Previsões Para A Crise

A União Europeia prevê uma crise na economia portuguesa com valores a rondar os 10%, enquanto antes se falava em menos de 7%. Principal causa? A queda do turismo. E voltamos ao velho problema nacional de pequenos surtos de aparente prosperidade com causas exógenas. Um modelo de “desenvolvimento” que depende fortemente dos humores de fenómenos sazonais ou de procura externa é sempre algo frágil. A aposta no mercado externo funciona quando se tem uma boa base no consumo interno. Já lia isso nos idos dos anos 80, quando os livrinhos (aqueles dois volumes, um amarelo e o outro verde de formato pequeno do Indústria e Império, publicados pela Presença) do Eric Hobsbawm explicavam isso mesmo sobre o arranque industrial. Pode parecer ultrapassado, mas não. Apenas mudou as roupagens. E os “impérios”. E os economistas de algibeira, mesmo se agora cacarejam muito bem em inglês.

galinhas

O Que Interessa É A Certeza Absoluta Da Pseudo-Verdade Dos Números Centénicos

Políticos decidem nova abertura sem certeza científica sobre a primeira fase. Os bastidores da reunião no Infarmed e o “quarto pastorinho”

Até porque há que perceber que os apóstolos da Boa Educação obedecem, quando aperta, à Economia e não se fala mais nisso. Até se inventam razões educativas e de saúde (!!!) quando o que está em causa é “libertar” a mão-de-obra.

Reabrir creches e pré-escolar é fundamental

Fatima

O Idiotismo

Leio, incrédulo, gente que faz opinião a elogiar o desenvolvimento económico que demonstrará o aumento de bengalis, nepaleses ou romenos em Portugal. Será que essas pessoas sabem no que trabalham muitas dessas pessoas e em que condições. Será que visitaram as zonas onde muitas dessas comunidades se encontram em regimes de exploração laboral, com salários baixíssimos e um quotidiano sujeito a “acidentes” que nenhuma dessas luminárias desejaria para um seu familiar a trabalhar lá fora? É que quem teve emigrantes na família a viver em bidonvilles tem alguma dificuldade em pensar do mesmo modo que certa classe média alta, instalada, com vetustos pergaminhos e engomados colarinhos liberais. Há gente que de tanto querer parecer inteligente acaba por revelar muita outra coisa.

eu-sou-o-burro

A Ler

Tabelas de IRS: Não entram ricos, deficientes e parvos

(…)

As tabelas publicadas na sexta-feira são a confirmação de que o Governo PS vai colocar toda a carne no assador fiscal este ano (ano de três eleições), à custa de rendimentos do ano passado e à custa dos de 2020.

No ano passado, depois de anunciar o aumento do número de escalões, de cinco para sete, o Governo deveria ter ajustado de imediato as taxas de retenção na fonte de IRS de forma a espelhar a baixa de IRS. Não o fez, ou melhor, fê-lo de forma parcial. Isso fez com que ao longo de 2018 todos os contribuintes estivessem a pagar mais IRS do que aquele que deveriam. O que quer dizer que em junho/julho, algures entre as europeias e as legislativas, os contribuintes vão receber o cheque do reembolso relativo aos rendimentos de 2018 mais generoso, à custa do que andaram a pagar a mais em 2018.

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Já Agora, O Que Se Pode Encontrar no Relatório da OCDE Sobre As Vantagens de Estender a Escolaridade em Termos de Emprego?

Há lá muita coisa e algo é adquirido… quem consegue mesmo emprego compatível com as suas habilitações ganha mais do que quem tiver menos anos de escolaridade. O problema é outro e relaciona-se muito com a incapacidade da própria economia absorver mão-de-obra qualificada, pelo que a probabilidade de emprego é praticamente a mesma tendo feito apenas o 12º ano ou um primeiro ciclo de estudos bolonheses (bacharelato, já que a licenciatura nem aparece).

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Reparem que o nível de emprego de quem fez apenas o 9º ano ou menos é dez pontos acima da média europeia (68% contra 58%) e treze acima dos 22 países europeus da OCDE (média de 55%), mantendo-se mais alta do que a média também para quem concluiu o 12º ano. Depois, começa a descer e fica em cima da média para quem fez estudos universitários.

Quanto à evolução entre 2007 e 2017 do nível de emprego, verifica-se que subiu 4 pontos para quem não seguiu estudos universitários (de 78% para 82%), mas apenas um ponto para quem os fez (de 85% para 86%). O que significa um fenómeno parcialmente paradoxal.

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Tudo isto se relaciona ainda com as vantagens relativas de se seguirem estudos universitários em Portugal, por comparação a ficar apenas com o 12º ano.

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Nada disto levantou o mínimo interesse à comunicação social, embora esteja no mesmo relatório que traz os salários dos professores. Só que não aparecia no resumo. O resumo é que foi uma selecção “criteriosa” do que interessava à “actualidade”. Claro que aborsar outros temas pode levar a uma visão muito negativa para uma economia que dá escassas oportunidades aos trabalhadores qualificados que ou saem do país ou se submetem a salários comparativamente inferiores aos praticados em outras economias, para terem a mesma possibilidade de não ficarem no desemprego do que quem não seguiu estudos superiores. Temos um mercado de trabalho que privilegia mão-de-obra com baixas qualificações e salários baixos.

Mas sobre isto os daniéisbestas e outros “empreendedores” não escrevem. Porque não convém.

Can You Dig It, MST – 2

Antes de mais um estudo recente que explica algo que pode parecer chocante para leituras ingénuas sobre a influência da Educação por si só no combate às desigualdades e no incentivo à mobilidade social. E, já agora, que o investimento na Educação é essencial nos primeiros anos, mas não no sentido de assegurar um “sucesso” fictício, incapaz de combater a herança familiar dos grupos privilegiados.

The impact of education on income inequality and intergenerational mobility

This paper analyses the effects of innate ability, compulsory education (grades 1–9), and non-compulsory education (grades 10–12 and higher education) on inequality and intergenerational mobility of income, by constructing a four-period overlapping-generation model. We find that innate ability and family investment in early education play important roles in explaining income inequality and intergenerational income mobility. Though children from the wealthiest families are only 1.36 times ‘smarter’ that those from the poorest, the gap in human capital expands to 2.35 at the end of compulsory education and to 2.89 at the end of non-compulsory education. One important reason for the increase is that poor families invest relatively less in children’s early education than do wealthy families; therefore, their children attend lower-quality schools, which results in them being much less likely to participate in higher education. By simulating policy experiments for different types of government education expenditure, we find that direct subsidies to poor parents are the most efficient and effective policy for mitigating poor families’ budget constraints with regard to early-education investment in their children.

E em seguida um estudo (de acesso livre) sobre este tipo de fenómenos, em especial sobre a margem de mobilidade entre gerações em sociedades muito desiguais, num amplo conjunto de países da América Latina

Educational Inequality and Intergenerational Mobility in Latin America: A New Database

Eu sei, dá trabalho ler, há muita gente que acha que não vale a pena, que basta ler os comunicados sindicais ou os briefings dos gabinetes governamentais, mas podemos sempre ir um pouco mais longe e isto é uma gota de água em tudo o que se pode consultar.

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Can You Dig It, MST?

Já é de 1994. Foi preciso comprar na altura… já há uns bons anos, para fazer revisão da literatura antes de escrever qualquer coisa. Algo quer nem passa pela cabeça de alguns abençoados pela sapiência de berço.

Can education do it alone?

Public policy in the last decade has placed great expectations on education to energize the economy by producing a workforce with higher test scores and greater educational attainments. This paper argues that education requires a range of complementary conditions in order to provide a payoff and cannot do the job by itself. This argument is also extended to research which extrapolates longitudinal consequences of educational investments from cross-sectional studies of the relation between education and various economic and social outcomes. It is argued that this research also overstates the effects of education by not considering the complementary conditions that must be in place to realize the relation that is embedded in cross-sectional data.

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Afinal, São Tudo Simulações Para Parceiros e Imprensa Verem!

Os números que as Finanças lançam cá para fora sobre os encargos com as progressões dos professores (tal como para a recuperação do tempo de serviço) são apenas “simulações”. O esclarecimento a desmentir uma notícia do Público é verdadeiramente esclarecedor e um momento ao melhor estilo do absurdo monty python (Esclarecimento Notícia+Carreiras+Professores). Mas eu acho que quem o fez nem percebe o ridículo em que cai e o que acaba por admitir de forma clara e explícita. Os valores mudam mas não foram revistos; mudam, mas são os mesmos. São produzidos para servirem de “arma” negocial e mediática, mas não passam disso. Daqui por uns meses o mais certo é serem outros, mas os mesmos, alterados mas não revistos. E, como me farto de escrever, gostam de incluir a desonestidade da TSU na despesa, sem dizer que ela não sai do Estado. E pretendem integrar os custos com as vinculações mais recentes, mas ignoram as aposentações.

O que chamar a isto sem entrar pelo vernáculo?

Mas ainda bem que, para além da desonestidade, a burrice é algo que não lhes falta.

Simulacoes