Eu Estou Desde Setembro À Espera De Uma Resposta…

… e mesmo com relatórios periódicos de uma situação de abandono escolar, assumida pelo encarregado de educação, me é dado qualquer feedback. Será só agora por um dado aluno não aparecer, sabendo eu que não tem meios para o fazer, que a situação é grave?

Se as comunicações diminuíram? Então talvez seja o momento certo para irem despachando os casos acumulados nos meses anteriores, sem os arquivarem de forma sumária ou fazerem “contratos” informais de conduta (daqueles de “boca” que ninguém arrisca assinar) em vez de reclamarem a sério meios para agir com eficácia.

Professores desafiados a procurar sinais de perigo durante as aulas online

Comunicações às comissões de protecção de crianças e jovens desceram para metade. Uma ficha ajustada ao período de pandemia covid-19 foi enviada às escolas para facilitar a comunicação de eventuais situações de perigo.

Avestruz

Por Matosinhos (E Mais Além)

São 90.000 euros para:

AQUISIÇÃO DE SERVIÇOS ESPECIALIZADOS PARA CONCEÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO, MONITORIZAÇÃO E AVALIAÇÃO DE UM PROJETO DE INOVAÇÃO PEDAGÓGICA PARA EB1 DO PADRÃO, DE COMBATE AO INSUCESSO ESCOLAR

Por 46 meses até que pode não parecer muito, mas é, pois trata-se apenas de uma escola. Pelos vistos, as autarquias não têm meios humanos para tratar destes assuntos, mas dinheirinho não lhes falta.

O insucesso escolar dá de comer um pouco por todo o país. A Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central tem 60.000 euros só para propaganda do que vai fazer.

Aquisição de serviços de Promoção e divulgação do Programa Intermunicipal de Combate ao Insucesso Escolar

Mas há tanta mais coisa… como contratos de prestação de serviço por dois anos e mais por valores mensais do 1º escalão da carreira docente (ver o caso de Mora). Mas ainda bem… só é pena que as escolas não tenham esses meios humanos nos seus quadros.

Só mais uma… a Comunidade Intermunicipal do Ave por 69 dias de prestação de serviços, paga 55.000 euros com a seguinte descrição

No âmbito das políticas governamentais definidas para a intervenção ao nível das temáticas da educação, com as quais a CIM do Ave e seus Municípios constituintes estão alinhadas, tendo em vista a concretização das prioridades regionais e locais definidas no Pacto para o Desenvolvimento e Coesão Territorial, nomeadamente no que respeita à Prioridade de Investimento “10.1. – Redução e prevenção do abandono escolar precoce e estabelecimento de condições de igualdade no acesso à educação infantil, primária e secundária, incluindo percursos de aprendizagem, formais, não formais e informais, para a reintegração no ensino e formação”

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Mais 118.500 Euros Para Aqueles Senhores (Que, Por Acaso, Até São Conhecidos)

Para “Aquisição de serviços de Avaliação do Contributo do Portugal 2020 para a Promoção do Sucesso Educativo, Redução do Abandono Escolar Precoce e Empregabilidade dos Jovens para o Programa Operacional Capital Humano (POCH)”.

Reparem agora numa das empresas do “consórcio” ganhador e, muito em especial, na sua equipa. Mas podem também ir em busca do resto.

.Quem diz que o abandono escolar precoce não tem valor económico?

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Insucesso ou Abandono?

Por muito que nos queiram fazer acreditar no contrário, as regras de assiduidade nos cursos profissionais são dificilmente exequíveis para alunos que, em tantos casos, se distinguiam exactamente pela falta de assiduidade. E o mesmo se passa nas turmas “regulares”, já agora, com diversos alunos. Há quem opte pela ficção de aceitar tudo o que é justificação, para não aumentar o “abandono”, mas depois aumenta o insucesso porque os alunos nem aos momentos de avaliação (ou recuperação) vão. Os números do abandono penalizam mais a “escola”, mas os do insucesso reflectem-se mais directamente sobre os professores e as disciplinas. Há estratégias diferentes para lidar com as situações. Recentemente, conheceram-se dados sobre o aumento do “abandono”. Eu acho que ele não aumentou na realidade, apenas passou a não estar disfarçado ou diluído no insucesso. Porque há limites para a cosmética da falta de assiduidade dos alunos e apara a tolerância na aceitação de justificações que desafiam a plausibilidade ou o próprio respeito por quem aceita tais truques. E há limites para serem sempre os professores a assumirem a culpa pelo que não é, mesmo, sua responsabilidade.

Um dos nossos grandes problemas ao lidar com certos fenómenos educativos é acreditar em algumas representações legislativas ou estatísticas do que acontece na realidade.

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Isso Resolve-se Por Decreto

Nuno Crato está triste pelo facto de uma das suas criações mais infelizes – os cursos vocacionais no Básico – irem desaparecer. É daquelas coisas com que eu concordo, pois eram cursos completamente desajustados à idade dos alunos, promoviam a guetizações educacional e só funcionavam como medida de combate ao insucesso e abandono, porque as regras ou eram uma treta (avaliação) ou letra morta (assiduidade). Não é que CEF sejam muito melhores, mas os vocacionais desde os 13 anos eram um disparate e o abandono combate-se a sério criando condições exteriores às escolas para que os ambientes familiares tenham forma de acompanhar a vida escolar dos alunos e de a valorizar, por forma a que eles entrem pelos portões com crença em algo mais do que disparatar.

Diz Nuno Crato que assim o abandono escolar vai aumentar.

Depende.

A brincar, para as estatísticas, o abandono combate-se com habilidades burocráticas, como tem sido regra nos últimos 10-15 anos (pelo menos) e quer-me parecer que uma boa fatia dos ganhos nesse aspecto se deve à forma como a falta de assiduidade se disfarça, seja aceitando todo o tipo de justificação, seja pelo facto dos alunos estarem obrigados a estar na escola até aos 18 anos e valer de pouco sinalizar quando só lá vão para almoçar, conviver com os amigos, chatear quem passa e pouco mais. Para além disso, a imposição de procedimentos burocráticos sem sentido e de metas pela tutela para a diminuição do abandono, ligando isso à avaliação das escolas e mesmo dos recursos colocados à sua disposição (como se fez nos tempos de NCrato, mas não só), tem sido um convite para o desenvolvimento de imensas estratégias para cosmetizar o abandono, fingindo ser outras coisas. Por exemplo, quando há quem se espante com um grupo de alunos que, de forma consistente, tem classificação abaixo de 3 em todas (ou quase) disciplinas, a mim dá-me para um sorriso triste, pois esse espanto só revela uma imensa ignorância sobre esse tipo de “insucesso”. Esses são os alunos que nem se dignam ir às aulas e a coisa seria muito fácil de detectar pela DGEEC casos nos seus “relatórios” cruzasse esses resultados com os da assiduidade. Mas isto digo eu, que só vejo nos limites deste quintal.

Mas voltando aos vocacionais… desejo uma longa vida para o seu desaparecimento.

RIP