Aos “Velhos” Não Limparam Apenas 6,5 Anos De Serviço

Estava hoje a fazer contas e lembrei-me de há uns tempos estar para escrever sobre o tempo efectivo que a governação do PS apagou à vida profissional dos professores. Há quem ache que é apenas a diferença entre os 9 anos, 4 meses e 2 dias congelados e os 2 anos, 9 meses e 18 dias “recuperados”.

Mas não.

Há mais 6 anos a contar para todos aqueles que estavam na carreira antes da revisão do ECD da senhora “reitora” do isczé. Porque à carreira anterior foram acrescentados 2 patamares intermédios que antes inexistiam, os actuais 5º e 7º escalões (índices 235 e 272), com 2 e 4 anos de duração que vieram acrescer à estrutura da carreira.

E o que dizer dos anos perdidos nas listas de saída dos 4º e 6º escalões para tantos milhares de colegas?

A carreira na qual entrei não era esta, com ou sem congelamentos. O “horizonte” não estava onde está. Nem o caminho na sua direcção.

No mínimo, foram 12,5 anos que a governação do PS ajudou a engolir à carreira docente, pois não me venham dizer que não é possível reescrever o período da troika porque isso é de uma desonestidade que vai para além da esfera intelectual ou política. é argumentação de gente que pratica aquilo dos “factos alternativos”. Então é possível reescrever 2 anos, 9 meses e 18 dias, mas não é possível reescrever o resto? O que acontece quando alguém é obrigado a pagar por actos criminosos que cometeu? Se foram ofensas físicas ou mesmo uma morte, a indemnização é “reescrita da História”? Alguém ressuscita? Não se trata apenas da forma de fazer alguma Justiça perante os que foram lesados pelas malfeitorias?

Chegou mesmo a haver gente, incluindo criaturas que eu ainda acreditava serem detentoras de alguma decência (claro que a réplica foi com aquelas piadolas de alto nível sobre “umbigos”, como aqui se pode confirmar no resumo então feito pelo A. Duarte), que chegaram a escrever que se queriam “retroactivos” em relação ao tempo congelado, o que tornaria incomportável a recuperação integral do tempo congelado, algo que nunca, alguém, pediu.

Tudo isto tem sido de uma desonestidade extrema. Porque uma carreira que, quando nela entrei, tinha a estrutura que aqui se pode encontrar, agora tem mais 6 anos a partir do 4º escalão, mesmo sem quotas. Anos esses que acrescem aos não recuperados, o que significa que eu me encontro aos 57 anos no escalão e índice em que deveria ter estado aos 45.

Mas parece que ninguém pensa sequer nisto… que para quem está nisto há mais tempo, foram mais de 12 anos (e não 6,5) os que foram acrescidos aos seu trajecto profissional. Parecendo que não, é muito tempo na vida de qualquer pessoa. E acham que, livrando-se uma pessoa de tudo isto, vai querer voltar em regime de quase voluntariado? Vê-se mesmo que andam completamente desnorteados e sem qualquer noção da realidade.

Claro que tudo isto se nota menos se estivermos em alguns cadeirões, longe do bulício das aulas e tendo suplementos que compensam um pouco o apagão. E não é que é essa malta que ainda quer agora escolher quem contratar ou vincular? Tudo, claro, sempre em nome do “interesse dos alunos”, expressão suprema da hipocrisia. Ide vocelências dar aulas, que certamente haverá menos alunos sem elas para o ano.

(não revi o texto… a coisa foi-me saindo… depois logo vejo se é preciso das chumbadelas nas eventuais gralhas)

Mas O Que Interessa, Por Cá, É Que Já Nomearam Mais Uma Comissão Ou Grupo De Trabalho Para Estudar Qualquer Coisa Quase Tão Urgente Como Levantar O Moral A Quem (Ainda) Está

A Profession in Crisis: Findings From a National Teacher Survey

(…) The survey results suggest a deep disillusionment of many teachers who feel overworked, underpaid, and under-appreciated, with potential implications for a once-in-a-generation shift in the teaching profession. For example, just 12 percent of teachers, the survey found, are very satisfied with their jobs, with more than four in ten teachers saying they were very or fairly likely to leave the profession in the next two years.

Uma Questão De Validade?

Texto enviado por J.P. Domingues.

As boas professoras estão a chegar ao fim da validade.

Educar significa capacitar, preparar para a sociedade que projetamos.

Essa preparação cabe à família, à Escola, à Sociedade. Educar dá muito trabalho, é esgotante, é cansativo, exige muito tempo, perseverança, dedicação e muitos afetos.

Hoje, vivemos numa sociedade com muitos tipos de família, um grande número de alunos vive só com a mãe ou o pai, e muitos pais abdicaram do papel de educadores, transferindo para a Escola a responsabilidade de capacitar os seus filhos para a vida de adultos.

«A palavra “escola” tem a sua origem na Grécia antiga, com SKHOLE, que foi evoluindo até ao Latim SCHOLA. Os termos de ambas as línguas têm o mesmo significado, “discussão ou conferência”, mas também significavam “folga, ócio”. Este último significado, no caso, seria um tempo ocioso onde era possível ter uma conversa interessante e educativa.»

Hoje a Escola é tudo, menos ócio ou folga. Hoje, na Escola, aprende-se a gatinhar, a andar, brincar, falar, vestir, ler, escrever, contar, raciocinar, comer e saber comer, tomar banho, tomar medicamentos, passar o tempo, namorar, passear… É da responsabilidade da Escola saber se os jovens andam asseados, bem alimentados, tem bom ambiente familiar, o tempo que demoram de casa à Escola, se estão bem integrados, se chegam atrasados, se trabalham e estudam, se dormem, se tem livros e cadernos, passe para os transportes… É caso para dizer, hoje a Escola preocupa-se com os alunos e os pais!

Hoje, o termo mais correto para designar aqueles que têm a árdua tarefa de ensinar não deveria ser professor, mas multifunções, ou três em um…

As atas das reuniões dos anos noventa tinham duas linhas, onde se lia. «O comportamento da turma foi considerado bom e aproveitamento satisfatório». Hoje as atas têm dezenas de páginas.

Raros são os dias em que não saiam nos jornais e televisões notícias de alunos sem professores, a falta professores em muitas zonas do país, o cada vez menor número de candidatos a professores, e que daqui a meia dúzia de anos não há professores para substituir os professores que agora se reformam.

Muito se tem falado, mas pouco se tem dito sobre as verdadeiras causas da redução do número de candidatos ao ensino superior.

Portugal teve e tem o melhor quadro de professoras da sua História que agora estão a “chegar ao fim de validade”. Estas excelentes professoras são fruto da escolarização em massa que teve início nos anos 70, em que centenas de milhares de meninas passaram a frequentar a escola. Nos finais do século XX, médico, juiz, advogado, engenheiro, gestor, ainda era visto como profissão para homens. A educação familiar ainda formatava muito as meninas para que o seu projeto de vida passasse por um casamento para a vida, serem mães, e terem uma profissão que lhes permitisse acompanhar a educação dos seus filhos, e nada melhor do que serem Professoras. Foi assim que milhares de meninas aplicadas, empenhadas, trabalhadoras, bem preparadas no ensino básico e secundário, escolhessem como primeira opção e abraçassem de corpo e alma a carreira de docente. Foram estas Professoras que fizeram com que Portugal deixasse de ser um país de analfabetos e passasse a exportar emigrantes licenciados. Se hoje temos uma agricultura moderna, uma indústria de topo, uma tecnologia de ponta, uma saúde igual à que se faz noutros países da Europa, se empresas passaram a ser geridas por licenciados bem preparados, em vez de gestores com a quarta classe, foi graças ao trabalho que estas Professoras realizaram nas Escolas nos últimos 30 anos. Portugal tem uma dívida enorme com estas Professoras; o agradecimento foi o de lhes retirar sete anos na progressão na carreira! Apenas se lhes pode apontar uma falha, o não terem criado políticos com visão de futuro. Hoje, a sociedade olha para a classe política com desconfiança, em vez de servirem o país servem-se do país!

Para tapar os buracos, criados por políticos incompetentes, nos sucessivos negócios ruinosos da TAP, das PPP, da Banca, das estradas sem carros, das barragens… os políticos desde há muito que viram na educação a galinha dos ovos de ouro. Sendo a classe docente a que tinha mais profissionais (cerca de 140.000, em 2005), por menos que se retirasse a cada docente, no conjunto seria muito! Nós últimos anos, a redução do orçamento da educação foi enorme, mais vai ter custos no futuro!

O primeiro ataque à carreira docente foi executado pela Sra. Ministra Maria de Lurdes Rodrigues, esta senhora pensa que fez um grande trabalho no Ministério da Educação. O seu governo resume-se em duas ideias fundamentais, a primeira foi o deitar abaixo centenas de Escolas em boas condições, mandadas construir no antigo regime, esbanjando milhões na sua reconstrução, enchendo os bolsos a dezenas de construtores pouco escrupulosos, em vez de reparar Escolas cobertas de amianto, com infiltrações e construídas depois do 25 de abril.

A segunda ideia foi a de transformar a carreia docente de tal forma que os cursos vocacionados para o ensino deixassem de ser opção de escolha na hora de ingressar num curso superior. Para se ter uma noção da drástica redução remuneratória dos doentes, nos anos noventa, um professor, no início de carreira recebia, já com os descontos feitos, o equivalente a três ordenados mínimos. O ordenado mínimo era 40 contos e o professor recebia 120 contos. Hoje, um docente que progrediu na carreira com 32 anos de serviço, recebe, depois dos descontos feitos, dois ordenados mínimos, 1.400 euros. Hoje, um professor no início de carreira ganha líquidos menos de 1,5 ordenados mínimos, 1.030 euros. Não compensa tirar uma licenciatura na área da edução para ser professor, quando dentro de pouco tempo um caixa de supermercado ganhará tanto como um professor, sem ter que percorrer quilómetros, sem ter de partilhar uma segunda bomcasa, sem ficar longe da família. Para além desta drástica redução dos vencimentos dos professores foram criadas regras de progressão na careira docente em que só um número reduzido de professores chega ao topo de carreira ficando a maioria pelos escalões intermédios, não porque não merecessem ascender aos escalões mais altos, mas porque a cotas não o permitem. Se não houvesse carreira docente e todos os professores ganhassem o mesmo, e a regra fosse a de três ordenados mínimos líquidos, como acontecia nos anos 90 no início da carreia, não haveria falta de professores.

Havendo centenas de milhares de professores em Portugal, a maioria na casa dos 40 anos, com a vida estabilizada, muitos com os filhos criados, os políticos sabiam que podiam fazer todas as maldades aos docentes que estes nunca deixariam as escolas, ao contrário de outras profissões, como na saúde em que os profissionais fogem para o privado, ou para o estrangeiro. Acresce que nos últimos anos, o número de alunos teve uma redução significativa e a idade da reforma aumentou cerca de 10 anos, tudo se conjugou para que nos últimos 20 anos não houvesse falta de professores. Agora que este excelente grupo de Professoras está a chegar à idade da reforma é que se vai notar a escassez de docentes! Hoje, os políticos já são outros, mas o pensamento é o mesmo!

Para poupar na educação, os políticos fecharam milhares de Escolas espalhadas pelas aldeias do mundo rural. As pessoas do mundo rural, sem condições para educar os filhos, puseram-se em fuga para os grandes centros, deixando os campos agrícolas ao abandono e à mercê dos fogos; desde que fecharam as Escolas os fogos duplicaram. Quiseram poupar na educação uns trocos, para agora a Proteção Civil gastar milhões no combate aos incêndios. Depois das pessoas terem sido corridas para as cidades para trabalharem como caixas nos hipermercados, começaram a dar incentivos para que se fixassem no interior. Estes políticos são gente louca!

Depois de tantas maldades feitas aos professores, depois de se dizer tão mal da classe docente seria muito difícil que os jovens quisessem abraçar a carreira de professor como os seus professores fizeram, eles sabem o que docentes sofrem com os alunos e com os seus encarregados de educação.

Só ensina quem sabe, e só sabe quem aprendeu, só é bom professor quem foi bom aluno, só é exigente com a formação dos seus alunos quem foi exigente com a sua aprendizagem. Um mau aluno nunca será um bom professor! Esta é a regra, há exceções. Com a degradação da carreira docente, com o aumento brutal de trabalho burocrático, com o aumento do tempo gasto em reuniões, sem proveito prático nas aprendizagens dos alunos, que só servem para desgastar os docentes e os impedir de se concentrar no fundamental que é ensinar, as melhores alunas, de hoje, tal como os melhores alunos, ambicionam carreiras mais reconhecidas pela sociedade que lhes permitam ter uma vida mais desafogada. Aquelas meninas, boas alunas, que nos anos 80 quiseram ser professoras, hoje querem ser juízas, advogadas, médicas, cientistas, gestoras, oficiais do exército, comandantes de polícia, engenheiras. Hoje, ninguém quer ser docente, e os que vão para o ensino são os piores alunos, que por falta de melhor vão para professores. Mal será de um país quando as futuras gerações forem formadas pelos piores! Como poderá um futuro professor ensinar as leis da matemática, física, química, se ele como aluno nunca as percebeu? Como poderá um futuro professor ensinar português, inglês, francês, história, geografia ou filosofia, se ele quando aluno se arrastou pela escola transitando com níveis negativos? Como poderá um futuro professor motivar os seus alunos, incutir hábitos de trabalho, se ele enquanto aluno nunca os teve? Não se augura nada de bom na formação das próximas gerações!

Havia muitos arautos que apregoavam que a carreira de docente teria os dias contados, que num futuro próximo os computadores iriam substituir os professores! Se o COVID 19 teve algo de bom, foi provar que sem professores não há educação, nem formação. Os computadores podem ter o conhecimento, são um excelente auxiliar, mas não têm afetos, nem conseguem motivar os alunos. Uma grande parte das famílias não sabe para ensinar os filhos, e os que sabem não têm tempo. Os últimos tempos vieram provar que as Escolas ainda estão para durar, o que será confirmado quando os alunos que estão no 1º ciclo chegarem ao secundário. A aprendizagem é como a chuva, a que não caiu no outono, não cai no inverno. Quem não aprendeu o que devia na idade certa, não há planos de recuperação que lhes valha. Os planos de recuperação só estão na cabeça dos políticos e nas notícias dos jornais, os professores que estão no terreno sabem que todos esses planos não passam de foguetório, porque se resultassem, já teriam sido aplicados há muito com os alunos que têm menos sucesso! A aprendizagem é feita por degraus, que é necessário percorrer e que não é possível saltar. Um aluno que transite um ano com nível negativo a matemática ou a uma língua, dificilmente recupera!

Portugal debate-se com problemas de natalidade, uma das razões por que temos uma natalidade tão baixa, é a mesma que leva a que haja uma baixa procura por cursos vocacionados para o ensino. Educar dá muito trabalho, é muito cansativo e esgotante. E se uns não querem ter filhos porque dá muito trabalho educá-los, os outros não querem ser professores para ensinar e educar os filhos que não são seus!

Às razões referidas que levaram a que a carreira docente deixasse de ser aliciante, deve-se acrescentar a indisciplina e autoridade dos professores na sala de aula. No passado recente, uma família sentia-se envergonhada se recebesse a participação de uma repreensão do comportamento incorreto ou insolente do seu educando na sala de aula. Hoje, uma grande parte dos pais quando recebem uma participação do comportamento incorreto dos seus filhos, em vez de colaborarem para corrigir esses comportamentos, questionam se a culpa não será da Escola ou dos professores. Muitos pais vão às Escolas pedir satisfações aos diretores de turma e fazer ameaças! Muitos dos professores vão gerindo os conflitos e indisciplina dentro da sala de aula e rezam para que o final do ano letivo chegue depressa.

Para mostrar a mediocridade e a falta de ideias de muitos políticos para resolver os problemas da educação e a falta de professores, foi criado um prémio do melhor professor do ano, como se isso levasse a uma corrida à carreira de docente para ganhar o prémio. Decorridos vários anos desde que o prémio foi instituído, é tempo de saber os efeitos do mesmo na melhoria da qualidade do ensino e na qualidade dos professores. Muitos dos nossos políticos olham para a educação como se de um campeonato de futebol se tratasse. Criaram o ranking das Escolas para que elas começassem a competir, os professores trabalhassem mais e o ensino melhorasse. Isto só revela um total desconhecimento do que se passa nas Escolas, os professores não passaram a trabalhar mais porque não é possível trabalhar mais do que já trabalhavam. O problema do insucesso está na origem das famílias dos alunos com dificuldades. O ranking fez com que as famílias mais instruídas e de melhores condições financeiras matriculassem os seus filhos em escolas com menos alunos problemáticos, cavando ainda mais o fosso entre as Escolas localizadas na mesma cidade, fazendo com que as Escolas que estavam mal ainda ficassem pior. Também fez com que houvesse uma fuga de professores das Escolas com muitos alunos indisciplinados para Escolas com menor indisciplina. O ranking das Escolas apenas se repercutiu no Orçamento do Estado. Nas grandes cidades onde há ensino particular, muitos dos pais com poder de compra, estão dispostos a pagar para retirar os filhos de turmas indisciplinadas das Escolas Públicas.

Todos sabemos que o insucesso tem origem social. Se numa Escola formarmos dois grupos, um com os alunos com sucesso escolar, e outro com os alunos com insucesso, constatamos que os alunos do primeiro grupo vêm para a Escola de automóvel, e os alunos do segundo grupo têm escalão A ou B, e vêm para a Escola de autocarro ou a pé. O insucesso podia acabar se os milhões que agora foram lançados na TAP fossem utilizados para apoiar as famílias dos alunos com insucesso de modo que estes tivessem melhores condições para frequentar a Escola. Este dinheiro aplicado na educação teria um maior retorno no futuro.

Como se resolve a falta de professores? Primeiro, devem-se chamar todos os que durante anos disseram mal dos professores e perguntar-lhes que soluções têm para a escassez de candidatos a professores. Começar pela antiga Ministra da Educação, Sra. Dra. Maria de Lurdes Rodrigues, que foi quem iniciou a fuga de candidatos a professores, e perguntar que soluções aponta para acabar com a falta de professores. Depois, pedir ao Sr. Dr. Miguel Sousa Tavares para que indique como acabar com a falta de professores, ele que tanto se diverte a meter farpas no Dr. Mário Nogueira, da FRENPROF, nas suas crónicas nos jornais.

Fala-se que para resolver a falta de professores se devia criar cursos vocacionados para o ensino de curta duração, com um currículo muito básico, com sucesso garantido a todos os que neles se matriculassem, e que poderia ser uma opção para aqueles alunos menos trabalhadores que quisessem tirar uma licenciatura e serem professores. A concretizar-se esta sugestão é o reconhecer que para ser professor não é necessário saber muito! Qualquer um pode ser professor!

Ainda recentemente se falou na comunicação social que a falta de professores poderá ser resolvida com um decreto-lei em que um qualquer licenciado possa ser professor, um economista, com duas cadeiras de matemática no curso, possa lecionar matemática; um engenheiro da construção civil possa lecionar física, química e matemática; um enfermeiro, um farmacêutico, um engenheiro do mar possa lecionar biologia e geologia; um advogado possa lecionar português! Se esta medida for implementada está-se a regressar aos anos 70 do século passado. Se esta proposta for para a frente todos os licenciados, que depois de concluído o estágio numa empresa, não forem aceites para integrarem os quadros das empresas, podem, como última alternativa, lecionar. Voltamos ao mesmo, os piores serão professores. Esta medida ainda fará com que muitos alunos optem por cursos não vocacionados para o ensino, e no caso de não conseguirem exercer na área em que se licenciaram, tem sempre o ensino como alternativa, e mais uma vez o mercado a empurrar os piores para o ensino.

Hoje, com a não contabilização de sete anos para efeitos de progressão na carreira docente, apenas uma parte muito pequena destas excelentes Professoras é que chega ao topo da carreira; no futuro, os professores que chegarem ao topo da carreira serão os mesmos ou mais!

O problema da falta de professores deve ser objeto de discussão pública, e perguntar a todos os portugueses se querem os melhores nas Escolas, tornando a carreia docente aliciante, de modo a que, na hora da escolha, os cursos vocacionados para o ensino sejam uma das primeiras opções para os alunos que concluem o secundário. Há que criar condições para que as meninas e meninos aplicados e trabalhadores, de hoje, à semelhança das meninas aplicadas dos anos 80, voltem a escolher a profissão de professor. Se os portugueses, optarem por um ensino em que os profissionais são os preteridos das outras profissões, então no futuro, o fosso entre os mais desfavorecidos e os privilegiados ainda será maior.

Há uma grande preocupação em que o ordenado mínimo aumente para que todos tenhamos uma vida minimamente condigna, mas melhor que aumentar o ordenado mínimo, é dar a todos uma excelente formação para que no futuro não tenham que se sujeitar a viver com o ordenado mínimo!

Empate?

Uma situação de doença pode dar “empate”?

Mobilidade por doença permite que professores com patologias graves possam ser colocados em escolas perto de sua casa. Revisão deste regime está a ser negociado com os sindicatos. Professores com mais tempo de serviço terão prioridade na colocação em caso de empate.

Com tanta coisa por resolver, parece que a MpD é uma espécie de “causa” para alguns puristas e sempre serve para distrair de outros problemas bem mais complicados. Por exemplo, como restituir alguma equidade às colocações dos colegas contratados em substituições.

Desmoralização

A palavra que talvez resuma melhor o objectivo de uma série de governantes, auxiliares e cúmplices em relação ao que se pode designar como “professores de carreira”, em especial os que levaram em cima com a investida de 2005 em diante. O “partyir da espinha” a qualquer tipo de resistência, que inicialmente teve um claro alvo sindical, alargou-se posteriormente, a quem pudesse fugir a cetos “enquadramentos”. Nem sempre de forma contínua, mas notando-se muito desde o final de 2015, o desejo comungado de resolver as coisas a pares. Para isso, era essencial restringir a informação e debate aos do costume, aos “actores institucionais”. Viu-se o barrete que isso foi para quem está no terreno. O silêncio que se fez sentir até final de 2017 e o que depois se passou com a não recuperação do tempo de serviço congelado aos docentes do Continente demonstrou bem quem era para ser lixado. Agora, afastados muitos e quer-me parecer que desejosos de que outros tantos partam de uma vez por todas, fala-se muito em “renovação e em quem é preciso entrar, seja em que condições for. E quem entrar, não passará pelo “apagão” do tempo de serviço e não terá memória das sucessivas sacanices feitas. Ou relativizará, como alguém que por aí andou uns tempos a servir de moço de recados do então SE Costa e que, quando se lhe apontavam as malfeitorias antigas, me respondia que “isso não é do meu tempo”. E é dessa malta que o actual ministro Costa sente necessidade: de quem não se lembra, de quem não passou por isso ou até acha que foi bem feito, porque eles são “novos” e os “velhos” só atrapalham. Há lideranças locais que, distribuídos os “créditos” pelas clientelas, não desdenham de um proletariado docente sem memória e muito grato por simples migalhas. Porque há gente que parece que só se consegue sentir “alto”, se se rodear de minions.

Canibalismo Profissional – Carlos Santos

Um texto muito lúcido e claro, publicado originalmente no fbook e que pedi para reproduzir neste quintal. Contra a demagogia e o populismo mal disfarçado dos salta-pocinhas, que falam de barriga cheia e traseiro fofo à porta de casa.

Só quando virmos a última gota de água sair das torneiras nos daremos conta da falta que ela faz. E assim será com os professores numa terra que atravessa uma severa seca de valores sociais.

O sistema de ensino em Portugal não é mais do que um navio a afundar-se onde os sobreviventes, num salva-vidas à deriva num mar de gente indiferente que não os quer nem vai salvar, em desespero, acabam por cometer canibalismo começando a se comerem uns aos outros por considerarem ser essa a única solução para sobreviverem. Os professores que parem de procurar nos outros explicações para o afundamento da classe, porque ela própria é a maior culpada pelos males que a afligem, pela desunião que a caracteriza e tem prejudicado a todos ao longo dos últimos anos e nos trouxeram até esta situação decadente de instabilidade, precariedade e más condições profissionais.

Não é uma andorinha que faz a primavera; não são alguns casos fraudulentos na mobilidade por doença que podem pôr em causa todos os outros que estão realmente doentes. Foi com essa perigosa mentalidade e tendência em generalizar que se cometeram as maiores atrocidades e crimes ao longo da história da humanidade. É, por isso, com grande preocupação que assisto ao começo de uma campanha difamatória contra os professores em mobilidade por doença, doentes ou com familiares a necessitar de apoio.

Será, porventura, assim tão difícil estabelecer a ligação do envelhecimento da classe, a crescente sobrecarga de trabalho e o prolongamento dos anos de deslocações para escolas longínquas, com o aumento de problemas de saúde dos professores? Será que alguém se pergunta como é que um professor sexagenário aguenta fazer diariamente centenas de quilómetros nas estradas a acumular a todo o imenso trabalho profissional que lhe é exigido? Claro que não, pois é bem mais fácil falar mal dos outros, algo tão característico do nosso povo.

Que, de uma vez por todas, se entenda que isto não é vida que se aguente. Até há uns anos os ciganos eram conhecidos pelo nomadismo que caracterizaram a sua cultura e os fizeram povoar os quatro cantos do mundo; hoje em dia os professores são os ciganos dos tempos modernos – nómadas a percorrer o país durante toda uma vida.

E que se desmitifique que o maior problema dos horários que não são preenchidos são os horários incompletos numa profissão mal paga sem ajudas de custo, que não são aceites por mal darem para pagar uma renda e que nada têm a ver com os professores em mobilidade por doença.

28 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, cirurgias, um joelho que nem sequer me permite correr e me dificulta a condução e mais de 600 mil quilómetros nas estradas em deslocações para a escola, são a explicação para recorrer à mobilidade por doença. Se preferia não ter de recorrer a este género de concurso? Claro que sim, pois seria sinal que teria saúde, algo que não tem preço e só se dá o devido valor quando se perde. Por isso, numa situação destas, colegas serem obrigados a escutar da boca de dirigentes escolares e associativos e da comunicação social, que os professores nestas circunstâncias são fraudulentos e oportunistas!? E, pior, colegas de profissão a alimentarem as redes sociais com um ar carregado de maledicência dos seus pares, é revelador da desunião de uma classe malformada que se maltrata a si mesma.

Se hoje pudesse voltar para trás no tempo, nunca teria enveredado por ser professor. E isso nada tem a ver com a qualidade profissional. Quem me conhece sabe que sou um bom profissional, gosto do meu trabalho (embora hoje menos do que noutros tempos), com excelentes relações com pais, alunos, professores e funcionários, com elevada capacidade pedagógica dentro e fora da sala de aula. Mas não é isso que define uma escolha de vida acertada quando o preço a pagar é elevado numa fatura diária e perpétua, numa terra onde não há reconhecimento profissional nem mesmo no seio da classe onde cada um faz tudo para poder ficar com o quinhão dos outros. Sinto o desalento de quem deu tudo de si ao ensino, incluindo literalmente sangue, suor e lágrimas, e em troca recebeu tão pouco da sociedade.

A minha esposa, com 29 anos de carreira em QA, acidentes em serviço, mazelas, uma vida na estrada sem fim à vista, nem esperança de algum dia poder vir a ficar colocada perto do domicílio, é o exemplo acabado daquilo que se espera de um professor nos dias de hoje – um missionário que abdica tudo por uma causa sem gratidão social. Um número descartável que, quando estiver esgotado, simplesmente se esquece e se substitui.

Será a qualquer título assim tão difícil entender que o que está verdadeiramente em causa não são os professores, mas as condições de trabalho desumanas a que são sujeitos? Longe vão os anos em que um professor trabalhava meia dúzia ou, quando muito, uma dúzia de anos longe do domicílio até ficar colocado perto da sua residência. Atualmente, espera-lhe toda uma vida a trabalhar longe de casa com a expectativa de, talvez, um dia, quiçá perto da idade da reforma, poder vir a ser colocado perto de sua casa.

E quem paga a despesa de décadas nas estradas e em estadias com famílias a pagarem duas e três rendas? Quem paga o desgaste de centenas de milhar de quilómetros ao volante?

Com condições tão pouco atrativas, não é de admirar que, nos dias de hoje, não se consigam aliciar os jovens para virem a ser professores.

Não me espanta nada que a muito anunciada falta de professores já esteja aí com mais de trinta mil alunos sem professores neste ano letivo, mais de cem mil no próximo e mais de trezentos mil dentro de 2 a 3 anos.

É, para mim, muito natural que sejamos um país sem grande progresso em comparação com os seus pares, com baixos índices de escolarização que se irão agravar enormemente nos próximos anos, fruto do indecente ataque aos profissionais da educação iniciado em 2005 por Maria de Lurdes Rodrigues e o governo Sócrates e habilmente continuado pelos governos que se lhe sucederam.

Um país que, no futuro próximo, apenas irá colher aquilo que semeou; sem futuro, a que está condenado pela postura política e social de perseguição e injúria à classe fundamental para o desenvolvimento e progresso de uma nação. Mais do que um flagelo económico, este é um flagelo social numa terra movida por um monstro corrosivo que turva a razão e ataca com o ódio da cegueira chamado “inveja”. “Os professores ganham muito, trabalham pouco e têm muitas férias”, a isto se reduziu o imenso e importantíssimo trabalho de grande investimento e sacrifício pessoal e profissional desempenhado pelos professores.

Está a chegar, a passos largos, o dia em que o país irá implorar por professores e não os terá. Depois, irão providenciar-se remendos para tapar a enorme cratera aberta diante de todos, recrutando-se profissionais sem habilitação profissional especializada nem qualificações à altura, recorrendo-se a professores dos PALOP, espanhóis, entre outros, quando se negligenciou e perseguiu excelentes professores que o país formou ao longo de décadas. Alguém deveria responder perante a justiça por este e outros crimes que a nossa classe política tem cometido contra a nação ao longo de décadas.

E quanto ao povo, longe de estar inocente, apenas terá aquilo que merece pagando por ter acreditado nas mentiras disseminadas pela máquina de propaganda política sendo conivente com esta matança profissional que encurralou o ensino neste beco sem saída.

Relativamente a esse clima de suspeição, o que dizer daqueles que, com responsabilidades acrescidas, vêm a público falar mal da classe? Comecem por investigar o obscurantismo por detrás de certas nomeações para cargos públicos, políticos e editoriais de órgãos de comunicação; comecem por averiguar a transparência dúbia na eleição de certos dirigentes escolares; comecem por dar a devida atenção a tantas irregularidades, atropelos à lei, cunhas, corrupção, peculato e crime, antes de se virarem para os professores.

E a ávida língua afiada de alguns docentes, seria muito mais útil se a apontassem na direção do envelhecimento da classe e do elevado desgaste a que está sujeita, com excesso de trabalho e de trabalho burocrático, de instabilidade e baixos salários. Afirmarem que professores em mobilidade por doença não lecionam, só alimentam falsas ideias sobre os professores. Muitos, coitados, mesmo em mobilidade por doença, ainda acabam por ser obrigados a meter baixa médica por não aguentarem, sendo o mais doloroso o azedume e má-língua dos colegas de profissão.

Em vez de exigirem melhores condições de trabalho, maior estabilidade profissional, redução dos quadros de zona, aposentação mais cedo por desgaste profissional, vinculação mais célere, ajudas de custo para alojamento e deslocações, menos burocracia, mais proteção social e judicial, valorização da classe, da carreira e salarial, fim de cotas e de obstáculos à progressão na carreira, devolução do tempo de serviço roubado e a resolução de tantos problemas reais e diários dos docentes, estupidamente, os professores continuam a preferir embarcar nestas ciladas que colocam professores contra professores e mancham a profissão na praça pública optando por dar tiros nos próprios pés. Guarda-se o mal dos outros num cofre longe da nossa consciência e dizem-se as maiores blasfémias com a mesma facilidade com que se respira.

Que se investiguem os oportunismos de alguns e não se tome a parte pelo todo, apenas isso.

De quando em quando, num país onde quase tudo funciona mal, num exercício de fuga da realidade lá se volta novamente a atenção para os professores como culpados de todos os males… e o pior é que alguns facilmente alinham nisso.

Carlos Santos