Eles, Ontem, Não Falaram De Educação…

… por que no essencial estão de acordo, em tempos de pandemia ou não pandemia. Aquilo da cidadania é mais uma disputa entre a aliança beato-inclusiva de um sector do PS e do Bloco e os mais matarruanos do CDS e Chega. Na semana de regresso às aulas, ambos (mais os “moderadores”) acharam que era um não-assunto. Se em 75 minutos não deu, em 25 muito menos dará.

Mas… quem estivesse a escabecear e sem vontade ver a cara dos dupondt, acabava por se concentrar em detalhes como os oráculos dos canais noticiosos. e num deles (cnn portugal?) passava insistentemente o alerta de que em Fevereiro se vão aposentar 200 professores e os seus alunos vão ficar sem aulas! Alarme!! Todos aos seus abrigos!!! Há 200 professores (menos de 1 por cada 4 agrupamentos) que se vão reformar e a petizada vai ficar sem aulas! Estranhamente, não se preocuparam em saber quantos alunos estão sem aulas porque os professores estão em isolamento ou eles próprios estão em casa, por estarem “positivos” ou coabitarem com alguém que está. E até erraram as contas, porque os números que o Arlindo passou à Lusa são um pouco diferentes.

Mas houve mais notícias alarmantes sobre a velhice dos professores que se acreditava serem eternos: por causa da mortalidade da pandemia (que só existe na televisão, note-se!) a esperança de vida população diminuiu e isso reflecte-se na idade da reforma dos professores, podendo levar a um adicional de mais de 800 aposentações por limite de idade! Nem o maravilhoso estudo que o ME encomendou à Nova Bizness Scule previu tamanho descalabro. Há uma pandemia, as pessoas morrem, a esperança de vida baixa, a idade de reforma reduz-se (três meses) para toda a gente e a aposentação dos professores é que preocupa a comunicação social ou quem atira com estas coisas cá para fora?

Agora, imaginem que a Educação era um assunto importante. Ou será que agora apenas a falta de professores os preocupa? Não fizeram, nestes últimos 20 anos, porcaria suficiente que ajude a explicar que pouca malta nova queira ingressar na carreira com um alvo nas costas?

Como É Que Diz Que Disse?

A sério, sério, sério ou depois dá-lhes uma amnésia ou coligam-se com o CDS e os Liberais e ainda acabamos a ter de devolver o pouco que recuperámos e a idade da reforma passa para o dia em que se fica paralítico?

Recuperação do tempo de serviço dos docentes para efeitos de aposentação, despenalizando as aposentações antecipadas e majorando o valor das respetivas pensões.

E Os Que (Ainda) Cá Estão?

Sobre política educativa, muito mais haveria a escrever acerca do que disse Rui Rio, mas não vou estar com aquelas tretas do politicamente correcto do costume, só para evitar ser considerado “corporativo”. Até porque ele se dirigiu directamente aos professores e há que lhe tentar explicar que a combinação entre promessas vagas e a manutenção do que mais desagrada aos professores de carreira não pode passar em claro. Na ausência do texto completo do discurso de hoje (nem no site do PSD está), vou valer-me do que em alguma comunicação social surge como citação directa, pois não tive paciência para ver e ouvir tudo.

Comecemos pelas promessas aos professores vindouros, a partir de duas notícias:

Não é compreensível que a uma profissão tão decisiva para a formação das novas gerações, ou seja, para o futuro do país, não sejam conferidas a dignidade e as condições de trabalho que merece. Um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores“, defendeu, sustentando ser necessário tornar “a profissão mais atrativa par aos jovens”, mas também “ser criteriosos e exigentes na sua seleção”.

“um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores, desde a sua formação inicial, até ao seu recrutamento e profissionalização. Temos de tornar a profissão mais atrativa para os jovens”, afiançou, reiterando que “se não o conseguirmos, vamos enfrentar no futuro uma grave carência de professores”.

Não sei bem se isto quer dizer que irão reformular os cursos de formação de professores (na linha do “aproveita-se tudo”, em especial se for a partir de projectos de pseudo-voluntariados, como algumas iniciativas que por aí apareceram) se querem “localizar” (leia-se, municipalizar) o recrutamento dos docentes à imagem do que já acontece com os chamados “técnicos especializados”, se pretendem criar um novo modelo de profissionalização. Também não é claro que o “rigor” e “critério” na selecção dos professores significa um regresso à PACC ou se é apenas conversa fiada, tudo se resolvendo com a atribuição de mais poderes aos directores para recrutar (rigorosa e criteriosamente, claro) os professores ao seu preceito.

Quanto ao “tornar mais atractiva para os jovens” a profissão docente não sei se tem como reverso torná-la mais detestável para os “não-jovens” ou propor a troca (que alguns defendem por aí, talvez pensando que não chegarão a “velhos”) de mais uns 100 euros à entrada por menos 200 ou 300 à saída. Por outro lado, na sua enorme miopia, Rui Rio ainda parece não ter entendido que a “grave carência” de professores já existe. Pior, não percebe a sua causa.

O homem chega ao ponto de dizer que “reduziram o número de alunos por turma, mas de forma tão atabalhoada, que agora se debatem com a falta de professores em alguns grupos de docência”, não se percebendo se defende que o número de alunos deve aumentar, como já defendeu o ex-presidente do Conselho de Escolas, que não tardou no aplauso a este discurso. Ao que parece, acham que faltam professores em Português, T.I.C., Francês ou Geografia porque o número máximo de alunos por turma desceu num par, mesmo se repetem que o número global de alunos está em queda, no que é um paradoxo que não lhe(s) ocorre à inteligência. Tenhamos esperança que, afinal, Rio defende a redução de alunos por turma, mas não de forma “atabalhoada”, quiçá, apenas em algumas disciplinas.

Para os que estão na carreira, com décadas de serviço, nada se diz de verdadeiramente concreto quanto à “dignidade” e às “condições de trabalho” merecidas porque a primeira é amesquinhada a cada esquina por gente ligada ao PSD, que entre outras continuidades defende a manutenção do modelo único de gestão escolar e do modelo de avaliação do desempenho quando declara de modo demagógico que “considerá-los todos como iguais é, neste como em todos os demais setores da nossa sociedade, não só desvalorizar o mérito e a competência, como ignorar um elemento absolutamente decisivo para o sucesso, que é o brio profissional”. A verdade é que com um sistema de quotas como o que temos e com a responsabilidade pela sua implementação entregue a comités que são escolhidos a dedo num órgão seleccionado, no essencial, pel@s director@s como é o Conselho Pedagógico, dificilmente o “brio profissional” e a “dignidade” se conseguem rever, como se tem constatado ao longo desde últimos anos, onde imperaram a arbitrariedade, o compadrio e, em tantos casos, a pura e simples incompetência.

Mas Rio nada tem contra tudo isso, porque de Educação nada percebe (nem está interessado em perceber, pois a encara apenas na perspectiva da “racionalidade” economicista) e o seu principal conselheiro nessa matéria é um dois principais defensores deste modelo de gestão escolar, da municipalização da Educação e do actual sistema de avaliação docente, mais ou menos detalhe purgativo. Basta ver como o PSD votou nestes seis anos (que Rio considerava horríveis na Educação), sempre que ao Parlamento chegou alguma proposta no sentido de alterar o “paradigma” existente.

Portanto, em relação aos professores de carreira, em especial aos que estão desanimados e a quererem sair o mais cedo possível, nenhuma esperança é dada que algo de significativo mude. Por mim, fiquei perfeitamente esclarecido e não adianta mandarem os do costume “aclararem” a posição do líder, garantindo estima imorredoira aos docentes que têm aguentado com tudo e mais alguma coisa nos últimos 15-20 anos, se nada têm para lhes oferecer sem ser mais do mesmo.

(há uma expressão inglesa que se aplica maravilhosamente a Rio sempre que fala de Educação e que é thick as a brick)

6ª Feira

A falta de professores que muitas pessoas não viram – pelos vistos, a começar pelas dezenas de membros do Conselho de Escolas – dá depois origem a propostas de “soluções” que revelam até que ponto se anda longe da realidade quotidiana da sala de aula. Para além da interiorização da lógica do “não há dinheiro” por parte de quem deveria conseguir defender o interesse das “escolas” como outros defendem o de outras organizações bem menos influentes na sociedade, temos ideias do caraças como reduzir as horas das disciplinas nas quais faltam professores ou em outras quaisquer que permitam “libertar” braços para a estiva ou então diminuir as horas atribuídas às direcções de turma. Coisas do género “há falta de ligares nas prisões? então reduzam-se os crimes que implicam prisão ou amnistiem-se os mais bonzinhos” ou “há falta de médicos de certas especialidades no interior? decrete-se que essas doenças se remedeiam com paracetamol”. Faltam professores de Francês? Acabe-se com a disciplina e fique-se pelo Castelhano ou o dialecto mais comum na região.

A ânsia de que se querer mostrar soluções, em regra de curto prazo, míopes, mas que por vezes acabam por ficar permanentes, raramente é boa conselheira, em especial quando as pessoas perderam alguma noção das realidades e ficam encapsuladas nos seus interesses micro-corporativos. Só assim se entende que tenhamos “líderes” de escolas a afirmar que a questão das dimensões das turmas só tem a ver com o interesse dos professores se esforçarem menos, como se isso não fosse do interesse primeiro dos alunos. Há mesmo “especialistas” que fazem “estudos” que dizem que turmas mais pequenas reduzem a socialização dos alunos, não conseguindo ver que durante 50 minutos as interacções professor/alunos se reduzem à medida que as turmas se sobredimensionam, acabando por colocar em causa aqueles princípuos defendidos apenas quando dá jeito da diferenciação pedagógica e da promoção das aprendizagens individualizadas.

Estamos com o governo de saída, pelo que nada de relevante é de esperar de qualquer discussão sobre uma escassez de professores que existe há um bom punhado de anos (e que eu testemunhei como professor mas também como encarregado de educação), para além de promessas, demagogia e muita asneira. Como aquela de reduzir as horas das disciplinas bienais de opção do Secundário (cf. José Eduardo lemos no seu mural do fbook), como se isso permitisse, por exemplo, solucionar a falta de docentes de grupos como o 300 (Português). Ou de T.I.C., uma disciplina útil, mas criada em cima da inexistência de docentes qualificados para o ensino dos rudimentos da coisa. Ou de Geografia, uma disciplina que ganhou bastante nas reformas curriculares dos últimos vinte anos, mas que mesmo ao nível das ofertas de escola fica a partir do primeiro período quase sem candidatos.

Há discussões que só vale a pena manter para que não nos façam passar por parvos ou por imprevidentes, quando há anos que se avisava para isto. Discussões que assumem contornos de caricatura quando se lê que não é verdade que muitos professores abandonaram o ensino por causa do peso dos horários lectivos, nomeadamente quanto ao número de alunos a ter de leccionar devido à dimensão das turmas e à escassa carga horária semanal de diversas disciplinas.

Discussões que às vezes servem para tentar lembrar a certas pessoas que há funções e organismos que não existem apenas para se satisfazer o ego. E que as “soluções” poderiam começar (ando chato nisto) por mobilizar mais de 3000 professores que estão nas escolas e, sem ser por razões de saúde, não dão aulas ou têm apenas uma ou duas turmas. e depois dizem que os que têm 6, 8 ou 10 não têm razão para estar desanimados e desgastados.

Nunca fui daqueles que embarcou na onda populista de criticar os suplementos remuneratórios dos elementos das direcções, mas tenho muitas reservas quanto à forma como, em cima disso, ainda se usa e abusa dos créditos horários disponíveis; e que não me venham sempre com o “muito, muito trabalho” que eu pergunto logo se foram obrigados a aceitar o lugar e se em muitos casos não fazem de tudo para lá chegar e de lá não sair. Se têm tempo para assumir outras funções fora das escolas, certamente teriam um tempinho para regressar às salas de aula. em defesa do “interesse dos alunos” que tanto proclamam.

Este Mês, No JL/Educação

Na sequência da pré-publicação de um excerto deste texto aqui no blogue, recebi um mail com esclarecimentos do Luís Catela Nunes da Nova SBE a explicar porque haveria discordância entre os números que eu uso e os que a sua equipa usou no estudo. Até compreendi uma parte, mas depois reparei que em parte das referências que ele usou do meu texto, remetia para páginas dos Perfis do Aluno e do Docente para 2018-19 que não foram as que eu usei. Por isso e até melhor esclarecimento, mantenho o que escrevi e um destes dias publicarei o resto das reservas que lhe enviei sobre a forma de calcular os potenciais horários em falta.

Nesta versão, já consegui corrigir duas ou três gralhas da publicação original, porque ando cansado e a revisão só tem sido feita a posteriori pel@s leitor@s.

A estranha falta de professores

As últimas semanas foram agitadas pelo anúncio em termos dramáticos da existência de uma escassez de professores, a acentuar-se fortemente ao longo da próxima década, ao ponto de, de acordo com estudo encomendado pela Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) à Universidade Nova de Lisboa, serem necessários quase 35.000 novos professores para garantir que todos os alunos terão aulas.

A agitação espantou-me a vários níveis, alguns deles contraditórios. O primeiro deles porque, até há não muito tempo, ouvi e li declarações no sentido contrário. Em Setembro de 2012, o então ministro Nuno Crato declarava, em entrevista com destaque de primeira página no jornal Sol, que a “redução de professores é inevitável nos próximos anos”. Perante a projecção de descida do número de alunos previa que “no futuro imediato vamos continuar a assistir a necessidades muito limitadas de contratação. Um par de meses antes, o primeiro-ministro Passos Coelho, numa intervenção que causou prolongada polémica, considerou que Portugal tinha “professores excedentários” e chegou a recomendar-lhes para “abandonarem a sua zona de conforto” e a “procurarem emprego noutro sítio” (Correio da Manhã, 18 de Dezembro de 2011). Só que, nesse momento e desde 2007 (quando foi aprovada a versão do Estatuto da Carreira Docente do primeiro governo de José Sócrates), já se tinham reformado 18.000 professores.

Numa lógica de fazer “mais com menos”, devido a pretensas imposições da troika, limitou-se a possibilidade de os horários dos professores terem horas extraordinárias e considerou-se o momento ideal para implementar a chamada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades criada por Maria de Lourdes Rodrigues, alegadamente com o objectivo de selecionar os melhores candidatos a professores. A nova polémica teria o seu auge no período de 2013 a 2015, acabando por marcar um período em que muitos daqueles candidatos optaram por seguir outras vias profissionais, até porque as regras de contabilização do tempo de serviço para efeitos de remuneração e de aposentação passaram a ser de tipo draconiano.

Entretanto, os dois congelamentos do tempo de progressão na carreira (o primeiro de Agosto de 2005 a Dezembro de 2008 e o segundo de Janeiro de 2011 ao final de 2017), as progressivas exigências impostas aos docentes dos quadros em termos de avaliação de desempenho e os entraves à progressão (da criação dos “titulares” ao regime de quotas) e a forma pouco clara como se procedeu ao recrutamento “extraordinário” de novos docentes, tornaram a profissão cada vez menos atractiva, fomentando a aposentação precoce de muitos docentes e a crescente redução do número dos alunos dos cursos de formação inicial de professores. Em Junho de 2016, seria a vez do então primeiro-ministro António Costa, sugerir aos professores de Português sem colocação, que a procurassem fora do país (Expresso, 13 de Junho de 2016). Curiosamente, este é um dos grupos actualmente com maiores dificuldades de recrutamento de novos docentes para as necessidades existentes.

O que significa que a classe docente viu agravados fenómenos de erosão a montante e jusante, que se aliaram a um previsível envelhecimento dos que se mantiveram em exercício. No entanto, ainda em 2018 e 2019, havia quem garantisse que havia professores mais do que suficientes. A investigadora Isabel Flores, que produziu em 2018 um estudo para a DGEEC, calculava que 30.000 professores se iriam reformar nos 15 anos seguintes, mas garantia que não havia urgência no recrutamento. Em peça no site Educare (2 de Janeiro de 2018) afirmava-se que a “contratação de novos professores não será necessária até perto de 2030, altura em que previsivelmente será justificável o ingresso de um total de mais 3000 professores”. Em artigo no Público (2 de Julho de 2019) convidava-nos a que “desmontemos então a ideia de urgência por falta de professores”. Semanas depois, o líder do PSD, Rui Rio, ao criticar o alegado excesso de funcionários públicos, afirmava que “por exemplo, temos professores a mais, infelizmente” (Jornal Económico, 25 de Julho de 2019).

Tudo isto, enquanto eu, enquanto director de turma, tinha passado parte do ano com falta sistemática de docentes para 4 disciplinas, algo que se viria a repetir no ano seguinte, devido a procedimentos de recrutamento e contratação mais preocupados com poupanças hiper-residuais em termos orçamentais do que com o interesse dos alunos. A situação estava, já então, longe de ser excepcional, na zona de Lisboa e Vale do Tejo, mas não só. Os professores começavam a não chegar às escolas, as reservas de recrutamento a não ter candidatos em vários grupos disciplinares e ao nível das ofertas de escola a começarem a surgir pessoas sem qualificação profissional ou que que regressavam à docência após anos de afastamento.

Em textos de blogues denunciava-se a situação concreta e apresentavam-se números e testemunhos. O ritmo de aposentações reduzira-se entre 2016 e 2018, mas a partir de 2019 voltaria a subir e mesmo as previsões mais simples (baseadas na idade legal da reforma, como fez o meu colega Arlindo Ferreira) davam-nos a conhecer que nos primeiros anos da década de 2020 se aposentariam 10.000 professores.

E é aqui que entronca o meu segundo motivo de espanto com a agitação que parece ter acometido algumas instâncias mediáticas e oficiais. Que os professores estão a escassear para vários grupos disciplinares, em especial para substituições em casos de baixa médica, não é novidade nenhuma. Assim como é mais do que evidente que o envelhecimento dos professores segue, infelizmente em minha opinião, o ritmo normal de um ano cronológico a cada novo lectivo. O que significa que nada disto é estranho, imprevisível ou surpreendente. Mesmo com a redução de alunos na ordem dos 15%, a diminuição de mais de 30% dos docentes em exercício conduziria inevitavelmente a uma assimetria insanável. Agravada com o perfeito fracasso da política de “bolonhização” da formação inicial de professores em cursos de tipo generalista e sem crédito perante a opinião pública.

O que o presente estudo da equipa da Nova SBE faz é apenas retratar uma situação conhecida com recurso a algum aparato estatístico, emprestado pela econometria, sem que se possa falar em verdadeira novidade em termos de substância. Para além de que apresenta números que nem sempre são conformes às estatísticas oficiais conhecidas publicamente. Por exemplo, na página 54 do estudo refere-se que existiam 1.131.733 alunos no ensino público em 2018-19, mas se consultarmos os dados referentes a esse ano do Perfil do Aluno publicado pela DGEEC, encontramos (p. 22) um total de 1.221.023. E quanto ao número de professores, na página 55 do estudo é-nos apresentado um total de 120.369 professores em exercício no ensino público em 2018-19, dos quais 88.240 dos quadros de escola/agrupamento, mas no Perfil do Docente para esse ano (igualmente publicado pela DGEEC) encontramos um total de 117.478 na página 25 e de 116.830 na página 71. Quanto a professores do quadro de escola/agrupamento, o estudo da Nova refere 88.240 mais 15.950 dos quadros de zona pedagógica, mas no Perfil do Docente (p. 71) indica-se que existiam então 96.263 docentes dos quadros; quanto a contratados o estudo menciona 16.179, enquanto a publicação oficial da DGEEC vai pouco acima dos 10.500, numa diferença bastante substancial.

E as imprecisões não se ficam por aí, mas este não é o momento para fazer uma recensão completa do estudo e muito menos a sua revisão científica, sendo mais importante que nos concentremos em outras questões, nomeadamente na central: há ou não falta de professores? E, de forma acessória, no problema de saber se a situação é resolúvel no curto e médio prazo.

A resposta à primeira questão é afirmativa: há falta de professores em vários grupos disciplinares desde o início do ano lectivo e em vários outros quando é necessário substituir quem coloca baixa médica ou se aposenta.

À segunda questão a resposta também é afirmativa se tomarmos o problema como prioritário. Ajudaria que se colocassem docentes nas escolas o ano inteiro, com salário completo, mesmo que estejam a substitui colegas com redução de horário ou inicialmente apenas existam horários incompletos, pois só assim se torna racional fazer deslocações de centenas de quilómetros para leccionar. E ajudaria muito tratar com alguma atenção quem ainda está nas escolas, com o desejo de sair o mais depressa possível, reduzindo-lhes o esforço exigido com uma miríade de irrelevâncias e redundâncias

Faltam professores ou faltam condições para se ser professor?

A Ler

Ainda há quem tente explicar e só posso agradecer – por várias discordâncias que tenha em relação a várias matérias e como são tratadas – ao Público por ainda lhes permitir ter voz. Basta comparar com outras publicações que por aí andam para se perceber a diferença.

Alguém se admira de que os professores escasseiem com este sistemático mecanismo de “assassinato”? Quem se espanta quando, hoje em dia, poucos jovens querem formar-se para exercer a docência nas escolas públicas portuguesas? Só os parvos ou os interesseiros podem mostrar espanto.

Assim O Defunto Nunca Mais Morre

É raro discordar do Paulo Prudêncio nestas matérias da Educação, mas hoje foi uma das excepções. Porquê? Porque acho que uma grande parte dos professores assimilou o “discurso dominante” sobre a falta de professores e decidiu, naquela do porreirismo nacional, evitar confrontar as coisas de frente, com medo de eventuais consequências do choque frontal.

Só algumas ideias curtas:

  1. Há 15 anos restringiu-se o acesso à docência a quem tivesse profissionalização e foram criados cursos de formação inicial afunilados apenas para a dita docência. E chegou-se a defender o conceito de professor “generalista” para dar aulas a todas as disciplinas até ao 6º ano. Era o projecto do SE Lemos. Tudo isso fracassou, porque a formação inicial de professores é uma área pouco atractiva, atendendo a tudo o que envolve o muito precário acesso à carreira, com condições vergonhosas para os professores contratados que preenchem necessidades temporárias ou são chamados para substituições.
  2. Mas continuaram a existir cursos de Línguas e Literaturas, de Química, de História, de Geografia, de Biologia. Quando comecei a dar aulas, foi assim que me iniciei e depois fiz a profissionalização. Foi assim que me tornei professor. E dezenas de milhar como eu. Nada impede que se volte a abrir a docência a quem vem de uma formação disciplinar específica e não apenas dos desacreditados e pouco povoados cursos de formação inicial de professores. Basta ver a evolução do número de formados no Ensino Superior e Politécnico. Até elevaria o nível médio dos conhecimentos científicos dos futuros docentes, embora se viva em tempo de “aprendizagens essenciais”.
  3. O recurso a “horas extraordinárias” para “tapar” a falta de professores é legítima, desde que as pessoas aceitem. Muita gente não está em condições de o fazer, por motivos físicos ou mesmo de resistência psicológica. Quem não entende isto, nem deveria começar a discutir o assunto. A saída é, de acordo com a lei, não aceitar ou nem dar essas aulas, pois a tal não pode ser obrigado. Não é preciso qualquer greve para isso. Chegaria às organizações sindicais esclarecerem isso junto dos professores e apoiá-los nas situações de tentativa de pressão abusiva das direcções.
  4. Se há necessidade de recorrer a horas extraordinárias (as que foram proibidas – lembram-se? – há coisa de uma década, exactamente para poderem sobrar mais horas para os professores que ficavam fora dos concursos) para conseguir ter alguém a leccionar é porque não há candidatos a esses horários. Pelo que… não será por faltarem a essas aulas “extraordinárias” que algum colega ficará por colocar. Dá para entender isso? Sim, é pena que os alunos fiquem sem aulas (como os da minha DT de há 2 e 3 anos que já então chegaram a ficar sem nota em duas disciplinas por falta de número suficiente de aulas para o efeito), mas esse é um problema cuja resolução não pode passar por sobrecarregar quem já está em situação de burnout. Quem estiver em condições e quiser, aceita. Quem não quiser e não conseguir, não deve aceitar, nem sentir o dever de cumprir o que é abusivo.
  5. Soluções? Há, mas não na base de remendos manhosos destinados a reduzir ainda mais os requisitos académicos para se ser professor. Passam por tratar de forma digna quem dá os primeiros passos na docência e, em simultâneo, não desprezar quem dela fez a sua vida profissional. Só assim será “atractiva” à entrada e permitirá adiar as saídas, se não for activamente “repulsiva” como agora é.

A responsabilidade pela actual situação é das equipas ministeriais (e respectivas cortes de conselheiros e especialistas) que amesquinharam a docência, recorreram a estratagemas sem sentido para condicionar o acesso ao seu exercício e consolidaram situações de proletarização material, desqualificação simbólica e desvalorização académica dos professores.

Querer agora que os professores resolvam um problema que não criaram, acerca do qual avisaram a tempo e contra cujas causas lutaram, é quase o mesmo que pedir a prisioneiros de um campo de extermínio que ajudem os seus kapos a reparar as canalizações do gás.

Estou a exagerar e a hiperbolizar?

Podem crer que sim.

Porque ou bem que o defunto morre ou bem que o tratam como deve ser, sem ser na base do paracetamol, caldos de frango de aviário e paninhos quentes na testa.

Para Uma Colecção De Cromos Iluminados

Julho de 2019:

“Temos professores a mais, infelizmente”. Rio defende o “redimensionar” da administração pública

Na mesma altura, Isabel Flores (especialista, claro, daquelas que tem feito muitos estudos, bem próxima de notáveis ex-governantes, com bastante mercado em fundações e posição destacada no ISCTE):

Plano de Emergência: no futuro não teremos professores. A sério?

Mentir com números é fácil, mas sem eles é muito mais fácil. Desmontemos então a ideia de urgência por falta de professores.

E para além de serem muitos, eram maus, escrevia o especialista instantâneo e alegado “investigador” Homem Cristo, que uns anos depois, de forma oportunista, afirmava ter sido incompreendido.

São muitos anos a aturar m@rd@s destas, pázinhos!

Uma Ideia Absolutamente Abstrusa!

E que tal tornarem a profissão docente mais atractiva para quem ainda está nas escolas e não é queridinh@ da direcção e vive sentado à conta do “crédito horário”?

Eu percebo que é um conceito absolutamente inovador, mas… tem o seu potencial para reduzir um pouco o êxodo antecipado. Eu sei que o que está na moda é “incentivos” para os mais novos e não estou contra eles. Mas estou farto de culparem os “velhos” de tudo, mas ser a eles que tudo pedem (salvo as tais excepções acima assinaladas).