Um Corpo Doente

É complicado quando metade dos elementos que ainda há 2-3 anos faziam parte de um grupo disciplinar se encontra, por motivos de saúde, sem condições para dar aulas. E não se está a falar de mazelas pequenas. As coisas estão cada vez mais complicadas e há um ambiente de cansaço que não nasce apenas do tal “envelhecimento” de que tanto falam. E o pior é mesmo quando se sente que não se passa de números para os decisores e o seu séquito de formadores avençados, que por aí andam outra vez de rabo espevitado que nem lhes cabe um’órtiga bem aplicada no dito cujo

Este Mês, No JL/Educação

Vem a seguir, destoando no tom, a prosas gémeas do SE Costa e de um dos seus directores do coração sobre as maravilhas do programa 21|23 e dos seus “eixos”. Há textos deste pessoal que, no seu tom gongórico, me fazem lembrar os panegíricos de outros tempos e outros regimes a toda e qualquer política promovida pelos Grandes Líderes do momento.

Auto e heteroavaliação

Vai terminando a custo um dos mais complicados e longos anos lectivos de sempre. Quem pensou em 2020 que tinha passado pelo pior, descobriu este ano que tinha sido apenas uma preparação para o que estava para vir. Esta semana ainda decorrem reuniões de avaliação dos alunos do 1º e 2º ciclo e continuam as tarefas típicas de qualquer ano escolar, acrescidas a cada rotação da Terra de novas obrigações que outrora se considerariam impensáveis de ser realizadas por pessoal docente que agora os poderes consideram qualificado para praticamente todo o tipo de função.

Já tivemos a parte do acompanhamento e vigilância dos alunos nos intervalos e refeições, agora temos a parte da recolha, triagem e arrumação de manuais escolares. Porque a “racionalização” dos recursos humanos nas “unidades orgânicas” outrora conhecidas como escolas fez com que o pessoal não docente (administrativo ou outro) seja deficitário, precário e não chegue para as encomendas, pelo que se considera que devem ser os professores a assegurar muito do que antes eram funções administrativas das “secretarias” (continuamos a chamar-lhes assim apesar das novas designações mais criativas e extensas), mais as novas tarefas que é preciso desempenhar e, como vida de professor é coisa descansada, vão lá receber computadores, manuais e chaves de cacifo e não se esqueçam de fazer matrículas e actualizar os dados dos alunos naquele belo sistema informático, mesmo muito intuitivo que é o E360.

Lá está ele sempre a queixar-se, parece que nunca está satisfeito, que nunca vê a parte meio cheia do copo de água fresquinha, que pensa que só deve ter direitos e privilégios e férias de três meses, como há alguma gente que gosta de escrever (e algumas até o chegam a pensar como se fosse mesmo verdade). Não o vou negar. Não consigo ignorar que as funções dos professores, não apenas em Portugal, sofreram uma enorme desqualificação ao serem-lhes sucessivamente acrescentadas obrigações claramente desadequadas às suas qualificações.

Mas se sou rápido nas críticas ao que outros decidem e fazem (ou melhor, decidem que outros devem fazer), também gosto de olhar um pouco para dentro e analisar aquilo que fiz ao longo do ano e avaliar até que ponto poderei ter contribuído de algum modo para a melhoria dos meus alunos, não apenas em termos de desempenho académico, mas também ao nível das atitudes. Não falo do que se coloca naquelas três páginas a que chamam relatório de auto-avaliação do desempenho docente, que esse é aquele espartilho no qual tudo e nada deve caber, para que sirva de base a uma classificação atribuída por quem nada observou de concreto ou sabe se mesmo aconteceu assim, como lá está ou não há forma de estar, por muito que se disfarce que se diminui a letra de trebuchet 11 para 10.

Falo de alguma forma de introspeção, quando ainda há energia ou motivação para isso. De fazer alguma auto-análise, de modo a perceber se terei algum crédito para apontar o dedo a inconseguimentos alheios, a incompetências organizacionais, a puros disparates da hierarquia decisora, em especial a central, que sobre todos derrama crenças particulares altamente discutíveis como se fossem verdades universais e intemporais. Só que, como nos tais relatórios de auto-avaliação, mesmo que em menor escala, tendemos sempre, em causa própria, a fazer alguma encenação do que realmente aconteceu, porque não há quem queiramos mais enganar do que a nós mesmos, mesmo quando se tem ainda aquela pontinha de consciência que nos sussurra ao ouvido interior que temos alguns deveres éticos e deontológicos a respeitar, mesmo que não estejam escritos.

Por isso, é importante que essa auto-avaliação tenha um contributo externo, beneficie do olhar exterior de quem efectivamente observou o nosso trabalho e esteve presente no nosso quotidiano, na parte que deveria ser a mais importante em qualquer tipo de avaliação do desempenho docente, a que se passa na sala de aula e no que de mais perto rodeia a prática lectiva. Porque eu sou dos antiquados professores que, mesmo achando que se deve cumprir com brio tarefas como escrever uma acta sem erros ortográficos ou de sintaxe básicos ou fazer um qualquer relatório final (quase sempre de utilidade duvidosa, mas já começa a fazer parte da paisagem), os professores deveriam ocupar a larga maioria do seu tempo em trabalho directo com os alunos e não no seu registo administrativo ou representação burocrática para a respectiva monitorização.

Tudo isto para referir que todos os anos, naquelas aulas em que já na recta final, quando estamos a tropeçar nas próprias palavras, sumariamos “auto e heteroavaliação”, gosto de pedir aos alunos que façam não apenas a sua avaliação, mas também a minha, a do professor, em termos quantitativos e curtamente descritivos, identificando uma ou duas qualidades que se consideram importantes e os defeitos que acham que devem ser corrigidos. De forma anónima, claro. Uma avaliação que, como se diz há umas décadas, tenha uma componente “formativa”, para que eu possa melhorar o meu desempenho ou, pelo menos, tomar consciência do que pensa quem me observa com maior proximidade e para quem, em primeira e última instância, o meu desempenho tem mais importância.

(momento adequado para um breve interlúdio explicativo: que não se confunda esta minha prática com uma adesão às teorias que postulam que os alunos devem ter um papel sistemático na avaliação formal dos professores, em especial quando isso é surge ao serviço de modelos essencialmente punitivos do desempenho docente)

De regresso à avaliação feita pelos alunos: em regra é generosa, muito generosa e tão mais generosa quanto a miudagem é mais nova e ainda não deixou que se lhe entranhassem alguns dos vícios que o sistema lhes transmite e o cinismo que acaba por lhe ser inerente. E mais do que na mera quantificação, é muito interessante a leitura das curtas considerações descritivas que fazem com um olhar que, como referi, é ainda muito limpo e puro, ingénuo, mas perspicaz.

Este ano, com metade dos meus alunos em isolamento na última semana de aulas, só pude recorrer à minha direcção de turma para recolher estas opiniões, embora a verdade é que é com eles que passo mais tempo todos os dias na escola (Português, H.G-P., Cidadania e Formação pessoal e Social, permite que estejamos juntos quase tantas horas juntos com o Sol no Céu como com os nossos familiares mais directos).

Mais do que estar a fazer aqui uma indulgente listagem de qualidades ou defeitos que possam afagar o ego e ajudar a minorar algumas dores profissionais, gostava de destacar que boa parte dos alunos, em vez de atribuir um valor, decidiu completar a pergunta “E o professor merece ter?” como se de uma frase declarativa se tratasse, apesar do curto espaço reservado para escrever.

E foram vários a expressar o mesmo tipo de pensamento: “descanso” ou “descanço”, conforme a proficiência ortográfica, ou “descanso de nós” ou mesmo “descansar e ganhar o euromilhões”. Sendo respostas anónimas, é enorme a tentação para descobrir quem escreveu esta última possibilidade para lhe subir as notas todas para o máximo.

Domingo

Os professores não devem declarar-se cansados sob risco de serem logo lembrados que se estão assim tão mal é porque estão velhos e devem dar lugar aos mais novos (quais? os que se afastaram da docência na última década?), que se calhar são uns preguiçosos sem vocação que só dão aulas porque não sabem fazer outra coisa (acusação sempre ali debaixo da pele para diversos cronistas com poiso certo na comunicação social) e que deveriam era pensar em tanta gente que tem muito menos e não se queixa (argumento nuclear da tese do nivelamento pela mediocridade das aspirações da maioria).

Domingo – Dia 63

Por outro lado, de pouco adianta andar a formar mais professores se isso acontecer nos moldes habituais (mesmo que se use uma retórica diferente), com os cursos a serem coordenados pelas mesmas pessoas (ou seus discípulos directos) que contribuíram activamente para a situação que vivemos e que, década após década, mantiveram rotinas e vícios impermeáveis a qualquer verdadeira inovação. Porque não chega proclamar a necessidade de um “novo paradigma”. Há que saber o que isso implica na prática.

Para Que Conste…

… tenho 56 anos, sou professor, pertenço a um dos grupos de risco da lista inicial, e vou recomeçar as aulas na 2ª feira sem ser testado (parece que será dia 8), com aqueles testes que podem dar não/sim/talvez), nem vacinado.

Por isso me custa que alguém razoável e racional como o António Araújo escreva o que adiante transcrevo, mesmo sabendo-se que menos de 2% dos professores em exercício têm menos de 30 anos e que no 1º ciclo (aqueles que já foram em parte vacinados, com direito a televisionamento) são menos de 1%.

Há dias, com a conivência de um país inteiro, vimos professores sorridentes, com 20 ou 30 aninhos, a esticarem os braços para as picas milagrosas, e ninguém se questiona, ninguém se indigna, ninguém interpela as autoridades máximas da nação sobre como é possível, como é moral e humanamente admissível que jovens sem risco algum estejam alegremente a tirar o lugar aos mais indefesos, aos mais carentes. As vacinas e os recursos mobilizados para vacinar professores por atacado poderiam servir para salvar muitas vidas – cálculo que não foi feito, de todo, até porque ninguém o reclamou. O que ocorreu em Portugal no passado fim-de-semana foi uma gigantesca operação de eutanásia cívica e moral, reveladora do mais profundo desprezo pela vida humana e pela sorte dos mais idosos. Não duvidem: a História registará tudo isto, este momento ignóbil. Mas, por ora, poucos ladraram, ou sequer uivaram. Os cães seriam incapazes de tamanha maldade.

(já agora… eu é mais gatos… de quem muita gente, infelizmente, não gosta, por não os entender)

5ª Feira – Dia 53

Questionar opções políticas é um direito de qualquer cidadão e é especialmente legítimo que seja feito um rigoroso escrutínio por parte da comunicação social de matérias sensíveis como estas. Só que nestes casos não estamos perante a busca de informação adicional, mas perante acusações feitas com uma agressividade que se estranha neste contexto em que o funcionamento das escolas parece tão importante para que a sociedade e a economia não paralisem. Por isso, é absolutamente incompreensível que uma antiga governante que chegou a ser ministra da Educação (Manuela Ferreira Leite), no seu espaço televisivo de opinião sem contraditório tenha afirmado (TVI24, 18 de Março) que “se a prioridade é salvar vidas não se pode perceber que se vacine um professor“.