Como Spinar As Coisas

Há 50 escolas/agrupamentos com “semestres” e anuncia-se que “há cada vez mais escolas” a fazer isso. Claro, pois antes não existia nenhuma. Bastariam 2 ou 3 para serem mais do que há um par de anos. As “unidades orgânicas” são mais de 800. É fazer as contas de tamanho sucesso.

Mantendo o calendário religioso das pausas lectivas e juntando uma obrigatória avaliação intercalar (porque um “semestre” acaba por ser “longo”), não me parece a melhor das ideias, mas sabeis que sou um matarruano conservador, imobilista e impermeável ao século XXI. Dizem que se dão menos dias de aulas e tudo, o que é curioso em quem se queixa de falta de tempo para leccionar os conteúdos.

Calendario

(já agora… começam a ouvir-se algumas realidades sobre a semestralização de disciplinas´como a História, opção que pode levar a que os alunos estejam todo um ano sem aulas dessas mesmas disciplinas… basta terem o 1º semestre no 5º ou 7º e o 2º semestre no 6º ou 8º… consta que é “óptimo” para o desenvolvimento e consolidação de aprendizagens significativas, claro…)

Aquilo Que Eu Acharia Mesmo “Inovador” Em Termos De Avaliação

Uma avaliação cumulativa, em que os alunos fossem alcançando objectivos, desenvolvendo competências, aplicando conhecimentos adquiridos ao longo do ano lectivo com um horizonte de 20 na classificação final (para a qual deveriam conhecer as condições no ninício do ano lectivo de forma clara e objectiva), mas que teria classificações intermédias nos períodos, semestres, bimestres, trimestres, o que entenderem. Ou seja, o aluno poderia ter 6 no primeiro período, 13 no segundo (+7) e 18 (+5) no terceiro, conforme os objectivos/competência/conhecimentos que fosse alcançando. E poderia gerir o seu ritmo, em especial se os seus progressos pudessem ser conhecidos de forma “contínua” e transparente. Poderia querer trabalhar mais num período do que em outros. E tudo poderia ser feito com testes, trabalhos, projectos ou seja o que for. Sejamos heterodoxos e toleremos metodologias diferentes.

Só que isto implicaria mesmo uma mudança de “paradigma” na forma de encarar as aulas e a avaliação. Não seriam mudanças cosméticas com “descritores” e grelhas disto e daquilo. E muito menos com reuniões para tudo e nada. E até poderia ser feita por ciclo, com um total global.

No Básico também seria possível, com a escala de 0 a 100% e conversão posterior  em escala de níveis de 1 a 5 ou a 10 (a minha preferida). Os alunos iriam sabendo quanto já tinham alcançado. Não é muito diferente do que se usa em abordagens menos convencionais da avaliação, só que sem fingir que é novo e depois acabar por dar notas de 1 a 5 como sempre em cada período.

Isso, sim, parece-me “inovador”, mesmo se exista, quase por certo, quem me diga que já foi experimentado algures. Não me sinto bafejado pela singularidade intelectual absoluta como é apanágio dos inovadores por desígnio.

Progress-Bar-v2

Não Me Choca Nada, Mas Não Me Parece Inovador, Antes Cobrindo Com Verniz E Purpurinas O Que Já Se Conhece

Vamos lá ler o que passa por ser uma grande novidade:

“O modelo, a implementar no próximo ano letivo, passa por não dar notas aos testes e outros instrumentos de avaliação dos alunos, tal como são conhecidas, mas por várias menções descritivas do seu desempenho em vários itens e em cada momento de avaliação, seja escrita ou oral, indicando onde pode melhorar o seu desempenho”, disse o presidente daquele Agrupamento de Escolas, que abarca cerca 200 professores e 1.900 alunos do pré-escolar ao 12º ano de escolaridade.

Ora bem… isto não é muito diferente de avaliar por domínios e subdomínios com uma escala qualitativa em vez de quantitativa.

Mas apresenta-se como sendo algo diferente.

Segundo Jorge Costa, este novo modelo representa uma “avaliação ao serviço da aprendizagem” e é o “tomar a dianteira” relativamente a “novos critérios de avaliação e outra forma de avaliar, ensinar e aprender”, num projeto idealizado e concebido no âmbito da autonomia de gestão pedagógica do Agrupamento de Escolas de Abrantes, no distrito de Santarém.

“É uma alteração significativa no modelo de avaliação”, notou, tendo referido que “o que se vai começar a avaliar são descritores, ou seja, as competências que um aluno consegue ter em cada domínio, em cada disciplina”, num modelo que privilegia o “caráter contínuo e sistemático” da avaliação.

Qual o problema? É que, em especial no Secundário, é necessário converter essa avaliação com base em descritores num valor de 0 a 20 e então como se fazem as coisas? Sim, o aluno não “carrega” com “uma nota negativa” mas, afinal, vai dar mais ao menos ao mesmo no final do processo/período/ano. E o “carácter contínuo e sistemático” da avaliação não depende do tipo de avaliação (descritores qualitativos sem classificação final/avaliação quantitativa por domínio com nota final), mas sim do diálogo estabelecido com os alunos.

Nesse sentido, acrescentou, “o aluno deixa de carregar com uma nota negativa e é avaliado por vários descritores ficando a saber onde pode melhorar o seu desempenho em cada domínio, através de uma classificação parcelar e não através de uma nota global“.

Para Jorge Costa, a mais valia do novo modelo “passa por colocar a avaliação ao serviço da aprendizagem e de conseguir arranjar uma estratégia” para a sua consecução, sendo apenas atribuídas notas de 0 a 20 no final de cada um dos três períodos letivos, para que, através da avaliação formativa, se chegue à avaliação sumativa, atribuída no 3º período letivo.

Pessoalmente, acho que este modelo é mais interessante para o Básico do que para o Secundário porque, podem achar que não, mas os alunos ficarão mais perdidos, enquanto não perceberem como se dará a conversão dos “descritores” em “valores”.

Compreendo a necessidade de apresentar como um enorme avanço o que é apenas uma demão de pintura na fachada, mas isso só engana quem não percebe que, no fundo, os procedimentos “novos” vão dar ao mesmo.

Ideia

Umas Das Vantagens Do “Envelhecimento Docente”…

… deveria ser a presunção de que já sabemos o que lemos há 20 ou 30 anos e que nessa altura nos fizeram digerir à exaustão. Mas parece que o que se assume é que andamos já todos senis e que é preciso explicarem-nos novamente a diferença entre modalidades de avaliação de acordo com o paradigma das últimas décadas do século XX e entre avaliação interna e externa. Um tipo lê certas coisas e pensa estar de volta aos tempos da profissionalização ou de alguma cadeira do 1º ciclo de estudos bolonheses em Educação. Na prática, o que tais “especialistas” nos acabam por demonstrar é a magreza e fragilidade das suas próprias leituras e o monolitismo dos seus conceitos.

entropia

Vou Pensar Nisso…

… embora esteja convencido que a confusão instalada com as progressões e o faseamento ainda irá aumentar mais pois quer-me parecer que andam a fazer contas apenas aos efeitos dos 11 meses do faseamento deste ano e não aos 11 meses do próximo. Porque só dessa forma é que o pessoal de 2018 (e de 2010, já agora) conseguirá progredir em 2020. A nota informativa da DGAE até é relativamente clara… mas apenas relativamente, porque vão existir leituras (já estão a acontecer) abusivas de toda esta situação. E vai ser particularmente “divertido” ver como será feita a observação de aulas a toda a gente que dela necessita no 1º período do próximo ano lectivo. Se até agora, tudo andava a passo de caracol, quero ver como vai ser.

DGAE RecuperaDGAEREcupera1