Ora Bem!

Todo o artigo, cuja referência agradeço à AC, merece um leitura cuidadosa.

What Differentiated Instruction Really Means

(…) Educators have been anticipating “learning loss” for the past 18 months. But focusing on “loss” assumes something was “had” in the first place. If students “lost” their learning, did they ever really have it? Instead of focusing on “loss,” let’s focus on determining whether or not students have met learning targets.

Afinal Há Pelo Menos Outra…

prosa encomiástica quanto à preclara decisão de definir as Aprendizagens Essenciais como o cânone. É de uma professora da Faculdade de Letras do Porto, que pelo que percebo deve dar “formação” a professores do Básico, a partir da sua posição privilegiada. Não sei porque só achou três razões. Ou porque não as limitou a uma.

Eu sei que não é argumento tido como relevante mas, com os autores das duas outras prosas, penso que terão aplicado as suas teorias num valor não muito distante do zero em aulas na última década no Ensino Básico e Secundário.

A Treta Em Dois Passos

O texto de SE Costa, já com um par de anos [data da referência revista], revela uma carga de preconceitos enorme sobre o trabalho “tradicional” das escolas e eu até percebo porquê, mas pensava que eu era o míope que só via o meu quintal. A ele, pedir-se-ia um pouco menos de estreiteza de vistas e tacanhez de concepções, que parecem muito decalcadas de experiências próximas que o terão marcado de forma traumática.

Só o recordo, porque este domingo temos um subproduto da propaganda costista, com a directora-especialista Cohen a espraiar-se em prosa que parece escrita em piloto automático para um novo guião/manual a vender a editora interessada no “produto”.

Basta ler o destaque para se saber ao que vamos:

As Aprendizagens Essenciais estão longe de serem objetivos mínimos. Trata-se de transferir para as escolas o exercício emancipatório da autonomia, sempre complexo, mas que potencia o desenho de possibilidades de ação.

(acho que anteontem li um texto do jornal As Beiras, de que não guardei o link, que era outro monumento ao passadismo crítico, revelando mais sobre as práticas de quem escreve do que propriamente daqueles que critica… como se, afinal, quem faça a escola velha sejam aqueles que se querem afirmar veículos de uma novidade há muito conhecida)

Avança A Infantaria

Depois da terraplanagem curricular, após as críticas que foram surgindo, em sua defesa surge a tropa a pé a tentar justificar a medida. Não me admira que Lurdes Figueiral fique estupefacta com as opiniões que divergem da sua. É muito típico no sector que promove a “tolerância” e a “cidadania” adjectivar os que as praticam. Há muito que fico estupefacto com tanta coisa, que nunca retiraria o direito à estupefacção a ninguém. Já quando se fala em rigor… pois… é sempre complicado discutir quem está dentro da “Corte” do SE Costa nestas coisas. Nem que seja porque praticam da tal “tolerância”. E não chega um minuto para lhes explicar que, quiçá, a falta de rigor pode ter saído á casa.

As Aprendizagens Essenciais – O Caso Da Grécia Clássica

Quando se fala tanto em cidadania e democracia, nada como ver de que modo a sua origem clássica é tratada nas “aprendizagens essenciais”, comparando com as “metas” que foram revogadas. Se estas eram extensas para o tempo lectivo disponível, aquelas podem ser “despachadas” num ápice.

As metas de História para o 7º ano ainda aqui estão. Sobre o “mundo Helénico” pretendia-se:

  1. Conhecer e compreender o processo de formação e afirmação das cidades-estado gregas originárias (séculos VIII a IV a.C.)
    1. Localizar no espaço e no tempo as principais cidades-estados gregas e os povos com quem estabeleceram contactos, por referência às civilizações já estudadas.
    2. Relacionar a adoção do modelo de cidade-estado com as características do território e com a fixação de grupos humanos no espaço da Antiga Grécia.
    3. Comparar a organização política da Polis ateniense com a da Polis espartana.
    4. Caracterizar o modelo de democracia ateniense do século V a.C. no seu pioneirismo e nos seus limites.
    5. Explicar as clivagens no modo como Atenas e Esparta encaravam a educação e o papel da mulher na sociedade.
  2. Conhecer e compreender a organização económica e social no mundo grego
    1. Identificar as principais atividades económicas da maioria das cidades-estado atenienses (ver o caso ateniense – comercial, marítima e monetária).
    2. Conhecer a organização social das poleis gregas, tomando Atenas do século V a.C. como referência.
    3. Demonstrar as profundas diferenças sociais existentes na sociedade ateniense.
    4. Descrever o quotidiano dos membros dos diversos grupos sociais da polis ateniense.
    5. Reconhecer a situação de subalternidade das mulheres nas cidades-estado gregas, problematizando a questão com os debates atuais sobre a igualdade de género.
  3. Conhecer o elevado grau de desenvolvimento atingido no mundo grego pela cultura e pela arte
    1. Reconhecer a importância assumida na cultura grega por formas literárias como aepopeia (poemas homéricos) e o teatro (tragédia e comédia).
    2. Descrever a religião politeísta grega, destacando o papel dos jogos como expressão de religiosidade e factor unificador do mundo helénico.
    3. Identificar as principais características da arquitetura, da escultura e da cerâmica gregas.
    4. Referir a autonomia e o grau de sofisticação alcançado no mundo grego pela filosofia e pelas ciências.
  4. Conhecer o processo de estruturação do mundo grego e de relacionamento do mesmo com outros espaços civilizacionais
    1. Descrever o processo de criação de colónias e identificar os respetivos limites geográficos.
    2. Referir a instituição de alianças entre cidades-estado, as rivalidades e os conflitos que se verificaram entre as mesmas.
    3. Conhecer as relações estabelecidas entre as cidades-estado gregas e as populações da Península Ibérica, localizando vestígios arqueológicos dessas interações.
  5. Avaliar o contributo da Grécia Antiga para a evolução posterior das sociedades humanas
    1. Referir a democracia grega do século V a.C. como um dos grandes legados do mundo ocidental.
    2. Exemplificar a influência da arte grega até ao tempo presente.
    3. Confirmar a importância da língua como fator de unificação dos gregos e como vetor de transmissão de cultura erudita até aos nossos dias.
    4. Confirmar a cultura e educação gregas como fundamentais para a evolução futura dos sistemas culturais ocidentais.

Comparemos com as aprendizagens essenciais, consultáveis aqui:

  • Analisar a experiência democrática de Atenas do século V a.C., nomeadamente a importância do princípio da igualdade dos cidadãos perante a lei, identificando as suas limitações;
  • Identificar manifestações artísticas do período clássico grego, ressaltando os seus aspetos estéticos e humanistas;
  • Reconhecer os contributos da civilização helénica para o mundo contemporâneo;
  • Identificar/aplicar os conceitos: cidade-estado; democracia; cidadão; meteco; escravo; economia comercial e monetária; arte clássica; método comparativo.

Nem 80, nem 8.

A Montra E O Miolo

Primeira página do Público:

A notícia (só tenho o destaque, pelas razões que há dias expliquei, pois não dei qualquer opinião).

Ministério da Educação revela resultados do inquéritos feito a professores. Entre os docentes consultados pelo PÚBLICO há uma nota que sobressai: as AE carecem de revisão urgente.

Nunca esperei que a “avaliação prometida pela tutela” fosse abaixo da xalência. Até porque as “consultas” são sempre muito “focalizadas”. E há uma enorme acção de propaganda para tentar influenciar a opinião pública. Se em si a propaganda já é algo que tende a distorcer a realidade para provocar a adesão de quem a consome, neste caso é de assinalável desonestidade intelectual.

As AE são um “programa mínimo” que nos deveria embaraçar a todos (não apenas aos más-línguas como eu) se é para as considerar um horizonte para as aprendizagens a realizar.

Domingo

O despacho 6605-A/2021 é o elemento final (ou quase) do trabalho de “reconfiguração” da Escola Pública como Escola Mínima, depois de mais de uma década a transformá-la em Escola Low Cost. E Escola Mínima é aquela em que as aprendizagens disciplinares são secundarizadas em favor de uma competências transversais, de avaliação altamente subjectiva e cuja implementação se traduz numa fragmentação curricular dos conteúdos. Os saberes académicos são desvalorizados como “tradicionais” e resultantes de uma ilusão de saber global, sendo substituídos por conhecimentos mais ou menos utilitários, circunstanciais e locais. Como ouvi recentemente a uma orgulhosa liderança de uma escola que é “piloto” nesta lógica, “as aprendizagens disciplinares não são importantes”, porque o que interessa é que o aluno circule entre saberes transversais, resultantes das dimensões do canónico “Perfil”. Isto é apresentado como “moderno”, como “flexível” e adaptado a um século XXI que até agora não tem corrido nada conforme previam alguns visionários que tentam encaixar a realidade às suas caixas mentais desenvolvidas no final do século XX.

Esta Escola Pública Mínima não vai ser democrática, porque vai promover uma fuga ainda maior de alunos cujas famílias tenham alguns meios para isso para a rede privada. Vai ser inclusiva na retórica, mas apenas porque pretende nivelar pelos padrões menos exigentes e rigorosos; na prática, quem nela ficar terá como horizonte de conhecimentos aquilo que se define apenas como “essencial”. O que deveria ser tido como mínimo torna-se o padrão a alcançar. Claro que haverá excepções, porque continuarão a existir escolas que, em meios mais afortunados e exigentes, não cederão a esta tendência ou demorarão mais tempo a ser submersas por esta onda, que se sucede a várias outras, no sentido de uma desqualificação da Escola Pública como instituição destinada a transmitir os elementos fundamentais (diferente de “essenciais”) da Cultura e da Ciência que a Humanidade conseguiu erguer ao longo da sua História. A Escola Mínima privilegia os saberes meramente funcionais, úteis ao precariado, simulando uma certificação formal que o mercado de trabalho qualificado não reconhecerá. A Escola Mínima nunca poderá ser um “elevador social”, porque abdicou em definitivo de elevar, preferindo nivelar por baixo.

Neste despacho, pratica-se a adulteração da linguagem, enunciando-se conceitos e princípios que são esvaziados pelas práticas decorrentes do que é decretado. Não é honesto afirmar que “todos os alunos devem, ao longo dos seus 12 anos de escolaridade, desenvolver uma cultura científica e artística de base humanista, alicerçada em múltiplas literacias, no raciocínio e na resolução de problemas, no pensamento crítico e criativo, entre outras dimensões” se isso não tem qualquer verdadeira tradução num modelo de escola em que a compreensão do teorema de Pitágoras equivale a saber atravessar na passadeira ou em que a aprendizagem da tabela periódica equivale a saber o que é o “espírito do empreendedorismo”. E nem vale a pena falar de uma Filosofia reduzida a exames de escolha múltipla ou a uma História semestralizada em fatias polvilhadas de tópicos.

Por isso, os cursos de formação inicial de professores se baseiam cada vez mais num elenco de generalidades, estando praticamente ausente uma formação de tipo disciplinar/científico que vá além da leitura de uma qualquer enciclopédia temática para jovens. Para ensinar pouco ou nada, nada ou pouco é preciso saber. Muito menos qualquer tipo de pensamento crítico consistente, porque uma coisa é o exercício de uma crítica fundamentada e baseada em argumentos e outra a mera contestação da “autoridade” académica dos professores e conhecimentos.

Este despacho, se tivesse sido escrito por um grupo de trabalho criado pelos interesses privados na Educação, dificilmente seria diferente.

3ª Feira

Claro que podemos estar apenas a falar da divisão do ano em semestres, com dois momentos (teóricos) reservados à avaliação formal e não com os três períodos tradicionais, mas é bom que se perceba que a organização em semestres tem tido outra aplicação, que é a salamização de disciplinas como a História, Geografia ou mesmo as Ciências e a Educação Visual.