Gostava de Conhecer o Segredo de Fazer Contratos com o Estado em que o Estado Estabelece Regras Lesivas Para os Seus Próprios Interesses

Não compreendo que se criem espartilhos contratuais que não salvaguardam a possibilidade de os revogar quando há questões de interesse público em causa. Ou então é apenas com os professores que isso pode acontecer, seja porque pretexto for. O negócio das cantinas – que é um desastre, como regra com naturais excepções – é um deles. Alguém, na sua enorme sabedoria (por acaso foi malta do PS dos tempos do engenheiro, como seria de esperar) criou um sistema em que, alegadamente, revogar contratos com estas empresas custa dinheiro. Já com os professores, tudo se fez em termos legais para não pagar a caducidade, etc, etc. A uns pagam-se milhões por maus serviços, a outros negam-se umas centenas.

É a cadeia alimentar do “Estado”, quando serviço por decisores mais interessados em satisfazer ambições e interesses privados.

Ministério teria de pagar 150 milhões para rasgar contratos

Repare-se que neste caso já não há problemas em termos regimes centralizados que para outras coisas seriam “estalinistas”. Neste caso, os “liberais” já não se incomodam com a distorção do mercado. O ministro das “escolas-alfaiate” já não se importa que seja com “cantinas de massas”. A adequação do trabalho nas escolas aos interesses específicos em locais dos alunos não chega ao refeitório, gerido por decisões de gabinete. Os defensores da “avaliação do desempenho” dos professores ficam caladinhos e não se lê uma linha sobre isto aos marqueslopes ou aos ou se ouve um pio aos júdices e marquesmendes sobre isto. Mas ouvimo-los tanta vez dizer que os privados fazem melhor tudo. E mais barato, claro. Isto os capuchas&sebastiões não estudam. Até porque apoiaram que decidiu assim. E se estudassem, certamente achariam boa a decisão e culpabilizariam terceiros pela sua má aplicação.

A maior fatia do “bolo” contratualizado pelo Ministério da Educação – aliás, foi mesmo o maior contrato público celebrado neste ano – coube à Uniself, que tem a receber mais de 108 milhões de euros por garantir o fornecimento de refeições durante três anos no Alentejo, Lisboa e Vale do Tejo e Norte, sendo estas duas últimas zonas aquelas onde mais queixas têm sido reportadas desde o início do ano letivo em relação à alimentação. Já a ICA ficou com a concessão da Zona Centro do país. O Algarve é a única região em que não existem estes contratos.

E depois ainda acham que eu exagero nas acusações de hipocrisia a muita desta tropa fandanga que passa pelo ME a clamar a defesa “dos interesses dos alunos”?

Se for contra os professores, a SE Leitão pode investir com toda a ganga jurídica que consegue arranjar, mas contra o lobby das cantinas amocha-se? Aqui já não há firmeza do ronaldo centeno? Pelos antecedentes, percebe-se que a vontade de fazer alguma coisa choca com incompetência, para não dizer pior.

janus

(eu sei que há quem diga que os alunos é que não sabem apreciar as coisas, que são “esquisitos” e “desperdiçam” comida, mas eu garanto que vi com os meus olhinhos armados de lentes com as dioptrias certas que há comida que não é adequada, na qualidade e quantidade, a um almoço de miudagem no início ou desenvolvimento da adolescência… quanto às anunciadas equipas de fiscalização, não se esqueçam de anunciar previamente onde vão)

Uma Fabulosa Área de Negócios

Analisem a facturação de algumas das grandes empresas do sector do fornecimento de refeições, só em contratos com o Estado (a coisa vai muito além da Educaçã, claro…): Uniself, Eurest e Gertal. Nos últimos 9 anos, foram, respectivamente, mais de 310 M€, quase 161 M€ e 532,5 M€. Se somarem, dá cerca de mil milhões de euros desde Setembro de 2008 (que é onde começa a série de dados) e há diversas outras empresas de fora que ainda facturam uns bons milhões. O que é lucro? Quem sabe essas contas que as faça.

As empresas apenas aproveitam as oportunidades que o Estado lhes oferece? Claro que sim. Mas quem “paga” as muitas economias de escala são, por exemplo, os miúdos que, raramente, acabam bem servidos em muitas cantinas escolares. Se isto é “iniciativa privada”? É capaz de ser. Com dinheiros públicos. Fazem mais barato do que os “recursos próprios”? Acredito. MAs…

moneymagic

Já Era Tempo!

O Público dedica-se hoje com espaço significativo (4 páginas, ainda não vi se com fotos de meia página) à questão das cantinas escolares. Até que enfim, porque parece que quando alguns de nós escreviam que as coisas iam mal, é porque éramos más-línguas. Não, muitos de nós todos os anos nos reunimos com encarregados de educação e esse é um dos assuntos mais falados, mas esbarra-se sempre nos poderes do oligopólio que domina o sector com a conivência das regras dos concursos decretadas pelo ME. Foi preciso os miúdos tirarem fotos para acreditarem. É pena, este assunto já merecia destaque há muito tempo. Mas a palavra das pessoas, em especial dos professores, vale pouco mais do que zero (a menos que seja para criticar outros professores).

Pub26Nov17

A única maneira de travar o declínio da imprensa tradicional é apostar na oportunidade, profundidade e qualidade do trabalho jornalístico. O erro enorme de pensarem que a salvação está na epiderme do digital acabará por vos enterrar ainda mais cedo.

(já agora, as escolas em si não podem multar ninguém… as autarquias só multam as cantinas do 1º ciclo, mas o problema é mais grave e foi criado pela estúpida obsessão da racionalidade financeira… acabámos assim…)

Sim, É Um Problema Grave

E discordo muito de quem relativiza e diz que basta uma conversa e tudo se resolve. Não é bem assim, a única maneira é quase se estar de plantão, a fiscalizar a coisa todos os dias e mesmo assim os meios eficazes de pressão, depois de assinado o contrato pelo tostão mais barato, são limitados.

Crianças que não comeram frango cru tinham “arroz banhado em sangue”

Presidente da Associação de Pais de escola da Grande Lisboa diz que as refeições têm sido uma preocupação constante nos últimos anos.

Esta é uma área em que a “racionalização financeira” foi feita contra o interesse dos alunos. No papel, as refeições podem ter as calorias ideais para os fanáticos das dietas, podem andar por aí a dizer que até há ementas vegetarianas, mas a verdade é que continuam truques como cozinhar menos tempo a comida para poupar na energia gasta e fazer “esticar” a comida para mais doses do que as que deveriam ser servidas.

Nem tudo pode ser entendido como carpaccio ou bife tártaro.

carpaccio

(mas querem apostar como também aqui o pessoal do ME vai dizer que a culpa é das Finanças, que eles só cá andam para ver as vistas?)

 

Aqui Não Há “Interesse dos Alunos”?

As regras de concessão das refeições nos refeitórios escolares continuam a ser feitas na base da lógica do tostão poupado (a SE Leitão chamar-lhe-ia “otimização dos recursos”). Os resultados são péssimos em mais locais do que seria aconselhável, as queixas são recorrentes, mas… não se passa nada. Se há miudagem que desperdiça comida? Talvez, mas isso justifica alguma da miséria que passa por ser comida para crianças e jovens para estas empresas que funcionam em regime oligopólio?

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E olhem que o prato que se vê à esquerda, mais atrás, ainda parece pior.