Uderzo (1927-2020)

Ontem não tive tempo para assinalar o desaparecimento desenhador do Astérix, série de culto, mesmo depois da morte de Goscinny, o autor dos mais brilhantes argumentos da série. Comprei sempre os álbuns, quando passei a ter dinheiro para isso, mesmo quando a qualidade do desenho se mantinha muito acima das histórias, progressivamente mais desinspiradas. Pode ser que agora se liberte um pouco da figura tutelar. Os meus favoritos serão sempre Astérix e os Normandos (por causa da aprendizagem do medo) e A Zaragata (graças ao Caius Detritus), mas a cada um@ o seu paladar.

Mas… em nome dos tempos da infância e adolescência (ainda se aguenta muito bem O Grande Fosso), fica aqui a referência.

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Da Teoria Ao “Saber Fazer”

Um dos conteúdos que mais me agrada no programa de Português do 2º ciclo é, como seria de esperar, a banda desenhada. Gosto de abordar a teoria da coisa, de explicar a sua originalidade e variantes. Como começar de esquemas simples e os ir complexificando, além dos tios patinhas ou mesmo dos agora populares manga. Uso o Stripgenerator para eles começarem a treinar com um leque de objectos e figuras pré-definidas (a queixa habitual é “não sei desenhar”) e depois forneço-lhes pranchas com diversos formatos, dando-lhes alguns temas para eles desenvolverem e irem-me entregando à medida que terminem, sem um prazo definido. Há sempre um pouco de tudo. Há sempre quem arrisque, sem medo que o professor lhes destrua a criatividade. Se quiserem, podem construir os seus formatos.

E é por aqui que eu muitas vezes entro em choque com as concepções da criatividade nascida do nada. Neste caso, a “competência”, o “saber fazer” vem depois do conhecimento dos elementos básicos das técnicas. Claro que poderia brotar qualquer coisa da folha branca e eu até teria menos “trabalho”, pois em vez de explicar os formatos das vinhetas, das tiras, dos balões, das onomatopeias, bastaria ser o “facilitador” da rabisquice. Mas parece que até o Picasso, o Mondrian ou o Pollock aprenderam a desenhar antes de revolucionarem a arte contemporânea.

FNAC BD

Uma boa concorrência nestes dois fins de semana à Amadora, até porque a escola franco-belga deixou de estar muito presente nas opções dominadas pelos produtos com origem nos States (que farto da maioria dos produtos formatados da DC e da Marvel). Fica uma amostra do que vai ser consumido, para compensar da primeira metade do primeiro trimestre. E sempre se completam colecções a preço justo.

 

 

Não Se Pode Clonar O Goscinny?

Desenho impecável, bom papel e impressão a condizer. Chegou no dia certo, foi lido em poucos minutos porque a falha continua a ser essa, a da escrita, da concepção do álbum para além de uma ideia geral. Falta frescura, pois mantém-se a fórmula, replicam-se alguns efeitos, mas tudo surge um pouco forçado. Resta o divertido, porque mais “fora da caixa”, gozo à formação profissional dos jovens na velha Gália.

Continuo a comprar para manter a tradição e sempre na esperança de que a influência pesada de Uderzo deixe de limitar a criatividade alheia.

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