2ª Feira

Pela manhã, era tema de noticiário este estudo da FFMS sobre o “bem-estar”, objecto de investigação que ganhou popularidade nos últimos anos, a par da difusão de formações sobre como atingir/manter/aumentar o nível de “felicidade”. Por deformação histórica, estudei o tema nos tempos da Faculdade, como se foi divulgando o ideal desde o Iluminismo (um dos livros a ler era este), pelo que muito do que agora vejo e leio me cheira a requentado e, sinceramente, a “área de negócio”. Ao escrever sobre a auto-estima, Simon Blackburn resume bem a minha atitude actual acerca do que penso ser, no essencial, uma estratégia para tornar mais aceitável o conformismo, dando-lhe outro nome: “o movimento da autoestima nunca teve uma sólida base empírica, e a pesquisa nesta área é atormentada por muitos fatores. por exemplo, na medida em que as medidas da autoestima dependem da autodescrição, elas são turvadas pela propensão das pessoas com baixa autoestima para descreverem o oposto, e vice-versa. (…) Por isso, talvez não devêssemos ser surpreendidos por os aumentos globais na autoestima serem de pouco ou nenhum benefício, embora a psicologia académica tenha demorado algum tempo a aceitar isto. Foi preciso percorrer um lote inicial de cerca de quinze mil trabalhos académicos sobre o assunto para que os psicólogos determinassem que o único efeito fiável que ela tem é sobre a felicidade relatada por um indivíduo” (Vaidade e Ganância no século XXI – Os usos e abusos do amor-próprio, Lisboa: Tema e Debates, 2015, pp. 108-109).

Sugestão De Leitura

Muito no espírito dos tempos. A ler, por exemplo, o capítulo “A Presunção e o Eu Frágil” para melhor se compreenderem certas posturas do género “eu é que sei-eu é que mando-porque eu é que trabalho muito”. E depois, raspa-se o verniz e – há um cartoon muito giro do Quino a este respeito – temos lá dentro da armadura uma pessoazinha cheia de medo que se descubra que se lhe descubram os inconseguimentos.

Calma, que eu também li e tenho consciência das minhas “arrogâncias” 😀

Domingo

A publicação dos rankings levou a diversas trocas de opiniões e argumentos com gente amiga que tem uma posição diferente da minha há muito, mas com quem é possível renovar o debate sem cair apenas nos lugares-comuns do costume, mesmo se essa é a tentação da maioria dos comentários críticos nas redes socias. Neste caso, vou concentrar-me no aspecto que passou pela associação da crítica à divulgação de rankings às teses desenvolvidas por Michael Sandel no seu livro A Tirania do Mérito, ao longo do qual explicita, em mais páginas do que o necessário para compreendermos a tese sem nos entediarmos com a insistência, a sua rejeição dos ideais meritocráticos, que ele apresenta como base de uma forma de legitimação da desigualdade, da hierarquia e da desvalorização de uns indivíduos em relação aos outros, através da comparação dos seus desempenhos em determinadas áreas mais ou menos valorizadas em dado contexto histórico. A tese é mais elaborada e contempla a crítica a diversas variantes da meritocracia, devendo muito à obra The Rise of the Meritocracy (1958) de Michael Young, embora pudesse ter ganho mais consistência (e menos redundâncias) se tivesse lido um pouco do que Bourdieu escreveu sobre temas conexos ou mesmo a obra L’Inégalité des Chances (1979) de Raymond Boudon, já para não ir a The Status Seekers (1959) de Vance Packard.

Mas passemos ao argumento central que passa pelo que Sandel e seguidores consideram ser o mal original da “meritocracia” nas sociedades contemporâneas, ou seja, por levar ao exacerbar da competição entre os indivíduos para atingirem o “topo”, seja do poder político, do poder económico ou da vida académica, deixando para trás o que ele designa como “bem comum”. Antes de mais, Sandel acaba por recusar todas as variantes da meritocracia, incluindo as que promovem a redistribuição das recompensas desiguais (até o Rawls leva umas belas cabeçadas) de acordo com os “méritos”, deixando-nos sem qualquer alternativa credível que não seja uma formulação vaga em defesa de uma “igualdade” global que tem tanto de mítico como a boa e velha “sociedade sem classes”, que deu no que sabemos. Nesse aspecto, também me fez lembrar as partes em que Tim Harford descreve um sistema “ideal” de economia de mercado no seu The Undercover Economist, embora com a vantagem deste assumir o carácter irrealista e utópico de tal idealização.

Vamos lá por partes:

A meritocracia, como Sandel reconhece, surgiu como alternativa ao governo “aristocrático”, definido por grupos sociais praticamente estanques e em que o privilégio, resultante do nascimento, fechava por completo o acesso ao topo a quem não fizesse parte de um grupo restrito de famílias, que se reproduziam no poder ao longo do tempo. No entanto, Sandel considera que essa mudança, trazendo um potencial de esperança de mobilidade ascensional aos indivíduos, trouxe consigo o lado negativo de corroer a auto-estima dos não vencedores, dos que não conseguem protagonizar uma alteração positiva do seu estatuto. Sandel chega ao ponto de considerar que aquilo que podemos considerar “estabilidade” das sociedades não meritocráticas provocava menos ansiedade e estados depressivos (Alain de Botton anda também por aqui) em todos os que, sabendo o seu lugar (fixo) na sociedade, não ficavam frustrados por permanecerem na base. O que é um argumento que me custa bastante a digerir e acho que o deveria ser ainda mais para quem defende uma sociedade aberta, liberal, democrática, republicana e laica, já agora.

Porque, com defeitos e qualidades, aquilo que se entende por “meritocracia” – e a competição que lhes está associada entre indivíduos e grupos – está na essência do que é a democracia, o liberalismo político e a própria lógica da ética republicana do acesso e exercício dos cargos de governação. A Democracia é o sistema que permite a disputa eleitoral em busca dos “melhores” governantes (pensemos o que pensarmos do seu estado actual) desde Atenas e da Roma Republicana, através da comparação dos “méritos” dos candidatos existentes. O Liberalismo, na sua acepção política iluminista que está na base das revoluções anti-absolutistas, baseia-se no princípio inalienável da liberdade individual de procurar alcançar o “melhor” possível para si e os seus (o que até podemos considerar como “felicidade”, outro conceito típico dos iluministas), sem que essa liberdade esteja limitada pelos tais privilégios (ou falta deles) de nascença. E a República é a forma de governação, com base no mecanismo “competitivo” das eleições, que postula a rotatividade dos ocupantes de todos os cargos políticos e de uma ética do seu exercício que, pelo menos na pureza dos ideais, renega liminarmente o nepotismo clientelar.

Eu compreendo a atracção por associar a “meritocracia” apenas a uma deriva neoliberal exacerbada, que parece alimentar-se e em simultâneo reproduzir de forma crescentemente dramática, as desigualdades, que serão legitimadas pelos tais mecanismos de “comparação” entre os méritos (ou “talentos”) individuais. Mas isso é muito simplista e parece ignorar a possibilidade de não se definir apenas um tipo de “mérito” ou uma forma de o avaliar e de em vez de “desigualdade”, vertical e hieráquica, adoptarmos uma lógica de “diferença” horizontal, que até está dentro do mesmo espírito do tempo que vivemos (cf. The World is Flat de Tomas Friedman ou o mais antigo The Horizontal Society, de Lawrence Friedman – apelido igual, autores diferentes).

Compreendo também a sedução que muitos podem sentir por não se publicitar que os indivíduos não têm todos as mesmas capacidades nas mesmas áreas, académicas no caso dos rankings, em nome de uma ilusão de “igualdade”. Mas, mais do que uma idealização irrealista, sem sustentação na realidade humana, essa crença num estado natural de não competição é negada pelos próprios mecanismos da evolução dos seres vivos e das sociedades humanas. O “progresso” nasceu da competição, da concorrência, da busca de soluções “melhores”, mesmo que não consideremos que foram sempre as “certas”. Há quem não perceba que essa espécie de mítica comunidade primordial, onde todos têm o mesmo valor, é a base de todos os projectos político-sociais que desaguam em distopias. A indiferenciação não é libertadora, muito pelo contrário. Corresponde à anulação dos indivíduos, diluídos numa massa onde todas as cabeças são cinzentas, nem sequer umas mais escuras e outras mais claras. Pior mesmo só defender a ignorância em relação às diferenças, em tempos nos quais- paradoxalmente – se aceita o direito à afirmação de todo o tipo de identidades, ditas “alternativas” à norma dominante.

Talvez fosse boa ideia pensarmos que tudo isto está ligado, mas não da maneira que pode parecer a uma primeira vista. As aparências iludem. Assim como as boas intenções têm povoado mais o Inferno do que o Céu. Até o próprio Marx admitiu, n‘O Capital (cap. 7, secção 2), que “o caminho para o Inferno está pavimentado de boas intenções”.

Democracia Assimétrica

Vamos lá inovar um pouco em termos conceptuais e terminológicos, até porque os usos que já encontrei da expressão, não são no sentido que aqui lhe vou atribuir. Nem sequer na perspectiva de que uma “igualdade complexa assimétrica será, muito provavelmente, a igualdade pós Século XX”. O conceito de “sociedade assimétrica” talvez chegue mais perto, embora remeta mais para a oposição entre indivíduos e corporações.

Quando muita gente adoptou o termo de “democracia iliberal” para designar sistemas que navegam entre o formalismo democrático com eleições mais ou menos controladas e uma prática governativa autocrática, onde a separação de poderes cede perante a tentação autocrática de líderes que se perpetuam no poder, sinto-me mais preocupado com o estado das “democracias liberais” quando se verifica uma distribuição muito desigual da capacidade de intervenção dos cidadãos na vida política, em especial os que não se agrupem nas organizações que tradicionalmente partilham (e definem) as formas dessa intervenção.

Essa assimetria é evidente da macro-escala social (estando na origem do apoio a fenómenos políticos que são redutoramente qualificados como “populistas”) à micro-escala (dos poderes de proximidade, conduzindo a atitudes de desânimo e apatia perante a vida pública local).

Claro que cheguei aqui a partir do que observo na Educação não-superior, em geral, e especificamente na vida das escolas, espaços por excelência para uma vivência formalmente democrática, mas fortemente assimétrica nos mecanismos de participação nas tomadas de decisão e na definição de direitos e deveres.

Nas escolas, vivemos uma “democracia assimétrica” que distribui direitos e deveres de um modo profundamente desigual, concentrando quase todos os poderes num polo decisor, os direitos num dos grupos de “actores sociais” em presença (alunos e “famílias) e os deveres e obrigações quase todos em outro (docentes) que fica literalmente entalado entre o topo que manda e os “clientes” que têm sempre razão, cabendo quase sempre aos mesmos demonstrar a bondade dos seus actos.

Esta assimetria não é específica da vida nas escolas e manifesta-se fora de elas de outras formas, mas sempre com o traço unificador da desigualdade na distribuição dos poderes, direitos e deveres pelos diferentes grupos de cidadãos, formais ou informais. A “igualdade”, “equidade” ou a “justiça social” são apenas rótulos demagógicos que escondem uma realidade que contraria tais princípios na prática quotidiana de um regime democrático e liberal, só que mais democrático e liberal para uns do que para outros. Um regime que mantém o formalismo da pluralidade, mas apenas ao nível da encenação e da enunciação. Que utiliza de forma hábil a defesa dos direitos de alguns grupos, de variável dimensão minoritária, para justificar quantas vezes o desprezo pelos de outros. Em que pequenos grupos de pressão apresentam como sendo uma “conquista civilizacional” apenas o que é uma causa particular do seu interesse específico.

Concordo apenas com um dos autores que acima referi, na parte em que esta parece ser a fase da democracia que vivemos neste “pós-século XX”, no mundo ocidental, herdeiro de um liberalismo que se adulterou quase por completo nos seus princípios, tenhamos dele uma interpretação de “esquerda” (primado da igualdade de oportunidades) ou “direita” (primado liberdade individual).