Eu Bem Que Fui “Atirando”, A Ver Se Alguém Dava Com A Lebre

Inclusivamente no debate feito há uns tempos para o Público falei no assunto. E fui por aqui deixando umas pistas, até porque tinha em meu poder a documentação que provava que isto se tinha passado. Lembro-me de dizer e escrever que, por vezes, dava jeito os apelidos do casal serem diferentes… e ainda me lembro da Ana Cohen dizer que eu estava a falar em coisas que ela não reconhecia existirem. Pois… parece que alguém decidiu finalmente encaminhar a papelada para a comunicação social. Só assim é que o ME se mexe. de outra forma, assobiam para o lado.

Estão lá todos os elementos… TEIP, “autonomia”, director costista até à medula, ligação directa ao poder, arrogância e pesporrência (basta ler o que escreveu no JLetras há uns meses), contratação de proximidade, sentimento de impunidade. Deveria ser demitida apenas a cara-metade do shôr director? Penso que as responsabilidades deveriam ser assumidas pelo próprio, que assina a documentação, estando ou não no júri.

É caso único? Não, claro. Mas é a regra? Espero que não, mas não gostaria de arriscar.

O Ministério da Educação decidiu anular o polémico concurso que levou à colocação da mulher do diretor, Liliana Marisa Araújo Faria, do agrupamento de escolas José Saramago como animadora sócio-cultural.

A decisão ocorre depois da denúncia no Exclusivo da TVI que deu conta de que este foi um concurso feito à medida para a mulher do diretor, e apoiante do PS, Faisal Sulemangy Aboobakar. Liliana Faria foi, assim, demitida. 

Eu Também Tenho, Teoricamente, 18 Horas Lectivas

Há horários de pessoal com a minha idade que parecem oásis ou miragens. Há uns anos, o Paulo Prudêncio não acreditava que existissem, mas eu enviei-lhe 2 deles que, ao pé deste, que ontem me enviaram, pareceriam de trabalhos forçados, pois tinham lá umas 10 aulas marcadas. Por isso, não me espanta que exista quem viva bem com este modelo de “autonomia”, de “projectos”, de “créditos” distribuídos à medida. Acrescento que nem se trata de uma “liderança intermédia”. Sim, já sei que tudo dá imenso trabalho a preparar, a acompanhar., a monitorizar, a avaliar. Que exista quem apareça a dar apoio a decisões das sadd que indeferem toda e qualquer reclamação. Quem esteja sempre disponível para “inovar”.

Phosga-se, mais inovação do que duas aulas semanais num horário de 18 horas lectivas? Até eu me tornaria um cósmico adepto do mel da abelha. E gritaria a plenos pulmões pela inclusão, pela equidade, pela diferenciação e pela justiça social. No mínimo.

Só que estou numa escola que insiste em tempos de 45 minutos, isso dá 20 aulas. E não adianta tentar explicar isso, porque a maioria ou não percebe, ou faz que não percebe ou, quando percebe, se cala ou fica calada, quando o momento certo chega. Aquilo do “bom ambiente” e da “boa educação” de não contrariar quem manda.

O Que Pode Parecer Uma “Boa Ideia” Pode Ser Apenas O Início Ou Consolidação De Más Práticas

A Andreia Sanches – uma das jornalistas com conhecimento específico na área da Educação e não apenas com vagas ideias – deixou-se seduzir pela ideia da “autonomia” das escolas e direcções para escolherem os seus professores. O tema não é novo, a bondae da ideia parece óbvia mas, como muitas coisas que parecem por demais evidentes, se calhar não é bem assim. Escreve a Andreia no Público:

Não é o mesmo ensinar em escolas situadas em territórios com altos níveis de abandono escolar, onde as crianças vivem em casas sobrelotadas e as famílias fazem contas ao que põem na mesa, ou ensinar em bairros de classe média e média alta, onde os pais dos meninos têm o ensino superior, há livros nas estantes da sala e explicadores que ajudam a preparar os exames. Há professores especialmente talentosos a ensinar nas primeiras, e que investem a sua energia e formação nisso; e outros que são muito bons nas segundas — mas que têm menos talento e/ou formação para contextos potencialmente mais desafiantes.

Que a distribuição dos profissionais seja cega, como em Portugal, quer aos interesses dos docentes, quer às necessidades das escolas, que tantas vezes perdem aqueles que mais fizeram a diferença ao longo do ano lectivo porque as regras assim o determinam, é um tema espinhoso há muito aflorado, mas que nenhum Governo quis debater a sério.

O primeiro parágrafo que transcrevo retrata algo óbvio: nem todos damos para as mesmas coisas. Como professor, há muito empo, numa zona “deprimida” e com imensos problemas sociais, muita “diversidade”, pobreza, etc, etc, já vi chegar muit@s colegas a quem isso aflige e chega mesmo a assustar, percebendo-se a dificuldade em “encaixar”. Mas como é que sabemos, antes de experimentar, se são os mais adequados ou “melhores” para este ambiente ou aquele? Muitas vezes, é mais a falta de vontade em enfrentar os tais “desafios” que afasta umas pessoas e a outras não. Será numa “entrevista” que um@ director@ ou membro de órgão de gestão, por vezes sem dar aulas há décadas, percebe essa eventual “adequação” ou “vocação”? A minha experiência pessoal diz-me que não é isso que se passa e que as “qualidades” mais apreciadas são outras.

Mas ultrapassemos essa parte, a do nepotismo que garante 98% a familiar em concurso com entrevista (ahhh… mas @ presidente do júri não foi el@) e que tantos conhecemos desde sempre.

Foquemo-nos em algo mais substantivo, até porque não é algo que não se conheça lá de fora, mesmo se há a ilusão de que é este tipo de “modelo” que funciona melhor, embora não seja mais do que o “fechamento” das comunidades escolares sobre si mesmas e o seu contexto envolvente.

Se as escolas tiverem autonomia para escolherem os seus professores – afinal, contrariando a “equidade” que se pede aos professores quando abrem a porta aos seus alunos – até que ponto não aumentarão as assimetrias entre as que conseguem cativar os “melhores” e as que ficarão com os “outros”? Sei que me dirão que o que está em causa é o “perfil” e a sua “adequação” à realidade de cada contexto. Que me desculpem, mas se assim for, haverá zonas do país que ficarão quase sem candidatos e irá agravar-se muito mais as desigualdades que já existem. A menos que achemos que há uma adequação, uma simetria, quase perfeita entre as necessidades de professores e o número de cada “tipo” de professor mais ajustado a dado contexto educativo, económico e cultural. Isto, pura e simplesmente, não é assim. E lá fora já se percebeu que as zonas menos favorecidas são as que sofrem mais.

(estou a passar por cima da questão das quotas que determinam que só 25% dos professores podem ser muito bons ou excelentes, independentemente do contexto e das dificuldades que enfrentam; o que, há que convir, desmotiva 75% dos que sejam obrigados ou escolhidos para esta ou aquela escola)

Mas há outra questão, que pode parecer contra-intuitiva para quem entranhou este discurso da “autonomia e flexibilidade, pseudo-liberal, pouco atento aos fenómenos potenciadores das desigualdades. Não será um sistema “cego” potencialmente mais justo e equitativo (recordemos… não é a “cegueira” um dos atributos mais associados a uma Justiça maiúscula, por ser imune aos “contextos” diferentes condições daqueles que perante ela são trazidos?) do que um que permite a escolha à la carte dos candidatos à docência? Não permitirá uma distribuição menos assimétrica dos talentos e méritos dos professores que, mesmo tendo muito jeito para dado perfil de alunos, se calhar prefere alinhar em outro tipo de “organização”? Não será o sistema da “autonomia”, paradoxalmente, o que acabará por tratar pior e de forma mais desigual os interesses dos alunos no seu todo, ao deixar nas mãos de uma ou duas pessoas a selecção de dezenas de docentes para cada agrupamento?

Nada como ler o que vai sendo concluído acerca deste assunto (THE RECRUITMENT GAP -Attracting teachers to schools serving disadvantaged communities), comparando as “evidências” no terreno com as evidências teóricas. Porque, não nos iludamos, os que estão a perder, perderão sempre mais.

Reputation matters: more affluent schools seem to be attractive due to their ‘reputation’ while teachers in disadvantaged schools are most likely to leave because they are attracted by another school.
• Teachers overwhelmingly agree that teaching in schools serving more disadvantaged communities tends to involve harder work (92%) and requires more skills (87%). Teachers who currently work in disadvantaged schools agree most
strongly with this.
• Teachers typically prefer to teach classes with higher attaining pupils and with fewer behaviour problems. This poses problems for recruitment in schools with more disadvantaged intakes.
• Those who have currently chosen to teach in schools with more affluent intakes strongly wish to avoid schools with behaviour problems, even if this means working longer hours. It will likely be difficult to persuade these teachers to apply for jobs at any school where they fear behaviour is not under control. This is why sound whole-school behaviour policies, along with improving the external reputation of a school are important for improving its teacher recruitment.

Fala-se em “revolução” a este respeito da contratação directa pelas escolas de parte significativa do seu pessoal docente. Por deformação histórica, sei no que acabam quase todas essas “revoluções” quando as castas no poder se enquistam. Sendo que neste caso, já estão enquistadas e a “revolução” é apenas para a selecção dos “súbditos”. Se há quem assim escolheria os “melhores” para os alunos da sua escola? Ou quem julga serem os “melhores”? Acredito que sim. Mas isso apenas quereria dizer que para algum lado iriam os “rejeitados” por um sistema de decisão quase unipessoal que só tornaria ainda mais insuportável um modelo de gestão escolar profundamente centralizado a nível local. E seria um meio caminho para outras formas de “contratação local” que já existem para certas “ofertas educativas diferenciadas”.

A verdadeira “revolução” seria acabar com esses múltiplos centralismos de proximidade, opacos, que beneficiam da fraca visibilidade para atropelar procedimentos e dar mais valor a uma entrevista de meia hora ou menos do que ao portefólio profissional ou mesmo a anos de experiência neste tipo de funções.

A verdadeira “revolução” seria criar um código deontológico para a gestão escolar. E depois logo passaríamos para outras coisas.

4ª Feira

Já se está a perceber, com expectável rapidez, o que pretendiam cert@s director@s que reclamaram por maior autonomia na contratação dos seus “colaboradores”. Até falaram em “novos olhares”. Ao que parece, num determinado teip com ligação directa ao shôr ministro, começou-se pela família nuclear. Episódio deprimente, contado por quem assistiu em directo ao desempenho do inclusivo líder local. Nada como começar por incluir os seus, portantossss. Se não for quem sabe, por contacto próximo e íntimo, a fazê-lo, quem o fará?

3ª Feira – Dia 58

Claro que tivemos logo toda a gente a negar responsabilidade ou com dedos acusadores. Transcrevo a notícia do Público de domingo: “É ‘frustrante’, dizem alunos. ‘Desmerece a evolução’ dos estudantes, comentam pais. E é ‘errado’, reconhecem directores”. Quanto a estes últimos, é óbvio que para umas coisas são líderes e representam as “escolas”, mas nestes casos, parece que nada passa por eles e que nem sequer são presidentes dos Conselhos Pedagógicos, os órgãos que nas escolas definem os critérios de avaliação. Já se percebeu que, neste caso, por “escolas” se entende “professores”, os suspeitos e culpados do costume. 

4ª Feira – Dia 38

O que lamento é que esta “autonomia”, este nível de liberdade dado às escolas em matéria tão sensível só aconteça numa situação de emergência, não ficando completamente afastada a sensação de que é uma estratégia do ministério para afastar de si qualquer responsabilidade pela resolução de uma situação complicada que ajudou pouco a minorar. Se as coisas correrem bem, foi uma óptima decisão; se correrem mal, foi porque “as escolas” não souberam usar bem tão generosa concessão de poder pela tutela. De qualquer das maneiras, na dúvida, prefiro ter mesmo algum grau de “autonomia”, mesmo que passageiro do que nenhum.

O Nosso Pilatos

Sempre que as coisas apertam, lá vem a tal da “autonomia”. Se alguma coisa correr mal, já se gastou o sabonete líquido.

Ministro Tiago Brandão Rodrigues entende que as escolas têm “maturidade suficiente para entender como querem fazer a avaliação dos seus alunos”. Governante assinalou regresso do ensino presencial em escola de Paços de Ferreira.

Uma Verdadeira Pedagogia Da Autonomia…

… dificilmente se satisfaria com a validação de práticas de servidão burocrático-administrativa ou com uma lógica em que o professor é considerado um irresponsável se não registar tudo o que fez e não fez, com a devida fundamentação em duplicado ou triplicado, em grelha, tabela, plataforma ou questionário, para posterior análise e eventual puxão de orelhas porque falhou aqui um ponto final ou ali ficou um verbo que parece mal à cartilha da “autonomia”. Parece-me de uma imensa hipocrisia, sabendo que me repito, mas apetece-me repetir, porque é coisa que dura e perdura, que quem ande com certas retóricas emancipatórias e inclusivas sempre a cair-lhe do beiço, deveria ter o decoro de não estar sempre a fazer descarado negócio em modo de “formações” reaquecidas em banho-maria das sebentas de outrora, ou que esteja na primeira linha dos que querem amarrar toda a gente a uma concepção do professor como funcionário subordinado e temeroso em relação a qualquer desvio ao padrão dominante.

Já agora, também tenho direito a citação freirista, mas sincera, porque eu até o li, mesmo quando discordava da parte demasiado devedora ao contexto das sociedades pós-coloniais de desenvolvimento muito desigual.

Que podem pensar alunos sérios de um professor que, há dois semestres, falava com quase ardor sobre a necessidade da luta pela autonomia das classes populares e hoje, dizendo que não mudou,
faz o discurso pragmático contra os sonhos e pratica a transferência de saber do professor para o aluno?! Que dizer da professora que, de esquerda ontem, defendia a formação da classe trabalhadora e que, pragmática hoje, se satisfaz, curvada ao fatalismo neoliberal, com o puro treinamento do operário, insistindo, porém, que é progressista?

Eu Ainda Não Recebi O Inquérito Da Torre De Controlo De Qualidade E Quantidade! E @s Colegas DT?

Já vi (há versões para os vários níveis de escolaridade e tudo) e é incrível como quem levou duas semanas a produzir um plano com 8 orientações vem agora inquirir o que os DT fizeram, com quem comunicaram e o quê, o que calendarizaram, o que articularam, etc, etc. Confesso que quando ouço ou leio o que pode parecer um elogio aos professores, já sei que vem aí marretada da séria. E ficamos numa no-win situation, porque se dizemos que nada ou pouco fizemos, somos uns ineptos, se dizemos que fizemos é porque as orientações iniciais do ME são geniais e, afinal, é possível fazer tudo e mais alguma coisa.

Podem não ser grande coisa como decisores, mas como controladores é difícil encontrar gente menos dedicada. Phosga-se… quando se pedia um “rumo”, não era uma trela…

Torre