6ª Feira

É sempre preciso ter em conta que não estamos a lidar com gente séria. Não é “populismo” ou “demagogia” denunciar a “elite” política, em particular a que governa de forma formal ou informal, por se ter tornado essencialmente desonesta. Hoje é dia de apresentar como uma espécie de dádiva o descongelamento de carreiras e as progressões que daí resultaram. O que o Tribunal Constitucional, embora de forma timorata, considerou ilegal e apenas admissível de forma temporária, parece ter sido interiorizado por alguma comunicação social como sendo algo “normal”. E a classe política cavalga isso para dar a entender que os professores terão progredido nos últimos anos graças à sua enorme generosidade.

Chegaram 6000 ao topo da carreira? Mas ganham menos, agora, em termos líquidos, no índice 370, do que há quinze no 340. E de acordo com as regras do ECD, legislado pela “reitora” que recusou fazer a sua add, muitos mais ficaram barrados de lá chegar. Progrediram 45.000? Acredito. Mas deveriam ter sido muito mais e, em vez de um ou dois escalões, deveriam ter progredido três ou quatro.

Ok… noticiam-se “factos”. Pena que se transmita a sensação de isto serem “benesses” ou mesmo “conquistas” quando não passa da tentativa de legitimar os danos causados e as graves perdas verificadas.

Pura e simples bullshit.

Turd

A Tentar Arrepiar Caminho?

O que seria uma boa decisão, a aceitar sem reservas, no actual contexto pode agravar a situação de escassez de docentes em alguns grupos disciplinares.

É o risco de governar na base da incoerência, reagindo aos fenómenos apenas quando eles chegam em força à comunicação social e não quando a onda se está a formar.

Esta medida poderia (e deveria) ter sido colocada em prática – sem os truques de última hora que costumam surgir quase sempre nestes casos – há alguns anos, evitando o esgotamento de uns, o abandono de outros e ainda a desistência de muitos “novos”.

O Ministério da Educação (ME) admite que os professores com mais de 60 anos possam, se assim quiserem, deixar de dar aulas e passar a desempenhar outras actividades nas escolas.

Colocando as coisas de forma clara, nos últimos 15 anos, o PS governou a Educação em mais de 10 e tomou medidas activas que agravaram o que agora se diz querer resolver.

Antes tarde do que nunca?

Confesso já não ter em mim a caridade indispensável para dar o benefício da dúvida a gente que considero ter agido anos a fio com má-fé.

clown

Há Falta De Professores…

… disso não há dúvida, mas em casos como o de TIC o que se passou foi uma “reforma” feita sem qualquer preparação ou atenção pelos meios disponíveis. O mesmo se passou com o progressivo alargamento das horas para Geografia à custa da redução das de História, sendo que agora já querem que o pessoal do grupo 400 vá dar aulas do 420, o que é patético. Mas, como vai sendo costume, houve demasiada gente a acenar que sim para poder ficar na fotografia da modernidade costista (e eu não me esqueço de algumas figuras que em tempos me chatearam a cabeça, como a senhora doutora que não sei se ainda preside à APGeo).

O que se está a passar era mais do que previsível. Só muita incompetência ou coisa pior poderá explicar a situação presente-

dog_sim

Agora já se aceita tudo. Ou melhor… antes fosse. Porque temos um currículo para o século XXI com uma espécie de proletariado docente à moda do século XIX.

Em outras disciplinas, os “constrangimentos” são o resultado (natural, anunciado) de uma gestão desastrosa dos recursos humanos. Claro que ninguém assumirá qualquer “responsabilidade” e a “culpa” será remetida para o raio dos professores que insistem em envelhecer e adoecer.

E quanto à necessidade de recrutamento dos “melhores” com que tantos ex-ME enchem a boca, fico sentado à espera, para não cair de riso.

Se nem um ministro decente conseguem recrutar…

Anexo: Nota Info DGAE 14Jan20.

 

O Império Da Treta Oportunista

Não, não será oportunidade para mais nada do que poupanças e desprofissionalização da docência, com a entrada nas escolas dos interesses locais e regionais. Por uma razão simples… já nos últimos dez anos existiu uma evolução similar dos indicadores relativos ao pessoal docente e discente.

Nos próximos quatro anos cerca de 18 mil professores vão sair das escolas para a reforma, mas no mesmo tempo haverá perto de 101 mil alunos a menos. Será esta uma oportunidade para o sistema educativo? Por agora, a falta de professores em certas zonas do país exige do Governo e das autarquias medidas imediatas.

Vejamos o que se passou nesta década. Eis os dados oficiais da dgeec para 2009-10 e 2017-18 (os últimos online):

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Já neste período tivemos (apesar daquelas mistificadoras vinculações “extraordinárias”) uma redução de quase 13.400 professores dos quadros e de quase 27.000 em exercício. Isto significa que se verificou uma diminuição de 12,4% dos professores nos quadros e de 18,8% em todos os que estão em exercício.

Observemos a evolução do número de alunos no mesmo período, reparando que eu escolhi para ano inicial da série aquele em que se registaram mais alunos:

AlunosEvol

A redução foi de 164.414 alunos, ou seja de pouco mais de 10%. A redução de docentes foi quase o dobro e quanto a “oportunidades” nada se fez e até passámos pela troika e tudo. Foi o “mais com menos” de crato que continuou com costa&centeno mais o tiago, joão & joana,

O “argumento demográfico” foi usado de forma demagógica e truncada, quase sem contraditório. Era mentira que a redução do número de professores resultasse da redução do número de alunos. Estava em decurso um processo diferente, mas que o afirmava era denunciado como “corporativo”, por vezes por idiotas instalados de forma cómoda na carreira, por saberem que nada arriscavam.

Menos 100.000 alunos nos próximos anos será uma redução próxima dos 7%, enquanto desaparecerão 20% dos docentes que não há condições para serem substituídos sem uma regressão sensível no nível de experiência ou mesmo de qualificação profissional dos docentes, bastando ver como estão a chegar às escolas pessoas sem qualquer tempo de serviço ou experiência, fenómeno numa escala que não se via há uns 25 anos. Claro que serão mais dóceis, em especial se quiserem beneficiar de “incentivos” e alguma estabilidade.

O mais aterrorizador deste “tempo de oportunidades” será que muitas das medidas de “incentivo” ficarão a cargo das autarquias; não por tais medidas não serem eventualmente “eficazes” mas por o serem à custa da opacidade de procedimentos, pois já agora há “técnicos especializados” que ficam sempre nos lugares desejados em pseudo-concursos viciados à partida. E algumas outras “normalidades” que se começam a instalar com argumentos de “adequação” aos “projectos”, nomeadamente sob sugestão/aprovação de certos grupos de “consultores” na elaboração de “planos (inter)municipais”.

Abandonai Qualquer Esperança…

… vós que ainda acreditais em anúncios de potenciais pré-reformas com condições vagamente dignas. Porque, exactamente por causa do envelhecimento da classe docente, verifica-se uma (ainda há um punhado de anos inesperada) evidente impossibilidade de substituir toda a gente que sairia da profissão se isso fosse possível sem os cortes grotescos em vigor.

Se por acaso aquela coisas dos 55 anos (ou mesmo 60) fosse para levar a sério, haveria um verdadeiro “estoiro” de saídas, porque há quem esteja pronto a desaparecer de vista por mil euros mensais líquidos, pois não há preço para a sanidade mental. E o sistema colapsaria, mesmo se começassem a recrutar pessoal ainda a acabar os cursos, sem qualificação profissional, como começam a aparecer por aí, relembrando os anos 80 do século passado.

Com a agravante de, na época, haver gente já com experiência e ainda com a disponibilidade para ir integrando e ambientando os novos, num espírito pacífico de transição geracional e agora estar em quase completa erosão esse tipo de capacidade, por esgotamento da larga maioria de quem está.

Por isso, não vale a pena acreditar que existirá qualquer proposta séria para aposentações dignas ou mesmo um regime com pés e cabeça de trabalho parcial. Há coisas que são apenas feitas para fazer capas de jornais, alimentando ilusões a uns e acirrando outros contra moinhos de privilégios.

Inferno1

(é como aquilo dos 800 milhões para a Saúde em regime “plurianual” para combater uma “crónica suborçamentação” que prolongaram quatro anos… )

E Como Se Pode Ler, Os Da Minha DT Estão Entre Eles

E quem lê “primeiro período” agora, pode vir a ler algo mais daqui a uns meses. E seria bom que as pessoas não se encolhessem com medo de publicitar o que se passa, combinação aberrante dos efeitos da pressão sobre os docentes dos quadros mais frágeis com regras abstrusas sobre a possibilidade de os substituir antes de 1 de Setembro.

E repito: se a tese “demográfica” estava certa, porque raio agora faltam professores em várias disciplinas (em pelo menos dois casos é em grande causa por causa de “reformas” curriculares feitas a pedido sem atender à realidade concreta dos meios humanos).

A culpa não é das escolas e é lamentável que os representantes dos directores andem mansinhos, mansinhos com isto (e que muita gente esteja dias em reunião para não atenderem a comunicação social), à espera de uma possível recompensa como a aflorada no post abaixo.

Há alunos que não vão ter aulas a uma ou mais disciplinas todo o 1º período

Megafone

Mas Há Quem Insista No Contrário…

… e use mesmo isso para denegrir os professores, quando os alunos são os primeiros a reconhecer o contrário.

Do “Country Note” para Portugal do PISA 2018, só sendo pena que esteja em letras pequenas, pois merecia que fosse esfregado, com o devido respeito pela linguagem, nas ventas de uma série de gente que por anda aí a papaguear banalidades falsas, enquanto se dá ares de pavão (ou pavoa) do regime porque leu uns livros ali há 25 anos e nunca mais desencalhou.

Claro que poderia escreve os nomes, mas vocês, ao fim deste tempo, sabem bem de quem estou a falar até porque aparecem muito nas fotos do twitter e em eventos com muita cobertura. Ou que acham que precisamos de muita “formação” para o “século XXI”.

PISA2018AlunosProfes