A Minha “Imaginação Sociológica” – 1

Volto hoje, que tenho um pouco mais de tempo, pois não estou preso a arcaicas tarefas de avaliação e o tempo está fraquito para ir fazer a minha imaginária caminhada pela serra, a algumas diatribes que me foram dirigidas há um ou duas semanas por causa de uma “polémica” sobre a forma como nos devemos tratar na blogosfera ou redes sociais quando estamos a discordar de alguém, mas achamos que fica melhor não nomear a pessoa, para depois poder dizer que não era a essa que nos estávamos a referir e que o interlocutor não percebe nada disso.

Para além de “professor marca branca” foi-me atribuída uma aparente “imaginação sociológica” por eu usar algumas expressões ou termos menos confortáveis para uma restrita clique no poder na Educação desde 2015 (herdeira de correntes de final do século XX e de uma certa pedagogia freirista terceiro-mundista). Uma das expressões que irritou o meu colorido interlocutor foi o uso da expressão “Círculo Interno do Poder”, como se ela tivesse acabado de ser por mim inventada, fruto de uma mente em delírio e sem qualquer fundamento teórico.

Nada de mais errado, porque muitas vezes a ignorância presume que o que desconhece não existe. O Paulo Prudêncio já escreveu a esse respeito usando a designação de “Grupo Fechado”, mas eu fui mais literal na tradução da expressão inner circle, conceito que há décadas faz parte do léxico da Sociologia Política (pois, fiz muitas leituras diletantes nos tempos do curso de História e não só) e se aplica a diversas realidades em que um grupo restrito de indivíduos acede a determinado poder/informação/função de que exclui os restantes elementos interessados ou afectados pelas suas decisões, criando uma clique exclusiva, no sentido original do termo relacionado com a prática da exclusão. Remontando mais de 100 anos, o “Comité Secreto” de Freud é o exemplo de um inner circle de que um dos mais famosos excluídos foi Jung, tendo servido para o seu principal dinamizador controlasse a sua “corte” de seguidores.

Passando para as últimas décadas do século XX, o conceito foi sendo cada vez mais aplicado à forma como grupos de executivos começaram a organizar-se para influenciar políticas, no sentido de obterem decisões que fossem favoráveis aos seus negócios (esta obra de Michael Useem é uma das primeiras análises de um fenómeno que pode remontar às teses sobre o complexo industrial e militar dos anos 50 nos EUA). Mas a inner circle theory deu origem a diversas análises, em especial sobre o funcionamento do poder nos países anglo-saxónicos (um exemplo aqui que reavalia as teses de Useem), mas com imensas ramificações como, por exemplo, o uso recente de algumas redes sociais para estabelecer uma teia de relações entre políticos e jornalistas. E existem mesmo departamentos e cursos destinados a estudar como se estabelecem estes círculos restritos de influenciadores/decisores ligados ao exercício do poder político e ao modo como são tomadas as decisões.

Como matéria de estudo da Sociologia, a própria disciplina é objecto de análise no que se refere à forma como se estrutura o seu campo de estudo e as suas teorizações.

Para não complicar mais as coisas fiquemo-nos por uma passagem acerca do que é o papel do inner circle na vida de qualquer pessoa, sendo especialmente importante quando essa pessoa tem poder de decisão.

An important consideration about our inner circle is that we all are so heavily influenced by those people. We all learned as children the importance of associating with good friends and people who would be good for our lives and help us achieve good things. The lesson is immensely more complicated as adults when our responsibilities and roles are sophisticated and multi-faceted.

Those we invite into our circles that could generate tremendous profits for our business could prove to be people who are willing to compromise their ethics and integrity to fill that bill and alienate others in the circle. People who are too protective or possessive of us will be off-putting to others and could prove to actually hold back our own development. People who are so totally needy that they consume disproportionate amounts of our time and resources may ultimately cause resentment and frustration to develop.

Se há quem ache que, desde 2015 (como em outras alturas), não se criou um Círculo Interno de Poder na Educação, anda muito distraíd@ ou não quer que se perceba como é que as decisões se definem, os decretos se escrevem, as formações se recomendam e as viagens se fazem.

Não, não é “imaginação sociológica” minha. Quem isso afirma ou é ignorante na teoria ou está demasiado ocupado com a práxis que não quer que se note demasiado cá fora. Em qualquer dos casos, espero ter dado um contributo útil para a inclusão de novos conceitos no seu reportório conceptual.

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Um Conceito Interessante

Um café onde é possível, numa cadeira específica, voltar ao passado desde que não se saia do sítio e se volte antes do café arrefecer. Sem que seja possível alterar o presente. Mas o futuro, talvez…

Não é uma maravilha em termos especificamente literários (ainda estou a iniciar o segundo de quatro capítulos), mas ao menos é um exercício a partir de uma ideia “inovadora”, no verdadeiro sentido da palavra.

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Domingo

É curioso que há gente com bastantes estudos que parece não perceber a diferença entre um racista e um supremacista branco. Este é necessariamente racista, mas aquele pode não ser um supremacista e dirigir o seu racismo para alvos específicos. Um racista pode,. por exemplo, casar ou ter amigos próximos de “etnias” diferentes da sua. Isso só muito dificilmente poderá acontecer com um supremacista (de qualquer tipo) que é o extremo radical do espectro racista, pois defende a supremacia do seu grupo étnico sobre todos os outros.

Racismo

No JL/Educação

E termina assim (e tem referência a estudos e tudo…) uma versão bem mais longa da ideia aflorada na crónica da semana passado no Educare.

Em Portugal, as proclamações retóricas acerca da bondade da estabilidade do sistema educativo não têm, nesta área, quase nenhuma correspondência em medidas práticas. Mesmo em recentes estudos do CNE acerca da organização escolar (sobre as turmas, o tempo escolar e os agrupamentos de escolas, publicados entre 2016 e 2017), não existe praticamente nenhuma referência a este aspecto, sendo mais evidente a preocupação com a “eficácia financeira” e com os níveis estatísticos de sucesso do que com condições indispensáveis para a “eficácia pedagógica” e a qualidade das aprendizagens.

A fragilização dos professores mais velhos, exigindo-se-lhe mais em troca de menos, conduziu a uma generalização de situações de esgotamento com reflexo no aumento de problemas de saúde e de ausências por atestado. A par disso, as regras draconianas em vigor para completar os horários de professores substitutos deixam muitos na necessidade de terem horários em duas ou três escolas, levando-os a um ritmo de trabalho (e de rotação nas colocações) que os impede de darem o melhor de si em cada local por onde passam de forma episódica.

E esta conjugação destrói qualquer verdadeira possibilidade, na generalidade das escolas, de constituir equipas pedagógicas com continuidade no tempo, com prejuízo para os alunos. Porque são eles os primeiros a perder a confiança quando o “sistema” lhes falha.

Pelo Educare – Parecendo Que Não, É Um Balanço Para Reflexão

… porque não deixa de ser uma acusação a um dos consensos do “arco da governação” que, na dúvida, escolheriam sempre um centeno aos próprios alunos.

Descontinuidade Pedagógica

Ficámos presos numa situação que, de ano para ano, mina num crescente número de escolas a possibilidade de constituir equipas pedagógicas que consigam acompanhar os alunos ao longo dos ciclos de escolaridade, devido à elevada rotação de docentes como resultado inevitável de uma política de gestão dos recursos humanos que nos últimos 15 anos privilegiou qualquer cêntimo de “eficácia financeira” a uma verdadeira “eficácia pedagógica”.

pg contradit

6ª Feira

Ontem ouvi falar muito em liderança e não foi apenas por causa do meu triste Sporting (para memória futura, com esta equipa e o treinador escolhido, deveremos ficar ali entre o 5º e o 10º lugar e não falemos mais nisso, época encerrada). Ou da falta dela. Há lideranças que se procuram “afirmar-se” pelo medo e pela intimidação e são aquelas que, a dado momento, passam da caça às bruxas à caça aos gambuzinos, vendo perigos e ameaças a cada sombra que fica para trás nas esquinas. Há também as que fingem consensos, levando o rebanho ao redil em nome do bem estar comum, da paz das almas, do remanso em que todos pensam ter qualquer coisa, nada tendo. E há as lideranças que usam todos os truques para se manter no poder graças a um permanente exercício de desresponsabilização e fuga às responsabilidades. É complicado quando escasseiam cada vez mais os exemplos alternativos, mobilizadores sem demagogia, firmes sem desvios proto-totalitários, capazes de fazer diferente sem desprezarem as leis.

Claro que posso estar apenas a falar sobre lideranças escolares.

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(nem todos entendem que o “legado” de alguém acaba por ser a memória que dessa pessoa fica, porque as acções acabam por poder vir a ser desfeitas rapidamente. Por exemplo, o “legado” do Marquês de Pombal perdurou muito para além da “Viradeira”.)