Boatos & Coscuvilhice No Século XXI

First Evidence That Social Bots Play a Major Role in Spreading Fake News

Automated accounts are being programmed to spread fake news, according to the first systematic study of the way online misinformation spreads.

Russian hackers are eight times faster than North Korean groups

Russian hackers are way ahead of the next-fastest state-sponsored hackers, North Korea, who themselves are nearly twice as fast as Chinese groups, according to a new report by US cybersecurity firm Crowdstrike.

 

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Quanto Ao Anonimato…

… acho que há quem tenha direito a ele, para que não lhe aconteçam coisas estranhas. Em contrapartida, há quem ande a levantar suspeitas, de forma anónima, sobre o anonimato alheio, sabendo que do paradoxo, mas não se ralando, exactamente porque beneficia do seu. E nem falemos de perfis falsos que surgem de forma múltipla só para espreitar e ampliar mensagens de suspeição.

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O Direito À Informação E Ao Conhecimento – 3

Já só falta mais um…

3.

“Read my lips, no new taxes.” (George H.W. Bush, 18 de Agosto de 1988)[1]

“I did not have sexual relations with that woman.” (Bill Clinton, 26 de Janeiro de 1998)[2]

 A demonização das “redes sociais” como sendo responsáveis pela ampliação de fenómenos de informação falsa tem-se vulgarizado recentemente na comunicação “tradicional”. Como se fosse algo novo, inédito, nunca visto. Misturando situações muito diferentes, a associação das fake news ao sucesso das redes sociais (por sua vez associadas ou não a um outro fenómeno, anterior, a blogosfera) ignora os antecedentes, retira o fenómeno do seu contexto e acaba por não esclarecer devidamente algo que teve origem antes do aparecimento dessas redes e que, ainda hoje, tem origem tantas vezes em fontes “oficiais”. O Twitter não é responsável pelos “factos alternativos” que Donald Trump escreve sobre política internacional ou sobre as causas de catástrofes naturais (sendo a mais recente, à data que escrevo, a de fogos florestais em zonas semi-urbanas da Califórnia que ele explica com a má gestão da “floresta”), pois ele di-los do mesmo modo em comícios convencionais ou em declarações a estações televisivas, assim como a sua equipa comunicacional as corrobora em conferências de imprensa. Não é o Facebook que tem culpa pelas demagógicas tiradas anti-europeias de Boris Johnson ou Nigel Farage. As fontes da “pós-verdade” são, em grande parte dos casos, próximas do poder político ou económico e o fenómeno não é novo, sem ser sequer necessário associá-lo à propaganda política dos tempos da Guerra Fria.

A ascensão da “mentira política” (Oborne, 2005, para o caso britânico) tem raízes anteriores e aposta, curiosamente, na aparente credibilidade de quem a enuncia e na “informação” apresentada em ”narrativas” elaboradas com coerência interna. E está associada à ascensão e enquistamento da classe política (Oborne, 2008) em relação às massas, não no fenómeno inverso, de ascensão do poder das massas na definição do que é “verdade”. A “mentira política” aposta na consolidação de crenças pré-existentes e no reforço da mobilização dos que já estão predispostos a acreditar no que consideram ser “verdade”, prescindindo de a analisar de forma crítica. Em especial quando se citam “estudos” e “relatórios oficiais” de forma vaga ou se apresentam quadros estatísticos, os “factos alternativos” passam por ser uma representação fiel da realidade. E não são.

Mais grave, desenvolveu-se uma inversão no discurso em relação ao que é mentira e verdade, com os promotores dessa realidade alternativa a defenderem-na como uma “interpretação” válida dos factos e a não ter pruridos em acusar os seus adversários de mentirem, enquanto do lado contrário, por pressão do politicamente correcto sobre as regras do debate público (Hume, 2016), se tornaram usuais formas demasiado vagas de denúncia do que está claramente errado.

“Nós temos sido todos demasiado cuidadosos no modo como nos referimos às falsidades. Talvez num esforço por evitar confrontos pessoais, um esforço por “ir andando”, começámos a usar eufemismos para referir coisas que são puras e simples maluquices. (…) O Daily Mail de Nova Iorque designou a mentira como uma “teoria nas margens” [fringe theory]. Uma teoria, por acaso, não é apenas uma ideia – é uma ideia baseada numa cuidadosa avaliação das evidências. E não apenas qualquer evidência – uma evidência que é relevante para o assunto em causa, recolhida de um modo rigoroso e não enviesado.

Outros eufemismos para mentiras são contra-conhecimento, meias-verdades, visões extremas, verdades alternativas, teorias da conspiração e, a mais recente designação, “notícias falsas” [fake news].” (Levitin, 2017, 1-2)

4.

Mas as redes sociais, agora responsabilizadas por tantos males, já foram elogiadas pelo contributo para movimentos democratizantes no mundo árabe, para a difusão do fenómeno Occupy Wall Street em algumas cidades americanas ou para a propagação de outras redes de protesto, indignação e esperança (Castells, 2013). Um estratega político, pioneiro numa campanha em que a internet surgiu pela primeira vez como factor de inesperada mobilização (Howard Dean, nas eleições primárias do Partido Democrata em 2004), ousou mesmo afirmar que ela iria ser uma ferramenta indispensável para a reanimação da democracia participativa e que essa revolução não seria televisionada (Trippi, 2004), marcando uma nova fase na comunicação política.

Os avanços nas tecnologias associadas à disseminação da informação fizeram acreditar na possibilidade de uma “sociedade horizontal” (Friedman, 1999), de um mundo plano (Friedman, 2007), mas a realidade evoluiu num sentido em que as “bandeiras” pelas quais vale a pena morrer e os “muros” para promover a separação recuperaram sentido (Marshall, 2016, 2018) e o mesmo acabou por acontecer ao nacionalismo, distorção ou mesmo traição do patriotismo, como sublinhou recentemente o presidente francês.

“Porque o patriotismo é o exacto contrário do nacionalismo: o nacionalismo é a traição. Ao dizermos «os nossos interesses em primeiro lugar e não importam os outros!»” (Emmanuel Macron, Discurso na Cerimónia do Centenário do Armistício, 11 de Novembro de 2018)[3]

A insegurança e o medo, em toda a sua irracionalidade, regressaram e perante massas de cidadãos escassamente educados acerca da História e da Ciência, mesmo se certificados para efeitos estatísticos e com acesso a gadgets crescentemente sofisticados, conquistaram cada vez maior adesão e tornaram apelativas mensagens que, mesmo recorrendo a factos distorcidos e passíveis de ser desmontados, nos fazem recuar aos tempos mais dramáticos da propaganda totalitária que, pela repetição das mentiras, procurava o condicionamento das mentes e comportamentos (Ellul, 1973, 310-311), como agora acontece com a massificação de mensagens simplistas para consumo imediato.

Repetição e massificação que se tornam mais fáceis na era da “multidão electrónica” (Siegel, 2008), em que qualquer partilha tem o mesmo valor para quem não tem capacidade crítica para perceber que os algoritmos estão pensados para fornecer exactamente aquilo que, de certa forma, se pretende encontrar e não o seu contraditório. A Sociedade da Informação, com todo o seu potencial para ajudar a formar cidadãos mais conscientes de tudo o que os rodeia, acaba por encerrá-los em casulos, sendo que esses são casulos que permitem, por irem ao encontro das crenças e preconceitos dos indivíduos, transmitir uma falsa sensação de segurança, pertença e identidade que contraria os efeitos da ansiedade e do medo promovidos por quem receia ameaças desconhecidas, raramente reais e quantas vezes manipuladas.

A esse respeito o filme Wag the Dog (1997) tem passagens elucidativas sobre a forma como se pode encenar a realidade, criando uma “verdade”, através da manipulação da “informação”. O diálogo seguinte é entre Robert de Niro (Brean) e Anne Heche (Ames), consultores de um presidente em busca de reeleição, perante a iminência da publicitação de um escândalo de tipo sexual:

AMES: Mas nós não podemos pagar uma guerra.
BREAN: Nós não vamos ter uma guerra. Vamos ter a “aparência de uma guerra.
AMES: Não tenho a certeza se podemos pagar a “aparência” de uma guerra.
BREAN: Mas o que vai custar?
AMES: Mas, mas, mas, “eles” irão descobrir.
BREAN: Quem irá descobrir?
AMES: … o … (Gesticula para a janela)
BREAN: O “povo” americano?
AMES: Sim.
BREAN: Quem lhes vai dizer?
AMES: … mas …
BREAN: O que é que eles descobriram acerca da Guerra do Golfo? Uma imagem: uma bomba, a cair através de um telhado, o prédio podia ter sido feito de Legos.
[4]

Mais de vinte anos depois, continuam a produzir-se representações manipuladas da realidade, em forma de “informação”, para transmitir uma “Verdade” que desperte os medos, inseguranças e ansiedades certas em populações que se mostram disponíveis para reerguer muros em nações que levaram gerações aprisionadas por um Muro ou para enviar tropas para disparar sobre migrantes num país que nasceu exactamente de sucessivos fenómenos migratórios.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=0MW44jsYi0g (consultado em 18 de Novembro de 2018).

[2] https://www.youtube.com/watch?v=VBe_guezGGc (consultado em 18 de Novembro de 2018).

[3] Cf. http://www.elysee.fr/declarations/article/transcription-du-discours-du-president-de-la-republique-lors-de-la-commemoration-du-centenaire-de-l-armistice/ (consultado em 17 de Novembro de 2018).

[4] https://sfy.ru/?script=wag_the_dog (consultado em 18 de Novembro de 2018).

PGAPP

Anuário da Educação 2017

Um manancial de informações sobre o emaranhado de serviços do ME que fazem lembrar o que há uns bons anos se dizia da Ferrari, que havia 10 chefes por cada operário. Não serve apenas para conhecermos a nova DGAE (provisória-definitiva?), mas também que o Conselho Geral do IAVE é presidido (pasme-se!) pelo nosso conhecido Rodrigo Queirozeze e Melo, representante da AEEPC (pg 102 do Anuário, com as competências na pg 101). Ainda não há o de 2018, com as novas entradas/saídas.

NovaDGAE

 

A “Guerra” dos Manuais

Continua em pleno Estio em diversas frentes. Sim, os grandes grupos editoriais estão à frente do Estado na produção de recursos digitais porque existiu uma espécie de tordesilhas nos negócios tecnológicos desse mesmo Estado, que preferiu a concentração do investimento massivo em hardware facilmente desactualizado do que na produção de materiais acessíveis para uso dos alunos. O que existe para apoio às aprendizagens são quase sempre coisas teóricas e metodológicas e, em diversos casos, com produção de tipo artesanal. Basta ver o que existe em matéria de recursos no portal das Escolas e o número ínfimo de visualizações que aquilo tem; o recurso mais visto tem para aí as mesmas visualizações que este blogue no seu pior mês (Dezembro de 2016).

Porquê, se quase toda a gente está sempre a falar do século XXI e da necessidade dos alunos se adaptarem a uma permanente mutação tecnológica e a dominarem a literacia digital?

Em tenho um par de explicações, baseadas em coisas que me são contadas, mas depois dizem que sou conspirativo. Digamos que, por um lado, ao contrário de outras áreas que vão tendo a devida recompensa por serviços prestados, na área das TIC os grandes negócios têm os seus lobbys instalados a outros níveis. Por outro, há quem tenha tido o cuidado de “neutralizar” em devido tempo alguns “activos” que poderiam interferir nos interesses em jogo. Em nome da (não) concorrência.

Quanto aos manuais propriamente ditos, a incapacidade (apesar de ocasionais acessos de bravata dest@ ou aquel@ governante) do poder político (público) regular o mercado (privado) e os preços é evidente e quando alguma tentativa é feita, é meio de cernelha e quase sempre a usar os professores como bodes expiatórios. Porque não é razoável que um “bloco pedagógico” para o 2º ou 3º ciclo do Ensino Básico ronde quase os 40 euros por disciplina.

Se a desmaterialização é para baixar para 5-6 euros o preço dos manuais digitais, tudo bem. Mas se isso implicar a compra de um equipamento de mais de uma ou duas centenas de euros que fica desactualizado num par de anos, mais vale esquecermos essa conversa. Porque aposto que as campanhas desses grandes grupos editoriais – em parceria com operadores de net e marcas de equipamentos – seriam mais esmagadoras do que qualquer e-escolinha.

Money