4ª Feira

Chama-se “paternalismo” e não “inclusão” às práticas de condescendência preconceituosa que assumem que os alunos de outras origens culturais/étnicas ou contextos económicos desfavorecidos só podem ter bom desempenho se os padrões de avaliação forem adaptados no sentido da simplificação.

Depois Do Precariado

O “desnecessariado” (termo ainda não usado em português), ou seja, o conjunto daqueles que a sociedade ou o sistema capitalista (numa leitura mais à esquerda) considera dispensáveis. No contexto actual da pandemia, houve cronistas que, na prática, acharam que os idosos com co-morbilidades seriam algo dispensáveis. Não por acaso, o termo surgiu há poucos anos para descrever a atitude de alguns sectores da sociedade perante as mortes por doenças como a SIDA ou aquelas pessoas que são consideradas supérfluas para os grandes interesses económicos. A fase seguinte, natural, depois do precariado. Infelizmente, um conceito bastante interessante, ainda carece do devido desenvolvimento teórico, pois a realidade já existe e não é de agora.

Pelo Público Online

(…) Vou finalizar com uma crítica do mesmo tipo que fiz aos promotores da carta aberta pela reabertura rápida das escolas, de que a economista Peralta faz parte: sejam bem-vindos à luta por uma sociedade mais justa e menos desigual. Em outras ocasiões não demos pela vossa presença, como quando sectores inteiros foram objecto de uma redução substancial de rendimentos logo a partir de 2005. Mas mais vale chegarem tarde à luta pela justiça social e económica do que nunca. Agora só falta algum rigor na descrição e análise da realidade sobre a qual lançam as vossas propostas.

A Nova Sociedade Tetrapartida Do Neo-Liberalismo Pós-Marxista

É apenas uma nova sugestão de nomenklatura.

  • Aristocracia da Pandemia.
  • Clero da Opinião.
  • Burguesia do Teletrabalho
  • Proletariado da Penúria.

Numa visão mais medieval, mas também mais realista, temos um esquema tripartido, em que os burgueses remediados estão ainda formalmente incluídos no povoléu do 3º Estado.

“Sincronia” Quer Dizer “Ao Mesmo Tempo” Ou “Em Simultâneo”

E não é sinónimo de “vídeo-conferência”. Uma vídeo-conferência deve ser síncrona, mas uma sessão síncrona não implica que se esteja de câmara ligada. Uma sessão de chat também pode ser síncrona. Ou uma troca de mensagens no uótezape.

Eu vou tentar explicar mais em detalhe para quem não domina ainda aquilo do que é “síncrono” ou “assíncrono”, parecendo confundir isso com, como já escrevi acima, a câmara estar ligada ou desligada.

Se começarmos uma aula às 10 da manhã com os alunos todos ao mesmo tempo e os mandarmos fazer qualquer coisa às 10.30 com a câmara desligada (mesmo “saindo” da aula virtual), para depois apresentarem o que fizeram das 11.15 às 11.30, isso significa que se esteve numa sessão síncrona de 90 minutos e não numa síncrona de 45 e outra assíncrona de outros 45. Porque estiveram todos a fazer o mesmo ao mesmo tempo. O que é sincronia. Certo?

Porque estiveram todos a fazer o mesmo, ao mesmo tempo no início, no meio e no fim.

Uma sessão assíncrona acontece quando se termina a sessão síncrona e se deixa uma tarefa para ser feita, com maior ou menor prazo, mas nunca meia hora ou uma hora, pelos alunos, mais tarde.

Por exemplo: após uma aula síncrona de 30 ou 40 minutos, deixa-se uma tarefa para os alunos entregarem até ao final do dia ou da semana e eles podem fazê-la ao seu ritmo, durante mais ou menos tempo, não necessariamente em simultâneo.

Achei útil explicar isto porque há quem diga que o horário não é 100% síncrono porque durante uma parte das aulas os alunos podem fazer tarefas/exercícios de câmara desligada, voltando só perto do final para apresentarem o que fizeram ou “marcar a presença”.

(estariam a bater palmas em sincronia, mesmo se não tivesse sido feita gravação!)

Os “Antagonismos” São Superficiais

Porque em muito do essencial (culto do sucesso a qualquer custo, desresponsabilização perante qualquer “fracasso”, modelo de carreira docente, modelo de gestão escolar) os dois “lados” estão de acordo. A verdade é que na maior parte dos casos, acaba tudo a almoçar junto. E mesmo o “radical de serviço” (o Mário que agora é das Barbas) parece ter tomado um daqueles tranquilizantes XXL.

Como a escola portuguesa está consensualmente enredada por duas décadas de excessos contraditórios, exige-se um recomeço assente na simplificação organizacional. Urge, como a pandemia revelou, uma escola que se reencontre com as suas raízes: não substitua a sociedade e volte a ser liderada pelo professor.

4ª Feira

Última saída do ano para as sempre esperadas auto-prendas que, como seria de esperar, recaíram quase em exclusivo em livros. Uma delas foi um dos “evangelhos” da clique ideológica no poder na área da Educação. Para ler o original e não as réplicas e perífrases que abundam por aí, nem sempre com a citação do autor: Edgar Morin. De quem li, em tempo das edições da Europa-América, com especial prazer O Homem e a Morte e O Paradigma Perdido. De quem fui lendo as divagações, de forma pouco sistemática, sobre o espírito dos tempos e a Educação desde o início dos anos 90, quando se tornou aquilo que os seguidores consideram ser uma espécie de guru do “pensamento complexo”. Muito do que Morin escreveu nas últimas décadas é atractivo, intelectualmente interessante e em alguns momentos estimulante, mesmo se não propriamente inovador. Digamos que ele faz confluir contributos de áreas que outros autores desenvolveram e que ele conseguiu sintetizar de um modo razoavelmente acessível.

Na área da Educação, por cá, o seu legado (que ele explicitamente faz remontar às concepções de Rousseau) tem sido pilhado de um modo equivalente ao que aconteceu a Paulo Freire, mas nem sempre com a honestidade da citação da inspiração para prosas que vão de introduções a diplomas legais a powerpoints de formações recicladas. Só que em alguns casos, aproveitando de Morin o mais superficial dos conceitos e deixando de parte a coerência com a prática correspondente, em particular aquela que nos previne contra as certezas. Aquelas que os autores de Perfis e 54s e 55s apresentam como absolutas e não passíveis de crítica. Pessoalmente, partilho algumas das concepções de Morin, em particular aquela da complexidade e da necessidade de não dividirmos tudo entre bons e maus, nós e os outros, virtuosos e “cornudos”, para usar a terminologia patusca do ministro Tiago.

Estamos ameaçados, sem cessar, de nos enganar sem o saber: Estamos condenados à interpretação, e temos necessidade de métodos para que as nossas percepções, ideias, visões do mundo sejam o mas fiáveis possível.

De resto, quando consideramos as certezas, compreendendo as científicas, dos séculos passados e consideramos as certezas do século XX, vemos erros e ilusões de que cremos estar curados. Mas nada nos diz que somos imunes a novas certezas vãs, a novos erros e ilusões não detectadas.

Edgar Morin, Enseigner à Vivre. Manifeste pour Changer l’Éducation. Paris: Babel 2020 (original de 2014), pp. 14-15.

Leituras (Pouco) Natalícias

Pela extensão, já não vai a tempo de entrar da luta pelas melhores leituras de 2020, mas deve vir a ser a primeira boa leitura de 2021. A edição portuguesa saiu há pouco, mas o preço empurrou-me para o paperback americano (10 euros em vez de 25), menos robusto, mas também mais portátil.

Uma Verdadeira Pedagogia Da Autonomia…

… dificilmente se satisfaria com a validação de práticas de servidão burocrático-administrativa ou com uma lógica em que o professor é considerado um irresponsável se não registar tudo o que fez e não fez, com a devida fundamentação em duplicado ou triplicado, em grelha, tabela, plataforma ou questionário, para posterior análise e eventual puxão de orelhas porque falhou aqui um ponto final ou ali ficou um verbo que parece mal à cartilha da “autonomia”. Parece-me de uma imensa hipocrisia, sabendo que me repito, mas apetece-me repetir, porque é coisa que dura e perdura, que quem ande com certas retóricas emancipatórias e inclusivas sempre a cair-lhe do beiço, deveria ter o decoro de não estar sempre a fazer descarado negócio em modo de “formações” reaquecidas em banho-maria das sebentas de outrora, ou que esteja na primeira linha dos que querem amarrar toda a gente a uma concepção do professor como funcionário subordinado e temeroso em relação a qualquer desvio ao padrão dominante.

Já agora, também tenho direito a citação freirista, mas sincera, porque eu até o li, mesmo quando discordava da parte demasiado devedora ao contexto das sociedades pós-coloniais de desenvolvimento muito desigual.

Que podem pensar alunos sérios de um professor que, há dois semestres, falava com quase ardor sobre a necessidade da luta pela autonomia das classes populares e hoje, dizendo que não mudou,
faz o discurso pragmático contra os sonhos e pratica a transferência de saber do professor para o aluno?! Que dizer da professora que, de esquerda ontem, defendia a formação da classe trabalhadora e que, pragmática hoje, se satisfaz, curvada ao fatalismo neoliberal, com o puro treinamento do operário, insistindo, porém, que é progressista?

A História Está Cheia De Maus Exemplos De “Empenho E Dedicação”

Depois daquele post sobre o despacho shôr sub-director da DGAE, o ex-novo e ex-contratado e ex-activista César Israel Paulo, falei com alguém que o conhece melhor do que eu, assim como ao SE Costa. Percebendo as minhas razões, não deixou de me assegurar que os dois (CIP e JC) são pessoas que fazem o seu trabalho com grande “empenho e dedicação”, o que eu nunca coloquei em dúvida. Aliás. sendo de História, estou de barriga cheia de malta que, ao longo dos tempos, se empenhou e dedicou de forma quase insuperável à “operacionalização” das suas ideias e convicções. O problema está nos objectivos que norteiam tamanho “empenho” e tão desmesurada “dedicação”. Então o século XX está cheio de vultos deste tipo. E lá surge a tentação pelo argumento ad hitlerum. Alguém acha que o Hitler, o Estaline, o Mao e tantas outras luminárias menores se dedicaram à aplicação das suas políticas de forma desleixada e preguiçosa? Acho mesmo que são exemplos maiores de “empenho e dedicação” às suas causas. O problema eram mesmo as causas. Que, ainda por cima, se dizia serem “ao serviço do povo” e “a favor da Pátria/Nação/[coloque o que achar mais adequado]”.

Claro que não estou a comparar políticos menores (ou aspirantes a isso pela via do engraxadorismo administrativo) de um país periférico a essas personalidades e muito menos as suas políticas ao extermínio de povos/classes sociais/[coloque o que achar mais adequado]. Calma. Apenas estou a afirmar que o “empenho e dedicação” são muito relativos. E sim, não é um argumento válido para acharmos que alguém está a agir bem. Assim como a “sincera crença que estão a fazer o melhor para o país”. O Salazar achava isso mesmo. Ou aqueles tipos da Polónia e da Hungria que ainda hoje se congratularam por terem defendido os interesses dos seus povos ao negarem, com empenho e dedicação, a obrigação de respeitarem o Estado de Direito. Mesmo se os ditos povos parecem discordar, pelo menos em boa parte.