Pelo Contrário

Muita gente anda a elogiar a coragem do depoimento de Daniel Sampaio ao Expresso. Eu até concordo que é um testemunho importante. Porque admite a displicência com que encarou a ameaça. Como muita outra gente. Apesar de ser uma pessoa com uma formação e conhecimentos na matéria muito acima da média. Displicência que me incomoda menos pelas consequências que pode ter nos próprios do que pelas que pode provocar nos outros. Em especial, quando é da estirpe aristocrática.

Sócrates Na TVI24

Tanto ou tão pouco que se poderia escrever acerca do assunto, do cofre da mãe ao Almanaque de 1943 com o avô rico. Mas, como comecei da frente para trás naquela espécie de entrevista, acabei por ficar mais fascinado com os crimes que já nem se chamam assim e/ou que já prescreveram.

Como se alguém não pudesse ser acusado de escravidão, porque, afinal, agora se chama tráfico humano, servidão por dívida ou trabalho forçado. Ou que um crime deixa de ter sido cometido, só porque foi há muito tempo. Como explicação, a par do “não é verdade” repetido 713 vezes, é algo coiso.

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O Benefício Dos Infractores

A ministra da Justiça dá uma entrevista em que declara que “não vai ser fácil avaliar fraudes da vacinação”. Estranhei a formulação (“avaliar fraudes”?), mas rapidamente percebi que a mensagem é que nada irá acontecer e pronto. Aliás, como os infractores calculavam, até porque raramente se tratou de um pobrezinho à beira da estrada. Foram, em regra, gente amiga ou com alguma posição nas nomenklaturas locais. Que nada lhes ia acontecer, já sabiam e já sabíamos. Apenas se confirma. E depois há aquela legitimação da infracção que passa por dizer que criminoso seria deitar fora vacinas.

Acerca disso, eu gostaria de destacar só dois “detalhes”:

Em primeiro lugar, nada me diz que o número de vacinas que foi levado para certos locais era o exacto e que já não tinha sido previamente inflaccionado, para “sobrarem”. Desculpem-me, mas não confio muito nesta malta que por aí anda, sempre a ver se trocam favores.

Em segundo lugar, acho criminoso que se deitem alimentos e outros produtos fora, enquanto gente passa fome e dificuldades, mas ainda não me tinha ocorrido que poderia legitimar com isso que o pessoal os pudesse levar dos supermercados sem pagar. Em vez de ficarem nas traseiras de alguns, junto aos contentores do lixo, à espera que deitem fora as sobras.

A ministra da Justiça parece ser mais um@ daquel@s governantes (e não são pouc@s) que ganham imenso em ficar com a boca fechada.

O Clérigo Conraria

Clérigo da opinião, claro, que não gosto de impor votos a ninguém. Mas indo ao que interessa. Na TVI24, que recentemente parece ter adquirido os seus serviços como comentador, o economista Conraria insurgia-se contra quem impõe o confinamento a outros, dando o popular exemplo dos feirantes que não podem ir às feiras, mas não se dispõe a pagar um imposto para quem perdeu rendimentos com a pandemia. Como seria de esperar, a meio da tirada, fez o àparte que ele não é um desses que defende confinamentos, pelo que julgo razoável deduzir que se estará a excluir dos malandros que devem pagar o tal tributo extraordinário, que algum clero opinativo gosta de apresentar como solidário.

Será que não se consegue desenvolver uma vacina para a hipocrisia?.

A Confap Nunca Deixa De Nos Surpreender

Mas raramente (nunca?) é pela positiva. É verdade que os documentos andam melhor escritos do que no tempo do pai Albino, mas no mandato do pai Ascenção, a lógica do frete ao Poder continua inabalável.

No recente parecer (se é que assim se pode considerar esta comunicação) relativo a uma petição para a redução do número de alunos por turma, uma das grandes preocupações é que isso poderia implicara construção de novas escolas. Já conhecia a posição, mas não a rqieuza e singularidade do argumentário.

Um tipo lê e não quer acreditar, mas é memso obrigado a reconhecer que há quem nunca fiquem aquém das nossas mais baixas expectativas.

Será Por Ser “Representante” Útil?

Não deve ser por estar em risco de dar aulas.

Nesse caso, para quando a vacina do papá Confap, organização virtuosa que, ainda no final da semana, se apresentou parecer negativo quanto à redução da dimensão das turmas na Comissão de Educação do Parlamento?

Diretor de Escola de Cinfães vacinado contra a Covid-19 sem se conhecer critérios para o efeito

Mas O Homem Já Não Tinha Idade Para Ter Juízo?

Quando os escreveu já era mais velho do que eu sou agora e teria certamente ambições. Se os escreveu é porque sentiu vontade de o fazer e quase por certo gosto ou mesmo. Preferia que ele os assumisse por inteiro do que estar a tentar desculpar-se de algo que fez quando já estava longe dos “excessos” que se associam à adolescência. Até porque o fez numa revista universitária e não numa qualquer mafazeja “rede social” ou tenebroso blogue. Não entendo muito bem este tipo de vergonha tardia por causa de escritos de “actualidade”, assim como também não percebo que quem o escolheu – pelos vistos sabendo ao que ia – pareça experimentar agora um certo incómodo.

Sorte minha preferir assumir por completo as asneiras que certamente escrevi, do que renegar convicções e querer trocar o que sou ou fui porque qualquer honraria em idade serôria.

Presidente do TC insurgiu-se contra “lobby gay” há 11 anos. Quando se debruçou sobre barrigas de aluguer, em 2018, escreveu que gestão de substituição era “violadora da dignidade da pessoa humana”.

Quando foi escolhido pelos conselheiros para se tornar também juiz do Tribunal Constitucional (TC), em Fevereiro de 2014, o professor universitário João Pedro Caupers deixou um aviso em relação aos textos de opinião que tinha escrito para publicação online da Faculdade de Direito da Universidade Nova durante quatro anos: alguns deles eram muito datados, motivados por questões da actualidade, e não os teria redigido da mesma forma mais tarde.

“Surpreendente” Para Quem?

Há muitos meses que se avisava para a tal “impreparação”. Isso foi denunciado de forma repetida, mas alguma comunicação social decidiu alinhar na conversa saída de certos gabinetes de comunicação de que eram apenas “más línguas”, pessoas mal informadas e que “só sabem dizer mal”. Não, por acaso as críticas vinham de quem está no terreno e não embarca em cantigas de embalar, de quem se preocupa mesmo com os alunos e não apenas com alguma opinião publicada, por vezes com a chancela de “notícia”.

Só que a culpa não é só, nem em primeiro lugar, do inepto ministro Tiago, que é mantido no lugar porque dá um imenso jeito ao par de Costas que na verdade governam a Educação, o de cima, o António, o das promessas balofas, que perpetua a animosidade de um certo PS em relação aos professores mais críticos de governações demagógicas, e o do lado, o João, que não é de baixo, porque é ele que decide muito do que interessa, resguardando-se habilmente das saraivadas, rodeado pela sua corte pessoal de candidat@s a comendas e futuros lugares de destaque no CNE (ou afins).

3ª Feira – Dia 12

E agora é ver todos os escribas que antes diziam não ser tempo para apurar responsabilidades e apontar culpados pela má preparação para a 2ª/3ª vaga da pandemia a ir atrás da vacinação fraudulenta de qualquer um@ que conheça o responsável “local” pela coisa. E eu até acho bem tamanha indignação, mas quer-me parecer que andamos muito preocupados no combate à dor de cabeça, deixando para “o momento ideal” o combate à infecção. Sim, veio ao de cima o que de pior existe em nós (e também em outros), quando existe a possibilidade de usar da bela “cunha” para passar á frente na fila, seja nas vacinas, seja no acesso a subsídios, seja no “concurso” para certos cargos, de administrativo na freguesia a procurador lá pelas Europas. A cunha familiar ou partidária está entre nós de plena saúde. Só me espanta que estejam a vir ao de cima tantos casos, porque o habitual é quem quer denunciar ser intimidado ou cooptado para a marosca.

Mas é emocionante ver tantos artigos de opinião a verberar as más práticas dos pequenitotes da Situação. Resta saber quando acharão que é o tempo certo para ir atrás, sem medo de perder tenças ou comendas, adquiridas ou por adquirir, dos grandotes. Dos que, na prática, permitiram que tudo se descontrolasse, com justificações do mais idiota. E nem vou falar na sucessão de disparates do ministro Tiago que é a prova provada que se pode ser “cientista” e não propriamente muito… muito… sei lá… adequado à função?

(entretanto, recomendo vivamente a leitura da caixa de comentários a este post do Rui Cardoso, com o o requerimento do Luís Braga, no blogue do Arlindo; fica-se com um quadro muito fiel do “país” e, de forma acessória, do que agora são muitas “salas de professores”)