Sociologia Superficial Dos Parceiros Da Ex-Geringonça

Há quem não tenha percebido que nos últimos anos foi feita uma clara opção por parte de algumas forças políticas (e suas ramificações sindicais) no sentido de apostar no apoio do que agora designamos como “precariado”. Por ser numeroso, por ser mais ou menos jovem. E por estar em situação de fornecer alguns milhares adicionais de efectivos quotizados do que os “velhos” trabalhadores dos “quadros” que, para além de serem vistos como “privilegiados”, ainda têm o condão de ser chatos e menos maleáveis a certas demagogias.

Não estou a colocar em causa a legitimidade de tal opção, ou sequer a sua maior ou menor bondade. Apenas a assinalar uma evidência e a tentar que algumas pessoas entendam que a boa vontade de alguns grupos político-sindicais se deslocou na última década e aderiu a uma lógica dominante diferente daquela que se poderá considerar “tradicional”: a defesa dos trabalhadores de uma dada profissão, que agora se apresenta como sendo algo “corporativo” e não dos aspirantes a essa profissão. Até há quem considere que é assim que deve ser, porque é mais justo e, numa perspectiva de “esquerda”, se está a privilegiar a defesa dos “mais vulneráveis”. E eu até tenderia a concordar – não tendo qualquer cartão ou não pagando quotas, não vou esperar que seja os meus interesses que alguém venha defender – se tudo isto depois não se traduzisse num nivelamento pelo salário mais baixo e na aposta nos que ficarão gratos com o mínimo dos mínimos, perdendo uma perspectiva de médio-longo prazo.

E repito… não estou a fazer um juízo de valor sobre a estratégia (uma discordância não é bem isso), apenas a querer que o pessoal menos novo perceba aquilo com que tem de lidar e com os apoios que, em regra, só terá da boca para fora. Porque se há algo que tenho de reconhecer ao actual PM é que meteu mesmo os marxistas na gaveta, desculpem, no bolso.

homens-da-luta

Importa-se De Repetir?

Eu quase alcanço o objectivo, mas é mesmo quase. E há quases que são quase infinitos.

A Federação Nacional de Professores (Fenprof) vai avançar para uma greve nos dias 24 e 26 de fevereiro, durante a interrupção letiva do carnaval, avançou, esta quarta-feira, o secretário-geral, Mário Nogueira.

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A greve incide sobre todas as atividades que sejam marcadas pelas escolas durante estes dias, mas não vai interferir com as aulas, uma vez que coincide com o período de interrupção letiva do Carnaval, inserindo-se no conjunto de greves às horas extraordinárias que se prolongam há mais de um ano.

O Costa PM, o Centeno e a Leitão ainda devem estar a limpar as lágrimas de tanto se rirem.

muppets-rir

 

Conversa À Porta De Uma Escola, Algures, No País Da Descentralização

Funcionária não docente nº 1: Ouve lá, mas aquilo é mesmo greve? Porque diz que é manifestação.

Funcionária não docente nº 2: É manifestação. Greve é dos professores.

Funcionária não docente nº 1: Então não podemos faltar.

Funcionária não docente nº 2: Agora somos da câmara. Temos de esperar para saber.

Funcionária não docente nº 1: É que depois temos falta injustificada.

Funcionária não docente nº 2: Pois… é melhor esperar para ver o que a câmara diz. A câmara tem de dizer o que vamos fazer.

E é assim… eu ia de passagem, não fiquei para o desfecho. Mas dá para perceber que, no fundo, é o novo patronato que decide porque isto da democracia de proximidade tem destas coisas.

E que fique claro que se o “patrão” dos professores fossem @s director@s a conversa seria a mesma. Só faltaria o “não” antes de “docente”.

homens-da-luta

Greve A 31 De Janeiro?

Mas o PCP e o Bloco não viabilizaram o Orçamento sem especiais (nenhumas) condições e referências relativas ao pessoal docente?

É a luta? Pura e dura? Que nos vai levar a novas e gloriosas “conquistas” como as dos últimos 4 anos?

Bora lá lavar a consciência!

Agora sim, damos a volta a isto
Agora sim, há pernas para andar
Agora sim, eu sinto o optimismo
Vamos em frente, ninguém nos vai parar

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2ª Feira

Hoje, ao fim da manhã, em alterosas declarações à TSF, reencontrei uma velha conhecida: a sindicalista Ana Avoila, desaparecida misteriosamente durante quatro anos, ao longo dos quais fez fantasmáticas e ocasionais aparições que provaram estar viva, mas com a alma amarrada. Hoje, com muita força pá luta, já parecia capaz de levantar montanhas e pousá-las no mesmo sítio onde estavam.

fantasma

Já Algum Governante Ameaçou Demitir-se? Ou Mandou Vir Pizzas?

Greve de professores em Chicago põe em causa o sistema político

(…)

A greve denuncia a atuação dos dois partidos políticos nos Estados Unidos e mostra como nos últimos anos tornaram a educação num negócio e como o tratamento negligente do setor escolar em Chicago obedeceu a um projeto para “refazer” o sistema educativo, para criar cidadãos dóceis que aceitem as condições de trabalho das grandes corporações financeiras.

Os professores pedem mais e melhores condições, especialmente para alunos com grandes dificuldades sociais, tal como acontece com as comunidades afro-americana e hispânica. Querem menos alunos por turma, que o número de testes seja reduzido, que os professores mais experientes tenham um salário maior. Pedem também trabalhadores da Segurança Social nas escolas e mais profissionais que ajudem os alunos com necessidades especiais, um enfermeiro e um bibliotecário por cada escola.

A ler:

As the Strike Approached in Chicago, Teachers Taught Labor

“I asked the kids, ‘Do you want to know what we’re fighting about?’” said one teacher. They did.

Teacher strikes are changing. The Chicago walkout proves it.

They’re about much more than pay raises.

LIVE UPDATES: Protesters seek to take over Lake Shore Drive, but police push back

sindicatooo

Treinaram Com Os Professores E Enfermeiros…

… e na altura não me lembro do Manuel Carvalho ter-se preocupado. Será que agora é porque a greve é no sector privado?

Nunca como hoje o Governo, os partidos da esquerda, os partidos da direita, a imprensa e até o Presidente de República se colocaram de forma tão clara e deliberada do mesmo lado da barricada. Nunca um sindicato, uma luta laboral e uma classe profissional foram tão ostensivamente isolados e censurados como nesta greve.

brainstorm

A Lei Da Greve Até Pode Continuar A Existir Formalmente…

… mas na prática morreu. Como naqueles regimes em que existem formalmente eleições, mas em que os resultados calham sempre à casa, neste momento só existirão greves, no sector público ou privado, quando não perturbar quem manda nos cordelinhos dos serviços máximos e da requisição civil (ou dos militares). E tudo no turno das “esquerdas”. Fosse isto no Brasil do Bolsonaro (ou na França ou Itália) e já haveria aí alminhas a gritar contra o regresso do fascismo. Por cá, até há sindicalistas a aplaudir, de forma mais ou menos encoberta. Ou artigos disparatados (tipo bssantos há dias) contra uma anémica extrema-direita que dificilmente faria pior do que isto.

À meia noite eram três governantes (incluindo aquele do ambiente que nem se percebe se foi o que estava mais à mão), em directo ou diferido nas televisões a lavar-nos mais branco o fim de um dos princípios da liberdade.

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