5ª Feira – Dia 67

É gratificante quando se tem alunos que gostam de ir além do que são os conteúdos curriculares, que questionam, que querem saber mais. Que não hesitam em perguntar ou em informar-se sobre assuntos que os interessam ou acerca dos quais sentem curiosidade. Que vão contra os lugares-comuns que afirmam que os jovens de hoje só querem saber do presente, das tecnologias. Alunos que não acham chatos os tais saberes “enciclopédicos” e que querem que o professor os guie na pesquisa ou que discuta com eles aspectos que vão muito além do previsto nos documentos oficiais.

4ª Feira – Dia 45

A recta final de qualquer período é marcada por todo o aparato que agora rodeia a avaliação dos alunos. O que a tecnologia poderia facilitar, a mentalidade burocrática faz por dificultar, criando múltiplos mecanismos de controlo do trabalho dos professores, de quem parece normal desconfiar-se.

4ª Feira – Dia 38

O que lamento é que esta “autonomia”, este nível de liberdade dado às escolas em matéria tão sensível só aconteça numa situação de emergência, não ficando completamente afastada a sensação de que é uma estratégia do ministério para afastar de si qualquer responsabilidade pela resolução de uma situação complicada que ajudou pouco a minorar. Se as coisas correrem bem, foi uma óptima decisão; se correrem mal, foi porque “as escolas” não souberam usar bem tão generosa concessão de poder pela tutela. De qualquer das maneiras, na dúvida, prefiro ter mesmo algum grau de “autonomia”, mesmo que passageiro do que nenhum.

O Nosso Pilatos

Sempre que as coisas apertam, lá vem a tal da “autonomia”. Se alguma coisa correr mal, já se gastou o sabonete líquido.

Ministro Tiago Brandão Rodrigues entende que as escolas têm “maturidade suficiente para entender como querem fazer a avaliação dos seus alunos”. Governante assinalou regresso do ensino presencial em escola de Paços de Ferreira.

5ª Feira – Dia 11

Ao contrário de algumas teses sobre a ansiedade que a avaliação impõe externamente aos alunos, eu estou mais familiarizado com a ansiedade e mesmo irritação quando a avaliação se atrasa e uma certa incompreensão quando eu enveredo pela conversa do “não se preocupem por enquanto com a avaliação, que não é o que me importa mais”. O olhar que me é dirigido em resposta é mais do tipo “despache-se lá com o código do quizz que eu estou aqui à espera, sem nada de mais interessante para fazer”.

Deve Começar A 29 De Fevereiro

A campanha de rastreios feita nas escolas prevê três momentos de testagem separados por sete dias de intervalo. O processo arrancou em secundárias mas durante a interrupção letiva será feito nas escolas de acolhimento, divulgou esta segunda-feira o Ministério da Educação.

(a notícia já é de 2ª feira e ainda ninguém me disse nada…)

Quando Se Remete Para Legislação Que Não Se Aplica (Ou Em Regra Se Aplica De Outra Forma)

Sobre o caso daqueles alunos de Famalicão que acabaram retidos por despacho, por não frequentarem Cidadania e Desenvolvimento, não me interessa o mergulho no debate ideológico sobre os conteúdos. Interessa-me mais a hipocrisia enorme que rodeia o caso do ponto de vista “administrativo” ou “legal”, pois todos conhecemos todos os anos muitos casos (e dezenas ou mesmo centenas ao longo da carreira) de alunos que transitaram com excesso de faltas injustificadas.

De acordo com as notícias mais recentes, leio algo que me deixa abismado:

Nesse despacho de 16 de janeiro, João Costa referia que “atento o percurso escolar dos alunos, poderá escola aferir se a situação dos mesmos se poderá enquadrar numa das hipóteses previstas na Portaria 223A/2018, de 3 de agosto, em particular no art.º 33.º, que regula os casos especiais de progressão, evitando-se assim, que os alunos em causa fiquem prejudicados pelas consequências de uma atuação que, enquanto menores lhes foi imposta.” Ou seja: poderiam prosseguir os seus estudos desde que cumprido um plano de recuperação. 

Ora bem… o artigo 33º da portaria em causa não tem qualquer aplicação no caso em apreço, pois o que lá vem é o seguinte:

Artigo 33.º

Casos especiais de progressão

1 – Um aluno que revele capacidade de aprendizagem excecional e um adequado grau de maturidade poderá progredir mais rapidamente no ensino básico, através de uma das seguintes hipóteses ou de ambas:

a) Concluir o 1.º ciclo com 9 anos de idade, completados até 31 de dezembro do ano respetivo, podendo completar o 1.º ciclo em três anos;

b) Transitar de ano de escolaridade antes do final do ano letivo, uma única vez, ao longo dos 2.º e 3.º ciclos.

2 – Um aluno retido num dos anos não terminais de ciclo que demonstre ter desenvolvido as aprendizagens definidas para o final do respetivo ciclo poderá concluí-lo nos anos previstos para a sua duração, através de uma progressão mais rápida, nos anos letivos subsequentes à retenção.

3 – Os casos especiais de progressão previstos nos números anteriores dependem de deliberação do conselho pedagógico, sob proposta do professor titular de turma ou do conselho de turma, baseada em registos de avaliação e de parecer de equipa multidisciplinar de apoio à educação inclusiva, no caso das situações previstas no n.º 1, depois de obtida a concordância do encarregado de educação.

4 – A deliberação decorrente do previsto nos números anteriores não prejudica o cumprimento dos restantes requisitos legalmente exigidos para a progressão de ciclo.

A questão do “plano de recuperação” não vem aqui, mas sim no âmbito das medidas previstas no artigo anterior que até indica a transição como regra, em especial se o Conselho de Turma considerar que o aluno reúne condições para tal, em função das aprendizagens realizadas:

Artigo 32.º

Condições de transição e de aprovação

1 – A avaliação sumativa dá origem a uma tomada de decisão sobre a progressão ou a retenção do aluno, expressa através das menções, respetivamente, de Transitou ou de Não Transitou, no final de cada ano, e de Aprovado ou de Não Aprovado, no final de cada ciclo.

2 – A decisão de transição para o ano de escolaridade seguinte reveste caráter pedagógico, sendo a retenção considerada excecional.

3 – A decisão de retenção só pode ser tomada após um acompanhamento pedagógico do aluno, em que foram traçadas e aplicadas medidas de apoio face às dificuldades detetadas.

4 – Há lugar à retenção dos alunos a quem tenha sido aplicado o disposto nas alíneas a) e b) do n.º 4 do artigo 21.º da Lei n.º 51/2012, de 5 de setembro.

5 – A decisão de transição e de aprovação, em cada ano de escolaridade, é tomada sempre que o professor titular de turma, no 1.º ciclo, ou o conselho de turma, nos 2.º e 3.º ciclos, considerem que o aluno demonstra ter adquirido os conhecimentos e desenvolvido as capacidades e atitudes para prosseguir com sucesso os seus estudos, sem prejuízo do número seguinte.

A remissão para a Lei 51/2012 (Estatuto do Aluno e da Ética Escolar) tem o seu sentido, porque é por lá que se define o que são faltas injustificadas, como se deve proceder quando ocorrem e as suas eventuais consequências (artigos 17º a 21º).

Em suma, se os alunos tivessem faltado à fartazana a Ciências ou História, com altas notas ao resto, teriam passado sem chatices. Como foi na disciplina querida do regime, lixaram-se por causa da teimosia dos adultos envolvidos. Mesmo se em Tribunal são capazes de verem a sua situação ser mudada. Basta o encarregado de educação (apesar das restrições que agora existem) ter acesso a casos de alunos que transitaram com excesso de faltas injustificadas, até na mesma escola. O que, como já escrevi, não é nenhuma coisa rara.

Justiça

(e resta saber quem, dentro da escola, foi o rastilho para tudo isto… porque não chegaria onde chegou sem “queixa” ou “denúncia”…)

Avaliar Não É Classificar (E Outras Coisas Parecidas)

Não será, mas não sei se é melhor para o aluno. De acordo com o significado mais comum (pode googlar-se, mas também se pode ir ao volume que ocupa espaço na estante), avaliar é “estabelecer a valia, o valor ou o preço de” (Aurélio), é “Determinar o valor de” (Priberam) ou definições equivalentes. “Classificar” é colocar numa determinada classe ou grupo. 

No meu escasso entendimento, a segunda pode decorrer da primeira, mas não a precede. Eu sempre avaliei, dando o valor a algo que foi feito, a um desempenho, mesmo quando isso vem com o nome de “classificação”. E confesso que certas distinções semânticas me deixam indiferente, quando o que interessa é o processo que leva a uma determinada avaliação e o que se faz a partir daí.

Se não deve usar-se uma escala numérica? Se deve fazer-se uma abordagem meramente qualitativa? Se devemos ver o aluno “como um todo”? Todas essas e muitas mais são formulações que pouco dizem sobre o porquê e para quê. E a verdade é que a “avaliação” ou “classificação” existem porque acabam por cumprir funções necessárias ao sistema educativo e não só. Basta reparar como tanta gente que gosta de entrar pela exegese destas coisas se rendeu à lógica da “avaliação a sério” e da realização dos exames, nem que seja em pavilhões no actual contexto.

Quando tiveram uma oportunidade para pressionar a mudança das práticas, ficaram-se pela cosmética das “metodologias” e das “ferramentas”, mas o essencial do modelo manteve-se intocado, mais semana, menos semana.

Ciclista Ape dhuez

Dia 65 – S@D (Sucesso A Distância)

(…)

De garantir o “sucesso”, não com qualquer reformulação dos métodos de avaliação (como outro governante deu a entender em recomendações recentes, tiradas directamente de um manual de avaliação formativa de há 30 anos), mas sim de fazer uma série de avisos aos professores para a necessidade de atenderem às circunstâncias anómalas que se vivem.

Não havia necessidade. Nós sabemos.

(…)

diario