Domingo – Dia 63

Por outro lado, de pouco adianta andar a formar mais professores se isso acontecer nos moldes habituais (mesmo que se use uma retórica diferente), com os cursos a serem coordenados pelas mesmas pessoas (ou seus discípulos directos) que contribuíram activamente para a situação que vivemos e que, década após década, mantiveram rotinas e vícios impermeáveis a qualquer verdadeira inovação. Porque não chega proclamar a necessidade de um “novo paradigma”. Há que saber o que isso implica na prática.

Para Que Conste…

… tenho 56 anos, sou professor, pertenço a um dos grupos de risco da lista inicial, e vou recomeçar as aulas na 2ª feira sem ser testado (parece que será dia 8), com aqueles testes que podem dar não/sim/talvez), nem vacinado.

Por isso me custa que alguém razoável e racional como o António Araújo escreva o que adiante transcrevo, mesmo sabendo-se que menos de 2% dos professores em exercício têm menos de 30 anos e que no 1º ciclo (aqueles que já foram em parte vacinados, com direito a televisionamento) são menos de 1%.

Há dias, com a conivência de um país inteiro, vimos professores sorridentes, com 20 ou 30 aninhos, a esticarem os braços para as picas milagrosas, e ninguém se questiona, ninguém se indigna, ninguém interpela as autoridades máximas da nação sobre como é possível, como é moral e humanamente admissível que jovens sem risco algum estejam alegremente a tirar o lugar aos mais indefesos, aos mais carentes. As vacinas e os recursos mobilizados para vacinar professores por atacado poderiam servir para salvar muitas vidas – cálculo que não foi feito, de todo, até porque ninguém o reclamou. O que ocorreu em Portugal no passado fim-de-semana foi uma gigantesca operação de eutanásia cívica e moral, reveladora do mais profundo desprezo pela vida humana e pela sorte dos mais idosos. Não duvidem: a História registará tudo isto, este momento ignóbil. Mas, por ora, poucos ladraram, ou sequer uivaram. Os cães seriam incapazes de tamanha maldade.

(já agora… eu é mais gatos… de quem muita gente, infelizmente, não gosta, por não os entender)

5ª Feira – Dia 53

Questionar opções políticas é um direito de qualquer cidadão e é especialmente legítimo que seja feito um rigoroso escrutínio por parte da comunicação social de matérias sensíveis como estas. Só que nestes casos não estamos perante a busca de informação adicional, mas perante acusações feitas com uma agressividade que se estranha neste contexto em que o funcionamento das escolas parece tão importante para que a sociedade e a economia não paralisem. Por isso, é absolutamente incompreensível que uma antiga governante que chegou a ser ministra da Educação (Manuela Ferreira Leite), no seu espaço televisivo de opinião sem contraditório tenha afirmado (TVI24, 18 de Março) que “se a prioridade é salvar vidas não se pode perceber que se vacine um professor“.

Fazendo O Caminho Das Pedras

Tal como o Arlindo, espero pelos pareceres das entidades consultadas (por uma vez, não teremos de ler nada escrito pelo candidato do PSD à câmara de Gondomar, o segundo pai eterno da Nação).

Espero ainda que, desta vez, exista o decoro de não nomear como relator o mesmo excelentíssimo deputado Silva que depois aparece a intervir na sessão em defesa da posição do governo, contrária ao conteúdo da petição.

A Petição Pelo Fim das Vagas no Acesso ao 5.º e 7.º Escalão Foi Hoje Admitida

6ª Feira – Dia 47

E existem aquelas que são comuns a tantas outras condições, profissionais mas não só, que se relacionam com a necessidade de viver na incerteza, sem poder controlar o próprio futuro, ficando à mercê de humores alheios. E esse é um dos factores mais reconhecidos como determinantes para o aumento da desesperança e do cansaço: aquele amargo sentimento de impotência perante um futuro com que deixámos de nos identificar. Podemos de falar de muita outra coisa como determinante do stress docente (da indisciplina à pandemia da sobrecarga burocrática à incompreensão de alguns fazedores de opinião), mas, em termos pessoais, não há nada de mais desesperante e desanimador do que sentir que o nosso destino não está nas nossas mãos e, muito pior, está entregue aos desmandos alheios, de quem sabe pouco mas pode muito. 

6ª Feira – Dia 40

Aprendi a “nadar”, mergulhado na piscina até ao pescoço. Dei três meses de aulas, no fim de Junho já tinha sido posto a andar, com uns 90 dias de serviço e sem direito a subsídio de qualquer coisa. No ano seguinte, voltei a concorrer só para a noite e não consegui colocação, apesar de já ter concluído o curso e durante um punhado de anos fui fazendo substituições curtas, enquanto me desenrascava com outras ocupações que agora dizemos precárias. Era novo, tinha poucos encargos. Mas a cada ano ia-me ambientando melhor e não desgostava. Fiquei e fui aprendendo a ser professor. E muita coisa mudou e eu também mudei em parte com elas.