Basicamente, É Esperar que o Pessoal se Reforme…

… para colocarem em cena “a melhor geração de professores que já tivemos”. Passemos adiante o uso do pretérito perfeito para explicar o futuro. Acontece. Mais importante é perceber que Nuno Crato verbaliza algo que vem desde Maria de Lurdes Rodrigues e que passa por desesperar os docentes mais renitentes às “inovações” dos vários governantes, nomeadamente o congelamento ad eternum da carreira, o mais com menos ou as autonomias&flexibilidades.

Apesar de terem corrido com muito pessoal, do discurso sobre o envelhecimento docente (sendo que o facto em si é uma realidade) tem oscilado entre a tentativa de aumentar a desmoralização dos mais velhos (e caros) que andam pelas escolas e a esperança que um dia desapareçam. Crato, naquela sua forma menos subtil de colocar as coisas, explicita que o objectivo é a 10-15 anos ter a melhor geração de professores de sempre porque (ao que parece) estes não prestam.

«Daqui a dez anos, 25% dos professores estão reformados. Daqui a 15 anos, 40% dos professores estão reformados. É preciso formar a melhor geração de professores que já tivemos», propôs, em conclusão de discurso.

Como não estive lá, não sei se Guilherme de Oliveira Martins matizou a coisa se aderiu a esta visão e ajudou a explicar como pensam fazer isso e se acham que estão em condições de prometer a “melhor” ou apenas a “mais barata” geração de professores de sempre. Porque entram ali pela base, seja quantos anos tiverem de ensino e escalar a carreira é mais difícil do que o himalaia (já houve muito mais gente no topo do Evereste do que no 10º escalão da carreira docente).

Eu duvido muito do rejuvenescimento qualitativo da classe docente, no mínimo, por duas razões: uma é porque muitos dos que esperam para entrar são pouco mais novos do que aqueles que estão como se vê pelas vinculações “extraordinárias” e por muitos dos que continuam sem entrar e desesperam; a outra é porque me parece que a formação de professores não é neste momento melhor do que foi e, pelo contrário, a mim parece uma bela bosta* destinada a lavar os cérebros com teorizações apenas destinadas a justificar o sucesso a qualquer custo. Um tipo lê aqueles planos de estudos, feitos para caçar incautos. e só se pode rir quando se fala em “qualidade”. O que vão fazer? Colocar (mais) verdascas em cada departamento de formação de professores que há por aí? Ou apenas formadores certificados pela santa aliança eduquesa isczé/autónoma/católica do norte agora em alta?

Crato

* – Pensei usar termo mais contundente, mas este é aquele que foi ilibado de ser ofensivo, quando baseado em factos, em digressão jurídica com alguns anos por causa do jornalista xiita.

A Injustiça do Benefício do Infractor

Se há coisa que, como professor ou encarregado de educação, me irrita acima da média é todo o aparato ideológico-burocrático, com chancela teorizadora de uma sociologia de vão de escada, destinado a relativizar a gravidade dos comportamentos ditos disruptivos, que muita gente parece pronta a achar que são apenas não-conformistas, e a tentar atenuar as consequências para quem os pratica, querendo fazer-nos acreditar que são eles as verdadeiras vítimas do sistema. Não, não é verdade. As verdadeiras vítimas são aqueles que cumprem as regras, que não aldrabam, não agridem, não mentem, não tentam denegrir o trabalho alheio ou amesquinhar os colegas (já não sei se estou só a falar de alunos…), mas que depois são obrigados, em tantas situações, a conviver com a impunidade dos que os ofenderam ou maltrataram, porque há toda uma parafernália de mecanismos destinados a convencer-nos que não é a punir que se consegue alguma coisa. Resta saber se não punindo, não estaremos a desmoralizar mais do que aquilo que podemos marginalmente ganhar com as teorias da contextualização da agressão.

E isto faz-me lembrar o meu falecido professor Cordeiro Pereira quando dizia, com a sua subtil ironia, que apreciava muito bons historiadores marxistas só tendo pena que em Portugal apenas existissem  de 2ª e 3ª ordem. Porque eu sou um grande apreciador de Sociologia da Educação e até tenho ali uma bela prateleira temática, só lamento é que entre nós tenhamos este campo académico-político ocupado por gente de 2ª e 3ª ordem, com uma preocupação maior em provar os seus preconceitos ideológicos do que em defender uma verdadeira justiça no tal sistema.

Se ser justo é apenas punir? Claro que não, porque é essencial prevenir. Mas isso os nossos sociólogos subsidiodependentes do artigo online replicado em éne revistas indexadas raramente se preocupam em afirmar, estendendo a responsabilidade pela prevenção às instituições que ficam do lado de fora do portão das escolas. Ou reconhecendo que as vítimas são na maioria das situações mesmo as vítimas e os agressores os reais agressores, bem como é importante que quem assiste a isto tudo não fique com a ideia de que o mundo é dos chico-espertos, malcriados e grunhos.

PG Verde

Deve Ser do Calor… 2

Vou estranhando, quase como um aspirante a António José Saraiva nas suas crónicas civilizacionais no Sol, a nova forma de designar coisas ou de as conceptualizar.

São as summer fests, as summer sessions, as summer cócoisas, as sunset parties e as sunrise headaches.

No fim de semana, assim de surpresa, enquanto zappava, vi uns minutos de uma “reportagem” (que isto não se fica por menos) sobre esplanadas e, em especial, sobre alguns “novos conceitos” de esplanada.

Maravilhei-me e espantalhei-me.

Não é que agora há esplanadas com “conceito”, mesmo se é apenas ou quase só a boa e velha combinação de cadeiras, mesas e chapéus de sol ou toldos para abrigar os mais sensíveis aos calores?

Há o conceito “white”, se for tudo pintado de branco (e “green” se for verde como aquela superbock ou “black” se for de etnia alternativa). Há o conceito de “sunset” se só abrirem quando já estou com vontade jantar e até descobri, nesse dia, o “conceito de esplanada virada para a Natureza”, só porque ficava diante de uma praia.

Olha-me o raio do escafandro do “conceito”! E eu que pensava que esplanadas conceptuais eram mesmo só aqueles montadas numa nesga de passeio, obrigando os peões a ir para a estrada, enquanto os esplanantes desfrutam do seu interlúdio refrescal enquanto fruem o ruído do trânsito e o aroma diferenciado dos escapes dos veículos de 2, 3 (os tuc’s) e 4 rodas em trânsito!

Nada disso.

Agora até é um “conceito” montar uma pequena piscina junto a uma esplanada defronte do mar, para que todos possamos partilhar do berreiro chapinhante das criancinhas cujos pais gostam de praia mas não de ter de estar com atenção à pirralhada, pelo que nada como substituir as ondas do mar pela água morna de um tanque.

E depois temos as beibes e os beibes (com sorte, até poderá ser alguém que participou durante segundo e meio numa qualquer temporada dos velhos Morangos ou que agora cante em programas da tarde dos canais generalistas, menina ou menino, sempre com duas gajas poderosas de carnes a saracotear-se em redor, à frente do teclista de barriga mal espartilhada e do baterista au ralenti para apanhar o playback) a elogiar muito o conceito e a declarar a sua adoração irrevogável pela nova forma de estar destas esplanadas e toda a sua espontânea alegria de viver.

Apre. Estou velho para isto, porque ainda sou do tempo em que o conceito não era uma coisa a que se chegava com chinelinha no pé e decote frondoso.

KArl3

O Mito do Contexto

Leio muita gente a defender que devemos reparar no “contexto” das afirmações de António Costa sobre a boa ideia que seria para os professores de Português aproveitarem a possibilidade de darem aulas em França, atendendo ao facto de terem pouco emprego em Portugal por causa dos factores demográficos. A declaração é praticamente igual à de Pedro Passos Coelho em finais de 2011.

De acordo com os teorizadores do “contexto”, quem não percebe as diferenças é burro, demagogo ou, mais simplesmente para os simplistas, “é de Direita” (sim, chegámos a este ponto raso de argumentação nestes tempos de maniqueísmo exacerbado) como li num grupo de professores de “uma rede social”. Em outros ambientes li que quem não percebe a diferença de “contexto” ou não sabe ler ou não sabe interpretar.

Pronto. Ponto. Final.

Discordo em grande parte.

Sim, o contexto é diferente: António Costa estava a falar em França, onde defendeu a língua portuguesa falando grande parte do tempo em francês (nunca vi governantes franceses a falar português quando nos visitam) e, ao que parece, feliz pelo facto de Hollande (esse vulto da coerência pessoal e política ao nível da palavra dada e das promessas assumidas) reconhecer a importância da língua portuguesa em França. Para além disso, António Costa estava a falar num momento histórico singular, em que o governo tem o apoio explícito e praticamente incondicional da maior central sindical de professores, em que nos querem fazer acreditar que cortar subsídios a 40 colégios é a maior medida de defesa da Escola Pública desde que o Egas Moniz ensinou o Afonso Henriques a assinar de cruz e em que, dizem os economistas optimistas, estamos num “novo ciclo” que se afirma de “crescimento”.

Realmente, o “contexto” é diferente, até porque Passos Coelho falava numa entrevista a um jornal, em recato, com poucos meses de governação e ainda um razoável estado de graça para Nuno Crato que se preocupara em “despachar” a questão da avaliação do desempenho docente (com assinatura de sete sindicatos e declarações de Mário Nogueira que, apesar de não assinar, afirmou para os professores se preocuparem com outras coisas e “seguirem em frente”) e ainda não fizera um décimo das tropelias que marcariam o seu mandato. Sim… é preciso lembrarmo-nos de que Dezembro de 2011 não é Dezembro de 2014 e que, por exemplo, o massacre dos professores de EVT acontecera ainda no mandato de Sócrates. E Crato só assumiu claramente que iria deixar de contratar muitos professores em entrevista ao Sol em Setembro de 2012.

A esta distância pode já tudo parecer-nos um borrão, com fronteiras indefinidas, mas há que saber – ainda – distinguir “os contextos”. Já para não falar da troika e essas coisas. O problema do “contexto” é que quando chamamos por ele devemos conseguir contextualizá-lo em termos de factos e datas. Não basta invocá-lo e dizer umas generalidades a propósito.

Que se entenda uma coisa: não estou a defender PPC que sempre se mostrou muito disponível para dizer disparates sobre Educação, área de que ele não percebe mais do que alguns assessores lhe dizem ser verdade. PPC é uma nulidade na matéria e nunca isso esteve em causa. O seu apelo à emigração dos professores para os PALOP fazia para ele(s) imenso sentido e até acredito que ficou chocado por não termos acolhido de braços abertos tão generosa sugestão.

Agora que também fique claro que espero que António Costa não esteja sempre a pensar que ainda está na Quadratura do Círculo e que pode dizer coisas que parecem giras que daí não há consequências práticas. Que ele tivesse dito que está a tomar medidas para redignificar a situação profissional dos professores de Português junto das nossas comunidades de emigrantes, que está a estabelecer acordos para a expansão da presença de algumas dezenas (centenas, muito dificilmente) de professores em França, tudo bem… agora afirmar que isso é uma janela de oportunidade de emprego ou algo parecido para as dezenas de milhar de professores no desemprego é de uma enorme demagogia.

Não foi isso que ele disse? Estou a ser radical? Não sei ler? Não sei interpretar e fazer a exegese de meia dúzia de frases bem claras e preciso que me explicitem o “contexto”?

Olhem que não, olhem que não…

O primeiro-ministro António Costa esteve por estes dias em França e recomendou aos professores portugueses que estejam atentos às oportunidades no país.

Em breve serão marcadas “as reuniões do grupo técnico que existe entre Portugal e França para o alargamento da presença do português” como língua de aprendizagem nas escolas francesas, salientou o PM, que destacou que isto é obviamente muito importante para a difusão da nossa língua. É também uma oportunidade de trabalho para muitos professores de português que, por via das alterações demográficas, hoje não têm trabalho em Portugal e que podem encontrar aqui, mas é também um grande desafio para a nossa tecnologia e para a capacidade de fomentar o ensino à distância”, considerou, citado pela Lusa.

Em 2011, Passos Coelho foi criticado por ter mandado os professores emigrar. “Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa”.

Foi numa entrevista ao Correio da Manhã que o actual líder do PSD deu conta da sua opinião sobre o tema. “Angola, mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do ensino básico e do ensino secundário de mão-de-obra qualificada e de professores”, salientou Passos Coelho. O ex-primeiro ministro recusou depois que tenha convidado alguém a emigrar.

O que é preocupante para mim é que o “contexto mental” dos dois PM (um destro, outro canhoto, politicamente, claro) é muito semelhante. Quando se lhes ocorre singularizar um grupo profissional para emigrar do país parece só lhes ocorrer o dos professores. É com a melhor das intenções? Sim, sim… e o Inferno e tal.

Futre

Os Indesejados

De vez em quando, uma ideia aparece e não a quero perder e só a reencontrar passado algum tempo; há poucos dias fiz uns apontamentos para um pequeno texto motivado pela sensação resultante do que vou lendo sobre Educação nos últimos meses, em especial no que se refere à renovada pressão para o sucesso dos alunos, às estratégias destinadas a colocar a única responsabilidade do insucesso nos docentes, as propostas de reorganização dos ciclos de escolaridade e aquelas outras constatações sociológicas sobre as práticas segregacionistas ou mesmo racistas dos professores portugueses, tudo feito com a cortesia de investigadores ou políticos que depois gostam muito de afirmar a sua confiança nesses mesmos professores e nas escolas às quais querem retirar competências para as entregar às autarquias.

Não escrevi logo por texto e acabei por aproveitar estes dias de algum convívio docente intra ou extra-escola para verificar que a maioria dos meus colegas de geração sente-se algo parecido a mim… a sensação de que somos indesejados no sistema de ensino por boa parte dos decisores – e daqueles que os apoiam ou pretendem aconselhar – na área da Educação.

Porquê?

Porque muitos dos professores na casa dos quarenta e muitos e cinquenta e tal ainda têm a memória viva de outros tempos, outras formas de fazer e estar, outros modos de organização escolar, de tomada de decisões, assim como do percurso, práticas e retóricas de muitos dos que continuam sempre na mó de cima no que diz respeito a dizer como se faz ou deve fazer, mas sem nunca terem demonstrando, quando puderam, se seriam capazes de o fazer. Os professores que nasceram ali pelos anos 60 ou mais e que entraram na profissão até aos anos 90 ainda sabem como isto evoluiu, o que melhorou e o que piorou e, salvo algumas minorias de crédulos, rendidos ou desistentes, tem uma opinião bastante próxima – que é transversal a simpatias político-partidárias – pelas legitimações de políticas pela OCDE, dos estudos tipo-isczé (governos de esquerda), made in Católica (governos de direita) ou das vagas de maior intensidade dos pareceres do CNE (até porque é fácil ir às fichas técnicas e dar com os nomes, os mesmos quase desde a fundação afonsina).

É uma geração de professores muito cépticos, que para alguns estão imbuídos de uma “cultura de retenção”, que ainda não conseguiram ver bem a luz do belo pensamento das pedagogias mais avançadas ou dos novos paradigmas com um século, que ainda não se renderam à inevitabilidade da proletarização ou da precariedade e que, conforme os contextos, são mais ou menos acusados por alguma opinião publicada de serem “conservadores”, “retrógrados”, “privilegiados” ou “corporativos”. Em tempos de governos do PS costumam avançar os progressistas que anunciam o século XXI com amanhãs sorridentes de sucesso, enquanto em tempos de governos do PSD/CDS avançam os apóstolos da racionalidade financeira, da necessidade de accountability e dos novos modelos de gestão.

Para além das guerras de alecrim e manjerona para cerrar fileiras que se pretendem antagónicas, todos convergem em políticas de centralização hierárquica das decisões, de esvaziamento das competências das escolas e de domesticação da carreira docente. E todos defendem um rejuvenescimento do corpo docente ou da sua forma(ta)ção para as novas tendências, por forma a implementarem com poucas ondas e contestações as políticas de sucesso escolar e financeiro que políticos e especialistas consideram inadiáveis para melhorar o desempenho dos alunos, mesmo se esse desempenho melhorou de forma consistente nas últimas duas décadas de acordo com os testes internacionais PISA, TIMMS ou PIRLS.

Os indesejados somos nós, os professores que, apesar de congelados a meio da carreira ou pouco mais, são considerados caros, problemáticos e incapazes de se adaptar aos novos tempos. O que se deseja é um proletariado docente, cordato, agradecido por lhes darem um lugar ao sol, a quem se fomenta a inveja em relação aos mais velhos, de quem se espera uma obediência quase total, como retribuição por uma qualquer vinculação ou contratação, mesmo que precária. Os indesejados são aqueles que se querem afastar ou vencer pelo cansaço, pelo esgotamento, pelo massacre contínuo, de forma mais explícita ou mais melíflua, combinando demagogia política com “estudos científicos” encomendados à medida.

Mas, quase por definição, estes indesejados são muito teimosos. E têm uma longa experiência de suportar as manipulações, as desconsiderações (materiais e simbólicas) e as mistificações da opinião pública.

O que é uma chatice. A Memória é uma chatice e o alzheimer ainda é capaz de demorar uns anos a bater em força.

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Preocupação

Em relação ao problema do desemprego docente por causa da não renovação de alguns contratos de associação, há quem se declare preocupado. Vamos esquecer que houve quem mandasse emigrar para Angola (por exemplo, embora agora neguem, mesmo havendo registo claro acerca do que se foi dito) os professores da rede pública. Não devemos desejar o mesmo mal aos outros que nos desejaram a nós. Comparemos apenas a evolução do emprego docente nos últimos 20 anos entres os sectores público e privado (a Pordata ainda não distingue as PPP em categoria autónoma, mas eu acho que ainda encontro os dados algures), com destaque para a última década.

Onde estava toda esta gente quando as escolas públicas perderam quase 30.000 professores no 2º e 3º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário (os ciclos que estão actualmente em causa), o que equivaleu a um quarto de todo o seu corpo docente, enquanto no sector privado essa redução não chegou a 10%? Acrescendo que aqueles (apesar da sucessão de artimanhas no processo de contratação) foram escolhidos em concurso público e os outros não (?) se sabe muito bem como?

Onde esteve tanta preocupação? Eu já vou em busca do que foi então dito sobre isto.

Exista memória. Exista (um mínimo de) decoro.

ProfPubPriv

A Feroz Quadratura do Círculo

Daria para prosa prolongada, mas a esta altura da semana e do dia, não me parece produtivo. Ficarei pela versão curta, na medida do impossível, esperando que a pressa não seja amiga de alguma incongruência ou discordância, ortográfica ou semântica.

As escolas e os professores estão presentemente perante uma espécie de cerco que, apesar de palavras suaves, irá esvaziar toda a sua autonomia e negará qualquer confiança nas suas excelsas qualidades.

Por cima, temos um ME que decidiu regressar a boa parte do pior do que tivemos nos anos 90 do século passado (eu sei, há nostálgicos que agora já recuperam esses tempos como dourados), ou seja, aquela verborreia toda cheia de conceitos e paradigmas e alegados modernismos e progressismos, em nome do direito ao sucesso e da centralidade do aluno em tudo o que é Educação, transferindo para os periféricos professores a responsabilidade por tudo o que aconteça que reduza um nível de sucesso na ordem dos 103-108% em qualquer ano de escolaridade, com ênfase nos não terminais. Apelidando de conservadores quem não se entusiasme com um retrocesso conceptual de duas décadas, a actual equipa do ME não se acanha em manter algumas das piores medidas dos governos do século XXI, excepção feita aos exames da 4ª classe. E nem se lhes fale em degelo, porque mesmo sem sobretaxa continuaremos a ganhar menos do que há quase uma década. O rosto sorridente é o do  ministro Tiago, enquanto a cabeça falante é a do secretário João. A secretária Alexandra completa a trindade e lê o teleponto, enquanto acena para os microfones.

Do lado direito, temos uma fronda dos interesses privados pretensamente liberais (por afirmarem com muita força que defendem a liberdade – deles), para quem todos os cortes na rede pública de ensino se justificam devido a factores indesmentíveis e mais do que válidos como: a) crise demográfica; b) imperativos orçamentais; c) racionalidade financeira, mas que perdem toda a sua validade quando se aplicam aos seus amados contratos de associação em zonas onde há rede pública com capacidade para absorver os alunos sem custos adicionais. O seu rosto é o queirozeze, mantendo-se alvarengas&muñozes na sombra com a benção clerical onde os ensinamentos de despojamento de Cristo se encontram em baixa. O Observador é o seu órgão oficial.

Do lado esquerdo, temos duas federações sindicais unidas num espírito de colaboração com o Poder, umas vezes mais uma, outras vezes mais outra. Tudo aquilo que antes se dizia ser intolerável, no contexto certo e com as directrizes superiores adequadas, já é aceitável, desde que tudo se discuta à mesa, de três em três meses, se troquem números de telefone directo, exista diálogo e – se sobrarem uns trocos – forem recuperados privilégios em certas e determinadas formações. A luta que as uniu em tempos quase esquecidos está ultrapassada, os machados enterrados e toda a gente acha que é tempo de ser responsável. Por comodidade, passei a usar a designação de FNEprof, algo que escapa a alguns histriónicos articulistas de direita que ainda não perceberam até que ponto o Mário passou a ser o rosto da colaboração e não da contestação. O João, por estes dias, conta pouco e aquela vocação para director geral que marcou o último mandato tem pouca utilidade para a actual situação.

Por baixo, em acelerado crescimento, fertilizado por retóricas de proximidade e intensificado pela ânsia de fundos europeus, temos o lobby autárquico para o qual está reservada a transferência de muitas das competências que hoje ainda sobrevivem nas escolas e duas ou três que o ME aceita conceder. A acompanhar a entrega dessas competências irá um envelope financeiro chorudo, de verbas com origem nas Europas e destinadas à melhoria das qualificações e formação da população (desde o Fundo Social Europeu que lengalenga é a mesma, só mudando – será? – os mamões, para usar a terminologia do galamba antónio) através da sua aplicação em infra-estruturas (vai ser um fartote de obras públicas municpias e renovação de frotas automóveis dos empreendedores locais e outras lenas) e “projectos” destinados a combater o insucesso e o abandono, aos quais as escolas irão ter de se candidatar juntos dos shôres vereadores e presidentes, alguns dos quais altamente estimáveis, mas outros verdadeiros carreiras arrogantes e pesporrentos, de diferentes tonalidades. O rosto mais visível desta face do quadrado é a ANMP e uma ampla coligação de autarcas espalhados por todo o país, impacientes por aproximar a Educação da sua asa protectora, distanciando das escolas o centro das decisões mais relevantes, ou seja, as financeiras. Dispensam, já desde os tempos de Crato, a colocação dos professores, mas certamente abraçarão a contratação de técnicos especializados e formadores com o cartão certo. Quem se lhes opõe é centralista, salazarista quando visto por uns, estalinista quando visto por outros.

E a modos que é assim, há quem diga que eu sou pessimista, mas a verdade é que eu cresci a poucas centenas de metros do famoso oráculo de Belline e a verdade é que ele, nessa altura, jogava muito mal às cartas (era novinho, o miguel) e eu ganhava muitos cromos em jogos de lerpa.

quadratura

Ementa Completa

Tinha-me esquecido… os professores “conservadores” que não alinham na conversa fiada pretensamente muito “pedagógica” actualmente em desfilada, para além de segregarem alunos com necessidades educativas especiais e atribuírem classificações com base na cor da pele, ainda entediam os alunos ditos “regulares”. Isto tudo no espaço mediático, político e “científico” de uma ou duas semanas. Se não conhecesse já esta estratégia de outros tempos, até me sentiria incomodado. Assim apenas me sinto segregado profissionalmente, entediado intelectualmente e quiçá objecto de algum racismo “científico” por ser um gajo branco, professor de meia idade, hetero e apreciador de boa comida.

cat

(mas gosto de gatos fofinhuscos…)

Confiança nos Professores?

Via e ouvia o secretário de Estado da Educação naquela sessão dedicada a militantes do PS em Aveiro a enunciar a sua “confiança” nos professores e escolas e pensava como temos a memória curta e nos esquecemos que isto já foi dito imensas vezes sem qualquer conteúdo substancial.

Como até agora nestes primeiros cinco meses deste mandato.

Analisemos outras palavras e os actos do actual ME: as escolas estavam pejadas de “más práticas” ou de “práticas nocivas” por causa das provas finais. Estava a “afunilar-se o currículo”. O que significa que escolas e professores estavam a agir mal, incapazes de resistir às más influências. Agora são as turmas com alunos com NEE que se ouviu dizer que estariam pouco tempo com os restantes colegas; sendo que o seu currículo é desenhado pelos professores do Ensino Especial, percebe-se que é sobre eles que recai a desconfiança dos governantes.

Governantes que, como outros, enunciam uma confiança que na prática se concretiza na ausência de uma qualquer palavra acerca do descongelamento da carreira ou sobre uma nova forma de encarar a farsa da avaliação do desempenho. Porque este ministro e esta equipa só são eduqueses em matéria de avaliações/aferições até chegar à porta dos docentes.

É tão interessante ver gente a tentar passar despercebida e a não comentar algo que se fosse o outro ministro a legislar já teria sido motivo para rasgarem as vestes em público. Até o Super-Mário parece ter perdido os seus poderes maléficos e ninguém o vê à luz do dia.

Confiança nos professores? Sim, claro, daqui a bocadinho já vou ver com que confiança inspeccionam o dossier com a reposição mensal dos 5 minutos em falta por cada aula de 45. É só confiança e caldos de galinha.

Cao

Sem Desculpa Possível – 2

A senhora secretária de Estado e o senhor secretário de Estado, ambos da Educação, decidiram determinar no vergonhoso Despacho Normativo n.º 1-H/2016 que “A redução de turmas prevista no número anterior [incluindo alunos com NEE] fica dependente do acompanhamento e permanência destes alunos na turma em pelo menos 60 % do tempo curricular”.

Antes de passar à análise do que qualifico, sem muitas dúvidas, de abjecto, explicarei a lógica que está na sua origem: o ME, nas pessoas de Alexandra Leitão e João Costa consideram que as escolas andarão a abusar da inserção de alunos com NEE nas turmas, por forma a conseguir que elas tenham menos elementos. Esta é a minha apreciação; podem achá-la um juízo de intenções que tanto se me faz. Infelizmente, acho que é a triste realidade das coisas. Se eles têm razão? Sei lá… não sou eu que controlo e posso consultar o MISI.

Passando à análise da abjecção em si. Dois pontos:

  • A turma terá direito a redução se os alunos estiverem 60% com o resto dos colegas, o que significa que não terá redução se os alunos apenas estiverem 50% do tempo; ou 40%. Ou seja, quanto mais dificuldades tiverem, maior será a turma em que estarão inseridos para o trabalho comum. Esta consequência é de um brilhantismo que cruza diversos níveis de maldade que se julgariam extintas em equipas do ME do PS posteriores a MLR. Não aprenderam nada de bom, preferindo manter os velhos truques.
  • Para quem conhece como acaba por ser “desenhado” um CEI (currículo específico individual) saberá que, por exemplo no caso do 2º ciclo (vou falar do que conheço directamente há mais tempo), a matriz oficial contempla 1350 minutos de aulas, sendo que 60% correspondem a 810 minutos, pelo que os alunos (de acordo com este normativo) só poderão estar ausentes da turma durante 540 minutos. Imaginemos agora um aluno que precise de ter, por profundos problemas devidamente identificados e diagnosticados, Matemática Funcional e Português Funcional em pequeno grupo, fora da turma. No mínimo estará 500 minutos (mínimo legal para estas disciplinas) fora das aulas da turma. Não poderá estar ausente em nenhuma disciplina (imaginemos o caso de Inglês para alunos que nem o Português conseguem dominar). Imaginemos que na escola, a turma tem 6 tempos de 50 minutos de Português (300 minutos) e 5 tempos de 50 minutos de Matemática (250 minutos), ou vice-versa. O total de 550 minutos impedirá a turma de ter redução.

Quem faz diplomas assim (ou quem os admite), abrigando decisões de m€rd@ destas, deveria sair à rua com cobertura de alcatrão e penas. Sem mais conversas.

Ou então não percebe NADA disto.

Alcatrao2