Fenprof, nos últimos 12 anos, em termos de luta, que possa ser considerado por si como realista, organizada, responsável e credível, por oposição à forma como qualifica a presente contestação encetada pelo S.T.O.P.?

        O que conseguiram alcançar com a forma de luta, empreendida nesses anos? Ou, simplesmente, não houve luta nenhuma?

        Não tenho nada a ver com o S.T.O.P., nem me move qualquer interesse pessoal nesse Sindicato, mas reconheço que tiveram aquilo que os “grandes” não têm: coragem e ousadia para, pelo menos, “agitar as águas” e afirmar publicamente que muito vai mal na Educação…

        Assim os “grandes” também o quisessem… Mas, por aí, será melhor esperarmos sentados: os apelos das agendas partidárias e da arrogância do “corporativismo elitista” falam sempre mais alto e dominam qualquer forma de luta…

        Continuar a pagar para isso (“Sou sócio da FENPROF, SPZN e também estou muito desiludido nesta fase da nossa luta, mas não é por isso que me descindicalizo”), é uma escolha individual, ainda que incompreensível e injustificada…

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