2ª Feira

O Alberto pede “greves a sério” em vez de “palermices”. Fala na necessidade de “congregação” e evoca o que se passou em 2008 e a chamada “Marcha da Indignação” acerca da qual escrevi, depois da recolha de muitos materiais e depoimentos (para além de participar). Talvez por isso mesmo, por ter estado bem dentro do que se passou, de ter conhecido muitos dos activistas de então, nem sempre de forma pacífica com todos, sei o quão é improvável a sua repetição. Não é por acaso que ao longo dos últimos 14 anos se manteve uma sanha contra a “geração” daquela movimentação, ao ponto de grande parte já não estar nas fileiras da docência, não contando com os que mudaram de trincheira e que não foram, com o passar do tempo, assim tão poucos.

É um lugar-comum dizer-se que a classe docente é muito dividida, pela formação, pelo vínculo contratual, pelo trajecto profissional, pelos níveis de escolaridade leccionados, pela posição na carreira. E é verdade, mas em 2008 havia algo a unir a maioria que era a recusa de algo como a divisão adicional entre os “professores titulares”, criados por Maria de Lurdes Rodrigues a mando sabe-se lá de quem (ou até se sabe… a começar pela inspiração do seu mentor político e académico), e os outros, os “zecos”. Claro que havia quem concordasse com a divisão, a começar por umas doutorices que se achavam quase superiores, mas não era algo que se assumisse muito abertamente em público (ainda me lembro da coisa ser defendida por alguém no Expresso, curiosamente casado com professora de cadeirão reservado em “liceu” do topo de então). Mas a larga maioria estava contra, da esquerda a boa parte da direita, passando pelo PS (bem nos lembramos de fotos de gente que então desfilou, mas rapidamente se pirou da carreira, mal foi possível fazer funcionar as conexões políticas). Isso não se passa agora, até porque os movimentos independentes de professores, muito responsáveis por mobilizações locais e regionais, desapareceram quase por completo e porque há quem tenha achado que a melhor maneira de “subir” ou “recuperar” lugares na hierarquia passa por dizer tudo e mais alguma coisa, dependendo do momento e da “posição”, num curioso desdobramento de personalidade. Ora se é contra, porque se está em baixo e não se sobe, ora se faz cumprir, porque “é a lei” e assim sempre se espalha o mal pelo maior número de aldeias.

O Alberto bem pede, mas sabe que “greves a sério” é uma espécie de quimera, algo muito repetido e muito poucas vezes praticado, mesmo quando as condições eram bem mais propícias do que as actuais Não porque tenham melhorado, mas porque o potencial mobilizador se reduziu, pulverizado por micro-causas destinadas a fragmentar uma vontade comum. Algo que foi habilmente – embora de forma mais longa do que desejava parte significativa do poder politico-mediático – promovido pela tutela e amplificado pelos seus agentes (in)voluntários no terreno, em busca de consolidação de feudos pessoais ou de grupo. O Alberto sabe, por exemplo, que por estes dias nem um almoço se consegue organizar com mais de um punhado de cromos, sendo que nem essa quantidade resta dos que em 2008 se reuniam às dezenas em vários pontos do país.

Claro que perante estes “retratos” muito cinzentões se coloca sempre a questão do que fazer, se tantas razões de queixa existem. Essa é a questão do milhão de dólares para a qual eu gostava de ter uma resposta convicta, mas, ao contrário de outros, tenho muitas dúvidas e sei que me engano frequentemente. A começar pelas pessoas a quem dei, desde então, o benefício da dúvida mais tempo do que o bom senso aconselharia. Algumas das quais, em outros momentos, foram bem radicais nas suas propostas, mas que raramente se mantiveram firmes a concretizá-las.

Há Quem Precise De Um Banho De Realidade

O assunto até mereceria uma abordagem mais detalhada, mas acho que basta explicar que a classe docente de 2022 é já bastante diferente da de 2008, pelo que é uma ilusão pensar que é possível replicar seja o que for. Se sempre houve divisões, agora há completas incompreensões. Há os que se foram embora e foram muitos, há os que se ajustaram ao “paradigma”, seja da gestão, seja da add, e não são assim tão poucos e há os que, mesmo não sendo muito novos, não viveram muitas coisas e nem sequer compreendem quando delas falamos.

Ainda me lembro de alguém, que passou como cometa blogosférico, com quem ia falando até achar que se tinha transformado numa espécie de porta-voz do então secretário Costa; nessa altura, tentei explicar-lhe que parte do que ele me dizia em favor das posições da tutela eram coisas recuperadas de um passado não tão distante, desde logo a gestão flexível do currículo transformada em autonomia e flexibilidade mas, como em outras questões, a resposta era invariavelmente “isso não é do meu tempo”.

Há muita coisa que já não é do tempo de muita gente e há outras pessoas que, sendo desse tempo, já se “reinventaram”. Por isso, as salas de professores estão divididas de um modo diverso do que já tiveram e em termos globais já não é credível conseguir mobilizações significativas que não sejam mesmo episódicas, bastando ver a gritante falta de solidariedade em questões como a já referida add, a questão da mobilidade ou mesmo a forma como alguns “libertários” se tornaram garantes da legislação, mal apanharam um cadeirão ou gabinete disponível. Basta ver como algumas figuras se acomodaram rapidamente ao poder que está, mesmo aqueles que antes apareciam muito reivindicativos (ocorre-me sempre um grupinho de oportunistas, a começar pelo da vinculação dos contratados).

A realidade já não é o que era e não vale a pena estarmos a lamentar uma inevitabilidade. Estranho é que ainda pareça existir quem não consiga ver o que existe á sua volta. Após sucessivas derrotas e quase nenhuma “vitória”, quanto muito uns quantos empates ou prolongamentos, há quem perceber que tudo deve ser repensado e reavaliado em termos de “lutas” laborais no âmbito da docência. Fazer mais do mesmo é continuar num caminho que nos últimos 15 anos trouxe muito pouco ou mesmo quase nada, excepto umas desregulações e truques concursais que deram jeito a alguns. O resto é a crónica do “sucesso” de uma estratégia que conseguiu ir cansando e dividindo ainda mais a classe docente, na qual houve actores principais, mas também adjuvantes, nem que seja por omissão.

Até surgir algo de novo e eficaz vai ser preciso mais do que a vontade de alguns e não sei se acontecerá no meu tempo útil de profissão, porque a aliança, explícita ou implícita, contra os professores que estavam na carreira e se ergueram em 2008 continua muito forte e foi acarinhando aliados no seu interior entre os que estão sempre disponíveis para colaborar com a política de amesquinhamento dos que não consideram seus “pares” e tudo fazem para se erguer à custa de terceiros.

Deve então desistir-se de qualquer resistência? Não, mas é necessário voltar às bases e tentar que, pelo menos a nível local, a terraplanagem da autonomia profissional não seja completa. Porque não há mais deprimente do que observar como a Corte Costista na Educação se vai replicando à micro-escala das “unidades de gestão”. E é indispensável não criar ilusões e olhar a realidade como ela é e não como já foi ou se gostaria que fosse.

Querem Ver Que Eu, Marxista Incorrigível, Tenho Dúvidas Sobre Isto?

“Não estou a dizer que vai ter de ser feita mas a situação não pode continuar”: Fenprof admite greve dos professores no 1.º período de aulas

Qual situação, especificamente? Porque me ocorrem várias e uma delas é a vossa ineficácia. Entretanto, lamento terem de “trabalhar” em agosto:

No início de agosto, uma delegação da Fenprof vai reunir-se com representantes do Ministério da Educação para uma reunião que Mário Nogueira espera ser para “dar resposta ao problema da precariedade” e “da carreira que está destroçada”.

Vai ser curioso ver como reagirá alguma “direita” a esta eventualidade (excepto a IL que vai estar contra porque sim, porque é a favor de todas as liberdades, menos a de fazer greve e muito em particular greves de professorzecos). Há por aí uma ou duas luminárias em tom alaranjado mais ou menos envergonhado que defendem uma greve daquelas a “doer”, quiçá com varapaus, fazendo corar de vergonha com o seu ímpeto muito “esquerdista” certificado.

Ia Escrever Um Post Sobre “Unidade”…

depois de ler o António Duarte, no final do seu texto, a apresentá-la (mais a “luta”) como a solução milagrosa para a solução dos problemas dos docentes, mas depois decidi que ainda acabaria por aborrecê-lo, quando não é isso que pretendo. Afinal, ele não tem culpa de ser mais idealista do que eu. Ou de ter um modelo diferente do meu de detector de oportunismos. Se há algo que umas décadas disto nos ensinaram, foi a distinguir as diversas estirpes de “populismo”.

Tema-tabu, António, é quando nos dizem que não podemos discutir o que fazem os “senhores da luta” se não pagarmos para a agremiação. Ora… eu nunca paguei sequer quotas ao Sporting.

(pior mesmo, é apontar o dedo de forma clara à contradição entre o palreio público de uns e a sua prática nos corredores ou quando apanham um cadeirão à mão).

Memórias

À boleia de uma troca de mensagens com o Prudêncio sobre coisas de há mais de uma dúzia de anos.

Contra a avaliação dos docentes enquanto mistificação

Os subscritores desta declaração recusam participar numa mistificação e não vão entregar a sua ficha de auto-avaliação.

(…) Ana Mendes da Silva, Armanda Sousa, Fátima Freitas, Helena Bastos, Maria José Simas, Mário Machaqueiro, Maurício de Brito, Paulo Guinote, Paulo Prudêncio, Pedro Castro, Ricardo Silva, Rosa Medina de Sousa e Teodoro Manuel (professores)

Público, 13 de Junho de 2009

5ª Feira

Aguardo, com alguma paciência e muito desinteresse, pelos apelos intensos à “luta” por parte daqueles que a adormeceram meia dúzia de anos em troca de uns lugares para os camaradas em alguns nichos do Estado e mais uns méreis de mel mal coado. Chamem-me depois desertor da luta, se eu apresentar dúvidas ou críticas, que eu vou rir-me muito.

Pode Parecer Estranho…

… mas o “poder negocial” dos professores está praticamente resumido ao nosso “envelhecimento”. Ou seja, se não formos nós, quem há? Ou ainda de forma mais explícita, quem há que faça o que fazemos, mesmo se cada vez se exige menos em termos académicos e científicos aos professores e mais em termos administrativos e burrocráticos?

5ª Feira

A penúltima crónica do ano para o Educare

Com várias turmas em isolamento, a escola assumiu nestas duas últimas semanas aquele carácter de atl informal de que tanto se fala, meio em brincadeira, meio a sério, sobre alguns dos seus aspectos no resto do ano. Valha-nos, portanto, o “convívio” que ainda é o melhor que levamos de um ano em que se demonstrou que a aprendizagem dos decisores é lenta e raramente avança se existirem preconceitos e interesses bem instalados nas mentes e/ou gabinetes.

Isso Inclui Votar Contra Todas As Iniciativas Que Escapem Ao Controlo Certo?

Porque eu ainda me lembro de terem votado contra iniciativas legislativas, argumentando que não eram oportunas e que não sei o quê (o camarada Mário não tinha assinado e o Comité Central não tinha aprovado).

Acabaram-se os vouchers da Telepizza?

PCP defende medidas “efetivas” para “valorizar” carreira docente

Uma Petição A Subscrever

Não apenas pelos directamente interessados, mas por todos os que se preocupam com um mínimo de Justiça em todo este tenebroso processo de ADD, mesmo que tenham estado distraídos desde 2012 com o congelamento, que estejam já livres do ordálio ou que não percebam que, mesmo podendo estar agora “fora”, quando estiverem “dentro” passarão por este disparate.

Pessoalmente, já me livrei deste processo, mas continuo a achar que é vergonhoso um sistema que produz iniquidade sobre iniquidade e que fica tantas vezes nas mãos de gente que nem aulas dá ou que aproveita a ocasião para vinganças pessoais. Ou que, resultado de torcicolos formais indecorosos e sem qualquer pingo de legalidade, coloca gente sem qualquer competência especial a decidir do futuro alheio, como secções de add com membros com posições na carreira abaixo daqueles que avaliam ou acerca de quem decidem “desempates”. E não me digam que não é assim, porque os casos concretos tenho-os vindo a conhecer (de novo) nas últimas semanas numa sucessão de horrores formais ou informais. De recomendações telefónicas a avaliadores para sunbstituirem, descendo, as classificações dos avaliados depois de já preenchidas a completos acordos de bastidores sobre quem deve ser lixado com um grande PH na avaliação interna, passando por disparidades enormes entre as práticas e critérios de agrupamentos diferentes.

Mas chega… assinem a justíssima petição criada pelo Arlindo em cuja ideia outros se penduraram por artes do espírito santo de orelha e deixem-se de tretas, como as das araras que polvilham certos grupos de “professores” onde há de tudo um pouco, sem desprimor para outras profissões. Ou professores que mais valia serem capachos à entrada do ministério ou de um outro qualquer gabinete, não esquecendo certos “lutadores” da boca para fora, que só por lá andam para “bufar” o que lêem e a quem. E quem não gostar do que escrevi, que “desenfie” o barrete.

Pelo fim das vagas no acesso ao 5.º e 7.º escalão da Carreira Docente