Ia Escrever Um Post Sobre “Unidade”…

depois de ler o António Duarte, no final do seu texto, a apresentá-la (mais a “luta”) como a solução milagrosa para a solução dos problemas dos docentes, mas depois decidi que ainda acabaria por aborrecê-lo, quando não é isso que pretendo. Afinal, ele não tem culpa de ser mais idealista do que eu. Ou de ter um modelo diferente do meu de detector de oportunismos. Se há algo que umas décadas disto nos ensinaram, foi a distinguir as diversas estirpes de “populismo”.

Tema-tabu, António, é quando nos dizem que não podemos discutir o que fazem os “senhores da luta” se não pagarmos para a agremiação. Ora… eu nunca paguei sequer quotas ao Sporting.

(pior mesmo, é apontar o dedo de forma clara à contradição entre o palreio público de uns e a sua prática nos corredores ou quando apanham um cadeirão à mão).

Qual Era A Penalização Se Tivesse Recusado?

A verdade é que há certos senhores feudais que não resistem à incorporação de novas terras e súbditos, por muito que digam que custa e tal.

Providência cautelar para travar transferência de competências não teve efeitos suspensivos. Autarquia diz que faltam pelo menos dez milhões no cheque do Governo. 925 trabalhadores e 29 escolas passaram para as mãos da câmara. E agora?

O Erro Do Chega Foi O Erro Básico De Todos Os Oportunistas

A não eleição de um vice-presidente do Chega para o Parlamento podia ter-lhes corrido bem, não fosse a natureza oportunista – e não tanto “populista” – da maioria da agremiação. Apresentado um inelegível Pacheco de Amorim, poderiam alegar que até tinham tentado ser “institucionais” e tal. Não eleito, apontariam o dedo á intolerância do “sistema” para com a “diferença” (sim, Pacheco do Amorim é diferente da maioria, quer queiram, quer não, até porque por “diferença” não entendo necessariamente algo bom) e bateriam em retirada para a sua trincheira anti-sistémica. Até o liberal Cotrim percebeu que nem com boas maneiras se deve entrar numa festa onde não nos querem. Pior ainda quando é uma festa da qual desdenhámos ainda há bem pouco tempo, chamando vigaristas aos donos da casa.

Mas não. E lá se foi o véu e ficou às escancaras a vontade imensa – de grupo e individual – de escalar a colina das honrarias republicanas que se diz desdenhar. Conheço moderadamente o Gabriel Mithá Ribeiro e não o tenho por fascista, racista ou sequer populista, mesmo que ele tenha adoptado (de forma espontânea ou calculada) alguns tiques retóricos que possam dar a entender que até pode ser alguma dessas coisas. Ele é apenas alguém que sente que pode e merece ter um papel que não lhe tem sido permitido até agora e que no PSD lhe foi barrado por outros ex-jovens turcos de onde saíram figuras como Rangel, Morgado, até o Moedas.

A passagem para o Chega foi a oportunidade que viu de chegar à fila da frente da política nacional. E a insistência em ir a votos depois de recusado Pacheco de Amorim foi apenas a tentativa de apanhar uma outra “oportunidade”, apostando na sua imagem mais discreta e menos agressiva do que alguns correlegionários. Mas foi um erro, porque revelou a vontade de aproveitar a oportunidade para chegar, logo à entrada no Parlamento, a um cargo de destaque no “sistema”. Foi um erro de principiante muito comum – e como ele diz que passa por aqui com alguma regularidade, pode ser que até concorde – em quem troca a coerência anti-sistémica (gostemos ou acreditemos nela ou não) e a sedução pelo brilho das luzes do dito “sistema”. Faltou por ali alguma perspicácia e a manobra de saída, alegando de forma pouco subtil um eventual racismo da sua recusa roçou o ridículo, porque vem de alguém que está atrás do André “vai para a tua terra” Ventura. Ficou demasiado à vista o oportunismo do Chega que quer para si o que critica aos outros. O chamado “tacho”. E iludir isso é uma enorme treta.

Coerências

Leio por aí, em vários poisos e com origem em organizações ou aves canoras muito reivindicativas (e bem! pena que por vezes o ímpeto seja a modos que bissexto) avisos sobre os efeitos do aumento dos combustíveis nas deslocações dos professores e mesmo no agravamento das suas faltas. É um argumento que me sensibiliza, pois cá em casa, a parelha docente é obrigada a fazer quase 100 km diários por causa da falta de transportes públicos entre o domicílio e as escolas de colocação. Sim, porque nem todos os professores do quadro vivem em quarto com vista para o local de trabalho. Por isso mesmo, acho que tanto como os pedidos de subsídios para isto ou aquilo, ou mesmo mais, deveriam recomendar que todas as reuniões de final de período (ou outras, que não careçam de afagos presenciais) devam ser feitas online, evitando deslocações e contribuindo, inclusivamente, para a redução das emissões de carbono.

Depois de um longo segundo período, se ainda há quem tenha saudades d@s colegas, convide-@s para um chá ou café lá por casa.

It’s better than driving to a meeting, but could that meeting have been an email?

E, já agora, de câmara desligada ainda se poupa mais energia. Portanto, que tal ligar quando é mesmo necessário, preenchendo-se tudo online e discutindo apenas o que não é anedótico?

Turning off your camera in video calls could cut carbon emissions by 96%

Simple tips to go green with your internet use during a pandemic

Study uncovers overlooked environmental impacts of internet use by estimating associated carbon, land, and water footprints.

Este Mês, No JL/Educação

Foi escrito tão cedo que nem contemplou as mais antigas ou recentes especulações sobre um potencial novo ME.

JL/Educação, 23 de Fevereiro de 2022

Não é tema novo: o exercício da docência está transformado num labirinto, capaz de competir com a busca de Astérix pelo impresso A38 no oitavo dos seus XII Trabalhos. Se das paredes da sala dentro (não digamos “portas dentro”, tanto por razões pandémicas que exigem a sua abertura, seja por questões simbólicas associadas à “sala fechada ao exterior”) há muito que se tornou num labirinto em termos humanos, pela necessidade de (re)agir de forma imediata a múltiplas solicitações individuais, dessas paredes para fora foi-se instalando um ambiente de tipo obsidiante e, na acepção original do termo, kafkiano.

Para além da completa inversão do chamado “ónus da prova” em relação ao sucesso ou insucesso escolar, foram criadas sucessivas camadas, qual cebola mutante, de procedimentos burocráticos para que os docentes demonstrem a bondade da avaliação feita em relação ao desempenho dos alunos. Isto não é novidade, apenas matéria velha, requentada e reciclada. O que nem sempre é dito de forma clara e explícita é que esta deriva tem vindo a ser aprofundada por muitas figuras que outrora se destacaram na defesa do exacto inverso, ou seja, da liberdade de acção do professor reflexivo e crítico, autónomo nas suas opções pedagógicas e não só, defensor de uma Educação emancipadora dos espartilhos administrativos e ideológicos dos mecanismos de dominação de uma sociedade capitalista e (então apenas) liberal.

Se fizermos uma arqueologia breve dos nomes ligados, nos últimos 10-15 anos, à teorização dos sucessivos registos de tudo e mais alguma coisa, da planificação à implementação, monitorização, avaliação e reavaliação da mais fugaz iniciativa de trabalho com os alunos, encontramos uma coincidência flagrante com pessoas que nos anos 80 e pelo menos inícios dos aos 90 do século XX se afirmavam adeptos das teorias críticas da Educação que protestavam contra a menorização do trabalho em sala de aula em relação ao aparato administrativo que eram imposto aos professores pelas tendências “liberais” que exacerbavam os princípios ditos “de mercado” relacionados com a accountability e a obsessão com a quantificação e a medição dos desempenhos. Diziam então que o mais importante na Educação eram os aspectos relacionais e a sua dimensão humanista, não redutível a números e fórmulas. Agora, fazem destas e daqueles a sua vida e até se desdobram em “formações” sobre a melhor forma de recuperar velhas quadrículas que o excel agora permite sofisticar até uma quase impensável náusea. E liam-se autores como Michael Apple ou Philipe Perrenoud com um prazer e proveito que foi sendo esvaziado.

Porque o que Michael Apple designava como “ideologia de controlo” está aí bem presente perante nós, com a imposição de soluções formatadas a partir de uma matriz quase única, restando apenas um “humanismo retórico” (Michael Apple, Ideologia e Currículo. Porto, 1999, p. 103) num modelo educativo que continua a apostar no modelo da dominação, só que ao serviço de outros senhores. Como as ditaduras que se sucedem ao derrube das anteriores ditaduras. Como os novos pensamentos únicos (agora virtuosos) substituem os antigos (apresentados como nocivos).

Há várias décadas, o mesmo autor denunciava que “enquanto os processos de controlo técnico entram na escola disfarçados de ‘sistemas’ de avaliação desenhados, os professores vão sendo desqualificados [e] consequentemente requalificados”, acrescentando como tudo isso se operacionaliza na formação de professores, em “cursos e oficinas de reciclagem, em publicações dedicadas aos professores, em modelos de ajuda”; segundo Apple este processo conduz à desqualificação dos docentes e ao atrofiamento constante das suas competências educativas e a sua “requalificação” (leia-se, no presente, “formação contínua”) inclui a substituição das suas aptidões e acompanha o crescimento de técnicas de modificação dos comportamentos e de fornecimento de materiais pedagógicos e curriculares uniformizadores que escapam ao controlo dos docentes (Michael Apple, Educacion y poder. Barcelona: Paidós, 1997, edição original de 1982, p. 158).

Nos anos 90 do século XX, traduzia-se com abundância Philippe Perrenoud e a sua defesa de uma avaliação formativa que alguns agora parecem querer apresentar como novidade e ideia sua. A diferença é que Perrenoud nos avisava quanto às armadilhas do voluntarismo e da ingenuidade de certas estratégias com escassa sustentação na realidade quotidiana. De acordo com ele “uma avaliação formativa pura e rígida cria de facto um stress relativamente constante ligado à complexidade e variedade da informação a gerir; ao sentimento de impotência perante as dificuldades de determinados alunos [e] ao tempo que passa, aos prazos que se aproximam sem que os progressos sejam suficientes” (P. Perrenoud, Práticas Pedagógicas, Profissão Docente e Formação. Lisboa: 1997, p. 168). Acrescenta ainda o factor cansaço resultante, entre outras razões, da necessidade de conceber materiais adequados a cada situação específica de cada aluno, assim como a contradição permanente que resulta entre o que seria necessário fazer e o que acaba por se ter de fazer, atendendo às expectativas de bons resultados de alunos e pais e às regras administrativas impostas pelos processos formais da avaliação. Perante tudo isto, Perrenoud declara que os docentes estão obrigados a “acomodar-se a uma incerteza sobre: os objectivos, a forma de os definir, de os hierarquizar; o nível de maestria e a sua medida [e] as possibilidades efectivas dos alunos” (Idem, pp. 168-169).

Só que quase tudo isto foi esquecido pelos seus antigos discípulos por cá que, chegados aos círculos do poder e de decisão, decretaram o fim das incertezas, a inutilidade das contradições e a falta de profissionalismo e formação de quem mencionar qualquer cansaço. Passou a imperar a certeza e o caminho único para o “sucesso”, estando em causa a competência do docente que não assegure ou não demonstre de forma detalhada e rigorosa tudo o que observou, monitorizou, avaliou, reavaliou e deu retorno aos alunos, mesmo em áreas despropositadas, tanto na sua natureza como na imensa subjectividade envolvida.

Exemplificando: em documento de uma Escola Secundária, prevê-se que a avaliação dos alunos na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento inclua o critério “Responsabilidade e integridade”, o qual tem cinco perfis/descritores de desempenho, desde “É sempre responsável e apresenta uma conduta íntegra, em todas as situações” (nível 5) a “Não é responsável nem íntegro” (nível 1), passando, por exemplo por “É responsável e apresenta uma conduta íntegra, com regularidade” (nível 3). E dizem-me que isto tem sustentação nesse documento antológico que responde pelo nome Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória que define estes valores como “Respeitar-se a si mesmo e aos outros; saber agir eticamente, consciente da obrigação de responder pelas próprias ações; ponderar as ações próprias e alheias em função do bem comum.”

E eu questiono: como é que o professor sabe se um aluno ponderou as “ações próprias e alheias em função do bem comum” ou se está “consciente da obrigação de responder pelas próprias ações”? Como quantifica as ações em que tal aconteceu ou não aconteceu? O que corresponde a apresentar “uma conduta íntegra, com regularidade”? Afinal, o que significa isto? O que é que estamos a avaliar quando atribuímos um nível à “integridade” de alguém? E será íntegro quem procede a esse tipo de avaliação? Será “íntegro” proceder a uma avaliação de um critério desta natureza?

O delírio a que chegámos na avaliação dos alunos, só é ultrapassado, numa paradoxal simetria, na avaliação do desempenho dos professores. Neste caso, a avaliação perdeu qualquer natureza “formativa”, limitando-se a ser um procedimento classificativo, destinado a uma seriação para efeitos de progressão na carreira. Ou seja, o professor que deve aplicar os princípios formativos ao avaliar os seus alunos, não tem direito a esses mesmos princípios. Não deveria, já agora, ser avaliada, a “integridade” de quem define os procedimentos a respeitar nessa avaliação e, já agora, de todos os envolvidos num processo tão crítico?

Em boa verdade, nem sei. Pois se quem colocou em marcha esta máquina de triturar a dignidade dos docentes, considerando que nem todos podem ser “generais”, agora surge, em novas roupagens, a lamentar um sistema que limita a progressão na carreira docente (do ensino superior), aprovado por um governo de que fez parte, de que “integridade” podemos falar? Talvez seja melhor ficarmo-nos pela “arbitrariedade”.

5ª Feira

Se entrámos em auto-gestão da pandemia, que tal um experiência de auto-gestão das escolas? Atendendo à geração (ou descendência ideológica) de muitos especialistas pedagogos-patchouly, nos anos 60 é que era bom, paz e amor se for para mim proibido proibir se for para os outros, órráite cámóne, até acho que seria muito coerente.

Ao Nível Da Caricatura

Para além das reclamações e recursos em que me envolvi, há colegas que têm tido a confiança e simpatia de me enviar alguns materiais relacionados com as suas agruras. Há pouco lia longas páginas de alegações e contra-alegações, em que nestas se criticava um@ colega por ter um erro ortográfico grosseiro no RAA (e quem não os tem?) e por nem sempre usar as preposições mais adequadas (a sério!), o que demonstrava a sua evidente carência de qualidade e dava substância a que não tivesse classificação de “mérito”. No entanto, nesse mesmo documento da SADD encontram-se dois erros de palmatória ao nível da sintaxe das frases, com falta de palavras ou ao ponto de ter ficado uma não-frase.

E chegámos a este ponto. Quando alguém que teria, em circunstâncias normais. um Muito Bom (uma classificação que em valores ficaria a rondar os 17), tem de ler parágrafos inteiros a amesquinhar o seu desempenho , em nome da fidelidade aos percentis.

E depois são estas mesmas pessoas que criticam qualquer comportamento menos “fofinho” na relação com os alunos e na sua avaliação ?

Domingo

Gosto da forma de pensar deste pessoal que não consegue bater a bota com a perdigota. Primeiro, defendem que a organização das disciplinas em semestres é do melhor, mas depois esquecem-se disso a meio do caminho. Nos casos em que houve semestralização entre disciplinas (Ciências e FQ, História e Geografia, Cidadania e TIC, por exemplo), é retirada uma semana a uma delas que depois é compensada na outra. Ou seja, as disciplinas do primeiro semestre encurtam (na primeira semana de Janeiro) e a “compensação” é dada quando já se lecciona uma disciplina diferente (Carnaval e Páscoa).

Não havia outra forma de fazer as coisas? Haver, havia, mas começava por não terem salamizado o currículo.

É Inevitável A Estranheza…

… quando “democratas” que defendem eleições para o país, depois não as querem nas suas agremiações. O mesmo se aplica a outros “democratas” que acham que o sistema só pode ou deve funcionar de 4 em 4 anos, quando são eles a estar no poder.

Santana, não voltes só à Figueira, que estás perdoado.

Sábado

Tem a sua graça ler contra-alegações de SADD’s a esmifrarem-se por demonstrar que determinad@ colega não teve um “desempenho de excelência” quando a sua classificação foi de 9,2, 9,3 ou mesmo 9,6 ou 9,7. Que digam que houve classificações mais altas e o sistema de vagas é perverso até à medula, eu entendo. Agora dizer que alguém com 9,3 ou 9,6 não é Excelente ou sequer Muito Bom é ainda mais ridículo do que ter a dizê-lo gente que o mais certo é não conseguir chegar aos calcanhares do razoável.

Para quando, uma SADD que tenha a humildade de admitir que se limita a fazer o que lhe é mandado. Ou alguém que tenha a coerência de fazer um voto de vencido a declarar oficialmente que discorda daquilo de que, oficiosamente, garante discordar. Será precisa assim tanta coragem?