Actualizações

Sob o título do blogue existem ligações para os textos que tenho publicado no suplemento de Educação do Jornal de Letras e no site Educare nos últimos anos. A actualização está em decurso, esperando colocar nos próximos dias todos os textos publicados até final de 2018 num e até final de 2019 no outro. Em alguns casos (em particular nos dos JL), a divulgação integral aqui no Quintal é feita pela primeira vez. Para outra altura ficarão os do Público e outras colaborações na imprensa.

“Crónica Dos Domingos Felizes” – 3

Já conhecem, escuso de introduzir de novo…

Esta é uma crónica especialmente feliz porque esta foi uma semana ditosa em termos do esclarecimento público da população acerca da verdadeira essência dos princípios da governação em matéria de Educação e da dimensão ética que enforma a legislação que visa promover a Inclusão como um pilar essencial da Democracia madura que temos no nosso país. Refiro-me, como penso ser natural, aos extraordinários textos dos doutores David Rodrigues (no Público de 2ª feira) e João Costa (na Visão de 5ª). A coincidência, no espaço de poucos dias, da publicação destas prosas foi um acontecimento particularmente oportuno, pois andam pelo ar muitas dúvidas maldosas e insinuações diversas, incluindo do editor deste blogue, que questionam a adequação das medidas resultantes da mudança de paradigma no nossos sistema educativo que se traduziram na publicação em 2018 dos decretos-lei 54 e 55.

Comecemos pelo texto em que o doutor David Rodrigues coloca nos termos certos o que deve ser a Inclusão numa sociedade em que a modernidade não pode pactuar com práticas de exclusão de todos os alunos da sala de aula. Como muito bem explica, numa época em que as barreiras disciplinares são quebradas e não tem qualquer lógica encerrar os saberes académicos em rótulos que separam em vez de congregar, também a Educação Especial deve ser a de todos para todos. E o autor denuncia com coragem aqueles que, antes, se limitavam a empurrar o assunto para os professores com formação em Educação Especial e outros técnicos, como se também fosse sua a responsabilidade pelo trabalho pedagógico inclusivo.

Enquanto os alunos da “Educação Especial” estavam na escola, mas, muitas vezes, “longe da vista e longe do coração”, a premência destas carências era menos notada… era qualquer coisa que se passava “lá”, “lá” na Educação Especial, e dizia respeito aos professores de Educação Especial. Mas agora, a partir da publicação do dec. lei 54/2018, ficou claro que o problema não é “lá”: é “cá”. É “cá” é em toda a escola e diz respeito a todos os professores.

Não há qualquer desculpa aceitável para que assim não seja. Até porque todo o processo é claro:

Como é sabido, usamos uma pirâmide de medidas de apoio ao aluno que tem na base as medidas universais, no seu meio as medidas seletivas e no seu vértice as medidas adicionais. As medidas universais são aquelas que, em caso de alguma dificuldade identificada no aluno, mobilizam os recursos e as competências existentes na escola para as procurar resolver.

Só é pena que nem sempre as coisas sejam compreendidas pelos professores, que insistem em abordagens diferenciadas de escola para escola, sem entenderem que existe um modelo certo para a prática da Inclusão.

Recentemente visitei uma escola que, ao fazer a sua apresentação sobre a sua organização de apoio aos alunos, indicou que havia em todo o Agrupamento 98 alunos apoiados. Destes, 92% eram alunos com medidas universais, e a restante percentagem destinava-se às outras medidas. Noutra escola – curiosamente no mesmo concelho –,​ quando perguntei quantos alunos usufruíam de medidas universais, a professora olhou-me e disse: “Se as medidas são universais são para todos, logo os beneficiários são todos os alunos.” Não deixa de ser interessante pensar como a forma como se olham as medidas universais pode constituir um excelente indicador de como a escola trabalha em inclusão.

A questão dos meios não é esquecida, mas não pode ser essa a razão para que a Inclusão não seja posta em prática. A sala de aula, enquanto espaço inclusivo holístico onde as parte se fazem todo, deve ter lugar para todos e não é por falta de equipamentos técnicos ou humanos especializados que se deve travar o Progresso. O texto do doutor David Rodrigues termina, de forma absolutamente inspirada com uma passagem que deveria ser lavrada em pedra e colocada sobre a entrada de todas as nossas escolas.

Por isso é que talvez seja preferível lidar com a falta de recursos nos 811 agrupamentos que procuram este valor precioso da inclusão do que criar escolas em que tudo pareceria ser abundante e só faltaria o essencial.

O texto do senhor secretário de Estado e doutor João Costa dá perfeita continuação a esta lógica de inclusão ao recolocar a questão da retenção nos seus devidos termos, pois a opção não é entre chumbar os alunos (estratégia fácil de docentes que ainda não perceberam como estão ao serviço de uma engrenagem trituradora da justiça social e da equidade) e não os chumbar, mas em fazè-los a todos aprender, mesmo aos que não o desejam (apenas porque não receberam o estímulo certo para despertarem para as aprendizagens significativas para o seu futuro), pois todo o investimento que tem sido feito é nesse sentido como bem é sublinhado ao recusar-se a lógica economicista ao plano destinado a eliminar as retenções. Escreve o senhor secretário de Estado:

(…) o propósito economicista não encontra respaldo no investimento continuado em medidas de apoio à diminuição da retenção: só na última legislatura, foram contratados mais de 300 psicólogos, alocadas dezenas de milhares de horas da componente letiva a tutorias, reforçadas as equipas docentes para os planos de ação do Programa Nacional para a Promoção do Sucesso Escolar em cerca de 800 professores, aumentado o crédito horário das escolas TEIP (…), mobilizados 100 milhões de euros dos fundos comunitários em projetos de combate ao insucesso.

Isto são factos indesmentíveis que os críticos deveriam reconhecer e respeitar, não andando apenas a preocupar-se com as suas progressões e o tempo que dizem ter-lhes sido “roubado”, um termo claramente ofensivo. O tempo de trabalho com os alunos nunca é perdido e a missão do professor é a de sacrifício altruísta pelo desenvolvimento pessoal daqueles que estão a seu cargo. E a sua missão é a de lhes proporcionar sucesso, pois é sua responsabilidade adaptar-se às condições que enfrenta e repensar sempre a sua prática, caso os alunos não adiram às suas propostas.

As analogias do senhor secretário de Estado são demolidoras e destroem qualquer tipo de resistência ao que é um desígnio que deve ser de todos e que eu abraço sem reservas.

Devem as políticas sociais lutar pela erradicação da pobreza, pelo fim do desemprego? Devem as políticas de saúde lutar pela cura dos doentes? Devem as políticas de defesa lutar pela paz plena? Então, a resistência a um plano educativo que lute pela aprendizagem para todos só se explica se, para alguns, a educação não for, afinal, um direito universal.

Embora me escape um pouco aquela da política de defesa promover a paz (falha minha, por certo, pois a minha sofisticação conceptual está a anos-luz do autor do texto), este parágrafo derruba qualquer tipo de muralha que se oponha ao plano do governo que devemos estar quase a conhecer. Só, realmente, quem não acredita na universalidade do direito à Educação pode discordar que todos os alunos tenham direito a um sucesso universal.

Uma boa semana para todas e todos as/os colegas de boa vontade,

João Tiago dos Santos

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“Crónica Dos Domingos Felizes” – 2

Publico a segunda crónica dominical do professor João Tiago Eumesmo Feliz dos Santos que eu arriscaria classificar como ligeiramente longa.

Gostaria de começar esta crónica por me congratular com o impacto da colaboração da passada semana que já despertou consciências e deu coragem a outras pessoas para assumirem sem receio a sua adesão às novas políticas educativas em desenvolvimento no nosso país. Refiro-me, por exemplo, ao contributo da colega Maria da Felicidade Santos, com a qual partilho o apelido mas não o laço familiar. É deste tipo de rede de contactos, afinidades e ouso mesmo dizer de afetos que se pode fazer uma comunidade educativa global à escala nacional que consiga impulsionar ainda mais esta mudança de paradigma que há muito esperamos.

Também apreciei muito as intervenções do senhor diretor que esteve na 6ª feira à noite no programa da Sic Notícias e que demonstrou de forma clara e cabal como o trabalho do professor deve ser reconfigurado, bem como a noção desajustada que temos de sala de aula como sendo ainda um local e um tempo de transmissão de conhecimentos espartilhados e não de construção de saberes integrais, motivados pela natural curiosidade dos alunos que devem ser a força motriz das atividades a desenvolver, tendo o docente o papel de facilitador de aprendizagens significativas para a vida futura do aluno ou aluna, não sendo de maneira alguma útil uma dispersão de conteúdos sem uma adequação às necessidades do quotidiano. Gostei em especial da analogia entre a sala de aula e um paralelopípedo e a forma como se devem basear no concreto as noções transmitidas.

A única falha que aponto ao seu raciocínio foi a falta, certamente por carência de tempo e devido às inoportunas interrupções que sofreu enquanto tentava de forma magistral apresentar conceitos que nem sempre são facilmente perceptíveis por quem se anquilosou em conceções ultrapassadas de uma pedagogia formal e diretiva, foi a falta, ia eu escrevendo, de uma abordagem do método holístico que devemos adotar para considerar o aluno como um indivíduo único e integral, assim como o próprio processo de considerar – vou afastar-me de terminologias em acelerado desuso nas escolas mais inovadoras como “avaliar” ou “classificar” – o progresso das suas aprendizagens significativas.

A conceção holística do indivíduo-aluno ensina-nos que não o podemos encarar de forma parcial ou atomizada mas sim como um sujeito total aprendente, sendo missão única e maior do professor respeitar essa individualidade nas suas inclinações e pontos focais de interesse, de modo a que mais do que centrar-se num processo de ensinagem se preocupe com o desenvolvimento pessoal pleno do ser que se encontra perante si nas particularidades que fazem dele um todo singular, não lhe impondo constrangimentos externos ou espartilhos artificiais como os decorrentes do currículo tradicional, segmentado em saberes disciplinares desarticulados.

O trabalho colaborativo de projeto deve desenvolver-se em diversos planos, desde a simbiose que naturalmente se estabelece no “espaço-sala” (na falta de um conceito mais ajustado) entre as crianças e jovens ansiosas por expressarem a sua criatividade natural e a cooperação essencial entre os docentes que constituem o chamado Conselho de Turma, neste caso no sentido da combinação transversal dos seus saberes de origem, numa recombinação original e apelativa, assim como na definição de estratégias de monitorização dos progressos feitos pelos alunos e de registo das competências desenvolvidas de acordo com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, referencial nuclear para o trabalho pedagógico do século XXI.

A abordagem holística implica ainda que qualquer “avaliação” seja sempre formativa e nunca classificativa, valorizando o todo e nunca as partes, pelo que se devem evitar sistemas selectivos ou hierarquizadores do desempenho dos indivíduos, pois todos deram certamente o seu melhor, pelo que se deve limitar o Conselho de Turma a emitir um parecer qualitativo no final de cada reunião mensal a transmitir aos encarregados de educação, mas sempre numa perspectiva de positividade e estímulo. Esse parecer deve ser coordenado pelo professor titular da turma ou diretor de turma, como já é feito nas escolas com estratégias dialógicas permanentes como a que a senhora diretora do meu agrupamento fez adotar em Conselho Pedagógico e transmitiu em formação obrigatória semanal  a todo o pessoal docente desde o início do ano letivo, estando prevista uma sessão final para a pausa do natal com a presença muito esperada do senhor secretário de Estado ou, se ele não estiver disponível, de outra personalidade que ele considere por bem designar. Pessoalmente, como já afirmei anteriormente, gostaria muito que pudesse ser a doutora Ariana, pois queria me autografasse o seu livro, ou então aquela senhora doutora de que me escapa agora o nome e que percebe muito de inclusão e que costuma fazer excelentes conferências.

Em termos pessoais, já fiz a proposta que, quando esta formação terminar, se siga uma outra em Coaching e Mentoring para Docentes, se possível com uma componente em Meditação e Mindfulness. Porque há muita gente tensa em meu redor e a negatividade que transmitem é muito tóxica e baixa a produtividade do trabalho da grande família que todos devemos ser.

Alonguei-me mais uma vez, mas estas são problemáticas que me entusiasmam e poderia estar aqui horas a escrever. Fica muita coisa para próximas crónicas, não temam pela falta de assuntos.

João Tiago dos Santos

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Uma 4ª Feira Feliz

Depoimento recebido através da Helena Bastos:

Chamo-me Maria da Felicidade Flexível dos Santos.
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Sou professora há 27 anos, por vocação e espírito de missão.
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Amo o que faço e, a  cada ano que passa, me sinto mais envolvida  neste projecto de vida que escolhi. Dedico-me toda à escola. Para mim, não há horários, só deixo a escola quando tudo está pronto e sinto cumprida a missão daquele dia.
Recebi, de braços abertos, esta nova missão de flexibilizar o currículo e incluir todos os alunos. Há muitos anos que eu pensava que era urgente deixarmos de estigmatizar os alunos com rótulos como “aluno NEE”, défices disto e daquilo, etc.
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Todas as crianças e todos os jovens são especiais. Por isso, o papel de um professor honrado é encontrar medidas especiais para cada um dos 28 alunos de cada turma. Finalmente, decidiu-se aplicar “medidas universais” a todos e a cada um.  Para os colegas mais desatentos, basta que dêem uma vista de olhos nas “acomodações curriculares” e escolherem umas três ou quatro para cada aluno. Eu costumo usar a acomodação 3, a 17, a 154, e tantas outras. Há solução para todas as situações: se um aluno está irrequieto, pode sempre ir fazer uma corridinha ao pátio e voltar quando lhe apetecer; se está mal humorado, não esquecer a “acomodação” que fala da necessidade de o professor introduzir algum humor nas suas aulas.
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O menú é riquíssimo em opções, e só quem não quer é que não as aplica. ( Um pouco como a velhinha música do Paul Simon “Fifty ways to leave your lover” que, noutra época, nos ajudou tanto a lidar com amores não correspondidos…)
Estou muito grata a este Governo por ter, finalmente, acabado com as retenções no ensino básico. Todos sabemos que não servem para nada, além de fazer o Estado gastar ainda mais dinheiro com a Educação. Em minha opinião, todos os alunos devem passar, independentemente dos conhecimentos que adquirem. Aliás, todos sabemos que a escola não serve para transmitir conhecimentos. Isso é muito “twentieth century”. Actualmente, qualquer conhecimento está disponível no google de uma forma mais rápida
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e eficiente. Para transmitir esses mesmos conhecimentos, os professores teriam que dar palestras nas aulas, o que já não se usa de todo. Ainda não ouviram falar de “aulas expositivas”?. É um paradigma completamente errado porque pressupõe que os alunos estão a ouvir o que o professor explica. Todos sabemos que tal não acontece neste novo milénio.
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Quanto a ser o professor um “ensinante”, por amor de Deus, isso então é que está completamente demodée. O professor é apenas um facilitador do processo de aprendizagem em que cada um pesquisa o que quer, como quer e onde quer. Evidentemente que os alunos devem poder usar os seus tablets nas aulas para poderem fazer as suas pesquisas nos sites que bem entenderem.
Há dias, uma colega queixou-se que havia muito barulho nas minhas aulas. Eu respondi-lhe: “Ainda bem. É sinal que estão vivos”. Alguém deseja alunos passivos? O que queremos é que aprendam a ser, a estar, a aprender…
Termino declarando-me completamente feliz, optimista e orgulhosa da flexibilidade que tenho vindo a adquirir.
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Colegas, façam o favor de ser flexíveis!
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Abraço da vossa
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Maria da Felicidade Flexível dos Santos
Maria-Felix

“Crónicas Felizes”

A crónica dominical do colaborador João Tiago Eumesmo Feliz dos Santos parece que despertou consciências e já me chegou outra colaboração através da Helena Bastos, que na sua escola tem uma colega, de sua graça Maria da Felicidade Flexível dos Santos, que também gostaria de partilhar os seus pensamentos e práxis pedagógica. Como o domingo está tomado, amanhã publicarei o seu depoimento, para que novas veredas se abram ao entendimento da nossa missão social.

Maria-Felix

 

 

Uma Nova Colaboração – A “Crónica dos Domingos Felizes”

A partir desta semana, todos os domingos, este blogue publicará a crónica de um colega a que propus que apresentasse uma visão diversa e mesmo contraditória da minha, pois há quem diga que estou demasiado amargo e sombrio, pelo que este espaço precisa de uma espécie de raio de luz que ilumine os recantos da Educação que, por deformação, eu tendo a obscurecer. A este colaborador desejo os maiores sucessos.

Crónica dos Domingos Felizes – Uma Apresentação

Chamo-me João Tiago Eumesmo Feliz dos Santos, tenho 58 anos (eu sei que pareço mais novo, mas tudo vem de dentro, mesmo a idade que projetamos) e sou professor por vocação e missão, de História mas isso nem é o que que importa mais, porque o que interessa para mim é tudo aquilo os alunos desejem aprender e é nesse pressuposto que exerço a minha função com toda a dedicação e apego que as minhas capacidades permitam.

Convidado pelo autor do blogue para fazer uma crónica semanal sobre o meu quotidiano, muito lhe agradeço por poder expressar uma visão do ensino, que eu classifico como “instrução” porque muito debate ainda há por fazer sobre o que podemos entender por “educação” neste novo mundo admirável de oportunidades e novos paradigmas que nos ofereceu este milénio. E agradeço porque reconheço que neste blogue há demasiada acrimónia, demasiada zanga, demasiadas críticas a tudo e mais alguma coisa, e é necessário um contraponto de positividade e uma atitude pró-activa e, em simultâneo, autorreflexiva de quem sente que devemos extrair sempre o melhor do que existe, agradecendo pelo papel que temos na sociedade e na formação dos cidadãos do amanhã, sendo uma perda de tempo a permanente insatisfação com o que podia ser ou o que não é, pois esse é o caminho que nos leva ao derrotismo, à falta de alegria e ao menor empenho da implementação de tudo o que tem sido possível colocar ao dispor das escolas para que elas consigam motivar todos os alunos para o desenvolvimento das suas competências e aptidões, sempre numa perspetiva que vê o sucesso para além do mensurável ou quantificável à maneira de outros tempos, preferindo como meta a expressão dos afetos e a felicidade do Ser sobre o Fazer, pois o que importa É e tudo o resto são transições menores.

Mas dispersei-me nesta apresentação, embora ache que nos devemos apresentar sem pudores e reservas, expondo-nos nesse mesmo Ser que somos, assim abrindo caminho para uma ligação plena de intersubjetividade com quem nos rodeia, potenciando uma relação de entrega ao Outro como forma de melhor nos conhecermos e enfrentarmos as nossas humanas imperfeições.

Por exemplo, hoje, domingo, dia em que para escrever esta crónica interrompi o meu trabalho de preparação da parte inicial da semana, ao qual me entrego com prazer ao contrário de colegas que sempre estão a lamentar o tempo que “perdem” (que utilização tão errada do termo quando o que está em causa é algo imanente e imperativo, mas ao mesmo tempo portador de um contentamento nascido da consciência do cumprimento de um dever que nos preenche de sentido a vida) a planificar aulas, a classificar testes ou mesmo a preparar esses instrumentos ultrapassados de um conceito obsoleto de avaliação que são os testes. Não compreendo essa atitude, submersa em sentimentos negativos que naturalmente acabam por se revelar na forma como encaram as aulas, não como um espaço aberto de liberdade em que seguimos o caminho que o grupo indica, mas como momentos de transmissão de saberes quantas vezes vazios de sentido para aqueles jovens, ávidos de uma outra forma de estar na escola, uma forma em que as fronteiras da sala e dos tais saberes se estilhaçam perante a permeabilidade de uma abordagem flexível que assenta na mobilização dos alunos para projetos significantes e assentes numa cultura cooperativa que redefine o que entendemos por currículo.

Como muito bem escreve a doutora Ariana no seu livro que vou lendo com a calma e pausas para reflexão que a sua densidade e reconfiguração conceptual implica, devemos basear a nossa intervenção em metodologias que levem ao “desenvolvimento de aprendizagens mais significativas e a estratégias que possam contribuir para promover e estimular a cooperação docente”. Pena que parte dos meus colegas esteja mais preocupada em questões menores como o tempo que dizem ter-lhes sido “roubado” ou o tempo que levam a preencher as necessárias “listas de verificação” que em bom tempo o Conselho Pedagógico considerou ser uma ferramenta obrigatória de monitorização do avanço dos projetos de que tenho sido, enquanto subcoordenador adjunto da Equipa Flexível para a Promoção de uma Cidadania Plena no Agrupamento, um dos humildes promotores.

A prosa já vai longa e o dever chama-me, pois tenho por acabar o relatório da formação a que fui há poucas semanas sobre a Como Promover uma Verdadeira Inclusão no Espaço Escolar à Luz do Decreto-Lei 54/2018 e ainda não li todo o material que nos foi enviado nem as webinares que estão no site da Direção Geral da Educação e que muito nos ajudam a compreender em maior profundidade os conceitos subjacentes ao novo paradigma de uma escola para todos.

Até para a semana, colegas, esperando que encarem a semana que se avizinha com a indispensável motivação para que o tempo pareça escasso para o tanto que temos a dar aos nossos alunos e ao serviço de uma Escola Pública de sucesso.

João Tiago dos Santos

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O Inferno Em Que Transformaram A Minha Profissão – 1

Publico em seguida a primeira de três partes de um texto elaborado pela colega Maria de Fátima Patranito acerca do labirinto em que se tornou a docência. Não é leitura para leigos ou colegas daquel@s muito alegritas com cada nova novidade burrocrática.

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Tenho 62 anos; 44 anos de serviço (11 anos e 6 meses em outro organismo do Estado e o restante como docente). Escolhi a minha profissão por gosto e convicção. Se fosse hoje, faria uma opção diferente.

No presente ano letivo (2018-19), fui coordenadora de departamento (cargo que acumulei com o de CAD – coordenadora de área disciplinar) e diretora de turma do ensino secundário; tenho 14 h de serviço letivo (8 horas de redução), mas em contrapartida sou agraciada com 11 horas na componente não letiva. Ainda não contabilizei as horas de trabalho individual (ou seja, realizado em casa), mas elas ultrapassavam em muito as 10h que nos são deixadas para perfazer as 35h semanais.

I – Algumas considerações sobre a carreira docente

Há mais de uma década que a carreira docente tem sido constantemente sujeita a ataques de políticos incompetentes, arrogantes, difamadores e sem escrúpulos, pouco preocupados com a escola que é de todos, com as condições de trabalho de docentes e não docentes, homens e mulheres que, em algum momento da sua vida, ousaram dizer que gostavam de trabalhar com crianças e jovens.

Particularmente, os professores têm sido alvo de ataques diversos, difamação, insultos, bodes expiatórios de insucessos de sucessivas reformas nunca avaliadas, de vontades políticas de políticos e partidos sem agenda para a Educação, tema de conversa de café e de outros espaços públicos por gente que não faz a mínima ideia do que é ser professor em Portugal e no inferno em que, sobretudo desde o ministério de Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, transformaram a nossa vida. Recentemente, até fomos usados para inventar uma crise política! A Comunicação Social e os seus “comentadores” de cartilha encomendada, têm ajudado a disseminar o ódio por uma classe que devia ser respeitada e acarinhada por todos. Escusado será dizer que nunca tivemos ou temos direito ao contraditório, nos diversos meios de comunicação social, sobretudo nas televisões pública e privadas.

Com a carreira congelada durante 9 anos, 4 meses e 2 dias, com cortes salariais e sonegação dos subsídios de férias e de Natal durante o período da “crise” (2009-2014), que representaram muitos milhões de “poupança” para o Estado (que necessitava de injetar muitos milhões em bancos privados cujas administrações praticaram atos fraudulentos e levaram à sua falência e continuam impunes), com vários entraves à progressão dos docentes integrados na carreira que são colocados no 1º escalão sem que se tenha em conta todo o tempo de serviço prestado até essa altura, com a necessidade de abertura de vagas (abertas pelo ME) para aceder ao 5º e ao 7º escalão, com cotas (de acordo com regras impostas pelo ME) para a atribuição de Muito Bom e Excelente, com muitos dos docentes a receberem salários de miséria (alguns levam para casa 900 euros e muitos têm de os repartir entre duas rendas de casa pois estão deslocados a muitas dezenas ou até centenas de km de casa, combustível ou transportes públicos, alimentação e outras despesas inerentes a quem está afastado da sua residência), uma proletarização que tem acontecido com a conivência de sindicatos afetos às duas centrais sindicais, por motivos diversos e por falta de agenda política, por interesses pessoais e por afastamento da escola, durante décadas e décadas, dos vários sindicalistas e, em simultâneo, negociadores.

Em 2018, as carreiras foram descongeladas, mas o poder político “esqueceu-se” de comunicar aos portugueses que os eventuais aumentos salariais que daí resultaram, estão a ser pagos em “prestações suaves de 25%, trimestralmente”. Para esses docentes, o salário correspondente ao escalão para onde transitaram só aparecerá no último trimestre de 2019, ou seja, 2 anos depois de o governo de Costa “Ter posto o relógio a andar” (sic). Muitos docentes foram ultrapassados nesta progressão devido ao despacho que recupera 2 anos, 9 meses e 18 dias do tempo de serviço prestado, pois o diploma descrimina os que progrediram em 2018, prejudicando-os, e os que progrediram em 2019, que recuperam esse tempo de serviço de uma só vez. Não acredito no Pai Natal, mas estas ultrapassagens foram intencionalmente consagradas no diploma porque, também elas, representam uns milhões de poupança e, como diz o povo é uma forma de “dividir para reinar”. Assim, sempre conseguem pôr professores contra professores (os mais distraídos, é certo, mas infelizmente acontece). E muito mais haveria a dizer, mas a intenção do meu registo é outra.

II – As “tarefas” de um professor ao longo do ano letivo

Não tendo escrito um diário sobre aquelas que são, de uma forma geral, as tarefas (termo utilizado, intencionalmente, para desprestigiar ainda mais a classe) de um professor ao longo de um dia de trabalho dito “normal”, não quis, contudo, deixar de registar as mil e uma atividades para que somos solicitados ao longo do ano e logo após o encerramento das atividades letivas. Fomos transformados em meros funcionários do Estado, sem qualquer desprestígio para os que, com profissionalismo e responsabilidade, exercem essas funções nos mais diversos departamentos dos serviços públicos. Mas a profissão docente tem especificidades que os políticos teimam em negar, intencionalmente ou por pura ignorância e até arrogância.

A – “Tarefas” gerais:

– Preparar aulas e materiais a utilizar (embora se resuma a uma frase, é a atividade que mais tempo nos deve ocupar. Por vezes, é a que fica para o fim de tudo o resto, porque a “burrocracia” e a “escravatura” digital assim o exigem!).

– Elaborar (incluindo critérios de correção), fotocopiar, corrigir e entregar devidamente classificados os testes e outros instrumentos de avaliação aplicados a cada um dos alunos.

1ª NOTA: A falta de pessoal não docente nas escolas tem sido uma constante. Assim, o ME e as direções das escolas sempre optaram por sobrecarregar os professores com tarefas inerentes a outras funções que não as docentes. Foi neste contexto que começámos a fazer matrículas e turmas (agora um pouco menos devido à utilização da matrícula eletrónica, embora as escolas continuem a gastar milhares de folhas A4 para “renovar matrículas” dos alunos que já pertencem à escola e apenas transitaram de ano). Este ano fomos todos surpreendidos com a decisão da direção de fotocopiarmos os nossos testes, com argumentos de que assim se controlaria, com maior eficácia, o número de fotocópias. O argumento é a falta de pessoal, sobretudo de técnicos operacionais, que se têm de desdobrar para outros serviços. Quem paga essa “fatura”? Os professores! O verdadeiro argumento é o desrespeito que todos nos devotam, incluindo alguns elementos da classe docente que ocupam lugares nas direções.

As turmas são de 30 alunos, excepto no 7º ano onde são de 28. Um professor pode ter entre 3 a 8 ou mais turmas (dependendo da organização curricular de cada escola, depois da entrada em vigor do Dec. – Lei 55/2018).

– Registar numa plataforma acessível aos encarregados de educação todas as classificações de todos os instrumentos (entre 6 a 15 instrumentos anuais, dependendo da carga horária semanal da disciplina).

2ª NOTA: Nunca ninguém demonstrou, através de dados estatísticos, a percentagem de encarregados de educação que acedem a esta plataforma durante o ano letivo, mas a avaliar pelos dados da minha direção de turma, ouso afirmar que a percentagem não irá muito além dos 8%/10%. Justificar-se-á tão hercúlea “tarefa” tendo em conta o tempo despendido com a mesma? 

– No final de cada período, cada professor regista, na mesma plataforma, as propostas de classificação dos alunos (recorde-se, sobretudo, o número de turmas de cada docente).

– Nessa mesma plataforma temos de rever/recalcular o número de aulas previstas e dadas (PD), mais importando aos encarregados de educação as faltas que um professor dá do que as faltas que o seu educando deu e que ele justificou com “dores de barriga” ou “indisposição”!

– Ainda nessa plataforma, cada professor “pode” fazer sínteses descritivas, por aluno.

3ª NOTA: por vezes começa-se pelo “pode”, para de seguida se passar à obrigatoriedade do registo, por decisão das direções). 

Maria de Fátima Patranito

(continua)

Burnout