A Tele-Narrativa – 2

Eu em matéria de reinvenções prefiro aquelas que se fazem pelo exemplo e o que é chato é que a maioria d@s reiventor@s da roda têm tendência para serem péssimos exemplos disso mesmo. Basta ver algumas das apresentações/comunicações dos arautos da “inovação”.

E depois querem “toda a Escola Pública” a reinventar-se como se fosse mesmo isso o essencial. Não, lamento, mas não é. O que é prioritário é desenvolver a sociedade para que ela possa corresponder a um nível diferente de exigências que tem muita dificuldade em acompanhar. Basta ver as queixas ao fim de um mês de confinamento, sendo que duas semanas já seriam de férias para os alunos.

Uma “nova Escola Pública”? Deixem-me rir… vocelências sabem lá o que isso é em larga escala, fora dos vossos nichos e zonas de conforto

E se toda a Escola Pública usar o período da quarentena para se reinventar?

Quem não fez já um curso on-line sobre as ferramentas para as quais não tinham tido a formação e a preparação prévia necessária ou adequada, como o caso do moodle, zoom, classrrom [sic] , entre outras?

Haddock

FEM 2020: 3 – Inovação

Outro termo que é atropelado e tropeliado a cada esquina sem dó nem piedade é “inovação”. Porque parece que há quem não perceba o que “inovação” quer propriamente dizer. O termo tem etimologia no latim innovatio (não se espantem, isto até a wikipédia diz) e significa criar algo novo (ideia, processo, aparato) que se distingue do que antes existia, mesmo se pode resultar da combinação de elementos antes já conhecidos. Mas é algo que difere do que já foi feito.

Assim sendo, quase tudo o que vejo ou ouço tratar nos dias que correm como “inovação” não o é, não passando de “repetição” (repetitio), mais ou menos cosmetizada ou envernizada apressadamente. Mais do que voltar a fazer o que foi feito, servem-me como vnoas fórmulas há muito testadas e praticadas. Não é por terem sido abandonadas tais práticas ou abandonados os objectos que a sua reutilização ou recuperação se torna “inovação”. Não é porque recombinamos graficamente os procedimentos de planificação, implementação e avaliação de um dado “projecto” ou “actividade” que eles se tornam “inovadores”.

Tudo bem, podemos passar de uma grelha quadriculada para um fluxograma um determinado processo, mas isso não traz qualquer “inovação pedagógica”. Não é porque se apresenta a coisa numa app ou programa mais recente que ela se torna nova. Um lifting ou uma injecção de botox deixa a senhora (ou senhor) com a mesma idade, apenas muda a sua “aparência”. E nem sempre para melhor.

Por caridade, não me cansem com banha da cobra como se fosse toda uma new school. O marketing está bem pensado em termos de repetição (hoje levei com outra apresentação que nem tirou lá em cima a tarja do pafismo educacional, mesmo que estreitinha e discreta), mas só engole quem é muito verdinho nisto ou já foi atacado pelo senhor Aloísio (e agora? vá de correr ao google…). Ou já está por tudo, desde que se calem antes de falecermos de tédio.

Inov

Haverá Maior Demagogia…

… do que prometer o fim das retenções no Ensino Básico e garantir que isso pode levar a poupar centenas de milhões de euros, pois basta as escolas e os professores trabalharem mais e melhor, dando a entender que só há chumbos porque as escolas trabalham mal e os professores trabalham pouco?

Como demagogos, o António, o Tiago e o João (com bastantes “âncoras” por aí, do Bloco ao PSD, admito) não são muito sofisticados, mas têm uma “narrativa” populista razoavelmente eficaz.

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Mas Afinal Sempre Devem Ser Todos Doutores?

O destaque do Público de hoje despertou reacções que me fazem sorrir, porque são quantas vezes os mesmos que defendem uma coisa e o seu contrário. Por exemplo, o presidente Marcelo é, pela primeira vez que me lembre em décadas de vida pública, contra a existência de propinas, aproximando-se de posições que conheço a Bernie Sanders nos E.U.A. ainda mais do que às do Bloco ou PCP por cá.

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Vamos ser um pouco menos demagógicos e vendedores de ilusões em tudo isto ou será que custa muito? Por mim, podem abandalhar tudo… fazer 12 anos de escolaridade obrigatória sem retenções e exames e entrar na Universidade de forma automática, sem numerus clausus. Mas, por favor, não me venham com conversas de rigor ou qualidade no ensino, porque não conheço nenhum sistema que, tirando o soviético, tenha funcionado dessa forma com alguma qualidade média. Muito menos com as “instituições” a fazerem exames de acesso se a ideia é apenas encher as vagas que ficam ali por ocupar em cursos de 4ª escolha em instituições de categoria que não vou classificar, pois posso ofender gente de bem que não tem culpa de lá ganhar a vida.

Sabemos o que produz um sistema falsamente igualitarista deste tipo. Como no Ensino Básico, a médio prazo (até porque o caminho já está meio feito) teremos um Ensino Superior a duas ou três velocidades, com as instituições que gostam de manter o seu “prestígio” e posição em rankings internacionais a manter práticas restritivas de forma encoberta ou mesmo a recrutar alunos no estrangeiro, enquanto numa base alargada teremos um ensino “superior” de nome a fornecer licenciaturas instantâneas e mestrados por atacado, num delírio qualificador e certificador superior às Novas Oportunidades que a OCDE elogiará.

A “justiça social” no acesso à Universidade não se consegue dessa forma, mas sim apoiando os alunos com maiores dificuldades (em especial socio-económicas) para que sigam estudos de acordo com as suas capacidades académicas, sem serem empurrados para  via “profissionalizantes” que são enganadoras na sua “facilidade”, para não dizer pior. E muito menos se consegue absorver de forma adequada mão-de-obra altamente qualificada com uma economia regulada pela mediocridade e pelo emprego precário em actividades cada vez mais dependentes de uma frágil terciarização para turista consumir. Porque há limites para os condutores de tuc-tuc (a menos que exportemos para Mumbai os excedentes para conduzir riquexós), guias das zonas históricas ou empregados de mesa a servir à esplanada água sem gás ao preço de champanhe do legítimo.

Há momentos em que o país parece ser sorvido por uma vertigem apimbalhante, normalmente em finais de mandato, guiado por políticos em que a tentação pela choldra supera qualquer residual sentido de Estado.

E não digam que a culpa é do Goucha ou da Cristina.

(e nada como uma governante com a descendência no privado a defender a massificação do ensino púbico…)

Há Quem Chame “Inovação”…

… a colocar um vídeo de um qualquer canal do Youtube numa aula com outra pessoa a explicar a mesma coisa que @ professor@ em causa deveria explicar. Parece que é moderno, multimédia e digital. A mim, parece que é apenas uma espécie de confissão que me desagrada. Se atrai mais a atenção dos alunos, porque é “multimédia”? A sério? Então as coisas estão mesmo a correr mal.

Mirror

(prometo que esta vaga de textos menos confortáveis tem duração limitada…)

Há Sempre Dinheiro Para…

… os buracos por onde se escoaram muitos milhões em empréstimos manhosos.

Estado tem prejuízos anuais superiores a cem milhões com ex-BPN

Auditoria da Inspeção-Geral de Finanças foi entregue ao governo em março. As críticas são muitas e deixam Francisco Nogueira Leite, o administrador nomeado por Pedro Passos Coelho, em posição difícil.

money-bag

A “Nota Informativa” da DGEstE Não Chegou?

Em comunicado divulgado ao princípio da noite desta segunda-feira, o Ministério da Educação esclarece que “decidiu solicitar serviços mínimos atendendo a que o alargamento dos períodos de greve ao mês de julho põe em causa necessidades sociais impreteríveis, como sejam a conclusão do processo de exames e o consequente acesso ao ensino superior por parte dos alunos”.

Minimos

(isso não se aplica ao Básico… e, há agora, quantos serão suficientes para serem considerados “mínimos”?)

O Jornalismo (Quase) Redescoberto

Ontem dei-me ao trabalho de acompanhar mais de meia hora o Expresso da Meia Noite, coisa que não fazia há muito, desde que comecei a achar que as notícias que interessavam conhecer morriam no Expresso, quando comprava o exclusivo de diversos papers. Ou quando se truncava informação, omitindo nomes, com a desculpa de “o que interessa é mudar os procedimentos”.

Eu discordo. Discordava. Discordarei. Precisamos de saber, com nome e cara estampada, quem foram aqueles que acentuaram os velhos traços de Portugal como um recanto amigável para redes de corrupção, nepotismo e caciquismo. Tabloidização? Transparência? Não sei… o que sei é que há muito que é sabido e não publicado, não por falta de provas equivalentes ao que é divulgado, mas porque não convém em dado momento.

(quem seguiu o programa, terá ouvido uma jornalista dizer que sabe quem é um “Pluto” na lista de pagamentos do GES, mas que não é “relevante”… será mesmo?)

O painel, com moderadores incluídos, tinha 6 jornalistas que, talvez por serem mais novos do que eu, pareciam estar a descobrir naquele momento o país em que têm vivido. Num lapso, um deles lá afirmou que desde 2004, quando Sócrates se candidatou a líder do PS, se sabia que alguma coisa de menos bom o rodeava. Mas que todos se tinham calado. Pois… mas se até eu sabia que Sócrates era “má moeda” e vivo no desterro aldeão, sem acesso a tertúlias da grande urbe, como é que eles podem dizer que eram apenas “rumores” que acabaram por não ser notícia.

Raios, desde 1987 que eu não votava para as legislativas e mexi-me em 2005 para votar contra o que aí vinha. Não sabiam? Não eram nascidos? Não queriam saber? Não os deixaram noticiair? A culpa foi da inépcia do Santana?

Não. As razões foram outras que um dia talvez alguém tenha coragem para admitir, quiçá depois de prescrever o que fizeram, omitiram, receberam, etc.

Outra coisa gira foi dizer que nada disto se sabia durante o mandato de Sócrates. Que o Ministério Público agarrou em coisas posteriores, de 2013 e foi recuando até dar com as outras. Phosga-se, que grande treta.

Em 2008 e 2009 já não se sabia que aquilo estava “podre”? São capazes de dizer que não sabiam de nada mesmo? Ainda houve quem dissesse, durante o programa, que o silêncio da classe política é enorme e que pouco se diz sobre o que se vai sabendo “agora”. O Santos Silva é assim tão ingénuo? O próprio António Costa? E o que dizer do Grupo Lena facturar à grande com a Parque Escolar, mas ninguém tocar na MLR, mesmo depois do caso João Pedroso (sim foi ilibada à 2ª, mas alguém tem dúvidas do que se estava a passar?).  Não se tinha apercebido de nada? Porque eu bem vi quem eram os governantes no lançamento do livro dela… o jamé e o campos da testa alta, que depois apareceu em fotos nos copos a ver tv com o engenheiro. Tudo bons rapazes e rapariga. De nada souberam. A muralha d’aço vai proteger esta gente até quando?

Pois… o silêncio é da classe política, mas não só.

Perguntem a alguns dos senadores do jornalismo de sofá, alguns deles dos vossos grupos editoriais, que subiram – não apenas no actual Global Media – a posições de muito poder e acesso a informação há uma década, e depois digam-me onde e porque começou a omertá. Perguntem a muitos colegas que andaram por esse mundo a fazer a “cobertura de eventos” com muita coisa paga, às claras ou às escuras. A sério que não sabem mesmo como apareciam certas notícias? Durante segundos, no programa, falou-se mesmo em “publicidade”, mas o programa estava quase a acabar.

A sério que não sabem mesmo de nada?

Ou é apenas para se limparem de não terem dado ouvidos a quem vos avisou que o barco estava cheio de ratos a dar cabo de tudo?

Surdez

 

5ª Feira

Atrás do regresso do zeitgeist educacional da flexibilidade, autonomia, perfil de competências, metodologia de projecto, transversalidade e porosidade dos saberes e toda a parafernália zen e new age muito em moda há um quarto de século, eis que parece já por aí o discurso em torno da “abordagem holística” dos alunos e do seu desempenho.

Abordar o aluno/criança/jovem como um todo, não o fatiando disciplinarmente é uma abordagem estimável e com alguns pontos claramente meritórios em termos filosóficos. Restam é alguns (muitos?) problemas práticos do lado de quem defende essa abordagem e – deduz-se – se acha com competência para dar “formação” e tudo para quem quiser seguir essa perspectiva. O primeiro, constatado ao longo do tempo em primeira mão, é que essa abordagem unificadora, do todo humano, raramente é aplicada pelos seus defensores a quem discorda deles nem que seja com moderada cortesia. Quem discorda é, em regra, um tapado de ideias, uma espécie de criatura que ainda não encontrou a Luz. Como todas as abordagens “unificadoras”, a holística não gosta de deixar espaço para mais nada. O segundo, de natureza nem mais comezinha, passa por se perceber como é que a coisa se implementa quando mais de uma pessoa envolvida na “avaliação holística” dos alunos e que passa pela questão da individualidade. No caso d@s professor@s será que tod@s terão a mesma visão sobre o aluno? Ou deverão tod@s ser formatad@s previamente? A visão do aluno é naturalmente similar – mais ou menos diferenças menores – para toda a gente, independentemente das relações específicas estabelecidas ou somos uma espécie de colectivo unificado global em que a energia flui e as opiniões confluem de forma naturalmente concordante?

O meu problema com a “abordagem holística” dos alunos como estratégia que pretensamente pretende valorizar a sua individualidade é que acaba por, de forma indirecta, pressupor uma espécie de dissolução da individualidade dos adultos em presença, a menos que aceitem de forma acrítica e apática aquela que é uma visão entre outras. Como todas as derivas colectivistas, melhor ou pior intencionadas, são mais perigosas do que parecem, pois acabam por querer promover, nem que seja de forma inconsciente, uma espécie de indiferenciação, quando afirmam exactamente o seu contrário.

NewAge