Domingo

Após as descobertas incríveis feitas na passada semana sobre, por exemplo, o Inverno nas escolas em tempos de pandemia (ou não), pessoalmente gostaria que muita gente “descobrisse” como estão a funcionar as aulas de Expressões (em grande parte quase sem componente prática), as em especial as de Educação Física, porque nem todos temos as mesmas condições para trabalhar. E o caso de Educação Física é o que me parece mais evidente. O CNAPEF e a SPEF divulgaram os resultados de um inquérito sobre o modo como foi preparado este ano lectivo e têm dados muito interessantes, desde logo o modo como essa preparação foi feita com a colaboração dos colegas da disciplina.

O que não traz o inquérito? Por exemplo, em quantas escolas ou agrupamentos, para além das restrições decorrentes da pandemia, os alunos continuam a ter aulas a céu aberto no Inverno ou têm de sair da escola para as ter em pavilhão exterior ao perímetro escolar. Como sou um tipo cheio de azar, este século ainda não estive numa escola (seja em qzp ou quadro de escola) que tivesse pavilhão no seu perímetro. Ou pura e simplesmente não o havia (nem ainda há), ou os alunos tinham de ir a escola vizinha (agora em agrupamento, mas não nessa altura) ou a um pavilhão no exterior, a centenas de metros. É o caso dos meus alunos actuais de 5º ano que têm Educação Física nas mesmas condições que eu tive quando estava no 1º do Preparatório há 45 anos, no mesmo concelho, só que na altura o Pavilhão a que nós íamos era novo e o deles, agora, é capaz de ter essa idade e aguarda há anos e anos por uma intervenção da tutela.

(alonguei as contas e nos últimos 25 anos só estive em 1999-2000 numa escola com pavilhão no seu perímetro)

O que não traz o inquérito? Que há alunos do Ensino Básico e do Secundário de Letras (e que fique claro que a minha filha está em Ciências e adora Educação Física até debaixo de neve ou trovoada, por isso é que escrevi “de Letras” que, como eu, são todos considerados nerds ou sedentários incorrigíveis) que têm de ir às 8 da manhã para um campo de relvado sintético de um clube desportivo próximo da sua escola (se quiserem saber qual é, perguntem ao “João”, que deve saber da “parceria”) e que por estes dias está todo coberto de geada e inviabiliza qualquer actividade desportiva em segurança. Sim, o ar fresco da manhã “enrija” o físico e é belíssimo para a saúde, mas não me parece que seja menos grave do que o que se passa nas aulas regulares com o frio.

Há quem pareça descobrir agora que o ensino para o século XXI enfrenta problemas que alguns de nós – sempre do “contra”, sempre “negativos”, sempre a ver o copo “meio vazio” – procuram denunciar há muito tempo perante a condescendência de uns e a indiferença de muitos outros. Porque parte significativa da nossa rede escolar pública não tem pavilhões adequados (ou laboratórios para as Ciências ou oficinas para as disciplinas mais tecnológicas), mesmo se há escolas com “salas do futuro”, espaço para equitação e acesso a aulas de natação ou outras coisas assim, como se fossem colégios privados de topo. Parte significativa da nossa rede escolar é muito século XX e há aspectos que fazem lembrar efectivamente os tempos intermédios da industrialização oitocentista. Claro que nem tudo é assim, mas desde 2005 tudo se veio a agravar em termos de desigualdades.

A cosmética da avaliação para o sucesso pode encobrir algumas coisas em termos estatísticos, mas não consegue encobrir tudo. Há quem diga que eu “exagero” ou que só vejo o que me rodeia. Não é bem assim, porque posso dar exemplos de norte a sul e do litoral ao interior, sem me fixar no meu “habitat” natural. A essa gente “positiva” ou que insiste em que “para a frente é que é o caminho” e “não precisamos de quem só vê os problemas” eu diria que não gosto de avançar, cantando alegremente, para nenhum precipício (não estou a ser literal, ok?) e muito menos para “soluções”, apressadas, lacunares e demagógicas, que agravam cada vez mais a distância entre nichos locais “de excelência”, que dispõem de condições para isso e uma parcela muito importante do “resto” que começa a ficar cada vez mais para trás. Que até se pode “abonecar” para visitas de Estado, para ficar bem nas fotografias, que varre para baixo da alcatifa as misérias (de novo… não estou a ser completamente literal) por vergonha ou desejo de ficar bem, mas que, nos outros dias luta para conseguir mudar estores, isolar janelas, substituir fechaduras, instalar novos cabos de cada vez que alguém decide pontapear as calhas por onde passa a net.

Talvez para a semana tudo isto consiga mais do que reportagens algo anedóticas na comunicação social e consiga revelar à opinião pública o quanto tem andado enganada nas últimas décadas.

Estou Cansado De Delírios

Estou cansado destes discursos “positivos”, desta tentativa de transmitir “confiança”, de revelar “esperança”, de suspirar por excelentes para quem mais amochar perante os interesses políticos governamentais.

Escolas garantem que estão a postos se for preciso continuar o ensino à distância

É mentira que as escolas estejam “preparadas” se isso quer dizer que estão em melhores condições do que em Março, porque não estão. Há a experiência do que se passou (e já se percebeu que foi um fiasco em termos globais, com estas ou aquelas excepções) e a chegada de um número insuficiente de kits tecnológicos para os alunos. Mais nada se fez,para além dos bastidores do Plano de Capacitação Digital dos Docentes.

Se passarmos de novo ao ensino não-presencial (o que seria da mais elementar prudência) quase tudo será igual ao que foi e só poderá funcionar se os professores usarem de novo os seus recursos, porque nada – NADA – chegou à generalidade das escolas para que a partir delas se faça algo de diferente. Aqui em casa conhecem-se três realidades distintas, mas que confluem no essencial: foram 10 meses em que a incompetência do ME foi por demais evidente, pois só sabem falar, falar, falar e debitar chavões ou parvoeiras (o caso dos “cornudos” do ministro Tiago é apenas o exemplo mais deplorável) sem que as medidas necessárias tenham surgido.

Há escolas onde @sdirector@s conseguiram alguns avanços? Há. Mas a generalidade dos Planos de Contingência vai muito além de explicar a diferença entre ensino presencial, misto ou não-presencial no caso de ser necessário alternar entre modelos? Muito poucos, esmo se são muito explicadinhos sobre condutas a adoptar e circuitos a seguir, no caso do ensino presencial.

Foram redefinidos critérios de avaliação pelos Conselhos Pedagógicos para a eventualidade de ter de alterar a forma de avaliação? Os Conselhos Gerais foram consultados em nome das comunidades educativas? Talvez, mas duvido que isso tenha acontecido na maioria dos casos. Basta consultar a documentação que está publicada nos sites das escolas e agrupamentos. Basta passar uns minutos pelo Google.

Claro que a norma tem excepções; não nego que há onde tudo esteja previsto. Mas garantir que as escolas estão preparadas para um novo E@D é risível. A menos que seja em forma de encenação como há 10 meses, apesar de toda a boa vontade que possamos ter. E que a mim cada vez mais escasseia, porque me pedem uma dedicação e competência de que quem tem responsabilidades de decisão superior não dá qualquer exemplo.

Recuperando Uma Parte Da Crónica Para O Educare

Porque já parecia adivinhar o que aí vinha quando a escrevi em final de Dezembro. Foram, entretanto, prometidos mais 260.000 kits, mas por este andar ou chegam mascarados no Carnaval ou em forma de ovos da Páscoa.

O futuro também não chegou em 2020 à comunicação política em torno destas questões, continuando a preferir-se a encenação mediática, a truncagem da informação e as promessas sem intenção de cumprimento a um novo tempo em que se abandonem os oportunismos, os malabarismos semânticos ou a simples agressividade descabida (em casos como os do ministro da Educação quando é mais “apertado” e fica sem capacidade de resposta), em favor de alguma seriedade e rigor. O exemplo mais claro é o dos anúncios de centenas de milhões para assegurar uma “Transição Digital” nas escolas, de que chegaram migalhas ao fim do primeiro período. Os 100.000 kits tecnológicos são insuficientes para uma população escolar que tem mais do dobro dos alunos em situação de exclusão digital já demonstrada. As somas anunciadas permitiriam muito mais do que formações de bastidores para a “Capacitação Digital dos Docentes”, pois para se poder usar e aplicar os meios digitais é necessário estar em condições de a eles aceder. O primeiro problema é o do “acesso” e esse está longe de estar assegurado. Mesmo ao nível das escolas em que a generalidade dos computadores (desktops) nem dispõe de webcams.

Por fim, por agora e para não prolongar uma crónica que seja criticada por demasiado “negativa” quando até temos horas de directos televisivos em salas de vacinação para transmitir “confiança”, há o assustador salto para o passado que constituiu a adesão de muitos professores (entre outros profissionais com qualificações académicas superiores) ao irracionalismo anti-científico, com o pretexto de se estar a exercer o direito à liberdade de expressão e crítica do “discurso dominante”.

Pelo JL/Educação

Mantendo a grafia do texto original.

(umas páginas antes, há quem com responsabilidades nisto, insista em atirá-las para outros, deve ser por causa de um “medo ancestral” em assumir erros)

Todos conhecemos na nossa vida de alunos aqueles colegas que, por maior asneira que fizessem, nunca admitiam o erro e diziam sempre que a culpa não era deles, mesmo que fossem apanhados com a mão na bombinha de mau cheiro e os bolsos cheios de muitas outras. Nunca tinham sido eles. Chegando a professores, voltámos a encontrar gente assim, mas não apenas entre os alunos. Aliás, parece que alguns desses antigos colegas ou conhecidos cresceram e, chegando a adultos, nada perderam na capacidade de desresponsabilização, apenas sofisticando a capacidade de apresentar, com cara séria, as desculpas mais esfarrapadas para as novas asneiras, só que agora com implicações mais graves.

Na área da Educação, ao nível dos decisores, a capacidade para alijar fracassos e ignorar erros só tem paralelo na habilidade para assumir os sucessos como seus, na totalidade ou, em casos de extrema impossibilidade em guardar para si todo o mérito, apenas em parte.

Isto vem a propósito dos resultados conhecidos recentemente acerca do desempenho dos alunos portugueses no TIMMS 2019, com destaque para os dos alunos do 4º ano em Matemática. Pela primeira vez em 25 anos, o desempenho piorou e, como seria de esperar, não demoraram a surgir as declarações desencontradas sobre a responsabilidade de tal insucesso. Quando teria sido do mais elementar bom senso esperar um pouco, analisar os resultados e procurar explicações que prescindissem de um oportunismo político simplista, os actuais responsáveis políticos surgiram a culpar o anterior ministro da Educação. Em título do jornal Público de 8 de Dezembro de 2020 lia-se que o “Governo culpa políticas de Crato”, e o secretário de Estado João Costa foi citado a afirmar “que a opção pelo currículo e metas muito exigentes fez baixar níveis de desempenho superiores” (Jornal de Notícias, 12 de Dezembro de 2020). Como seria de esperar, o visado surgiu a defender-se do que considerou serem “acusações irresponsáveis e falsas” e declarou que “as Metas Curriculares, que estavam em vigor em 2015 e pelas quais foram preparados os alunos então avaliados, não sofreram alterações até hoje. O que mudou foi a avaliação, ou a falta dela, e foi a ‘flexibilidade curricular’ e a natureza vaga das ‘aprendizagens essenciais’.”

Replicando, em artigo no Público de 17 de Dezembro, o secretário João Costa apresenta o que considera serem sete factos sobre o assunto, declarando que “estes alunos trabalharam ainda com os Programas de 2007 – revogados antes do prazo normal de seis anos de vigência e sem avaliação – e beneficiaram do Plano de Ação da Matemática – cujo relatório de impacto e eficácia não foi divulgado” e que de todas as medidas do governo entrado em funções “apenas o fim dos exames de 4.º ano afetou os alunos que participaram no TIMMS 2019”.

Estas longas transcrições têm como finalidade fornecer um contexto minimamente fiel quando às posições em confronto e à sua coerência (ou falta dela) e demonstrar até que ponto, em Educação, o “insucesso” é sempre culpa do outro, de alguém, mas nunca dos próprios. Como nos antigos recreios quando alguém partia o vidro da janela da sala de aula e depois culpava a brisa de passagem.

Os “factos”, para usar a terminologia do secretário João Costa, parecem por demais claros e dificilmente contornáveis. Os alunos do 4º ano que fizeram o TIMMS 2015 passaram todo o primeiro ciclo no mandato de Nuno Crato, enquanto os que fizeram o TIMMS 2019 passaram todo esse ciclo já com o secretário João Costa (e o ministro Tiago Brandão Rodrigues, claro). Os primeiros deram continuidade à tendência de melhoria dos resultados desde 1995 e os segundos inverteram-na pela primeira vez. A correspondência temporal é demasiado clara e tentadora para não se estabelecerem relações de causalidade. Curiosamente, não são as afirmações do ex-ministro Nuno Crato que mais comprometem os seus sucessores no insucesso, porque ele mistura erradamente a “flexibilidade” na questão e permite ser desmentido por aí. Os alunos no 4º ano em 2019/20 não passaram (felizmente, na minha opinião) pela experiência da chamada “flexibilidade e autonomia” curricular, mas passaram pelo fim das provas finais do 4º ano e pela sua substituição pelas inusitadas provas de aferição do 2º ano.

Essas “provas finais” que alguns gostam de designar como “exames” para acentuar uma conotação negativa que despertaria um “medo ancestral” nos nossos alunos de acordo com a presidente da Associação de Professores de Matemática, foram eliminadas logo no final de 2015 numa iniciativa do Bloco de Esquerda que teve o apoio de toda a esquerda parlamentar e o aplauso dos então novos responsáveis pela Educação. Os alunos que iniciaram o Ensino Básico em 2015/16 chegaram ao 4º ano em 2019/20 (facto!) sem essa “sombra” ou “medo ancestral” (opinião) a pairar sobre eles. Ou, numa linguagem mais objectiva, fizeram todo o primeiro ciclo de escolaridade com a certeza de não passarem por uma prova final com um peso de 30% na avaliação e ouvindo, tal como famílias e professores, dizer o pior possível desse tipo de prova e o melhor de um processo de avaliação sem qualquer verificação externa. Ou sem essa “responsabilização” acrescida, afirmo eu, que sou pai de uma aluna que passou em 2012/13 pela dita prova e ainda hoje gosta muito de Matemática.

Quando o secretário de Estado escreve que “apenas o fim dos exames de 4.º ano afetou os alunos que participaram no TIMMS 2019” talvez pudesse tirar algumas ilações desse “facto”. Se “apenas” isso “afetou os alunos”, então talvez tenha afectado de um modo diferente do que repetidamente se andou a afirmar como se fosse grande certeza. Ao fim das “provas finais” e ao afastamento do “medo ancestral” não correspondeu uma melhoria do desempenho, antes pelo contrário. E se a escola é para ensinar e aprender e se quando os resultados melhoram, por exemplo nos PISA, se gosta de reclamar o mérito ou – quando a cronologia não ajuda – se opta por declarar que a paternidade é colectiva, seria bom que depois não se fugisse aos fracassos.

É meu entendimento, em contradição clara com a retórica “anti-exames” e com muita da demagogia que nos últimos anos dominou o discurso educativo oficial acerca do “sucesso”, que as “provas finais” não conduziram a piores resultados ou ao aumento do insucesso e escrevi-o desde o momento em que anunciaram, com fanfarronice, o seu extermínio. A acreditar no TIMMS 2019, os “factos” confirmam essa minha percepção. Os resultados pioraram com a eliminação do que, de forma voluntariamente equívoca, se apresentou como “barreiras” à progressão dos alunos. Pelos vistos, não eram barreiras às suas aprendizagens. Parece claramente pior o balanço de um percurso “plano”, sem a tal responsabilização acrescida. Parece-me que se pode considerar um “facto”. Resta saber até que ponto esta tendência se manterá em 2023. Espero, sem qualquer cinismo, que não.

Como professor e encarregado de educação desgosta-me muito assistir a um passa-culpas público entre responsáveis que deveriam assumir com clareza o que corre bem, menos bem ou mesmo mal. Há poucos dias tivemos o exemplo do rei da Suécia a admitir que as políticas praticadas no seu país em relação à pandemia tinham sido erradas e produzido efeitos “terríveis” quanto ao número de mortes. A opção por não fazer imposições e deixar tudo à “responsabilidade individual” foi um fracasso. Nem de propósito, também foi na Suécia que, quando por cá se andaram a apregoar certas medidas descentralizadoras e liberalizadoras no sistema educativo, apresentando o modelo sueco como exemplo, os responsáveis governamentais consideraram ter errado e iniciaram uma reversão dessas políticas.

Quando se defende que não deve existir “revogação de legislação sem avaliação do que está em vigor, mesmo que isso torne os processos mais morosos”, como escreveu João Costa no Público, até que ponto estaria a pensar na curta vida das “provas finais” do 4º ano? Não compreenderá que foi dos primeiros a promover ou apoiar a reversão de políticas, com base em preconceitos ideológicos, sem a devida avaliação? E que, quando aparece a primeira avaliação externa e é desfavorável, recusa qualquer responsabilidade e passa a factura do “insucesso” para o antecessor?

Em 2015, alguém escreveu que “o sucesso escolar não tem dono”. Estava-se perante bons resultados que correspondiam a uma governação alheia. Cinco anos depois, parece que é o insucesso escolar que não tem dono.

Factos são factos, mesmo em tempos de pós-verdade e de malabarismos linguísticos. Revela falta de coerência e de coragem política.

2ª Feira

Esta é uma semana essencial para que se guardem energias para um novo ano que está longe de ter garantias quanto ao modo como se vai desenrolar. O novo período irá arrancar com tantas dúvidas quanto o primeiro, pois a vacinação da maioria da população acontecerá apenas a partir de Abril e efeitos de qualquer imunização de grupo surgirá apenas lá para o Verão. Pelo que, com os meses mais frios a chegar, os riscos continuam elevados e a semana que acabou (de reuniões desnecessárias a compras em bando, passando por regras muito pouco rigorosas na quadra natalícia, para controlar danos políticos) não irá ajudar muito aos números da segunda e terceira semanas de Janeiro.

E já se percebeu que “certezas” ou não há ou são as mesmas que se foram instalando até agora: aulas presenciais até ao limite do razoável (não vá uma meia dúzia de articulistas mais mediáticos aborrecer-se como o actual PM) e transição digital só muito devagarinho, pois vamos começar 2021 e os meios disponibilizados para qualquer novo E@D nem atingem 10% do prometido, sendo que também já ficou implícito que acham que os professores terão de avançar com os seus meios digitais para que qualquer coisa funcione a sério (já pensaram que o E@D pode ser feito a partir dos espaços escolares e não da casa de cada um@?).

2020 vai terminar com a certeza de que o futuro ainda não passou por aqui e 2021 irá começar do mesmo modo, muito fingimento, pouca uva. Muito “estudo” (vai haver também um sobre Educação Literária), pouca consequência em tempo útil, que não seja a constatação da “necessidade de formação dos professores”, porque há clientelas que com isto do digital andam a perder espaço à mesa.

2ª Feira

Que não nos enganemos. Os professores são neste momento muito0 úteis ao poder político no esforço por aparentar um mínimo de normalidade. Mas. mesmo que apareçam por aí umas declarações fofinhas, não confundam isso com afecto sincero, porque o não há. Percebe-se nas entrelinhas e e em alusões nem sempre muito subtis em comentários, intervenções mais ou menos públicas, artigos de “opinião”. É só passar a pandemia e voltaremos ao resto, em cima do que agora já se está a passar em matéria de abusos e que a greve da praxe de um dia, pós-Congresso do PCP na “oposição”, não chega sequer ao patamar do átrio da resolução. O ministro só aparece em eventos e o secretário, como sempre em tempos agrestes, voa baixinho e só atende (a)os amigos para as parcerias e pilotagens do costume.

Basta observar como a “oportunidade” para rever algumas coisas – sendo que até discordo de algumas – ficou na gaveta, a começar pelo parlapiê em torno do acesso ao Ensino Superior. Que agora é muito “complexo”. Será sempre complexo, só que agora é um tempo sensível e quando as vacas políticas engordarem poderá ser feito à bruta, como é costume. Com o apoio de uns à direita e a omissão de outros à esquerda.

Quero muito que a situação pandémica melhore e se resolva (até porque não acho que os velhos doentes sejam para morrer de qualquer maneira), mas temos muito o que esta gente – apresentando-se como salvadores da Nação – possam vir a fazer em seguida. Não me aflige tanto qualquer deriva autoritária nova, porque já conheço a velha. Até acho que andam, em tal matéria, ainda com muitos paninhos mornos. O que receio mesmo é o que virá a seguir, com a justificação das consequências da pandemia.

E sabem o mais triste? É que há muita gente desejosa que isso aconteça, mesmo entre a classe docente que, a avaliar pela evolução de certas atitudes e questionamentos (públicos ou privados) não melhorou absolutamente nada em perspicácia a médio prazo. E amocha… então se não amocha. E irrita-se com quem não o faz. E só espera pelo momento certo para se livrar de quem critica tanto amochanço em troca de tão pouco ou nada.

Sábado

Ontem à noite, na SICN, Luís Aguiar-Conraria (não me esqueci do hífen) clamava contra os que “nada perdem” com esta situação e que era tempo de contribuírem para o esforço dos que estão a perder muito. E eu acho isso de elementar justiça. Até porque quem trabalha e recebe paga impostos para isso mesmo. O problema é que ele não teve qualquer desvio de esquerda e não falou em qualquer contribuição extraordinária dos grandes grupos empresarias que sabemos terem lucros interessantes, mesmo se exercitam hábil contabilidade criativa. Por exemplo, há grupos comunicacionais que se queixam de prejuízos, depois recebem milhões do Estado e a seguir contratam “estrelas”. Ou pagam a quem lá aparece de forma regular a dar opiniões, em sinergias com outros órgãos do dito grupo. Não estou apenas a falar do Eixo do Mal. A Luís Aguiar-Conraria ocorreu logo o caso dos funcionários públicos que, pelos vistos para ele, deverão estar a receber sem nada fazer. Alguns poderão estar, outros não. Depende. Felizmente, não explicitou os professores. Até porque ele é professor. Embora naturalmente “superior”, o que tem outra dinâmica, Não sei se agora à distância. Em casa, recebendo o mesmo. Sinceramente, não sei. Eu continuo a fazer o mesmo que fazia antes da pandemia, presencialmente, porque mesmo que existam casos em meu redor, tenho um véu protector de “baixo risco”. Ainda pensei, contra os meus hábitos, mandar-lhe um mail, uma mensagem a alertar para alguns factos, mas desisti, porque em outros casos, anteriormente, com outras figuras mais mediáticas, não serviu para nada, que as certezas já lhes correm no sangue.

6ª Feira

Falam em “antecipar” as férias escolares por causa do “pico”. Em boa verdade, a “antecipação” consiste em colocá-las onde normalmente estão, mais ou menos um par de dias. E se é verdade que o teletrabalho é mesmo obrigatório (“sempre quer possível”) em concelhos que representam 85% da população, a petizada nem ficará ao abandono (espera-se…). E sempre se poderiam evitar reuniões até praticamente à véspera de Natal, o que para alguns idiotas parece lógico, pois os “professores não devem estar de férias nestas alturas, porque parece mal”. Por “idiotas” entendam-se especialmente professor@s que dizem isto, com um ar que nos deixa sem dúvidas acerca do vazio que deve ser o resto da sua vida, portões fora.

(claro que criaturas maledicentes como eu, poderão inquirir se, sendo verdade que não existe relação entre as actividades escolares e o aumento dos contágios, porque será necessária tal medida… será porque assim poderão fazer algo sem perder a face de modo muito evidente?)