O Faroeste Do Secundário

Os relatos que me chegam de muitos conselhos de turma desta semana são pavorosos, como se a situação de pandemia justificasse tudo e mais alguma coisa. A casta que já antes estava instalada, de gente que acha que sabe muito porque até fez esta ou aquela formação oficial em estudos bíblicos, tomou o gosto pelo poder e decide o que bem entende, atropelando qualquer critério ou procedimento em vigor, sempre “em nome do interesse dos alunos”. Quem antes não fazia nada passou a ter direito a 10 automático; quem pouco ou nada fez, apenas demonstrando existir passou a ter direito a 14, porque certas auto-proclamad@s madresteresas ou mandelas de agrupamento ou escola não agrupada passaram a ter poder de mando sobre quase tudo e não hesitam em atropelar o que lhes parece a mais ténue desconformidade em relação às suas crenças míopes e tantas vezes medíocres. Que conseguem fazer vencer na base de uma variante nada soft de bullying.

Ainda bem que sou “básico”.

E isto é já o futuro.

Shame

 

A Ler

Às vezes é mesmo só aquela postura de quem, do alto da sua insignificância e evidente ignorância, gosta de ouvir a voz a ditar bitaites sobre o desempenho alheio que, mesmo com muitas papas de aveia, seria incapaz de avaliar. Sabendo que faz mossa, não pela autoridade propriamente dita, mas porque se sabe estar a atingir quem está fragilizado. E em alcateia, pelas costas, é ainda mais cobarde.

When Teachers Bully One Another

Workplace bullying is unfortunately common in schools.

Burnout

This Was The Day

Hoje, uma colega e amiga comunicou-me que não quer voltar mais à escola e ao ensino. Que está esgotada de tudo isto, incapaz de lidar com a máquina trituradora que tem sido colocada em prática no quotidiano docente nos últimos 15 anos e em especial desde o ECD de 2007. Que não se importa com as consequências, nomeadamente as financeiras (está a uma dúzia de anos da idade para a aposentação), desde que isso signifique que a sua saúde (física e mental) possa deixar de estar em risco.

E eu compreendo-a.

Porque a dado momento o “sistema”, como a tantos outros, traiu as suas expectativas com argumentos falseados. Um sistema que não podemos já limitar apenas ao mandato negro da reitora sem avaliação MLR porque ninguém a seguir reverteu algo de minimamente relevante, incluindo o nulo Tiago e o seu bem falante, mas hipócrita, secretário João. Que querem sempre mais, nada dando em troca. Em pouco se distinguindo do demonizado Crato. Mas é aqui que nem tudo é culpa do “sistema” ou da super-estrutura política, havendo muitas outras responsabilidades à escala micro, nomeadamente da parte de quem até gosta de ver partir, em jeito de selecção natural à sua medida, quem acha mais “fraco”. Quando por isso se entende quem tem o seu horário completo a cumprir todos os anos; ou quem sente que assim “sobe um lugar” na escala dos (de)méritos e vê alguém sair-lhe da frente.

Mas também têm responsabilidades aquelas luminárias, como uma que ouvi no sábado, que argumentam que os professores estão demasiado “amargurados” e que as suas “frustrações” não são razão para não serem carne para canhão de mais uma experienciazinha pseudo-pedagógica. Em regra, é gente que enche a boca com “utopias”, mas que não perde ocasião para serem presidentes disto ou directoras daquilo. Porque não há nada como mandar as tropas para a frente de batalha, para serem dizimadas, à maneira das tácticas militares sacrificiais dos generais de rectaguarda da Grande Guerra de 14-18, tão certeira e violentamente caricaturadas na cena final da série Black Adder.

Sim, quem leva a vida em corredores, gabinetes e a debitar a mesma conversa durante décadas ou quem passa parte do seu dia de rabo sentado, bem longe dos alunos, tende a não conseguir entender certas “frustrações” e “amarguras”. Gente que, há que dizê-lo com frontalidade, podem ser excelentes mães e pais de família, mas que como gente da Educação (hesito quanto a “colegas”) são uma lástima.

Provavelmente, amanhã – como em outros dias – alguém que se dedicou décadas à docência irá partir, sem ficar com saudades do que vai deixar. E isso é triste. Para mais, porque é uma das pessoas da “fundação” do que deveria ser a “sua” escola.

É esta a “herança” que deveria ser esfregada na cara de reitoras, conselheiros, articulistas, gestores e demais rabos sentados, fora ou dentro das escolas.

Ao menos que seja o primeiro dia de algo melhor.

You pull back your curtains
And the sun burns into your eyes

You watch a plane flying
Across the clear blue sky

This is the day
Your life will surely change
This is the day
When things fall into place

tristeza_2

Mas Já Não Tinham?

Há notícias que são pasmosas em tudo aquilo que nos revelam sobre ou o que se devia fazer e não fazia ou sobre o que de novo nada traz mas como novo é apresentado. Leio no Expresso (em artigo da Isabel Leiria, que muito estimo e admiro pela sua competência e conhecimentos, algo que que gostaria de deixar bem claro) que “Diretores de escolas vão ter de denunciar ao Ministério casos de bullying” e cai-me o queixo até ao chão, em especial quando o ME faz saber que:

(…) quer tolerância zero em relação aos atos de bullying e vai lançar um plano de combate com o objetivo último de o “erradicar” das escolas. O plano e a campanha associada, com o lema “Escola sem bullying. Escola sem violência” preveem um conjunto de medidas que ajudam a identificar sinais de alerta, orientam professores e escolas e levam a intervenções mais eficazes.

Um dos aspetos contemplados no plano passa por uma mudança na forma como o problema é assumido dentro das escolas. O Ministério lembra que o bullying tem de ser tratado como uma situação de “violência em meio escolar” e criou para esse efeito um novo campo no sistema de informação de segurança escolar, a plataforma usada pelos diretores para reportarem à tutela ocorrências que acontecem no interior dos estabelecimentos de ensino.

Vamos lá tentar ser educados a tratar disto e por partes pequenas para que se compreenda:

  • Todas as situações de “bullying” ou “violência em meio escolar” já há muito devem ser reportadas ao ME, em especial quando implicam medidas disciplinares sancionatórias. A sua não comunicação de forma completa, contudo, não me espanta.
  • É bem verdade que, também já de há muito (umas duas décadas ou mais) se tem feito muito, a partir do poder político e de algumas cliques académicas, para relativizar as questões da “indisciplina” e mesmo “violência em meio escolar”, não faltando aquela trupe de sociólogos acarinhados pela “reitora” (sebastiões e abrantes, nomeadamente, mas também antecedentes que remontam ao estatuto benaventista do aluno) que muito teorizaram em torno da “vitimização” dos agredidos e da necessidade de compreensão e contextualização dos actos dos “alegados agressores” (coloco aspas porque é essa a linha de pensamento seguida por esses estudiosos do tema).

(sim, eu sei que devemos distinguir “conceitos” e que indisciplina e bullying não são o mesmo, mas talvez fosse igualmente interessante não se fazerem tantas micro-distinções que até a “intensidade” de um pontapé ou murro possam servir para relativizar oq ue é ou não é “violência”)

  • Também é verdade que em muitas escolas e agrupamentos, ainda antes de se traçarem metas em contratos de autonomia ou planos de sucesso e  combate ao abandono escolar, se enveredou por uma “cosmética da indisciplina”, desincentivando o registo formal de ocorrências ou incentivando o esquecimento do seu devido tratamento de acordo com a legislação (que nem sequer é muito “autoritária”, ao contrário de algumas opiniões no canto inferior esquerdo do espectro político). Conheço de forma directa – porque pedi esses dados para o meu concelho quando estive no CME há quase uma década – a forma como escolas com evidentes problemas de disciplina, do conhecimento de toda a comunidade, reportavam superiormente menos de uma dezenas de casos por ano ou ainda menos. Ou a forma como “classificavam” actos claramente graves como ocorrências menores, evitando abrir processos disciplinares.

(tenho ainda esses dados arquivados, que vão de escolas que tudo relataram aos serviços do ME, PSP, GNR, em detalhe e pormenor às que optaram, com escasso decoro, pela versão “paraíso na terra sem pecado”)

  • O ME, da tutela política às estruturas intermédias, sempre preferiu estatísticas “limpas” sobre a indisciplina e a “violência em meio escolar” (leia-se… estatísticas com decréscimo de ocorrências) para divulgação pública, não sendo prática desconhecida a “ameaça” de que se assim não fosse, as escolas em causa poderiam ter de ser visitadas por “equipas” para as ajudar a lidar com as situações, Algo que, como também sabemos, desagrada imenso a quem, lá do topo da gestão escolar local, sente que isso pode ser uma intromissão ou desautorização, quiçá mesmo um factor de menorização da sua avaliação.
  • O bullying é um fenómeno que existe desde muito antes de ter esse nome. Nem sempre é combatido de forma eficaz por indiferença dos adultos que passaram pelo mesmo e acham que, como na tropa, as más práticas podem aceitar-se em nome do “sempre assim foi, é assim que eles crescem”, por falta de meios humanos especializados na sua prevenção, detecção precoce e combate, pela gritante incompetência de alguns que existem ou porque se prefere – por causa dos tais “indicadores” ou dos receios de “má imagem” – apresentar os momentos mais graves como ocorrências isoladas e não integradas num fenómeno contínuo de abuso verbal ou físico de alun@s mais fracos, diferentes ou apenas porque sim, pois há “matilhas” que assim agem e só não o admite quem nunca o sofreu ou observou em funcionamento.
  • Só que o bullying ganhou mediatismo, entrou na agenda dos tempos e fica bem dizer-se que se está a combatê-lo como nunca foi combatido. Com jeitinho até será estudado até ao tutano por aqueles mesmos que há 10-15 anos diziam que ele era residual ou, no limite, o resultado da “vitimização” das “alegadas vítimas”.
  • O que o ME agora fez foi apenas criar um novo campo numa plataforma electrónica, coisa que se faz em poucos minutos, como em poucos minutos já antes se poderia fazer uma pesquisa por palavra-chave na plataforma não revista para detestar este tipo de ocorrências, acaso as mesmas não andem a ser dissimuladas pelos órgãos de gestão das escolas para corresponderem a metas de “sucesso” que incluem a redução das estatísticas de indisciplina.

Ou seja… o mais certo é o novo campo ser muito pouco usado por quem já se habituou por demais a considerar sem gravidade o que a tem e a considerar ser relativamente grave o que é mesmo muito grave. Quando há verdadeiros “arrastões”, com registo documental e tudo, que acabam sem nada se passar, tudo se pode esperar. Quando há agressões físicas ou destruição de material escolar que fica sem qualquer tipo de medida disciplinar, a esperança é pouca que algo mude. Quando se “cozinham” estatísticas para caberem em intervalos de “sucesso” das medidas e “planos” já se percebeu que a realidade já nem chega a ser virtual. Em nome de se cumprirem “metas” tudo pode deixar de ter acontecido.

bullshit-detector

(fica para uma próxima prosa a questão do bullying sobre docentes… com, no mínimo, um punhado inteiro de fontes…)

E Quando Pensávamos Que As Coisas Não Poderiam Piorar (Pelo Menos Durante Uma Ou Duas Semanas)…

O Fundo Monetário Internacional (FMI) vê nos sucessivos congelamentos das progressões na função pública durante as duas últimas décadas um sinal de que as regras em vigor apenas servem para os momentos em que a economia ajuda e, por isso, recomenda ao Governo que proceda a uma reavaliação da forma como os funcionários públicos progridem na carreira, para tornar o sistema sustentável

Termos a reter: “sucessivos congelamentos” e “últimas décadas”.

Para contrastar com “o congelamento de de 2011 a 2017”.

O resto é o costume… o buraco dos bancos pode causar problemas “sistémicos”, enquanto os rendimentos dos funcionários são uma variável manipulável sem remorsos.

bullshit-detectorEntretanto:

Neste ano letivo, a percentagem de livros escolares reutilizados foi inferior a 4%. Tribunal de Contas avisa que o programa dos manuais gratuitos é frágil e que a sua viabilidade está em risco. Há dívidas por pagar a livrarias e 100 milhões de euros que não estão orçamentados. 

A entrega de manuais escolares gratuitos custou mais do que o previsto em 2018 e este ano o desvio repete-se. E numa dimensão bem maior. Segundo o Tribunal de Contas (TdC), a medida implica uma despesa estimada em 145 milhões de euros, três vezes mais do que o montante inscrito no orçamento da entidade responsável pela gestão financeira no Ministério da Educação. Durante o debate do Orçamento do Estado para 2019, no Parlamento, Tiago Brandão Rodrigues admitiu que o custo da medida podia chegar aos 160 milhões. O TdC fala em falta de transparência no processo orçamental.

A Cereja No Topo Do Bolo Mediático Da Isenção Informativa

Na TVI, hoje, Miguel Sousa Tavares “entrevista” António Costa. Em vez de cataplana será servido churrasco com cheiro a professor assado em brasa lenta.

Como garantia de isenção “jornalística”, leia-se um naco da última crónica do “entrevistador”, perante quem a aversão do entrevistado aos professores parecerá amor apaixonado.

E o que dizer do rigor com que usa os números?

 PSD e CDS à direita, e Bloco e PCP à esquerda, juntarão os seus votos para amarrarem o país a uma despesa acrescida de 680 milhões de euros anuais na folha salarial da função pública — ou um total de mais de 800 milhões, se, como é inevitável que suceda, a satisfação das exigências dos professores se tornar também extensiva aos demais “corpos especiais” da Função Pública. É o equivalente, explicou Mário Centeno, à despesa orçamentada para os aumentos normais anuais dos trabalhadores do Estado, despesa essa que assim duplicaria o seu montante. Explicação inútil: a cobiça dos votos dos professores, dos magistrados e dos polícias ultrapassa qualquer outra consideração

CristinaMST

Uma Decisão Extremamente Preocupante

Neste momento, greves só daquelas com trela que dão lucro ao Estado. Tudo pela mão da “Esquerda” e o apoio tácito (quanto não explícito) dos “radicais”.

Enfermeiros: parecer da PGR pode ser usado para travar outras greves na Administração Pública

Conselho Consultivo da PGR diz que greve é ilícita pela “surpresa que constituiu a forma como ocorreu”. E defende que descontos nos salários dos grevistas devem abranger todo o período do protesto.

Que parte do Direito contempla a “ilicitude” da “surpresa”? Greves só se forem com autorização superior?

As conclusões do parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República (PGR) quanto à “ilicitude” de um fundo de greve constituído mediante o recurso a financiamento colaborativo (crowdfunding) para apoiar os grevistas, como aconteceu com a paralisação “cirúrgica” dos enfermeiros, foram consideradas de “extraordinária importância” pelo primeiro-ministro “não só para o sector da saúde, mas para todos os sectores da Administração Pública”. António Costa tratou, assim, de homologar este parecer na parte que se refere à invulgar forma de financiamento, em despacho publicado esta segunda-feira em Diário da República. E informou a PGR “para os efeitos tidos como convenientes”.

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