Escudos Humanos

Os dois miúdos têm sido carne para canhão ao serviço do interesse dos adultos, seja do pai na sua estreiteza de vistas, seja do secretário Costa na sua indisfarçável intolerância. Se isto se tivesse passado em disciplinas “menores” como História e estariam mais do que aprovados. Assim, teremos foguetório no quintal dos “tolerantes” com a “diversidade”.

Supremo nega recurso apresentado pelos pais dos alunos chumbados por faltas a Cidadania

As Duas Faces Do Pensamento Mágico

Há quem ache que uma aula por semana (por vezes apenas num semestre) de Educação para a Cidadania é a solução para um mundo mais justo e que essa será a chave para contrariar as restantes 167 horas da semana em muitas vidas. E há quem ache que essa mesma hora conseguirá destruir toda a belíssima educação familiar construída no recato do lar, em sã convivência com os valores mais tradicionais.

Como é óbvio, não sinto qualquer identificação com estas “tribos”, que andam a hiperbolizar argumentos e a cavar trincheiras, como se nada de mais interessante existisse para fazer ou em que pensar.

Vou leccionar a disciplina a duas turmas e vamos divertir-nos e tratar assuntos interessantes, esperando passar ao lado de qualquer salpico da parte idiota desta polémica que está a ter cada vez contornos mais caricatos e entrincheiramentos argumentativos com palavras e expressões como “quem tem medo” e “em defesa da liberdade” que até faz pensar que estamos perante mais do que 45-50 minutos semanais de uma criação curricular à medida de alguns, é certo, mas longe de ser uma qualquer pileca a anunciar o Apocalipse Social.

Deixem-se de tretas… a Civilização não está em risco por causa disto e nenhuma das claques a está verdadeiramente a defender, dando antes tristes exemplos de enorme intolerância cívica perante qualquer contraditório ou contrariedade. E querem ser estes adultos a dar exemplos à petizada, na escola ou em casa?

A Impossibilidade De Um Debate (A) Sério

A “polémica” em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento alastra, mas não melhora. A razão para isso, para além do atraso com que se faz e da hipocrisia reinante (ao ponto de enviar uma versão do post do outro dia para o Público), começa a deslocar-se para duas situações expectáveis, mas que nada contribuem para qualquer esclarecimento da opinião pública.

  1. A questão passou a ser apresentada como um conflito de “Direita/Esquerda”, com este ou aquele trânsfuga. O pessoal de “Esquerda” considera que a disciplina é imprescindível ao currículo da petizada, porque divulga os “valores da Democracia” (menos a verdadeira tolerância, pelo que se vai entendendo) e quem está contra ela, está contra os valores da sociedade do século XXI; da referida Democracia e é uma espécie de cripto-fascista, um beato clerical digno da Idade Média e, no fundo, uma besta. Embora estas classificações se apliquem a alguns defensores da posição em causa, parece-me “ligeiramente” excessivo”. De forma simétrica, os críticos da disciplina, apresentam-ma como se os temas estivesse na origem do declínio da sociedade ocidental, da instituição familiar e do sagrado binómio biológico que permite a reprodução da espécie e as boas maneiras no leito, considerando que quem admite que se leccionem temas como a “identidade de género” ou a “sexualidade” são um grupo de homo-lesbo-pansexuais com tendências para a bestialidade e uns “radicais” que querem transformar transformar as criancinhas numa espécie de ratinhos de laboratório de experiências socio-sexuais que as tornarão todas homossexuais ou, pior, hetero tolerantes ao conceito de “espectro” na definição das identidades e  atitudes sexuais/de género. Como no outro caso, lá haverá gente assim (que a há), mas não me parece que isso se aplique à generalidade dos docentes da disciplina. Já agora, as linhas orientadoras para a Educação para a Cidadania, que contempla a generalidade dos temas que agora levantam celeuma, são de 2012, revistas em 2013. Que, por exemplo, Passos Coelho, não saiba que foram aprovadas no seu governo, é apenas um detalhe que não admira acontecer a quem parece ter levado o cérebro lavado em rotações máximas.
  2. O debate começa a ser monopolizado por pessoal que alia a ignorância à arrogância, mas depois larga “postas de pescada” (de um lado ou outro) como se fossem pérolas ao povo que não passam de falsidades ou verdades pela metade da metade. Um caso, que vi por manifesta inépcia quando me sentei hoje no sofá em busca do final da etapa do Tour na televisão, foi o de um dos especialistas instantâneos em tudo e ainda o seu contrário que têm assento n’O Eixo do Mal, o programa mais bronco entre os que se levam a sério na análise da actualidade. O protagonista em causa era o inefável Pedro Marques Lopes, uma espécie de gajo de direita com gostos de esquerda (como o Pedro Mexia, mas em péssimo), que começou por afirmar que se tinha ido informar sobre os conteúdos da disciplina (tadinho, só agora se lembrou disso?), que achou por bem enumerar. Claro que os enumerou de forma errada e incompleta (esqueceu-se, por exemplo, talvez de modo cirúrgico, da “Literacia Financeira” na sua listagem) e daí partiu para uma “análise” que envergonharia qualquer pessoa com um mínimo de pudor e forma de ganhar a vida que não competisse com a Clara Ferreira Alves na ignorância presumida. Mas há quem possa achar que aquilo é mesmo assim e que, como ele disse, a História está repleta de temas obrigatórios de que se pode discordar como (pasme-se!!!) a leitura dos Esteiros. Que ele disse, de forma irónica, que poderia levantar reservas porque é do tempo do neo-realismo e que pode cheirar a “comuna” e tal. E só foi interrompido em tamanho disparate, pela colega CFA, não para lhe dizer que estava errado e que os Esteiros não são de leitura obrigatório, nem em Português, mas apenas para dizer que a obra em causa até é das melhores da corrente neo-realista.

Antes que devolvesse ao exterior o peixinho grelhado do almoço, desliguei e procurei não fazer a promessa de ir de joelhos a Fátima até n’O Eixo do Mal se deixar de confundir “opinião” ou “bocas giras” com o mais absoluto disparate, servido a gosto de um elenco de ignorantes armados de uma quase infinita pesporrência, garantinda por avença balsemânica.

Assim, é impossível qualquer debate vagamente racional sobre um tema já se si complicado. Mas como é na televisão que apresentou uma montagem mal amanhada da 1ª página do New York Times como se fosse real, já não espanta.

O Bloco Em Bicos De Pés

Isto de um tipo ouvir rádio enquanto conduz e gostar de saber algumas notícias faz com que se apanhe também com “debates” no Parlamento. Hoje, depois de mudar de estação perante o risco de regurgitar durante a intervenção da Ana Catarina Mendes, regressei e apanhei uma parte da outra Catarina (a Martins) a explicar ao povo tudo o que o Bloco arrancou em negociações de véspera à ortodoxia orçamental, como explicação para a abstenção. Mas, depois de somar aquilo tudo, pareceu-me um pacote de amendoins sem sal. Nem sequer beliscam os 250 milhões não orçamentados com as receitas fiscais das progressões na administração pública.

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As Condições Materiais Das “Reformas”

Seria interessante escavar um pouco as razões da recente falta de docentes em alguns grupos disciplinares. Há mais do que aqueles que vieram mais à superfície das notícias das últimas semanas, basta andar pelas escolas e perceber que há mais disciplinas em que os alunos permanecem sem aulas ou em que não se arranjam substitut@s interessad@s. Mas entre as que mais deram nas vistas, há uma disciplina cuja associação de professores conseguiu nos últimos 20 anos um peso assinalável no ME, seja na dgidc, seja em gabinetes, não sendo de admirar que o seu peso no currículo tenha aumentado (há um particular desejo de paridade com a História que chega a ser aflitivo) progressivamente, absorvendo mesmo conteúdos programáticos que antes eram de outras áreas para justificar esse “espaço” ampliado. O problema? Não há docentes para assegurar essas horas todas, muito menos de professores profissionalizados. E nem é bom falar em alguns casos que aparecem para “tapar buracos”. Porque o que interessou foi exercer um poder de influência e conseguir um peso para o qual depois falta o correspondente “capital humano”. Diferente é o caso de TIC em que deveria ter existido algum cuidado na formação de professores e não apenas em arranjar habilitações que servissem para dar umas aulas. Faltam professores e quem chega, parece chegar a um mundo desconhecido, em especial quando se trata de petizada pequena, pois há um evidente desajustamento entre quem define o programa da disciplina e aquilo que resulta em sala de aula.

Mas… os “reformistas” andam por aí e não se calam com as mesmas conversas e cedendo às mesmas pressões e amiguismos. Sem se preocuparem em perceber se andam a fazer “reformas” no vazio das condições concretas da sua implementação. E as carências não se resolvem com especializações ou formações instantâneas do tipo café solúvel em água morna. Mas as reformas pós amigos são assim… não interessa se funcionam, desde que satisfaçam as capelinhas.

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Moeda Ao Ar?

Deve ser muito difícil contar os votos das eleições para o SPGL. Dois dias depois, ainda nada se sabe no site oficial. Confesso que – amig@s à parte em ambas as listas – poderiam perder as duas, por razões diferentes. Uma porque é a da ortodoxia nogueirista dos vargas e agentes da remax que deu no que deu em matéria de “luta” e a outra porque apresentou à frente alguém por cujo “espírito democrático” eu tenho uma “estima” muito especial.

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3ª Feira

Não sei se todos repararam como, no fim de semana, o “aparelho” comunicacional do ME reagiu contra declarações do próprio ministro a reagir às disputas curriculares em decurso. Será que o próprio percebeu que a máquina do secretário decidiu entalá-lo em público?

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(será que afinal quer mesmo ser califa em vez do califa, contra tudo o que faz acreditar, ou foi só para “marcar território” e manter o Tiago no seu lugar?)

O Deputado Silva, Porfírio De Sua Graça, Escreve Um Postal Ao Super-Mário E Pede Colaboração Na Domesticação Do Que Acha(m) Ser “Populismo”

Só isto para me fazer sorrir em dia de semestrais. Os destaques são meus.

Postal aberto ao Secretário-Geral da FENPROF

(…)

Os deputados do PS têm insistido sempre na necessidade de negociar para tentar resolver os motivos de tensão laboral na escola pública. A nossa razão principal para termos essa posição consiste na consciência de que a escola pública – e o país – precisam dos professores, mobilizados e motivados. Temos apelado sempre a que sejam dados passos negociais por aqueles que ainda não o fizeram, porque ninguém pode querer que o resultado final de uma negociação seja a sua posição inicial. Sempre defendemos a importância dos sindicatos na nossa democracia – e sempre dissemos que isso não depende de estarmos em acordo ou em desacordo com as posições sindicais em cada momento. É por isso que não podemos tolerar que a FENPROF adopte uma linha de desconsideração e de agressividade sistemática a propósito de qualquer contacto com o Partido Socialista.

Concordamos com os representantes da FENPROF na necessidade de adoptar métodos responsáveis de lidar com as questões relativas à profissionalidade docente, evitando que se crie a ilusão de que a demagogia e o populismo oferecem melhores soluções do que o diálogo com as organizações representativas dos trabalhadores. Mas a retórica da confrontação sistemática, a retórica da desqualificação do interlocutor, que o Secretário-Geral da FENPROF mais uma vez assumiu, não é combater o populismo: é entrar na lógica do próprio populismo e, assim, conceder-lhe a vitória.

Quem não quer negociar, tenta anular os interlocutores. Nada de menos democrático, nada de mais improdutivo. Como improdutivo seria esquecer que nenhuma outra força política fez tanto pela escola pública em Portugal como o Partido Socialista.

Cumprimenta,
Porfírio Silva

Eu, confesso, sinto-me desconsiderado sempre que o senhor deputado fala ou escreve sobre a classe profissional a que pertenço. Mas é porque ainda me lembro dos tempos (da MLR) em que ele não sabia bem o que pensar sobre estes temas, escrevendo coisas assim e quase assim ou assim-assim. Entretanto, o senhor deputado elevou-se a qualquer coisa e já parece que sabe coiso e tal sobre isto e aquilo. E, claro, percebe-se a “indirecta” lançada aos sindicatos para que não deixem mais ninguém intrometer-se no assunto. Para quem é relator da ILC para recuperação integral do tempo de serviço, temos as conclusões praticamente expostas desde o início do jogo.

Para que fiquem esclarecidos, a caixa de comentário anuncia-se assim:

Esta caixa de comentários destina-se a proporcionar diálogos inteligíveis entre o autor e leitores nisso interessados – sobre o post que recebe o comentário, não sobre assuntos à escolha dos leitores.
A discordância é bem-vinda.
Insultos a quem quer que seja, publicidade encapotada sem outro valor para os leitores, pseudo-literatura surrealista das traseiras da blogosfera – são candidatos à ferramenta de eliminação.

POR FAVOR, compreendam que passo dias sem verificar a “máquina”, razão pela qual não posso garantir a publicação expedita de comentários aqui deixados.

pipe

Reorganização Dos Ciclos De Ensino

Continua a discutir-se, com os “actores” a dizerem uma coisa e a praticarem outra. Os “especialistas” próximos do PS e não só, sempre gostaram de criticar o choque da transição da monodocência para a pluridocência entre o 4º e o 5º ano. Mas mal chegaram ao poder atomizaram ainda mais o currículo. No 2º ciclo, Um Conselho de Turma podia ser formado por 6-7 professores de 9 disciplinas. Agora podemos chegar às 11-12 disciplinas ou áreas, quantas vezes com 10 docentes. Já o 1º ciclo, embora formalmente em monodocência, chega a ter 3-4 professores ou mais, devido à fragmentação de áreas e expressões. O 3º ciclo entrou num total delírio que pode chegar às 14 disciplinas.

A incoerência é total, entre discurso e prática, em especial quando se trata de modas ou de alimentar clientelas. Se é necessário mudar uma escolaridade obrigatória de 12 anos que tem 4 ciclos distintos? Sim, mas receio muito que a tendência seja para o agravamento da infantilização dos conteúdos de um primeiro ciclo de estudos mais alargado (e incluindo um ano de pré-escolar), em nome de “competências” que se definem a gosto. Em que saltar à corda vale tanto ou mais do que saber a tabuada ou ler com fluência, porque agora tudo se equivale e quem ousar ir contra este estado de coisas é porque é um elitista que ficou parado num século qualquer e não percebe que aprender é brincar, se possível só com esforço se for para atingir os parâmetros dos testes do FITescola (sim, continuo a embirrar com a tomada de assalto do currículo pelos pseudo-salvadores do futuro da saúde nacional).

E quando me exemplificam com os casos de alguns países estrangeiros, fica sempre aquela questão: e o resto?

Violino

Saldos de 5ª Feira

Assisti à troca de mimos e acusações entre os compadres parlamentares, Carlos César e Fernando Negrão, sobre os diversos episódios duvidosos protagonizados por deputados que votam por outros, deixam terceiros registar a sua presença ou pesquisam nos recantos da lei para sacarem o máximo ao erário público pelas suas viagens entre o “domicílio” e São Bento. É bom que se note que se está a falar do que deveria ser o centro do nosso regime democrático, onde estivessem alguns dos melhores do país, num sistema que se pretenda de alguma meritocracia na carreira política, até porque é o que gostam de exigir aos outros. Não sei se é difícil encontrar 230 criaturas impolutas para preencher as bancadas, haverá sempre uma proporção de oportunistas ou de gente que sente um aroma fraquinho de poder e dinheiro e fique logo tentado a estender a mão. Compreendo isso. Só que os nossos ricos deputados decidem sobre si mesmos, sobre as regras que aplicam às suas remunerações e alcavalas, como registam presenças, ausências e quilometragens. E resolvem os diferendos entre eles, em comissões onde os beltranos analisam os pecadilhos dos sicranos que por sua vez estão nas comissões que analisam como se deve proceder em relação aos descaminhos dos beltranos. A endogamnia é total, Mas existem responsabilização a terceiros. E ainda há umas almas penadas que ousam dizer que o “eleitorado decidirá” num sistema em que há gente que fica lá no meio da lista, em lugar elegível, por causa da prima do cunhado do carteiro que sabe daquilo que é melhor não contar. E chegam a parecer inamovíveis, ali sentadinh@s nas últimas filas, à espera de 5 minutos de intervenção em sessão de final de semana e temas a que nem a dona evarista e o senhor gervásio dariam mais tempo de antena do que a uma cutícula encravada.

Caricatura? Nem por isso.

Desrespeito pelo regime democrático? Críticas que só contribuem para a erosão do regime e o crescimento de fenómenos populistas? Muito pelo contrário. Quem degrada a democracia, de forma recorrente, são seres que sobem na política na base da bajulação e do aparelhismo partidário, que na vida real só teriam carreira em empresas a sacar apoios e subsídios conseguidos graças à camada superior dos patronos aparelhistas que conseguiram, após o seu duvidoso cursus honorum, chegar a entidades disto ou daquilo, a cargos pelas europas ou a administrações privadas anteriormente tuteladas. Mais o caso daqueles escritórios de advogados que representam as duas partes num divórcio e ainda o que mais vier.

O que deprime nem é a existência da prevaricação, que só alguns ingénuos podem acreditar não ser natural em qualquer grupo de pessoas com acesso a qualquer forma de poder, em especial de forma continuada. O que deprime é a escala medíocre em que isso se desenvolve, a pequenez da tentação a que se cede, a mesquinhez de tudo isto e a enorme falta de senso como depois se justificam com as malfeitorias alheias.

É uma minoria que assim actua? Acredito que sim, mas a maioria dá-lhes cobertura e, exceptuando umas tiradas e atoardas ocasionais para consumo público, o pântano volta ao remanso, porque quase todas as mãos se lavam entre si.

tiririca