Fascículo Ilustrado Extra – Breves Apontamentos Para Uma Revisão Crítica E Inclusiva Da Arte Portuguesa No Século XIX

Como é fim de semana, os estimados leitores desta série têm direito a dois fascículos extra, todos ilustrados a cores, dedicados a um olhar crítico sobre a Arte Portuguesa no século XIX, com destaque para a Pintura. Porque a decadência das Letras foi acompanhada de processo similar nas Artes, com a ascensão, em especial na segunda metade de Oitocentos, de movimentos paralelos, mas coincidentes no propósito, a que se convencionou designar de “naturalistas”, como se retratassem a realidade envolvente de um modo realista e livre de preconceitos naturalistas. Nada de mais enganador, pois nas Letras e nas Artes, o dito “naturalismo” mais não passa do que uma estratégia do aparato ideológico das classes dominantes na sociedade industrial em ascensão para transmitirem uma mensagem de conformidade com os padrões do moralismo burguês, de submissão das classes trabalhadoras e de legitimação das desigualdades e da exclusão social, através da representação tipificada das classes populares, exaltando-se as virtudes laboriosas e denunciando-se os vícios do merecido lazer.

Silva Porto – exemplo maior da exaltação do trabalho rural submisso e prisioneiro de uma sociedade estratificada que o reduz a mero instrumento e o mantém nas trevas da ignorância. Os seus quadros são representações do conformismo perante a miséria, de resignação perante a desgraça, transmitindo uma mensagem claramente destinada a manter as classes populares sob o domínio dos grandes latifundiários, como se esse fosse o seu destino secular e, de forma paradoxal, um exemplo de virtude.

Souza Pinto – Misoginia, sexismo, estereotipia de género, binaridade, conformismo social. Este é outro exemplo da exaltação dos papéis sociais tradicionais, neste caso com especial destaque para a representação (em alguns momentos perturbadora) das crianças, em regra em cenários campestres, e da Mulher, sempre a desempenhar as funções que tradicionalmente lhe são atribuídas numa sociedade patriarcal, misógina e que desrespeita a individualidade feminina e o direito das mulheres a desempenharem todos os papéis que sintam melhor adequados à construção da sua identidade.

José Malhoa – este é daqueles casos em que um único quadro (mas há tantos) é a síntese de todo um pensamento político-social em que as classes populares são representadas como ociosas e marcadas por todos os vícios associados a um lazer socialmente perigoso e a prazeres moralmente repreensíveis. Alcoolismo, criminalidade, dissolução moral, preguiça, promiscuidade, prostituição, são estereótipos que surgem plasmados num quadro em que o povo é porco, sujo e mau, não trabalha e apenas se diverte em tabernas, cantando, quais cigarras, sem respeito pelo ideal burguês do trabalho. É evidente a mentalidade burguesa puritana e a legitimação da exclusão social e das desigualdades.

Columbano – narcisismo, mitomania, elitismo, misoginia. O seu quadro sobre O Grupo do Leão é uma manifestação atroz das características atrás mencionadas, para além de representar uma visão do mundo preconceituosa, em que o ideal burguês do artista é elevado a uma primazia inaceitável, até por não estar associada a qualquer concepção inclusiva da sociedade. Apenas são representados homens brancos, de meia idade como sendo os modelos a seguir.

O que diriam hoje as pessoas de maus princípios, se os mais destacados vultos da defesa de uma sociedade plural, policultural, multirracial, transgénero e inclusiva (Clara Ferreira Alves, Daniel Oliveira, Isabel Moreira, Joana Amaral Dias, Joacine Katar, Miguel Vale de Almeida, Pedro Adão e Silva, Rui Tavares, entre tant@s outr@s) se fizessem retratar deste modo?

A Lusitânia Já Foi Toda Tomada?

É uma página rodeada de sete outras, em tons de cor de rosa, de loas e elogios à solução encontrada, à bondade de tudo e mais alguma coisa e auto-congratulação do seu principal mentor no JL/Educação deste mês. Um tipo olha à volta e sente-se quase tão solitário quanto nos tempos dos primeiros artigos para o Público em 2008.

Mas enquanto puder, vão ter de me aturar.

(…)

Quem cometeu o erro de usar grupos do WhatsApp para estabelecer uma linha imediata e rápida de comunicação com os alunos, viu-se obrigado a desativar o som das notificações ao fim de pouco tempo, ao perceber que os “horários” para enviar dúvidas ou comentários, nem sempre muito propositados, não respeitam nenhuma parte do dia ou noite. Para quem fez isso com duas ou mais três turmas começou a amaldiçoar o momento em que comprou o smartphone. Pelo que uma das prioridades deveria ter sido a da inclusão de aulas para desenvolver as competências dos alunos em ambientes ditais de tipo educativo, não chegando aceder à primeira página do doutor google ou à página da doutora wikipédia.

(…)

A forma como a área artística das Expressões volta a ser menorizada é coerente com o modo como o currículo, que se afirma pretender que os alunos desenvolvam competências estéticas e humanistas, tem maltratado em todas as mais recentes reformas as disciplinas ligadas às Artes e Humanidades, como se fossem uma espécie de resquício de um passado arcaico, sem interesse para o futuro digital e cibernético.

A Filosofia foi truncada no Ensino Secundário, a História e a Geografia passaram a ser servidas, por quem assim entende, em fatias semestrais no 3º ciclo do Ensino Básico. A Educação Musical está reduzida a dois tempos semanais e restrita ao 2º ciclo do Ensino Básico e quem a quiser explorar terá de recorrer a instituições exteriores ao ensino público. A Educação Visual e Tecnológica foi desmembrada no 2º ciclo e agora as suas componentes desaparecem, enquanto disciplinas autónomas, da versão televisiva/digital do currículo do Ensino Básico.

Se estes são sinais do que será um futuro currículo para os tempos digitais, são péssimos sinais para todos os que querem uma verdadeira Educação Integral das novas gerações.

JL 22Abr20

As Artes E O Novo Tele-Currículo Digital

Estive a reparar que na grelha  estão previstos dois segmentos para as vertentes artísticas e tecnológicas das Expressões todas misturadas do 1º ao 9º ano. Portanto, Educação Musical, Educação Visual e Educação Tecnológica que se cuidem que no futuro Currículo Digital serão enviadas para o olvido. Até que gostava de saber o que acha disto aquele colega muito amigo do poder que preside a uma associação que diz amén a tudo e ainda manda bocas a quem desalinha. E com isto, concorda? Ele não conseguia gravar umas aulas magistrais adequadas, pelo menos, a cada ciclo? Se hã disciplinas em que o ensino à distância (imagem e som) melhor poderiam ser explorados no sentido de desenvolver aquela parte do sentido estético que aparece no famigerado “Perfil” são as de Educação Visual e Educação Musical. Mas…

Pelo menos, assume-se o que é considerado “essencial”. Artes? Nem por isso… só se for para consumo pessoal. Não inalando, claro.

Pintura

 

O Verdadeiro Artista…

… é aquele que exalta a necessidade de conhecimentos para fruir as Artes, mas em matéria de Expressões manteve, durante quatro anos de mandato, a redução do peso das expressões artísticas no currículo (nesse aspecto não se distinguindo em nada da “direita” da troika), enquanto multiplicava o espaço exclusivo da Educação Física. A separação no 2º ciclo da Educação Visual e Tecnológica em duas disciplinas sem par pedagógico manteve-se, fragmentando uma abordagem de técnicas que estão fatiadas a 90 minutos semanais. Tal como a Educação Musical. No 3º ciclo, a presença das Artes é residual, pelo que é de uma muito particular falta de decoro que se escreva o que a seguir coloco (p. 33), de forma a que se perceba que não é feita qualquer manipulação do texto pensado e assim escrito.

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Alguém me explique, devagarinho e com factos concretos, porque é que um dos autores desta longa passagem – com a qual concordo na formulação e substância – pouco ou mais exactamente nada fez para que fosse possível concretizar uma efectiva educação artística nas escolas públicas, investindo nessa componente do currículo em vez de transversalidades do tipo “Literacia Financeira” ou mesmo “Educação para o Empreendedorismo”. Que podem ter o seu lugar e sentido, mas não num contexto de completa erosão ou apagamento das Artes no currículo do Ensino Básico. Houve muita preocupação em demonstrar, por vias de provas de aferição no 2º ano, que os alunos não sabiam dar cambalhotas ou fazer determinados movimentos de Expressão Física, mas nenhuma em que eles (ou os de 5º ou 8º) revelassem se compreendiam a diferença entre uma pintura e uma escultura ou se têm alguns hábitos regulares de consumo cultural.

Já sei… é tudo uma questão de aplicação da “autonomia” por parte das “escolas”.

 

Da (Desprezada) Educação Musical No Ensino Público

Porque a retórica oficial é a do apreço nas Artes, a small talk nas visitas vipe é sempre fofinha, mas depois a prática hipócrita é esta:

[texto que suprimi porque não quero entalar ninguém, mas é pena que a coragem escasseie e o medo abunde]
Entretanto, na minha escola, tinha [sido] aceite a minha proposta de atribuir esse tempo à Música no 2º Ciclo, mas quando foi publicada a matriz, voltaram atrás com a decisão.
Em consequência disso, voltei a ficar com 8 turmas, 6 níveis – entre o 5º ao 12º (Curso Profissional), uma DT e duas tumas com Cidadania e Desenvolvimento (em regime semestral), num total superior a 150  alunos…
Isto não é ensinar, é encher chouriços… e preencher grelhas, MUUUUUUUITAS grelhas…
Violino

Delírios da Aferição “Artística” – 2

Acho que é importante contextualizar-se a realização destas provas de aferição para o 2º ano de escolaridade, para efeitos de análise da coerência dos conceitos e das metodologias.

Relembremos: uma prova final de 4º ano com um peso de 30% na avaliação era má, afunilava o ensino para o treino para as provas, traumatizava crianças ainda muito jovens com o seu formalismo e, não estou a exagerar, era uma espécie de resquício do “fascismo” e do “exame da 4ª classe”. É importante termos isto em mente e mais umas coisas sobre a importância da libertação do ensino das amarras de uma pedagogia muito directiva e obcecada com o desempenho, os conhecimentos, o tempo para fazer algo mais lúdico.

Observemos agora o que se pretende que alunos com 7-8 anos façam durante 90 minutos mais 45, mantendo a sua atenção numa prova profundamente palavrosa e com um enunciado que seria excessivo numa tarefa curricular de leitura criativa, seguida de dramatização.

Até pode ser “giro”, mas para alunos do 2º ano é esta a forma correcta de se avaliar/aferir seja o que for numa área como as expressões “artísticas”? Qual o “paradigma” conceptual que permite avaliar/aferir o desempenho “artístico” de uma criança nesta altura? Sim, conheço alguns referenciais para se fazerem diagnósticos individuais, mas não com provas “universais”.

 

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Conhecer em Profundidade a Ponta da Asa da Mosca

Há muitos muitos anos, lixei por completo uma entrevista para uma posição académica ao explicar ao meu entrevistador de então (especialista numa dada fortaleza do Império Português durante uma década do século XVI, enquanto eu andava a fazer unvestigações em equipa sobre a Carreira da Índia entre os séculos XVI e XVIII) que a mim interessa compreender os fenómenos históricos numa perspectiva alargada de sincronia e diacronia e não especializar-me em detalhes do tipo ponta da asa da mosca, perdendo completamente de vista todo o enquadramento dos insectos no reino animal e deste em toda a biosfera.

Vem isto a propósito das “aprendizagens essenciais” para a disciplina de História da Cultura e das Artes para o 10º ano, uma das mais interessante do currículo do Ensino Secundário. O documento faz lembrar (como os restantes desta vaga) até no grafismo o antigo Currículo Nacional do Ensino Básico. E há passagens que me fazem realmente pensar que a ideia é mesmo que tudo fique pelo “essencial”. Extraí o exemplo abaixo do módulo 4 (A Cultura da Catedral) porque sempre gostei da Idade Média, do seu simbolismo, das suas contradições, do seu imaginário (sim, muito Bloch, Duby, Le Goff, Pernoud, Pirenne, Huizinga, algum Bakhtine, claro que O Nome da Rosa na parte da ficção), das suas manifestações artísticas.

E sempre que tenho a (feliz) oportunidade de voltar a leccionar 7º ano e o Gótico, gosto que os meus alunos experimentem um pouco desse meu maravilhamento. Ora… ainda bem que não tenho de me guiar por isto, pois, digam-me o que disserem, isto é que uma abordagem de tudo ao molho e o portal de Amiens é que é importante. Por outro lado, não sei se devo pedir desculpa aos meus alunos do 8º ano por lhes ter dado umas belas ensaboadelas visuais sobre a transição do Gótico para a Arte do Renascimento.

Gótico

Sim, exagero, faço caricatura, estou a ser redutor, mas é o que isto merece com os “casos práticos como produtos e agentes do processo histórico-cultural”. A sério. Mais um pouco e voltamos ao modo de produção feudal e à arte como exemplo da “super-estrutura” resultante das condições materiais da sociedade e da infra-estrutura económica.

E depois o radical e esquerdista sou eu…