O Sucesso Estrondoso Dos “Planos”

Como é de conhecimento generalizado, na maioria das escolas, basta um aluno ter uma classificação inferior a três, para “ser melhor fazer um plano de recuperação/acompanhamento/intervenção”, podendo este ser de diversos formatos, tamanhos, circunvoluções e estruturas grelhísticas. Para as contas, um plano desses equivale ao plano feito para @ simpática criatura que mal coloca os pés nas aulas e nada faz. Mas, no fim do ano, feito o “balanço”, na maioria dos casos, o “plano” vai ser cumprido porque os alunos passam (mesmo que os nunca tinham estado verdadeiramente em risco) e a “estratégia” é considerada, por sua vez, um “sucesso”. E é assim que, por exemplo, uma turma de 25 alunos (não estou a usar os dados reais de qualquer turma minha deste ano, ok? mas não é que mude muito) pode chegar ao 2º período com 15 ou mais “planos”, mas depois, no final do ano lectivo, só um par de alun@s é que não transitam/ficam retidos, balanceando-se uma “eficácia” de 80 ou mesmo 90% dos ditos “planos”. Mesmo se, no fundo, se trata apenas de uma inicial representação burocrática do insucesso potencial que depois desaparece, qual nuvem empurrada pelo vento do Verão. Incluindo aqueles casos em que só para não se fazer novo plano para o ano seguinte, se encerra a questão com o selo de “sucesso”. Para os alunos e para os planeadores.

Eu Pensava Que Era A Falta De Bons Empregos, Com Bons Salários, Que “Potenciava” A Pobreza, Mas Parece Que Isso Era Antigamente

Outro exemplo da mais absoluta treta, sem qualquer substância ou eficácia. O mais completo ilusionismo sobre a realidade, no qual se gasta bastante dinheiro a pagar aos do costume para criarem site, eventos, sessões de isto e aquilo, em vez de se criarem novos empregos, estáveis e com boa remuneração.

No lançamento do site, ministro da Educação realçou importância de um recurso que vai ajudar escolas, professores e cidadãos, uma “missão” da APB, sublinhou Vítor Bento.

A Arte Da Representação

O ministro João Costa, deixado à vista de todos, sem se disfarçar na sombra de terceiros e mesmo estando sempre a alijar as responsabilidades próprias, demonstra o quanto deturpa os factos disponíveis e a realidade observável, não apenas pelos críticos, mas pelos próprios serviços do seu ministério, quando os estudos não são encomendados às entidades e equipas certas.

É o caso do mais recente relatório do IAVE, que constitui o volume II do Estudo de Aferição Amostral do Ensino Básico 2021, e que apresenta uma sucessão de considerações muito pouco favoráveis acerca do desempenho de um grupo de alunos que ou fizeram toda a sua escolaridade já toda no período costista (os do 2º e 5º ano em 2021) ou a sua maior parte (os do 8º). Se é verdade que as provas de aferição, nesta segunda encarnação, posterior à eliminação às provas finais de ciclo, são levadas a sério por muito pouca gente, a começar pelos alunos que sabem que não servem verdadeiramente para nada (menos os do 2º ano, coitaditos, que nem sequer percebem muito bem o sentido da coisa), não deixa de ser verdade que os dados recolhidos levantam muitas reservas sobre a natureza de um “sucesso” que o ministro não se cansa de proclamar a todos ventos e cantos do país e do mundo (medido pelo grupo de especialistas da OCDE que gostam de vir cá).

Afirma João Costa:

«Temos níveis historicamente baixos de abandono escolar precoce, com uma redução rápida e sustentada e temos níveis históricos de sucesso escolar», disse, acrescentando que «não fazemos este percurso a menorizar as aprendizagens; fazemo-lo com o mote de sermos cada vez mais exigentes naquilo que é a qualidade das aprendizagens».

João Costa referiu também que as escolas propõem «um currículo muito mais desafiante e ambicioso, em que ensinam não apenas coisas que se aprendem e se sabem, mas também o raciocínio, a resolução de problemas, a capacidade de pensar criticamente e de criar».

O problema é que isto não é verdade e é o próprio IAVE que o demonstra, usando os dados dos alunos que já experimentaram este maravilhoso e desafiante currículo e muitas das inovações e flexibilidades introduzidas desde 2016 e, em especial de 2018. Claro que depois sobra sempre para o “trabalho em sala de aula” a resolução das carências verificadas, não se questionando se é isso que as orientações superiormente delineadas nas “aprendizagens essenciais” e no inefável PASEO aconselham ou sequer permitem.

Que “os alunos do 2.º ano têm dificuldades em fazer sínteses de textos” não será novidade, pois nem sequer é suposto que o consigam fazer quando mal aprenderam a ler, levando com os anos da pandemia em cima. Agora as insuficiências verificadas nos alunos do 5º e 8º ano são bem mais problemáticas e contrariam de forma evidente o discurso fantasista de um ministro demagogo e que retorce a realidade à medida dos seus preconceitos.

Claro que a primeira escapatória é a de lançar a responsabilidade para os professores e recomendar “mais formação”, em especial a que é dada por quem quase não tem qualquer experiência de trabalho em sala de aula com alunos. A segunda é dizer que a culpa é da pandemia.

E a solução maior, claro, acabar com tudo aquilo a que se possa chamar “exame” ou aferição externa das aprendizagens com impacto na progressão dos alunos. Há que manter a populaça ignorante, mas ao menos que isso não dê muito nas vistas.

Domingo

Historicamente, os triunviratos (ou troikas, já agora…) acabaram, em regra, mal e com soluções de carácter autoritário. Dos finais da república romana à decadência do ideal republicano da revolução francesa. Significa uma de duas coisas: ou que a “estrutura” não conseguiu gerar um mecanismo de sucessão forte ou que alguém se quer disfarçar, de momento, antes de tomar o poder. Ao contrário do que podem querer fazer passar para o exterior, é uma solução que resulta de uma fraqueza. E presta-se a confusões. Claro que podemos teorizar tudo o que se entender. Mas o que me quer parecer é que há quem, de tanto não querer sair, tenha tornado tudo árido em seu redor.

Contar Para Quê?

Pior do que opções políticas de m€rd@ é depois, de forma algo embaraçada por se perceber ao que andam, virem tentar atirar poeira para os olhos. Concluído o 9º ano, acham que estes alunos – que já de si se vão estar na larga maioria nas tintas para as provas – à entrada do Secundário, em especial se mudarem de escola e forem para uma área de estudos sem Matemática (por exemplo), se vão ralar muito com o feedback dos especialistas do Santo Iavé?

Provas do 9.º vão ter nota e todas as respostas vão contar

A Dúvida

Há não muito tempo, a propaganda, as falsificações, eram feitas para enganar, para dissimular, para apresentar certezas. Para eliminar dúvidas. Agora, com todos os relativismos e “factos alternativos”, até pode continuar a ser isso, mas há uma mudança, que é a de apresentar tudo como potencial falsificação, nada como certo, tudo como dúvida. Mais do que à acção, incita-se a inacção. Num tempo em que tanto se reclamam “evidências” para agir, nada é considerado evidente, para justificar que nada se faça.

Será Que Isto Não É Construção Autónoma Do Saber Pel@s Própri@s Alun@s?

Uma coisa que me diverte naquelas discussões muito bizantinas e/ou escolásticas sobre as pedagogias “activa” e a metodologia de “projecto”, com vista à “construção do próprio saber” pel@s alun@s, é que os chavões querem dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Porque se podem perfeitamente aplicar apenas ao que algumas pessoas conseguem conceber nos seus trejeitos, mas também ao seu contrário.

Se não, vejamos:

Entreguei um texto, correspondente a um excerto de cinco páginas, da versão adaptada pelo PNL da obra Robinson Crusoe aos meus alunos e pedi-lhes que o lessem de forma “autónoma”, ou seja, sem a minha intervenção a guiá-los ou condicioná-los. Uma leitura em silêncio, interiorizada, no sentido de uma aquisição significativa do seu conteúdo.

Em seguida, apresentei-lhes o “projecto” de pesquisarem de forma “activa” nesse texto a resposta a vinte questões de um questionário, onde puderam “construir o seu saber” acerca daquele excerto, pesquisando informação, novamente de modo “autónomo”, no dito cujo excerto.

E depois, após todo esse trabalho, apliquei os princípios do MAIA e fui monitorizar o resultado dos “projectos” de cada um@. Em seguida, dei-lhes o respectivo feedback em forma de uma avaliação qualitativa baseada numa parametrização quantitativa de cada intervalo de desempenho, destacando onde poderiam ter cumprido melhor os objectivos desejáveis e que aprendizagens revelaram ter maior dificuldade em adquirir no plano da leitura e compreensão do texto e da expressão dessa mesma compreensão num processo de resposta aos estímulos recebidos por mim através do questionário. Reforcei a necessidade de consolidarem as aprendizagens não realizadas com uma nova leitura do excerto e a correção dos equívocos cometidos.

Dito assim, nem parece que apliquei apenas uma ficha de trabalho sobre a leitura do Robinson Crusoe e a classifiquei, pedindo para eles corrigirem as respostas erradas, pois não?

Dito assim parece simples e antiquado. Dito em forma de paráfrase verborreica até passa por “inovação”. Em grande parte, é o que anda por aí a ser vendido em formações, como se não fosse unguento da avózinha

Já Quanto A Isto, Por Cá Não Vejo Grande Êxodo No Horizonte

Há quem não largue os cadeirões por nada e há quem os almeje com a força de uma ambição adiada. É esperar por 2023 e ver o tipo de “renovação” que teremos. Se não passará tudo de uma passagem de testemunho ou se a “nova geração” de lideranças trará algo que valha a pena e não passe apenas por se verem livres do quotidiano com aqueles alunos que, da boca para fora, tanto afirmam adorar e ser o sentido de todas as suas “inovações”.

School Leader Crisis: Overwhelmed by Mounting Mental Health Issues and Public Distrust, a ‘Mass Exodus’ of Principals Could be Coming