4ª Feira

No contexto actual de agravamento das medidas restritivas em muitos concelhos e em que se sugere – ou impõe – a redução de “convívios” sociais ou familiares e das deslocações ao mínimo essencial, merece especial adjectivação vernácula quem anda a convocar reuniões de avaliação presenciais para o final do 1º período. Cheira logo a mando de quem ou não tem reuniões dessas ou acha que não deve ficar na escola sem companhia alargada, mesmo que isso signifique desnecessários riscos acrescidos para os ex-pares. É nestas alturas que custa imenso não partir para uma escalada verborreica, porque realmente há gente que não merece tal esforço de contenção.

Discordo Frontalmente

De qualquer proposta de revisão do ECD que, “do lado de cá”, comece logo por oferecer ao “outro lado” aquilo que mais desejam. E certas ideias voltaram a andar por aí, assim como se não fosse nada, pavimentando o caminho. Quando se começa uma “negociação”, baixando as calças, o resultado é expectável.

Já Chegou Tirarem Horas A História…

… não a metam agora ao barulho por causa da Cidadania. Porque há gente, incluindo da área da História e com alguma notoriedade, a justificar ou criticar a necessidade de abordar alguns temas relativos à Cidadania porque na dita História existem conteúdos abordados de forma “ideológica”. Uns criticam o programa por não denunciar aos berros o colonialismo quando se aborda a Expansão Portuguesa, enquanto outros consideram que existe uma distorção na forma como se analisam as ditaduras e totalitarismos do século XX, seguindo-se uma linha alegadamente “esquerdizante”.

Isto irrita-me mais do que devia porque volta a existir uma imensa ignorância (ou má fé pura e dura) no meio de muita presunção e arrogância argumentativa. E irrita tanto mais quando leio historiadores (ou serão “historiadores”?) a defender abordagens perfeitamente anacrónicas de algumas questões.

A questão do colonialismo e escravatura é recorrente nos últimos anos, como se fosse essencial que, por exemplo, a propósito da exploração da costa africana, da abertura da rota do Cabo ou do descobrimento (na perspectiva europeia, claro, que as populações indígenas já sabiam que existia, eu sei) do Brasil, fosse obrigatório qualificar o Gil Eanes, Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama ou Pedro Álvares Cabral como exemplos maior do colonialismo eurocêntrico, mas se apagassem as práticas de esclavagismo e dominação existentes fora da Europa, antes da chegada dos portugueses. A verdade é que esses temas são tratados e não escondidos, salvo em casos residuais que ainda considerem que a História está ao nível dos manuais patrióticos dos anos 20, 40 ou 60 do século XX. O mais curioso é que há gente de “esquerda” que muita clama a este respeito, mas depois oculta o colonialismo e racismo evidente de alguns vultos da história política da esquerda portuguesa, a começar por muitas personalidades do republicanismo.

Por acaso, até sou dos que gosta de destacar que nos princípios originais do liberalismo ocidental existe uma enorme carga de preconceito racial, social e de género, não se devendo esquecer que não são poucos os casos de defensores da “igualdade” e do princípio de que  “homens nascem todos iguais” que eram esclavagistas ou, no mínimo, não se incomodavam nada com a existência da escravatura ou a exclusão do direito à cidadania de mulheres ou indivíduos sem rendimentos suficientes para pagar impostos. O que eu gostava mesmo era que se usassem padrões coerentes para se abordarem todas estas questões e, por exemplo, se apresentassem as fortes críticas de Tocqueville à existência da escravatura nos estados do sul da jovem democracia liberal americana. Ou que se destacasse a ausência de preocupações nessa matéria por parte da maioria dos líderes revolucionários franceses de 1789.

Um dos erros mais básicos no tratamento dos temas históricos é retirá-los do seu contexto, olhando-os a partir dos valores do nosso tempo. Sócrates, Platão e Aristóteles defendiam um modelo de sociedade que hoje consideraríamos profundamente misógino e a própria democracia ateniense estava longe de o ser de acordo com os nossos padrões. Deveremos defenestrá-los da História da Filosofia e desfigurar as suas representações artísticas.

Voltaire defendeu de forma repetida (do Traité de Métaphysique ao Essai sur les mœurs et l’esprit des nations) teses poligenistas sobre a origem das raças, justificando as suas diferenças e mesmo uma natural hierarquização entre elas, em que os Brancos se revelavam superiores a todos os outros. Era racista? A bem dizer… sim! O que fazemos? Degolamos as suas estátuas e esquecemos tudo o resto?

A Europa deve muita da sua liberdade e do combate contra o imperialismo nazi a Churchill, um impenitente colonialista durante as primeiras décadas do século XX.

Mais valia que muita gente defendesse que a disciplina de História não fosse leccionada a galope, depois de ver retalhada a sua carga horária, com a justificação de que os seus conteúdos são chatos e pouco apelativos, a menos que sejam abordados da maneira “certa”, em outra disciplina. Polemizem sobre a Cidadania, mas não metam a História ao barulho, de forma ignorante, truncada e pelas piores razões. Ouvir relativizadores do papel da Inquisição ou das técnicas de tortura do pós 11 de Setembro armados ao pingarelho, a criticar a intransigência alheia ou adeptos da revolução cultural chinesa a criticar os atentados aos direitos humanos no século XV está para além dos limites de qualquer Comédia Humana.

Aquilo Que O Ricardo Costa Parece Incapaz de Entender (Mas Não É Só Ele)

A seguir ao ministro Tiago, veio dizer que Portugal fez mal em não abrir as escolas todas mais cedo, pois – diz ele – “temos agora o exemplo vivo” [sic… duplamente] de que não se deram casos de transmissão dentro das escolas. E começou a dizer que praticamente todos os países europeus tinham aberto as escolas, o que é rematadamente falso.

Ora bem… para além disso em primeiro lugar, não sei se é bem assim, essa do “exe,plo vivo” (faz-me lembrar a retórica do “dever cívico”). A propaganda vale o que vale. É como com os lares de idosos… se somarmos tudo o que se sabe aqui e e ali, excede largamente os números oficiais, mas parece que não. Enfim.

Em segundo lugar e mais importante… o problema em si não é a transmissão “dentro das escolas”, mas tudo o que envolve o regresso às aulas e pode ser levado para casa. Se o pessoal urbanito da geração do Ricardo Costa (se repararem, os grandes críticos da não abertura das aulas andam quase todos pela mesma idade e é gente com “responsabilidades” e pouco tempo para “perder” com petizada sem aulas ) não entende isso, nada a fazer. É como com a manutenção de centenas de novos casos positivos em Portugal, dando a entender-se que é problema apenas de uns bairros. Quem defendeu o desconfinamento e logo se via, nem fala disso ou fala como se fosse tudo natural e nada de mais.

O Boris Johnson era mais ou menos assim até ter levado com a coisa na sua própria testa.

cansaco-mental

Há Dias Assim

Posso discordar dele em muita coisa, mas também em muitas ocasiões posso perceber o raciocínio. Mas o artigo de hoje no Público do João Miguel Tavares, dando a entender que há mais infecções e contágios “nas ruas” entre jovem, porque as escolas estáo fechadas é demasiado mau, das premissas à “demonstração”, absolutamente desligada de qualquer base empírica ou nexo causal. Deram-se as infecções em que jovens, de que idade, de que ano de escolaridade e aconteceram em que contexto? Só a partir daí se poderia erguer uma qualquer teorização válida, mas JMT prefere disparar na direcção habitual, aquela que parece dar “créditos” permanentes junto de uma certa tertúlia urbana de pensamento fixo. E se estes jovens até forem daqueles que têm escolas abertas ou que, quando as tinham, mal punham lá os pés?

Por acaso, tenho uma filha adolescente (está entre as que voltaram, bem como a mãe, que lecciona 12º ano) e bem vejo o que se passa à porta de algumas escolas secundárias da tal “grande Lisboa”. O JMT já se deu ao trabalho de passar por lá e analisar o modo como está a ser retomada a “socialização” junto aos portões? Acha bem, mais ou menos ou nem por isso?

Beavis and Butthead

Pensamentos Da Pandemia – 17

Começaram, claro que começaram, os primeiros “murmúrios” acerca da possibilidade de haver cortes nos vencimentos ou alguma forma de congelamento de progressões. O “clima de afectos” entre o PM e o PR é de assumida troca de favores e engana-se quem procurar achar uma fissura na muralha d’aço que constituem. Pelo menos até às presidenciais. Claro que “ajuda” termos uma especialista em quebrar contratos na tutela das carreiras da administração pública (sim, procurem na sua produção “científica”), nada será de espantar. Mas – e eu seu que da “esquerda” à direita direita dirão que isto é demagogia, mas é mentira – a verdade é que isto se discute quando não há dúvidas nas transferências para o Novo Banco (o “banco bom”, relembre-se) ou há uma encenação de polémica para injectar mil milhões de euros na TAP privatizada.

Então é assim e que fique desde já muito claro… se me voltarem a cortar vencimento ou a congelar a progressão, enquanto financiam empresas que privatizaram ou pagam compensações a parcerias, se quiserem que eu continue a pagar do meu bolso o ensino à distância (quando dão milhões para o desenvolvimento, aperfeiçoamento e actualização de plataformas 360 que não servem para um chavelho de cernelha) garanto que entrarei em situação de stress profissional e burnout financeiro-emocional. E mandem quem bem entenderem, de preferência alguém novo e dinâmico, para me substituir. Porque eu já não tenho reservas de pachorra para gente sem um pingo de vergonha nas fuças.

Sim, a terminologia começa a vernaculizar.

Palavra de não escuteiro.

Haddock

Justifica-se Que Exista Algo Chamado CTT “Expresso”…

… quando em poucos dias, são duas as encomendas que o sistema SIGA indica não terem sido entregues por estar o destinatário ausente, quando um tipo está em casa e até levou com dois sms a avisar, um na véspera e outro logo de manhã, que a coisa chegava?

Pior… no caso anterior, a encomenda não terá sido entregue a 12, o sistema indicava que tinha sido deixado aviso no posto errado dos CTT e quando chegou (o aviso, a 14), já eu tinha conseguido descobrir onde estava e recolhido.

Hoje, começou novo processo… não percebendo para que se paga um serviço “expresso” que nem se preocupa em parar à porta dos destinatários, provavelmente com medo que um vírus esteja alojado na a campaínha.

E viva a privatização dos correios!

Turd