O Futuro Da Inclusão?

Tenho uma certa dificuldade em comentar isto. Porque… sei lá… por um lado isto já se fazia com alguns casos “extremos”, por outro, parece-me… sei lá… neo-realista?

Duas escolas de Vila Verde dotadas de “T0” para trabalhar autonomia dos alunos

Alunos com necessidades educativas específicas “aprendem um bocadinho de tudo o que se faz numa casa, como cozinhar, passar a ferro ou aspirar o pó”.

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São Os Afectos, Senhor@s!

E enquanto a coisa for encarada com abordagens-choninhas e de mera cosmética, a sensação de impunidade avança, pois parece que basta um hipócrita pedido de desculpas, nem sequer com os dedos cruzados atrás das costas, para que agressões graves sejam “contextualizadas” e “compreendidas”.

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Jornal de Notícias, 19 de Outubro de 2019

Guia Simples Para Compreender A Falta De Professores

É matéria escrita e repetida. Não é de agora que se chama a atenção para os custos de políticas de vistas curtas e que já tinham dado este resultado em outras paragens. Até podemos passar meio de lado em relação à sistemática desvalorização simbólica da docência pela classe política e uma série de alegados “influenciadores” que polvilham a nossa comunicação social impressa e televisionada.

Mas não podemos passar sobre políticas concretas destinadas a poupar os tais tostões que usaram em sorvedouros diversos, sem qualquer importância para o tal “interesse dos alunos” que tanto gostam de alegar de forma demagógica e desonesta.

  1. Antes de mais, os concurso para 4 anos nunca o foram, pois a cada ano tivemos o baile dos chamados “horários-zero” que tanto amofinaram gente que papagueia por aí. Estranho… em poucos anos desapareceram e até faltam professores em alguns dos grupos em causa. A “estabilidade” nunca existiu. Nem sequer foi uma prioridade. E a história das “vinculações extraordinárias” com que alguns enchem a boca (a começar pelo actual PM que tem de arranjar espaço com tantas favas que parece já lá ter quando fala) ainda está para ser um dia contada em todas as suas manigâncias, nomeadamente ao nível das vagas que foram abertas em que grupos e onde. Pois muitos lugares continuaram por preencher e em outros casos apareceu gente que ninguém pedira. Mas, assim, alguém terá metido o pé na administração pública, permitindo-lhe depois ir para outras paragens…
  2. Em seguida, numa medida de “boa governança” impediu-se que professores contratados com horários incompletos os pudessem completar na mesma escola com outro tipo de funções, fixando assim esse docente a essa escola, tendo passado a ser obrigatório que esse completamento resultasse do concurso a horários também incompletos de outras escolas… o que fez com que um professor com 14, 15, 16 horas tivesse de andar em busca de outro horário, algures, para ter o seu completo, em vez de existir “autonomia” para lhe dar tutorias, apoios ou outro tipo de funções na “unidade orgânica” da primeira colocação. O “truque” foi que, deste modo, se contabilizassem mais professores em exercício, porque em muitos casos tivemos 2 colocações para um horário completo em escolas diferentes, dando uma sensação de existirem mais professores nas escolas, quando apenas se duplicava ou triplicava a presença de um mesmo docente em diferentes locais. Só recentemente se autorizou, perante o descalabro evidente, que se invertessem algumas das regras e se pudessem completar horários “internamente”. 
  3. Em paralelo, contando todas as moedinhas que se podem subtrair a qualquer aposentação antecipada de docentes, nunca se criaram condições para que professores com, por exemplo, 30 anos de carreira e 55 de idade pudessem sair com cortes suportáveis (com 25-30%, muitos ficariam satisfeitos), o que manteve na carreira muita gente que, em pouco tempo, começou a ter de colocar baixas por motivos de saúde diversos. Estas vagas, mesmo conhecidas a partir do ano lectivo anterior por serem atestados de longa duração, só passaram a poder ser colocadas a concurso depois de 1 de Setembro, fazendo com que muitas vezes só chegassem professores já com as aulas iniciadas, pois assim sempre se pouparam 2-3 semanas de salário. A chamada esperteza saloia dos “economistas de escala”.

(e nem vale a pena recordar o desastre total da chamada “bolsa de contratação de escola” quem de algum modo, antecipou o que agora acontece)

Perante isto, que está mais do que contado e narrado à exaustão, até acredito que o rácio calculado da forma martelada com que estes dados costumam ser, tenha feito diminuir o número de alunos por professor. Mas o que não aparece – nunca – nas estatísticas oficiais, é a duração média dos contratos, o número de múltiplas colocações ou o ritmo a que rodam os docentes entre escolas e horários. Claro que, em conjunto com uma remuneração que continua truncada com a carga fiscal, os interessados reduziram-se imenso, em especial perante o aumento das despesas com combustível e alojamento, quando são forçados a deslocar-se.

Este estado de coisas resulta de políticas colocadas em prática por todos os governos nos últimos 15 anos e há mesmo quem se orgulhe de assim ter reduzido radicalmente o peso das remunerações no orçamento do ME em 20 ou mais pontos percentuais. Se isso trouxe algum ganho para os alunos? Duvido, pois o investimento em equipamentos (a começar pelos tão endeusados meios digitais) desapareceu e o que há é o que havia há 10 anos. E os professores dos quadros, estranheza das estranhezas, estão 10 anos mais velhos e outro tanto menos frescos do alfaces acabadas de apanhar.

Mas acreditam que algum David, Maria, Isabel, Nuno ou Tiago, pseudo-liberais ou pseudo-socialistas, assumirão qualquer responsabilidade por isto? Cruzes, credo, a culpa (se é que de “culpa” ou “responsabilidade” se pode falar) é toda das Finanças. El@s apenas fizeram o que era “necessário para o país” e defenderam o “interesse nacional”. E quem os defendeu na comunicação social tem também a sua quota parte de responsabilidade, pois deram cobertura a políticas desastrosas, em tantos casos apenas por preconceito ou ressabiamento pessoal.

Shameless1

(é só mudar-lhes as caras…)

 

Sábado

Desgostam-me muito as pessoas que deixaram de acreditar nos livros que nos trazem o mundo e a imaginação e preferem apenas os que replicam o conhecido ou que acham que a criatividade e o interesse está na partilha do maior denominador comum.