Tão Belos Títulos Que Poderia Arranjar Acerca Disto

Eixo intestino-cérebro ganha relevo na ciência. No Instituto i3S, no Porto, estuda-se a relação entre o microbioma intestinal e os traços de personalidade.

(afinal, aquela expressão “ideias de m€rd@”tem fundamentação científica!)

O Que Uma Pessoa Diz E Faz Para Ganhar A Vidinha

Grande parte destas “entidades”, criadas com nome forsomethig fazem-me lembrar os vendedores de banha da cobra de outrora. São capazes de diagnosticar inundações no deserto e hiper-pilosidade em bolas de bilhar para justificarem o seu ansiado “nicho de mercado”. O pior é que há “jornalismo” que acha que isto merece títulos como se fossem a sério. A culpa da disseminação da estupidez é só das redes sociais?

Clementina Almeida, fundadora do ForBabiesBrain, primeiro spa clínico para bebés da Europa, diz que “no pré-escolar, a criança já pode trazer um gap com repercussão direta no seu sucesso escolar pelo menos até aos 10 anos.”

Desunião Europeia

A aparente arbitrariedade com que está a ser tratada a eventual (ou efectiva) suspensão da vacina AstraZeneca de país para país, com diferentes critérios etários, numa enorme mistura entre política e ciência demonstra com clareza que a União Europeia é uma ficção que serve para alimentar uma enorme burocracia que dá jeito às cliques políticas mas pouco mais. Quando aperta, é quase toda a gente por si ou, como no Festival da Canção, funcionando em grupos regionais ou de afinidades políticas ou económicas.

Não podemos voltar apenas à CEE?

Os Dias Não Ficam “Mais Longos”!

Todos os semestres é a mesma coisa. Muda a hora e lá vem a conversa… para alguma comunicação social, com a mudança da hora, os dias ficam “mais longos” (horário de Verão) ou “mais curtos” (horário de Inverno). Só que eles continuam com 24 horas (excepto dois, exactamente aqueles em que a hora avança ou recua), apenas existe uma mudança da hora do relógio em que amanhece ou anoitece. Mas os dias têm a mesma extensão.

Faz-me lembrar a batalha acerca da contagem dos séculos e, muito em especial, aquela de explicar que o ano 2000 ainda era do século XX.

A Ciência Explica…

… que o encerramento das instituições educativas é a segunda medida mais eficaz no combate à pandemia. O que confirma outro estudo, igualmente com uma amostra muito alargada. Mas por cá, fala-se em “estudos”, assim no “geral” e diz-se qualquer coisa.

Dá trabalho a ler para perceber que a “eficácia” é medida com base em quatro factores e não a “olhómetro”, que é a especialidade nacional.

Ranking the effectiveness of worldwide COVID-19 government interventions

A Ler

Em especial por aquelas senhoras “pela verdade” que dançavam uma espécie de folclore urbano ontem em Lisboa, sem máscaras, à molhada, perante as câmaras.

The temporal association of introducing and lifting non-pharmaceutical interventions with the time-varying reproduction number (R) of SARS-CoV-2: a modelling study across 131 countries

(…) An increasing trend over time in the R ratio was found following the relaxation of school closure, bans on public events, bans on public gatherings of more than ten people, requirements to stay at home, and internal movement limits, especially after the first week after relaxation; the increase in R ranged from 11% to 25% on day 28 following the relaxation (figure 3). The relaxation of school closure was associated with the greatest increase in R on day 7 (R ratio 1·05, 95% CI 0·96–1·14) and day 14 (1·18, 1·02–1·36). The relaxation of a ban on gatherings of more than ten people was associated with the greatest increase in R on day 28, with an R ratio of 1·25 (95% CI 1·03–1·51) on day 28. Negative interaction––ie, towards an R ratio of 1—was identified when multiple NPIs were introduced or lifted simultaneously (appendix p 42).

De acordo com a tabela que é dada sobre o impacto das medidas “não-farmacêuticas” na contenção ou propagação do vírus, a reabertura das escolas tem um efeito equivalente ao da proibição dos ajuntamentos superiores a 10 pessoas. O efeito sobre a propagação dos contágios é superior a, por exemplo, o fim de confinamentos ou à obrigação de ficar em casa e ainda mais em relação a medidas como as proibições de viagens de avião ou mesmo o uso dos transportes públicos.

Claro que isto contraria as “narrativas” internas (a do oportunismo político e também a do irracionalismo anti-científico), baseia-se em pesquisas empíricas alargadas que, mesmo admitindo as suas lacunas, tem um valor probatório muito superior a “opiniões pela verdade” ou teorizações sobre uma conspiração global para limitar os movimentos das pessoas mas, ao mesmo tempo e paradoxalemnte, exigindo que andem de um lado para o outro a trabalhar e levar e ir buscar os filhos à escola.

Seria de esperar que o “ministro-cientista” ou o pessoal nomeado para a DGS conseguisse perceber isto, em vez de conversas de chacha que, para mim, são equivalentes às cantorias beto-hippies de certas manifs muito chiques.

O Texto Completo Do JL/EDucação

De acordo com Jacob Bronowski, “a ciência é um retrato do Mundo. Não é uma técnica; não é uma forma de poder; não é sequer apenas uma acumulação de conhecimentos que produz uma visão do Mundo”. Para ele, o conhecimento científico é desde o Renascimento a melhor maneira que temos para formar uma imagem do conjunto da Natureza e todo “um novo empreendimento [que] difere dos empreendimentos precedentes pelo facto de não ser mágico”. (J. Bronowski, Magia, Ciência e Civilização. Lisboa: 1986, p.49)

O desenvolvimento do método científico – discípulo no tempo longo da transição do mito para a razão na Grécia Antiga – foi a forma de operacionalizar esse novo “empreendimento” (que alguns preferem designar como “paradigma”) que permitiu à Humanidade conhecer a Natureza para além de intuições e de práticas encantatórias em busca dos favores dos deuses ou da natureza.

No entanto, o pensamento racional de base científica, herdado do espírito renascentista e dos princípios iluministas está actualmente sob forte ataque em diversas frentes, umas em que isso é feito de forma consciente e deliberada, mas em outras apenas na sequência de uma atitude de superioridade complacente de quem se deixa reduzir por um certo relativismo ajustado a conveniências políticas. Uma lista dessa constelação dispersa de detractores da Ciência pode encontrar-se, por exemplo, na obra A Ciência e os seus Inimigos de Carlos Fiolhais e David Marçal (Lisboa: 2017).

Os ataques mais deliberados têm origem num sector com fortes tradições no mundo anglo-saxónico, em especial nos E.U.A., que se opõe a grande parte do pensamento científico por motivos de Fé religiosa ou de preconceito anti-intelectual cf. Richard Hofstadter, Anti-intellectualism in American Life, edição original de 1963), tendo ganhado relevo nas últimas duas décadas com a “causas” como a da anti-vacinação, da recuperação do criacionismo ou, nos tempos mais recentes, de negacionismo perante as medidas de prevenção da expansão da pandemia de covid-19. Em diversos casos, estas posições surgem com a “legitimação” de serem defendidas por personalidades cuja formação académica parece trazer consigo credibilidade, mas que estão a obedecer em primeiro lugar a lógicas de outro tipo, como é o caso notável, dos médicos-políticos Bem Carlson ou Rand Paul. Na Europa e em Portugal, este tipo de posições tem menor visibilidade e presença junto ao poder político, mas tem vindo a reforçar-se de forma crescente neste período de pandemia. Em redes sociais como o Facebook  multiplicaram-se os grupos com apelos que conjugam a emoção com a pretensa credibilidade de alguns dos seus aderentes, por serem médicos ou mesmo “cientistas”. O combate ao uso de máscaras nas escolas pelos alunos é apresentada como uma variante da tortura e quem ache por bem afirmar a inconstitucionalidade da sua obrigatoriedade.

Em paralelo, embora muitas vezes se apresentem como arautos dos princípios iluministas da Razão, e na sua esteira da Justiça Social, da Igualdade/Equidade, temos uma investida contra a Ciência com motivações de oportunidade política e demagogia com traços populistas, mesmo quando paradoxalmente os nega. Chega a ser penoso como pessoas com um robusto currículo académico se deixem seduzir pela espuma dos dias e pelas honrarias transitórias, ao ponto de escreverem e afirmarem tiradas que apenas visam objectivos instrumentais do curto prazo político-mediático, abandonando os princípios mais elementares de qualquer atitude científica perante o mundo que nos rodeia, seja o natural ou o social. Recordo gente com responsabilidades políticas e formação “científica” a apresentar argumentos que pouco se distinguem da proclamação de desejos e anseios ou da ampliação de cartilhas de carácter político demagógico. O “tudo vai acabar bem” como lema que pretende tranquilizar e transmitir confiança, mas que a breve prazo se percebe ser desajustado à realidade. Ao finalizar Setembro batem-se novos recordes de contágios em países como Espanha, França e Inglaterra e entre nós os valores estão ao nível da primeira vaga pandémica, mas há quem pareça não reconhecer o erro de desprezar os dados científicos acumulados nos últimos meses.

Pelo meio, ficam aqueles que podemos qualificar, de forma talvez redutora, como sinceros e “ingénuos” herdeiros de diferentes variantes do pensamento mágico. Há quem considere que técnicas de auto-ajuda ou coping com as ansiedades do mundo moderno devem ser elevadas à categoria de Ciência, como se bastasse a força da meditação ou do “pensamento positivo” para alterar a realidade e não apenas o equilíbrio ou bem-estar individual. E chegam a reivindicar que tais disciplinas incorporem o currículo escolar como se estivessem no mesmo plano da Química, da Biologia, da Filosofia ou da Matemática, confundindo o currículo escolar com um albergue para a promoção de estilos de vida. Mas também temos os que, fiéis à deriva pós-moderna que alia a desconfiança do modelo capitalista de sociedade à crítica a uma Ciência encarada como construção histórica de uma parte da Humanidade, eurocêntrica e caucasiana. Como se isso fosse motivo suficiente para a sua recusa ou para a considerar apenas como mais um mecanismo de dominação global das sociedades ocidentais sobre o resto do mundo.

Talvez o irracionalismo nunca tenha deixado de estar entre nós. Popper queixava-se em 1982 de ele ter voltado a estar na moda e contra isso afirmava que embora o conhecimento científico-natural não seja o único existente, ainda é o melhor e mais importante que possuímos (Karl Popper, Em Busca de um Mundo Melhor. Lisboa: 1989, p. 17). Mas atravessamos de novo tempos em que, apesar das conquistas evidentes da Ciência há quem considere que se deve relativizar o seu contributo para a melhoria das condições de vida da Humanidade. Há uma “coligação negativa” anti-Ciência que vai desde quem parou na Geografia ptolomaica e ainda crê numa terra plana ou oca e uma intelectualidade que se revê numa atitude de desconfiança global contra “o governo mundial das corporações” e de denúncia de uma “cultura do medo”, mas que acaba por nos servir à mesa apenas uma outra modalidade de medo global. E não faltam herdeiros de uma ideologia internacionalista a criticar os malefícios da globalização. Afinal, a revolução global foi substituída pelo consumo global. E a “cultura do medo” combate-se com mais medo, mas nem sempre se percebe o paradoxo.

O combate contra esta frente irracionalista e anti-científica deve começar na Escola, permitindo aos alunos desde cedo um contacto próximo e profundo com o melhor da herança da Humanidade em termos de conhecimento acerca do Mundo. Sem verdades absolutas, mas também sem dúvidas irredutíveis. A atitude científica define-se pela permanente revisão crítica, pela busca do erro para conseguir um melhor “retrato do Mundo”, como afirmou Bronowski, na esteira de Kant para quem a Verdade era a concordância entre a cognição ou conhecimento e o seu objecto. E não uma qualquer variação semântica mais ou menos criativa. Claro que nos últimos 200 anos se avançou muito para além do que em dado momento era considerado como a melhor descrição da realidade, mas esse é o caminho da Ciência. Que se deve aprender nos bancos ou ecrãs das escolas. Não apenas “verdades” tidas por imutáveis, mas a evolução que fez com que se fossem apurando os nossos conhecimentos. “Foi o pensamento racional que permitiu encontrar tanto os problemas como sobretudo as soluções, não o pensamento irracional” (Fiolhais e Marçal, Op. Cit., p. 156). O aparente medo da Ciência, a menorização da Filosofia, o desdém pela História que marcam a atitude de muitos especialistas e decisores na área da Educação e da definição do currículo, são cúmplices do avanço do irracionalismo.

Não podemos ficar reduzidos à atitude de seguirmos os ensinamentos da Ciência, apenas quando é possível.

Contra esta atitude anti-científica, Steven Pinker sumaria de forma magistral a necessidade de, mesmo sabendo que nunca teremos um mundo perfeito e que procurá-lo até se pode revelar perigoso, apostarmos na via do conhecimento para desenvolver a Humanidade. Porque, afinal, “a vida é melhor do que a morte, a saúde é melhor do que a doença, a abundância é melhor do que a escassez, a liberdade é melhor do que a coerção, a felicidade é melhor do que o sofrimento e que o conhecimento é melhor do que superstição e a ignorância.” (Steven Pinker, Enlightenment Now – The Case for Reason, Science, Humanism and Progress. New York: 2018, p. 453)