Os Professores É Que São Mesmo Doutores da Mula Ruça

Porque os outros são toda uma outra coisa. Assisti, em postura parental condimentada com comentários rasantes, ao desempenho de uma shôra doutora dentista que de profissionalismo tem zero menos, desde negar ter feito o que a vi fazer a uns 15 minutos de comentários com a assistente sobre as férias, com detalhes dignos de mesa de esplanada,  não esquecendo a arrogância do “eu não faço isso” (aquilo que eu vira fazer) enquanto a petiza ali estava de boca aberta a assistir. Não sendo a primeira vez, foi a última. 

Bigorna

(e nem vale a pena falar no atraso do atendimento… parece que, afinal, há que possa moldar o tempo aos seus interesses e o mexilhão que se lixe, mesmo pagando por inteiro…)

A Necessidade Da Memória Em Tempos Digitais

Regressei ao mundo real e, como seria de esperar, foi duro. Porque há coisas por pagar, outras por levantar, não sei mais o quê por resolver, tudo acrescido do facto do choque térmico de quase 10 graus em poucas horas.

Para começar a resolver algumas coisas ainda hoje, lá fui levantar duas encomendas que estavam em espera (por uma vez não eram nos ctt) e que necessitavam de códigos para ser detectadas, mesmo se uma estava bem visível do balcão onde eu me encontrava. Claro que tudo segue um protocolo e a jovem funcionária (vintes e poucos) deve ter tido formação, mas ai-jesus que não sabia de nada e lá chamou o colega. O colega queria ver a mensagem de confirmação que me tinha sido enviada. Perguntei-lhe se não chegava que eu lhe dissesse o código que lá vinha (7 dígitos, para um tipo arcaico como eu fixam-se em poucos segundos e tinham sido vários os minutos que passaram enquanto observava a funcionária incapaz de lidar com os procedimentos que não soubera memorizar. Claro que saberia clicar nos ícones e até reconhecer palavras, mas ficou evidente que fora incapaz de memorizar a sequência das operações.  Desconfiado, o que a veio auxiliar lá inseriu o código que lhe disse, não sem antes comentar que não lhe parecia normal para uma encomenda online. Azar, estava certo e deu com a coisa. Uns vinte minutos depois de tudo ter começado, lá me deram o que estava à minha vista, num expositor de encomendas com a identificação bem à vista. Ainda bem que pagara previamente ou nem tinha conseguido almoçar em tempo útil e sabeis como isso me incomoda.

No segundo caso, novamente uma jovem funcionária (vintes um pouco mais avançados) capaz de ir buscar o que era necessário onde quer que estava, depois de alguma luta para inserir o meu nome (o raio do apelido é chato para quem só espera por silvas) mas absolutamente incapaz de pelos seus meios produzir a factura do produto para que eu o pudesse pagar. Pedido de ajuda a uma outra colega, mais graduada e despachada, que deixou as coisas mais ou menos alinhavadas até eu perceber que estava a ser facturado o dobro do valor devido por duplicação das quantidades (pelos vistos cada uma terá inserido o produto de forma autónoma). Vai de refazer todo o processo e eu a explicar à minha petiza como a informática ajuda muito (até porque sou utilizador registado, com todos os dados já lá guardados na base) se as pessoas a souberem usar E tiverem capacidade para memorizar os procedimentos correctos a adoptar.

E é no quotidiano que se percebe que a imensa facilidade em descarregar e usar apps no telemóvel ou publicar as férias, festas e felicidades nas redes sociais, podendo corresponder a “competências digitais”, está longe de satisfazer necessidades básicas de um quotidiano laboral que exige, apesar de todas as modernidades, o mínimo dos mínimos de alguma malfadada capacidade de memorização.

Mas eu é que estou velho e não percebo mesmo nada disto.

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Porque @s Professor@s, Em Cima De Todo O Resto E Apesar De Estarem Velhot@s (Dizem A OCDE E O CNE, Como Se Nós Mesmas O Não Soubéssemos E Fosse Preciso Explicarem-nos), Ainda Têm De Ser Excelentes Condutor@s

Do mural da Fátima Inácio Gomes:

Momento de serviço público 

Não sei se a generalidade das pessoas sabe como se processa alguma da logística dos exames nacionais. Sintetizando, os exames são levados no dia da prova, pela polícia, entregues a um responsável único, nomeado, e guardadas num cofre, até à hora da realização. Depois voltam para o cofre, ao fim do dia são levantadas, novamente pela polícia, que as leva para o agrupamento de exames do distrito, onde são guardadas num cofre.

No dia marcado, os corretores vão levantá-las. E levam-nas para casa 

A caminho de casa, com um envelope com 50 exames, voltei a pensar “e se me acontece alguma coisa pelo caminho?”. Não pensei com receio de me magoar a mim, ou no carro, naquele momento pensava “como se resolveria isto se acontecesse algo às provas?”. Sim, acidentes acontecem…

A coisa não é simples, caso acontecesse: aqueles alunos, sem culpa alguma, seriam prejudicados. Mesmo permitindo-lhes repetir a prova, concorrer na mesma à primeira fase, como compensar o desgaste de terem de passar outra vez pelo exame? como garantir que as condições fossem iguais? garantir que não correria pior que o outro? ficar sempre a dúvida de que o “outro” estaria melhor?

Mas é isso… há todo aquele aparato de segurança e, depois, estes exames ficam assim entregues, nas mãos de pessoas que os levam para casa. Eu nunca mais os tiro de casa até à data de os devolver (e lá vou eu no carro a pensar no mesmo). Tenho receio de águas e outros acidentes. Já tive as miúdas pequenas a quererem riscar os mesmo… agirão todos os corretores da mesma maneira?

Sim, poderia resolver-se isto: os corretores corrigiriam nas escolas ou no agrupamento de exames… mas isso implicaria um horário fixo de trabalho. Eu adoraria! não trabalharia à noite nem ao fim de semana e feriados. Mas isso implicaria terem de dar mais tempo para a correção… não poderia estar, como ontem, das dez da manhã até à 1:30 da noite a corrigir, porque me propus corrigir uma questão inteira dos 50 exames (sim, uma! é o que dá ser professora de português…). Isto tem de estar pronto antes da 2ª fase… e assim se ganha tempo…

Gostaria mesmo de saber se nunca aconteceram, neste anos todos, acidentes…

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Atrofia Democrática Ou Apenas Medo De Perder “Espaço”, Negócios, ETC?

Há uns meses que um grupo de professores dinamizado, entre outros, pelo Maurício Brito, tem o projecto de submeter os dados “vendidos” pelo Governo sobre o custo da recuperação integral do tempo de serviço docente a um exame especializado. O próprio Maurício fez os seus cálculos, que funcionam como uma boa base de trabalho (e foram entregues no Parlamento quando da audição da Comissão Representativa da ILC), mas é algo que merecia um aprofundamento maior, por quem tem mais conhecimento deste tipo de meandros.

E então começaram a fazer-se contactos a vários níveis, de empresas reconhecidas na área da auditoria a investigadores universitários na área da Educação, ficando claro que o estudo seria pago e não se estava a pedir uma “borla” fosse a quem fosse. De um modo que não posso dizer inesperado, houve contactos que ficaram sem qualquer resposta e outros que, por esta ou aquela razão, optaram por recusar de forma mais ou menos cortês realizar tal estudo. Claro que se continuará a insistir… até porque os sindicatos neste particular são tão rigorosos na forma de apresentar as contas como o ME (não chega apresentar um número final, sem especificar contas, critérios, metodologias), mas percebe-se que estamos neste momento bem pior do que nos tempos de Sócrates. Porque em 2009, por exemplo, percebia-se um aroma de fim de regime e o Governo de então era uma ilha cercada. Agora, em 2019, com a geringonça a blindar de um lado, um PSD inócuo e um CDS-não-me-comprometam a fazer de muro disfarçado do outro, a fortaleza é quase inatacável.

Mas ainda há gauleses irredutíveis…

 

Asterix-26

5ª Feira

O homem que decidiu que o aeroporto ia para o concelho onde foi vereador recebe a recompensa de ir para o Parlamento Europeu amealhar uns tostões amplos para os tempos futuros que ele ainda tem muita vida pela frente. Razão têm os que vão saindo de um dos pés da geringonça, que era suposto manter alguma moralização nisto tudo mas prefere fazer umas trocas e pedir, após mais de 3 anos, exonerações a 3 meses do fim do mandato.

rapatachos

O Negócio da Inclusão

Entre 75 e 100 euros (conforme a data de inscrição), para uma “formação” das 10 às 17.00 (certamente com quebras para café e almoço), com direito a “certificado de presença” a quem estiver em 85% das horas (?).

Eis um excerto da apresentação/promoção:

Objetivos

  • contextualizar a Educação Inclusiva à luz do Decreto-Lei nº 54/2018 e da Unesco (2017);
  • relacionar Diferenciação Pedagógica e Educação Inclusiva;
  • refletir sobre modos possíveis de responder à diversidade em sala de aula: como se aprende? (Glasser) e Perfil Educacional de Turma (Gardner);
  • conceptualizar a Diferenciação Pedagógica à luz do modelo de Tomlinson (2008);
  • analisar criticamente um modelo de planificação com foco na diferenciação pedagógica.

Conteúdos Programáticos

  A. Contextualização da Educação Inclusiva (Decreto-Lei nº 54/2018 e Unesco, 2017)
– Clarificação conceptual
– Princípios orientadores
– A diferenciação pedagógica como medida universal
  B. Responder à diversidade em sala de aula: ponto de partida
– A pirâmide de Glasser
– As inteligências múltiplas de Gardner
  C. Diferenciação Pedagógica
– Premissas de base
– Desconstruir mitos
– Diferenciação Pedagógica: Que desafio(s)?
– Ideias centrais: currículo, aluno, professor, avaliação
– Modelo de Diferenciação Pedagógica segundo Tomlinson (2008)

Metodologia de cariz prático-reflexivo com:

  • Exposição teórica dos conteúdos programáticos;
  • Espaço de debate e reflexão participada em torno dos diferentes conteúdos programáticos.

Lamento imenso, mas nem em sonhos dos mais desvairados iria pagar para desempoeirarem apontamentos ou para colocarem a render powerpoints de seminários.

finger

 

Flexibilidade Comercial

Depois de uma mentora do pafismo educacional publicar um manual para as flexibilizações e autonomias num grande grupo editorial, é a vez de me chegar a publicidade a um outro manual (mais virado para as “práticas”) do seu colega mentor da coisa no grupo editorial concorrente. Fizeram bem, dividiram-se e assim conseguem o melhor de dois mundos a duplicar. Chamem-me puritano, qualquer coisa assim, mas há anos e anos que critico esta forma de estar por dentro de tudo e ainda fazer a festa cá fora. Quando se criticam tanto os professores por questões menores, fica todo o campo aberto para os especialistas serem consultores do poder político, neste caso do ME, e delinearem os traços de políticas que depois aparecem a explicar em publicações de tipo comercial e não emanadas do próprio ministério com quem colaboraram. Sim, eu sei que os tempos estão para organizar a vidinha como se pode e para serem arquivadas todas as questões de tipo “ético” (ouvi uma advogada de um recente arguido que beneficiou de arquivamento da queixa contra si a dizer claramente que as questões éticas não são da competência dos tribunais e a verdade é que tem razão), mas isto começa a causar um certo incómodo, porque se repete uma e outra vez e tem quase sempre o mesmo “círculo” a desenvolver estas belas práticas. A sério, quase consigo ver já os nomes no frontispício dos manuais sobre Educação “Inclusiva” que devem estar por aí a aparecer, a ver se apanham a boleia das vendas natalícias de fim de ano.

smart-ass