O Determinismo Histórico Funciona Só Quando Dá Jeito

Ouvia hoje, perto das 14, na TSF, a conversa de “senadores” entre David Justino e o representante do PS que hoje era José Luís Carneiro (em vez do mortalmente pastoso e entediante Carlos César). Quando chegou a parte de explicarem porque os níveis de pobreza em Portugal se mantêm quase inalterados apesar da propaganda acerca do aumento dos rendimentos, ambos se refugiaram na questão “estrutural” e do “contexto histórico” em que tem evoluído o fenómeno em Portugal, salientando, apesar de tudo, os ganhos significativos conseguidos nas últimas décadas.

Ora, sendo eu normalmente criticado por insistir na questão “estrutural” do nosso atraso educacional e na necessidade de atender ao “contexto histórico” que tem condicionado a evolução dos nossos indicadores, apesar de tudo com ganhos muito significativos conseguidos nas últimas décadas, fiquei algo baralhado.

Ou não.

Porque se há coisa que sei é que isto do argumentário político é como os interruptores e os cataventos.

Interruptor

Eu Cá Sou Pela Igualdade De Oportunidades

Se são a favor do fim das retenções no Ensino Básico, deveriam ser contra a retenção de professores em vários escalões da carreira. Porque o professor retido “não aprende” nada dessa forma. E porque “não se ganha nada” com um professor retido vários anos à espera de vaga. Ou será que se ganha?

O Sucesso quando nasce deve ser para Todos.

Nutty Professor

Demagogia É Conforme

A propósito do populismo do André Ventura e das contradições entre o que escreveu na sua tese de doutoramento e as suas posições actuais, ouvi a quase esmagadora maioria dos “analistas” e “comentadores” descrever como “demagogia” o discurso de quem defende de forma oportunista aquilo que acha que parte significativa do eleitorado quer ouvir.

Nesse sentido, com o qual não discordo, haverá algo mais demagógico do que andar a anunciar que os chumbos acabam e que isso ainda permite poupar dinheiro?

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“Vocês Sabem Que Estivemos Sempre Do Vosso Lado”

Isto foi dito numa sala de professores por parte de alguém que se candidata por um partido que, no momento da verdade, preferiu Centeno aos professores, colaborando na inviabilização no Parlamento da ILC para a recuperação integral do tempo de serviço docente. Um partido que, já agora, não se coibiu de lançar suspeitas sobre as minhas intenções, como membro da comissão promotora da coisa, e de estar ao serviço “da Direita”. Como pessoa ocasionalmente educada permiti que deixassem a propaganda na mesa do computador onde estava a trabalhar, de costas para quem tem poderia ao menos ter algum decoro.

Já agora, discordo que seja permitida propaganda política, mesmo em tempos de campanha eleitoral, no interior das escolas. Concordo com debates sobre questões relevantes em outros momentos… agora com visitas dos senhores de cada feudo (que os há do PSD, do PS, da CDU) nesta altura, lamento, mas… acho que deveriam ficar para lá do portão, mesmo que existam favores a retribuir ou a assegurar.

Debate

O Verdadeiro Artista…

… é aquele que exalta a necessidade de conhecimentos para fruir as Artes, mas em matéria de Expressões manteve, durante quatro anos de mandato, a redução do peso das expressões artísticas no currículo (nesse aspecto não se distinguindo em nada da “direita” da troika), enquanto multiplicava o espaço exclusivo da Educação Física. A separação no 2º ciclo da Educação Visual e Tecnológica em duas disciplinas sem par pedagógico manteve-se, fragmentando uma abordagem de técnicas que estão fatiadas a 90 minutos semanais. Tal como a Educação Musical. No 3º ciclo, a presença das Artes é residual, pelo que é de uma muito particular falta de decoro que se escreva o que a seguir coloco (p. 33), de forma a que se perceba que não é feita qualquer manipulação do texto pensado e assim escrito.

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Alguém me explique, devagarinho e com factos concretos, porque é que um dos autores desta longa passagem – com a qual concordo na formulação e substância – pouco ou mais exactamente nada fez para que fosse possível concretizar uma efectiva educação artística nas escolas públicas, investindo nessa componente do currículo em vez de transversalidades do tipo “Literacia Financeira” ou mesmo “Educação para o Empreendedorismo”. Que podem ter o seu lugar e sentido, mas não num contexto de completa erosão ou apagamento das Artes no currículo do Ensino Básico. Houve muita preocupação em demonstrar, por vias de provas de aferição no 2º ano, que os alunos não sabiam dar cambalhotas ou fazer determinados movimentos de Expressão Física, mas nenhuma em que eles (ou os de 5º ou 8º) revelassem se compreendiam a diferença entre uma pintura e uma escultura ou se têm alguns hábitos regulares de consumo cultural.

Já sei… é tudo uma questão de aplicação da “autonomia” por parte das “escolas”.

 

Domingo

Há uma semana, a jovem governante Mariana Vieira da Silva veio de forma cândida defender que a questão do despacho em relação aos alunos transgénero é uma questão de “humanidade” e não vou discordar disso. Apenas recomendar-lhe, na véspera do regresso de um novo ano escolar, que existem muitos outros alunos e docentes que, no seu quotidiano, são vítimas de desumanidades diversas, igualmente atentatórias dos direitos humanos, como seja o caso de quem tem problemas de saúde diversos a quem é negado esse reconhecimento ou a quem foi reavaliada a escala de incapacidade (penso que MVS conhecerá o titular da pasta responsável por tal medida), para não falar da ausência de rampas e elevadores na generalidade das escolas comuns (assim como de casas de banho adaptados para deficientes motores), criando barreiras à mobilidade e à qualidade de vida e trabalho de muitos milhares de discentes e docentes.

Porque se começamos a usar determinado tipo de argumentação ou nos aguentamos para além das circunstâncias do momento ou podemos passar por oportunistas hipócritas.

janus