Aquilo Que Eu Acharia Mesmo “Inovador” Em Termos De Avaliação

Uma avaliação cumulativa, em que os alunos fossem alcançando objectivos, desenvolvendo competências, aplicando conhecimentos adquiridos ao longo do ano lectivo com um horizonte de 20 na classificação final (para a qual deveriam conhecer as condições no ninício do ano lectivo de forma clara e objectiva), mas que teria classificações intermédias nos períodos, semestres, bimestres, trimestres, o que entenderem. Ou seja, o aluno poderia ter 6 no primeiro período, 13 no segundo (+7) e 18 (+5) no terceiro, conforme os objectivos/competência/conhecimentos que fosse alcançando. E poderia gerir o seu ritmo, em especial se os seus progressos pudessem ser conhecidos de forma “contínua” e transparente. Poderia querer trabalhar mais num período do que em outros. E tudo poderia ser feito com testes, trabalhos, projectos ou seja o que for. Sejamos heterodoxos e toleremos metodologias diferentes.

Só que isto implicaria mesmo uma mudança de “paradigma” na forma de encarar as aulas e a avaliação. Não seriam mudanças cosméticas com “descritores” e grelhas disto e daquilo. E muito menos com reuniões para tudo e nada. E até poderia ser feita por ciclo, com um total global.

No Básico também seria possível, com a escala de 0 a 100% e conversão posterior  em escala de níveis de 1 a 5 ou a 10 (a minha preferida). Os alunos iriam sabendo quanto já tinham alcançado. Não é muito diferente do que se usa em abordagens menos convencionais da avaliação, só que sem fingir que é novo e depois acabar por dar notas de 1 a 5 como sempre em cada período.

Isso, sim, parece-me “inovador”, mesmo se exista, quase por certo, quem me diga que já foi experimentado algures. Não me sinto bafejado pela singularidade intelectual absoluta como é apanágio dos inovadores por desígnio.

Progress-Bar-v2

Não Me Choca Nada, Mas Não Me Parece Inovador, Antes Cobrindo Com Verniz E Purpurinas O Que Já Se Conhece

Vamos lá ler o que passa por ser uma grande novidade:

“O modelo, a implementar no próximo ano letivo, passa por não dar notas aos testes e outros instrumentos de avaliação dos alunos, tal como são conhecidas, mas por várias menções descritivas do seu desempenho em vários itens e em cada momento de avaliação, seja escrita ou oral, indicando onde pode melhorar o seu desempenho”, disse o presidente daquele Agrupamento de Escolas, que abarca cerca 200 professores e 1.900 alunos do pré-escolar ao 12º ano de escolaridade.

Ora bem… isto não é muito diferente de avaliar por domínios e subdomínios com uma escala qualitativa em vez de quantitativa.

Mas apresenta-se como sendo algo diferente.

Segundo Jorge Costa, este novo modelo representa uma “avaliação ao serviço da aprendizagem” e é o “tomar a dianteira” relativamente a “novos critérios de avaliação e outra forma de avaliar, ensinar e aprender”, num projeto idealizado e concebido no âmbito da autonomia de gestão pedagógica do Agrupamento de Escolas de Abrantes, no distrito de Santarém.

“É uma alteração significativa no modelo de avaliação”, notou, tendo referido que “o que se vai começar a avaliar são descritores, ou seja, as competências que um aluno consegue ter em cada domínio, em cada disciplina”, num modelo que privilegia o “caráter contínuo e sistemático” da avaliação.

Qual o problema? É que, em especial no Secundário, é necessário converter essa avaliação com base em descritores num valor de 0 a 20 e então como se fazem as coisas? Sim, o aluno não “carrega” com “uma nota negativa” mas, afinal, vai dar mais ao menos ao mesmo no final do processo/período/ano. E o “carácter contínuo e sistemático” da avaliação não depende do tipo de avaliação (descritores qualitativos sem classificação final/avaliação quantitativa por domínio com nota final), mas sim do diálogo estabelecido com os alunos.

Nesse sentido, acrescentou, “o aluno deixa de carregar com uma nota negativa e é avaliado por vários descritores ficando a saber onde pode melhorar o seu desempenho em cada domínio, através de uma classificação parcelar e não através de uma nota global“.

Para Jorge Costa, a mais valia do novo modelo “passa por colocar a avaliação ao serviço da aprendizagem e de conseguir arranjar uma estratégia” para a sua consecução, sendo apenas atribuídas notas de 0 a 20 no final de cada um dos três períodos letivos, para que, através da avaliação formativa, se chegue à avaliação sumativa, atribuída no 3º período letivo.

Pessoalmente, acho que este modelo é mais interessante para o Básico do que para o Secundário porque, podem achar que não, mas os alunos ficarão mais perdidos, enquanto não perceberem como se dará a conversão dos “descritores” em “valores”.

Compreendo a necessidade de apresentar como um enorme avanço o que é apenas uma demão de pintura na fachada, mas isso só engana quem não percebe que, no fundo, os procedimentos “novos” vão dar ao mesmo.

Ideia

A Forma Errada De Abordar Algo Pouco Claro…

… é dizer que quem o faz não está sozinho e são mais a prevaricar. Eu sei que basta escrever qualquer coisa sobre Educação Física para ser bombardeado em força e pouco jeito, mas a forma de reagir àquela situação de um maná de notas altas em EF num Externato no Porto não pode ser equivalente à dos alunos que dizem que gritam nas aulas porque outros também gritam.

villageidiot

(se sabiam que algo se passava porque não denunciaram antes? E se, afinal, após investigação, o caso de EF for mesmo “singular”?)

4ª Feira

Dia de abordar a avaliação dos instrumentos elaborados para a avaliação dos alunos numa perspectiva de visão holística, não de uma forma hierarquizadora do desempenho, mas desde que seja possível produzir uma grelha com elementos passíveis de mensurabilidade com vista a qualquer coisa que é igual ao que era mas agora tem um verniz inovador.

Maqescrever2

Sou Mesmo Bruxo!

Eis o projecto do próximo mandato da geringonça. O PS não adere já apenas por achar que o assunto ainda não está maduro, mas é só achar que o povo já engole tudo.

Bloco vai propor fim dos exames do 9.º ano

Deputada Joana Mortágua fez o anúncio durante o debate das recomendações do CDS e do PCP para que o Governo estude a reorganização dos vários ciclos de ensino, desde o básico ao secundário. O PS alega que o assunto não está no programa de Governo.

Já o tinha previsto esta semana e enviei ontem um texto para sair daqui a dois sábados sobre rankings e transparência em que falo disto mesmo. Prepara-se o fim de tudo que permita uma avaliação externa do desempenho dos alunos e das escolas no Ensino Básico, num salto espectacular para o passado, directamente para meados dos anos 90, a época dourada de alguns. Que não percebem que, mesmo sem aquela obsessão do “século XXI” os tempos mudaram e medidas destas só servem para retirar credibilidade à tão amada Escola Pública. Ficarão as provas de aferição que, vamos lá ser sinceros, só têm servido para alguns reclamarem mais horas no currículo do 1º ciclo.

zandinga

Leituras

Não é extremamente recente, mas é bastante abrangente:

The Effects of Mandatory Retention and Its Use Across the Globe

Uma realidade diferente… um dos tais países onde a OCDE conseguiu convencer as autoridades a uma politica de “no detention” colocada em causa e que teve de ser revertida, devido às consequências que teve… o debate nos últimos anos vai muito além das referências que se segue:

No Detention Policy for Schools: Is the No Fail System Hurting Our Students?

No Detention Policy was built into the law to ensure that students receive elementary education without fear of failing. As the government reconsiders this policy, Maadhyam looks at arguments for and against the policy decision.

Failing students in Class 5 and Class 8: Who said what in front of parliamentary committee

In a report submitted on February 9, the committee endorsed a Bill that seeks to amend the Right to Education Act to scrap the no-detention policy.

Doubts Over Efficacy Of No Detention Policy For Quality In Education

Já agora.. na Finlândia (consta que temos 7 em Portugal, mas é uma ficção)na escala foi durante muito tempo de 0 a 10, com os níveis 0 a 4 a serem de reprovação. Agora, desapareceram os níveis mais baixos, mas o 4 implica reprovação e existe uma clara diferenciação nos níveis de sucesso (do 5 ao 10, sendo que o nível mais alto é atribuído apenas 5% dos alunos).

bullshit-detector

Outro Pensamento

Ao longo das aulas de […] procurou desenvolver-se um trabalho que combinasse a vertente da pesquisa sobre temas, avaliada pelo envolvimento dos alunos e pela sua atitude perante a aprendizagem, e um momento mais formal de avaliação dos conhecimentos obtidos com esse trabalho. A generalidade da turma revelou uma enorme apatia e desinteresse, mesmo quando tiveram meios digitais aos seu dispor para recolher informação ou lhes foi solicitado que apresentassem propostas de trabalho próprias. Alguns alunos, avaliados com nível um não se envolveram em nenhum momento nas atividades e explicitaram que nem pretendiam fazer o que lhes era solicitado (…). A tudo isto, acresce a falta de assiduidade (…) e, em especial de pontualidade. Sendo de 40% a ponderação nesta disciplina das “Atitudes e Comportamentos”, são poucos os alunos com um desempenho verdadeiramente satisfatório. Porque a responsabilidade desta situação não pode ser sempre atribuída em exclusivo aos docentes, é importante que os alunos, e respetivos encarregados de educação, entendam que sem o seu envolvimento não será possível “fabricar” classificações de sucesso garantido, por muitas estratégias que se diversifiquem.

Nutty