Só Duas Notas Acerca Dos 2072 Casos De Hoje (Ou Ainda Me Salta Mesmo A Tampa)

A primeira, a propósito de um texto do Henrique Raposo, em que o autor considera que “está a ser ultrapassado neste momento” o limite que ele acha razoável para “para salvarmos algumas vidas de doentes crónicos com 70, 80 e 90 anos” em troca do que ele designa como “o grau de destruição escolar, social e médico (sim, médico) que podemos infligir aos mais novos”. Ao ler esta tirada tão ao gosto das teorias eugénicas d’outrora e d’agora, lembrei-me que o HR é católico, defensor do valor da vida desde a concepção, ficando eu a saber que, ao que parece, esse valor decresce com a idade, em especial a partir dos 70 anos e se a criatura idosa tiver doenças crónicas. Já o li sobre hipocrisias e agora confirmo que ele percebe do tema. É verdade que ele admite que “escreve o que for preciso” e só podemos, de forma legítima, pensar na razão disso.

A segunda, nasce de uma troca de impressões com um aluno de 5º ano na sequência do mesmo não usar a máscara de forma adequada na sala, a tentar tirar sistematicamente com todos os pretextos possíveis e ainda mexer nas coisas do colega. Procurei explicar-lhe que os maiores riscos que aquela sua atitude criava seriam para familiares seus mais velhos (aqueles que o HR deve achar dispensáveis) e que o sacrifício do uso da máscara é bem menor do que algumas consequências da potencial transmissão de um contágio inadvertido. Com bom tom e clara convicção, ele respondeu-me que não havia problema, pois um familiar (não interessa qual) lhe dissera que ele e os colegas deviam ir para a escola “por causa daquilo da imunidade”. Inquiri se o familiar era profissional de algum ramo da saúde ou se tinha algum tipo de formação na área ou algo assim. Respondeu que não. Fiquei sem vontade de continuar a conversa ou ainda acabaria acusado de “doutrinação” ou algo pior. Apenas recomendei que desse alguma atenção às notícias, quando não estivesse a jogar ou a trocar mensagens com os colegas. Até porque sei que ele não é familiar do HR, nem que seja por razões socio-geográficas óbvias.

Sociologia Superficial Dos Parceiros Da Ex-Geringonça

Há quem não tenha percebido que nos últimos anos foi feita uma clara opção por parte de algumas forças políticas (e suas ramificações sindicais) no sentido de apostar no apoio do que agora designamos como “precariado”. Por ser numeroso, por ser mais ou menos jovem. E por estar em situação de fornecer alguns milhares adicionais de efectivos quotizados do que os “velhos” trabalhadores dos “quadros” que, para além de serem vistos como “privilegiados”, ainda têm o condão de ser chatos e menos maleáveis a certas demagogias.

Não estou a colocar em causa a legitimidade de tal opção, ou sequer a sua maior ou menor bondade. Apenas a assinalar uma evidência e a tentar que algumas pessoas entendam que a boa vontade de alguns grupos político-sindicais se deslocou na última década e aderiu a uma lógica dominante diferente daquela que se poderá considerar “tradicional”: a defesa dos trabalhadores de uma dada profissão, que agora se apresenta como sendo algo “corporativo” e não dos aspirantes a essa profissão. Até há quem considere que é assim que deve ser, porque é mais justo e, numa perspectiva de “esquerda”, se está a privilegiar a defesa dos “mais vulneráveis”. E eu até tenderia a concordar – não tendo qualquer cartão ou não pagando quotas, não vou esperar que seja os meus interesses que alguém venha defender – se tudo isto depois não se traduzisse num nivelamento pelo salário mais baixo e na aposta nos que ficarão gratos com o mínimo dos mínimos, perdendo uma perspectiva de médio-longo prazo.

E repito… não estou a fazer um juízo de valor sobre a estratégia (uma discordância não é bem isso), apenas a querer que o pessoal menos novo perceba aquilo com que tem de lidar e com os apoios que, em regra, só terá da boca para fora. Porque se há algo que tenho de reconhecer ao actual PM é que meteu mesmo os marxistas na gaveta, desculpem, no bolso.

homens-da-luta

Havia A “Salsicha Pedagógica”

Agora há as “bolhas de alunos”. Têm, estão a ver, uma membrana exterior que os isola do ambiente envolvente e ficam ali todos em segurança a conviver, porque são bolhas grandes e espaçosas. E muito ventiladas.

Durante a audição na comissão, o ministro desvalorizou a polémica em torno do distanciamento físico entre alunos e professores, lembrando que as escolas vão funcionar com circuitos de circulação e “bolhas” de alunos.

These are the days of miracle and wonder
This is the long distance call
The way the camera follows us in slo-mo
The way we look to us all

picareta

(e é este tipo que ficará para a História como o ME mais tempo no cargo em Democracia…)

O Meu “Sentido Profundo De Dever Cívico”…

… impele-me a defender medidas que poupem a saúde e vidas aos portugueses, seja eles quais forem, independentemente de algum desconforto pessoal que isso me possa causar ou de alguma fricção com as minhas convicções de outro tipo mais f(r)accionário.

É quase que um imperativo ético.

calamidade

 

Pelo Educare

Educar para a adversidade

“Brucie dreams life’s a highway
Too many roads bypass my way
Or they never begin
Innocence comin’ to grief
At the hands of life’s stinkin’ car thief
That’s my concept of sin”
(Prefab Sprout, Cars and Girls, 1988)

(…)

Há um enfoque sistemático em educar de forma “positiva”, assumindo que a “felicidade” e o “sucesso” estão garantidos se fizermos tudo aquilo que nos dizem ser o certo. Mas a vida não é assim e o facto de se descurar a prevenção do que pode correr mal deixa muitos indivíduos vulneráveis, com níveis elevados de frustração, cada vez mais jovens. Porque não foram preparados para que as coisas corram mesmo mal. A uma escala que vai para além da “negativa” ou do ocasional “chumbo”. Há problemas muito mais graves do que esses.

Educar para a adversidade pode parecer um lema pouco apelativo.

Mas é indispensável que entendamos a sua extrema necessidade.

pg contradit

Dia 71 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 4

(…)

Uma “comunidade de aprendizagem”, realmente adaptada ao século XXI, assenta na possibilidade de estabelecimento, a qualquer momento, de interacções entre o professor e os alunos e entre estes. Que podem acontecer num tempo e espaço que se multiplicaram e quebraram as barreiras da sincronia e da presença, mesmo se podem manter momentos de partilha presencial na realização de algumas tarefas, em especial no lançamento das sequências de aprendizagem. A redefinição, em especial numa perspectiva conectivista, implica que o tempo da aprendizagem é balizado pelo professor nos seus limites máximos, mas pode ser gerido pelos alunos de acordo com o seu ritmo; assim como permite que o espaço seja multiplicado de acordo com as possibilidades e condições dos alunos. As salas de aula físicas tornam-se pontos de referência, mas não de presença obrigatória de acordo com uma grelha rígida diária ou semanal.

(…)

diario