5ª Feira – Dia 46

Justificação feita à unidade, com sucessivos menus de acesso e janelinhas a abrir para tudo e nada. Até se conseguir justificar uma falta é necessário passar por uma meia dúzia de passos, parte deles concebidos por quem tem muito pouca sensibilidade para as coisas da acessibilidade digital. Especialistas, portanto. É ridículo acedermos como directores de uma turma específica e só podermos justificar faltas dessa, mas depois, a cada vez que seleccionamos uma falta de um aluno, termos de confirmar que pertence à dita turma. O que poderia ser preenchido em checkboxes, surge em janelas que abrem apenas para um quarto das possibilidades, sendo que nenhuma contempla as principais causas em tempo de E@D. O resultado é justificar, assinalando que a falta se deveu a “outro factor impeditivo de presença na escola ou em actividades escolares”. 

5ª Feira

Deve ser da idade, arcaísmo e rigidez, porque sei que há gente que acha tudo isto a quinta essência do maravilhamento digital. Só que há momentos em que ter de lutar com o E360 e as suas lacunas em termos de rotinas intuitivas para fazer tarefas simples é quase mais desanimador do que preencher as velhas folhas em que se contavam as cruzinhas. Porque essas, pelo menos, estavam ali todas à vista e não era preciso abrir (repetidamente) não sei quantos separadores ou janelas de opções.

A Cada Nova Temporada De Avaliações Que Chega…

… é impossível não pensar na enorme transformação burocrática do processo de avaliação dos alunos, com cada nova camada de procedimentos registados em impresso adequado a transferir mais uma parcela da responsabilidade pelo sucesso dos alunos para os professores, ao ponto que quase nada resta para aqueles. O aluno não aprende? É de quem ensina! O aluno falta às aulas? A culpa é dos conteúdos chatos e das pedagogias arcaicas! O aluno está-se nas tintas para as matérias? É porque os conteúdos são enciclopédicos e dá-se História em vez de Gaming Holístico! O aluno nem coloca os pés na escola? É porque o professor não fez os contactos que deveria para o trazer!

É tema velho, mas não perde actualidade, antes ganhando vernizes novos ao serviço da demonstração da inovação (impressos 1 a 3c), da flexibilidade (documentos 4a a 7h) e da inclusão (anexos 8 a 10, não esquecendo a apostilha que vai identificada com o novo logotipo da república, da paróquia ou da freguesia). Estes são os dias em que aos professores é pedido que apresentem prova de que andaram a fazer alguma coisa e, de preferência, que tenham registado tudo ou estarão sujeitos a queixa, requerimento ou apenas ameaça ou assédio moral em diferentes modalidades.

E então quando há, a um ritmo quase anual, aquele prazer perverso de quem tem um tempinho de sobra para fazer um novo “desenho” do impresso de preenchimento obrigatório, passando as cruzes de alinhamento horizontal para vertical ou em vez de se fazerem cruzes em quadrados considerar-se melhor círculos em torno de cruzes?

Cruzes!

burr

Polícias E Professores

Sou um bom cliente de séries policiais (até vi alguns episódios do Duarte & Companhia) e é interessante a queixa recorrente, mesmo em ambiente ficcionados, sobre o tempo gasto em burocracias e relatórios, em vez de ser feito “trabalho policial a sério” (é capaz de se notar que estou já na temporada 5 do The Wire, com anos de atraso). Muita papelada, muito registo, muito arquivo morto e defunto. Muita necessidade de provas e evidências.

Faz-me lembrar o papel de professor e como “evoluiu” ao longo das décadas na forma de ocupação do tempo. Há quem – com a nossa velha “amiga” MLR à cabeça, mas muitos distintos colegas seus a querer ficar também com alguns dos louros – ache que foi um grande ganho os professores deixarem de ter “apenas” as 22 horas de aulas nos seus horários, para passarem a ter 25, 26, 27 (conforme os gostos) que devem estar na escola. Raramente dizem que, para os alunos, aquelas 22 eram bem mais empregues que agora 26, pois muitas delas são gastas a produzir, recolher, rever, verificar papelada em duplicado ou triplicado, que são uma enorme perda de tempo de trabalho de gente qualificada para um pouco mais do que verificar números de telefone, moradas ou mesmo mails.

Criam-se plataformas onde as informações dos alunos são colocadas, mas depois é necessário recolher tudo de novo em papel e colocar no dossier respectivo. E se muda o programa, lá se corre o risco de ter de verificar ou introduzir tudo de novo, porque a migração dos dados e coiso e tal. Estou devidamente informado que algumas das novidades são óptimas e que há sítios onde tudo (de)corre Às duas mil maravilhas. Acredito. Mas acreditem, também, que em muitos mais sítios tudo se tornou um emaranhado de procedimentos burocráticos que tira a paciência para o que importa.

A queixa não é nova. É reconhecido pelos decisores em tempos de discursos ou promessas que é necessário desburocratizar. Mais do que desmaterializar, seria mesmo importante alterar a lógica de procedimentos redundantes, repetitivos, desnecessários e que deveriam ser afastados das responsabilidades de quem quer ensinar e não andar a arquivar. Um director de turma, por exemplo, não pode passar a maior parte do tempo a fazer de amanuense. Todos os anos a repetir caminhos, com esta ou aquela alteração mínima ou média. A ter uma nova camada de registos a acrescentar aos processos dos alunos e aos seus próprios elementos de registo. Sei que há quem rejubile com isto e sinta um entusiasmo que me transmite a ideia que falharam a profissão. Ou não, se pensarmos bem. Porque agora é muito melhor quem faz um perfeito trabalho de auxiliar administrativo do que quem se preocupa em transmitir aos alunos uma visão do mundo que vá para além dos manuais e sebentas.

“Inovar” chega a ser usado, de forma indecorosa, como termo elogioso para quem se limita a mudar formulários e a torná-los mais adequados a cada nova tempestade (ou mera ventania) normativa.

Tal como o McNulty, o “Bunk” Moreland, o Lester Freamon ou o Ellis Carver querem fazer “bom trabalho policial”, eu também quero fazer “bom trabalho de professor”. Mas quase tenho de pedir por favor.

Se Bem Percebo…

… há quem nem tenha considerado a possibilidade destas circunstâncias anómalas justificarem um aligeiramento dos procedimentos burrocráticos. Pelo contrário, parece motivo para toda uma nova batelada de documentação a preencher por causa da “recuperação das aprendizagens” e outras coisas assim. Tudo bem registadinho em papel e em digital, só faltando ser em 25 linhas e com assinatura daquelas com chip.

Uma Coisa É Um Conjunto De Linhas Orientadoras…

… para a questão da recuperação das aprendizagens, outra 50 páginas de “Orientações” ao pormenor (Orientacoes_2020). Eu sei que agora ninguém quer arriscar e ficar mal na foto junto do poder, mas parece-me uma espécie de atestado de incompetência aos órgãos de gestão das escolas e aos próprios professores.  Não é que não exista quem mereça que lhe levem a colher de sopa à boca, mas… se isto é “autonomia”…