Regressos Blogosféricos

Nestes tempos singulares, há quem regresse à escrita regular:

António Galrinho:

Palavras em quarentena

Este blogue esteve praticamente inativo por cerca de uma década, e agora permanece nele apenas uma ínfima parte daquilo que o compôs. A ideia é abrir um novo blogue em breve. Mas enquanto isso não acontece, este espaço é dedicado a pequenos textos que desejo partilhar durante o período de quarentena. São colocados pela ordem da numeração, de baixo para cima, como as coisas crescem.

Luís Costa:

Voltei

Voltei. Para já, sem armas, que os tempos clamam por tréguas e união. Voltei, para amainar o frio, rasgar fissuras nesta redoma de tempo incerto e doentio, lançar sâmaras ao vento e ir ao encontro das pessoas, onde elas estão, nas suas incertas ilhas de (ainda serena) inquietação. Voltei. Voltei para vencer distâncias ― quebrar barreiras, galgar muros, beber léguas de macadame, cruzar oceanos ― para estar com as pessoas, dar-me às pessoas e, com elas, exorcizar degredos, antes que os medos cheguem, cavos e sombrios. Ficam arredios quando estamos juntos e unidos. Farei, também, muralha minha dos vossos ombros validos.

Este é, pois, um blogue muito especial, porque será tecido com os meus genes mais íntimos, acalentado com o veludo mais puro da minha alma, com… o melhor do mim: o meu poeta, aquele que, amiúde, as circunstâncias do quotidiano, social e profissional, me obrigam a despir e enclausurar.

Aqui, o tempo e o espaço não serão lineares nem ditarão ordens. Farei deles uma incerta concertina ― ora longa, ora estreita; ora direita, ora encurvada ― e tangerei com ela melodias, escritas com penas minhas e minhas distintas alegrias. Serei eu, inteiro, porque só me sinto inteiro quando me dou às minhas múltiplas famílias, que moram em muitas rodas, que morrem nos confins do mudo, onde o mar chega exausto de tanto ondear.

Serei eu, por aí… a samarar.

Maqescrever2

Interessante

Com algumas propostas de plataformas (em especial para usar com alunos que dominem o inglês) que desconhecia.

Please Stop Teaching Like Everything is Normal

As I sit at home with my 5 1/2 year-old and 2 year-old attempting to figure out some kind of routine and manage my own anxieties, I have been struggling not to cringe as I watch the entire country turn educating kids into a huge social and technological experiment.

The approaches range widely, with some schools and districts switching entirely online, requiring students to submit work for a grade and running daily Zoom “classes” for kids as young as elementary, and some districts, like mine here in Philadelphia, directing teachers not to teach online at all due to FAPE (Free Appropriate Public Education) law and instead providing families with enrichment materials.

Before all of this, a common buzz phrase was “trauma-informed teaching.” For all of the buzz, I have not seen a lot of these specific conversations happening (please prove me wrong). Yes, kids need structure (although, I’m learning that schedules are not for all kids—raises hand) and yes, kids need something to do that feels normal. However, in talking with my students this week through Hangout, the ambiguity of the work they are being given and the potential for it to count later is stressful. The difficulty teachers can have trying to address kids’ individual needs digitally (especially students with IEPs or our ELL population) are also stressful. Students are also finding it hard to focus as things as they watch the SAT they registered for be canceled, as they follow events on social media, are distanced from their friends, feel the stress of their parents, worry about how/if they will graduate or if they will get to wear the prom dress or suit they were so excited to wear.

We have kids whose family members are working in healthcare and at grocery stores who are directly on the front lines. There are kids with parents or other family members with compromised immune systems, or whose own immune systems are compromised. We have families where a parent has lost a job, and families where there is not enough food on the table. Even for families without these issues, often both parents are working from home and trying to balance their own jobs and their kids. Single parent homes are struggling to balance caregiving, remote work, or going to work and attempting to find child care. These are not normal times. Trauma abounds.

(…)

MaryBeth

Exactamente!

Embora em situação equivalente (já aconteceu) eu seja dos que os convido a saírem ou terão de me ouvir um sermão pior do que a mais longa catilinária.

Hoje abandonei a sala de aula

(…)

Não é uma escolha fácil a de abandonar uma sala de aula, nem a de expulsar um aluno da sala. Vejo muitos a defenderem que não se devem expulsar alunos da sala; leio muitas teorias, muitas técnicas supostamente pedagógicas… Mas nada disso é importante! Chega!!!
Vão para o terreno, vão tentar dar aulas a quem não quer lá estar; vão tentar falar com alguém que repetidamente não levanta sequer os olhos do telemóvel para olhar para a vossa cara, nem deixa de escrever a mensagem que está a mandar para o namorado/a. Sabem para onde vai toda a pedagogia nestas alturas? Pois… Pois é! O que falta nas salas de aulas é empatia, é formação cívica de qualidade! Menos papel meus senhores! Nós não precisamos de tanto papel na nossa profissão. Mais respeito!
Curiosamente ou não, muitos professores há que faltam ao respeito à sua profissão, seja por cederem finalmente ao cansaço e os deixarem fazer o que querem dentro da sala, ou seja, por os passarem a todos só para se verem livres deles… ou porque alguém lhes diz para não se preocuparem, eles vão ter que passar mesmo!!!
Não! Eu digo não, grito que não. Se for para ceder desta maneira mais vale mudar de profissão. Se for para passar toda a gente mais vale deixar de dar aulas e dedicar-me à jardinagem ou a alguma actividade onde pelo menos apanhe sol e ar!!
Pois meus caros, por isso abandonei a sala de aula, porque não cedo, se eles não me respeitam, se eles, pela primeira vez se recusaram a sair quando eu pedi e/ou me viraram as costas quando eu estava a falar, se me desrespeitaram com palavras e atitudes então saí eu. Acabou-se a aula!

(…)

Stop

(deveria existir nas salas um “botãocostasecretário” ou “botãoverdasca” ou mesmo “botãoarianacohenrodrigues” para os chamarmos e eles nos mostrarem como se faz…)

Domingo

Não me incomodo muito que republiquem textos meus de outros tempos. Até porque não me envergonho de posições passadas, mesmo se possa ter mudado este ou aquele aspecto da argumentação. Mas gosto que isso seja feito com alguma clareza, quando ao momento da escrita e em que contexto. Ontem, o Vozprof foi buscar um texto meu de Novembro de 2015, publicado originalmente no ComRegras quando eu comentava os resultados das sondagens que por lá se faziam. Embora agora já lá esteja o link para o texto original, de início aparecia ligação no meu nome para este blogue e dava a sensação de ser um texto recente.

Nada de grave, portanto. Apesar de o texto ter andado a ser colado em tudo o que é grupo do facebook como se de novidade se tratasse (e bastou ver como foi comentado, por acaso até maioritariamente de forma favorável, mas não é isso que está em causa).

Mas penso que só ganhamos, na falta de materiais próprios, em pelo menos termos o trabalho de explicar melhor o que andamos a pescar aqui e ali para publicar. Neste caso, por maioria de razão, porque em post anterior se dava a entender que estará na ordem do dia “a conversa da Ordem dos Professores”. E a seguir vinha a sondagem e o meu texto com, tudo com mais de quatro anos. Ora… existem duas organizações (a Pró-Ordem e a Diprof) que pugnam há algum tempo (num dos casos já disse ao seu dirigente que há demasiado…) por essa Ordem, pelo que seria interessante ouvi-los, agora, sobre o tema.

O que eu escrevi há mais de quatro anos vale o que vale, mais o seu valor percebe-se melhor se tivermos o cuidado de divulgar as coisas da forma certa. Caso contrário, andamos apenas a contribuir para maior confusão, por se dar a entender que achei por bem, assim quase do nada, escrever sobre o assunto.

Já agora, o Voxprof só ganharia em ter autores claramente identificados, nem que fosse com pseudónimos, exactamente para se perceber o seu “contexto”. E que produzissem material próprio com mais frequência.

ardina

Merecedor De Debate, Embora Discorde Já De Algumas Premissas

O Arlindo iniciou um conjunto de artigos com uma proposta de revisão da carreira docente. No primeiro deles apresenta uma estrutura de carreira e indiciária (para efeitos salariais) da qual discordo claramente porque me faz lembrar as propostas de “achatamento” da carreira que li no estudo encomendado por MLR a João Freire e ouvi a alguns vultos associados à governação sob a troika. Não discordo por causa disso, mas por causa dos seus pressupostos que passam por prolongar os escalões, reduzindo-os e amputando fortemente o seu topo que passaria a corresponder, grosso modo, ao antigo 9º escalão (actual 8º, índice 299).

A justificação dada então – e que o Arlindo parece retomar ao preocupar-se em apresentar contas que demonstram o não aumento da despesa, o que agradaria a Centeno como a Vítor Gaspar ou a João Duque ou a um Nogueira Leite ou a qualquer dos Arrojas – é a da previsibilidade e espaçamento das progressões dos docentes, levando a que os acréscimos salariais sejam mitigados no tempo. Não me convence, por razões que poderei desenvolver mais tarde, quando ler toda a fundamentação dada pelo Arlindo.

Mas há algo de que discordo ainda mais fortemente e que é a exclusividade de dois escalões remuneratórios (de uma “carreira docente funcional) equivalentes aos actuais 9º e 10º escalões para, respectivamente, subdirectores/coordenadores de departamento e directores, com eliminação dos actuais suplementos.

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Ora… esta proposta faz-me lembrar demasiado o aspecto de “casta” ou “grupo fechado” que era o grande problema da criação dos titulares. Mas neste caso aplicado a um grupo de professores ainda mais restrito. Que não sei ainda se o Arlindo acha que devem ser “recrutados” da forma que actualmente são. Seja os directores pelo método enviesado do Conselho Geral, seja os subdirectores (e o que dizer dos adjuntos?) por nomeação, seja os coordenadores de departamento por escolha limitada dos colegas, quando ela chega a acontecer.

Porque uma proposta deste tipo não pode aparecer sem que se coloque também em causa o modelo de gestão escolar único que temos, sem flexibilidade e autonomia e muito pouco “inclusivo”.

Vou ser claro, porque o Arlindo me merece isso, por todo um trajecto de respeito comum com mais de uma década nestas coisas blogosféricas: esta é uma proposta que eu leria sem espanto num qualquer quadro do ministério das Finanças ou num documento com os interesses micro-corporativos de uma geração de directores que ainda estão longe do topo da carreira e que, desta forma, passariam automaticamente (independentemente dos anos de carreira) para um topo inalcançável pelos professores rasos. Ou seja, directores que estejam agora no 3º ou 4º escalão da carreira, com o suplemento remuneratório actual, ganham o equivalente a cerca de três escalões acima. Com esta proposta saltariam seis ou sete escalões remuneratórios.

A sua função justifica isso?

Não acho. Sinceramente, não acho. E considero que esta proposta se limitaria a beneficiar uns milhares em detrimento de dezenas de milhar.

Não me parece uma proposta a sério de revisão da carreira docente, mas sim a legitimação de uma carreira autónoma dos cargos de chefia.

Não, Arlindo. Claramente, não. Se já achavas isso em 2005, estavas de acordo com algo mais radical do que a MLR implementou. Aliás, do que está em vigor, porque cortarias completamente o horizonte de progressão a quem esteja actualmente na carreira de uma forma mais brutal do que as quotas, pois simplesmente eliminarias escalões (já nem falo do 370) como o antigo 10º da velha carreira pré-2007.

Mas aguardo uma explicação mais dirigida aos professores das “vantagens” deste modelo” e não apenas uma demonstração aceitável pelos centenos e eventuais mestrandos e doutorandos da nossa amada reitora. Porque isto não tornaria a carreira mais atraente. Esse argumento é demagógico, E explicarei porquê.

Assim como aguardo pela explicação acerca do modo como seria operacionalizada a avaliação do desempenho docente e a transição entre escalões. E se os coordenadores de departamento seriam responsáveis pela avaliação de toda a gente, independentemente da posição na carreira “lectiva” ou das habilitações académicas.

Este assunto merece um debate alargado e claro. Com substância e não com estridência. Eu estou disponível para a discussão, mas não omitirei que que a farei do ponto de vista de um professor de carreira que não quer aceder a funções com índices remuneratórios exclusivos. 

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