A Montra E O Miolo

Primeira página do Público:

A notícia (só tenho o destaque, pelas razões que há dias expliquei, pois não dei qualquer opinião).

Ministério da Educação revela resultados do inquéritos feito a professores. Entre os docentes consultados pelo PÚBLICO há uma nota que sobressai: as AE carecem de revisão urgente.

Nunca esperei que a “avaliação prometida pela tutela” fosse abaixo da xalência. Até porque as “consultas” são sempre muito “focalizadas”. E há uma enorme acção de propaganda para tentar influenciar a opinião pública. Se em si a propaganda já é algo que tende a distorcer a realidade para provocar a adesão de quem a consome, neste caso é de assinalável desonestidade intelectual.

As AE são um “programa mínimo” que nos deveria embaraçar a todos (não apenas aos más-línguas como eu) se é para as considerar um horizonte para as aprendizagens a realizar.

Hoje, No Público

Tudo se apresenta com a legitimação das consequências da pandemia, mas nada de novo está em causa. Só alguém muito distraído poderá acreditar que é por aqui que passa alguma reforma da Educação que vá além da tentativa de dar novo ímpeto a medidas que se viu serem incapazes de funcionar em tempos de emergência.

Ainda As Aprendizagens Alegadamente “Perdidas”

Alguém me consegue demonstrar que aquilo que o Iavé diagnosticou de forma tão canhestra não acontece já, normalmente, em virtude da atomização e abastardamento do currículo do Ensino Básico às mãos de uma clique de gente cujo pensamento parou nas sebentas pseudo-críticas dos anos 90 do século passado?

Tema a desenvolver, em diferentes “plataformas”. nos próximos dias. Porque acho que tudo isto me cheira a oportunismo e, as palavras são para serem usadas, fraude.

A Outra Narrativa

Não sou ingénuo ao ponto de achar que estas notícias surgem por acaso, que não aparecem porque também são convenientes para a nova atitude do actual PM e da maioria dos que o apoiam. Mas, pelo menos, parecem assentar mais em factos demonstráveis do que as considerações vagas e pouco baseadas na realidade de certos “istas” que por aí andam a assinar cartas ou a subscrevê-las de cruz, sem grande preocupação em saber se têm algum fundamento ou se não se limitam à expressão de uma certa dor d’alma, causada por incómodos muito particulares.

Afinal, o confinamento indesejado foi “eficaz” e, afinal, não temos estado mais tempo fechados do que os outros. Que o economista Coraria e a economista Peralta são fracos neste tipo de contas, eu já tinha notado, assim como tenho escassa esperança na lisura e substância da argumentação de Oliveiras, Raposos & Tavares.

Expresso, 5 de Março de 2021

Mais Uma Cavadela…

… mais uma minhoca apanhada na argumentação da economista Peralta que parece uma daquelas especialistas instantâneas em economia da pandemia, só que truncando ou adulterando a informação que depois outros papagueiam de forma acrítica. E não há nada mais divertido do que ver alguém a “armar-se”, a colocar-se em bicos de pés em cima de barro por cozer.

No seu texto de 26 de fevereiro (“Costa, Marcelo e a penitência da Quaresma”), Susana Peralta argumenta em favor da abertura das escolas, apoiando-se num editorial publicado na revista médica The BMJ. A economista não deve ter feito uma análise cuidadosa da publicação que escolheu, ou teria detetado que o trabalho não apresenta informação científica que negue às escolas impacto na propagação do vírus – explico porquê nos últimos parágrafos deste texto, para quem interessar.

“Surpreendente” Para Quem?

Há muitos meses que se avisava para a tal “impreparação”. Isso foi denunciado de forma repetida, mas alguma comunicação social decidiu alinhar na conversa saída de certos gabinetes de comunicação de que eram apenas “más línguas”, pessoas mal informadas e que “só sabem dizer mal”. Não, por acaso as críticas vinham de quem está no terreno e não embarca em cantigas de embalar, de quem se preocupa mesmo com os alunos e não apenas com alguma opinião publicada, por vezes com a chancela de “notícia”.

Só que a culpa não é só, nem em primeiro lugar, do inepto ministro Tiago, que é mantido no lugar porque dá um imenso jeito ao par de Costas que na verdade governam a Educação, o de cima, o António, o das promessas balofas, que perpetua a animosidade de um certo PS em relação aos professores mais críticos de governações demagógicas, e o do lado, o João, que não é de baixo, porque é ele que decide muito do que interessa, resguardando-se habilmente das saraivadas, rodeado pela sua corte pessoal de candidat@s a comendas e futuros lugares de destaque no CNE (ou afins).

Pena O Autor Não Ter Estendido O Olhar A Outros Exemplos Disfarçados De “Opinião”

Redes sociais e CM são recompensados com audiência e público. E os fake jornalistas, são punidos? Não. Enquanto houver poder socialista, alguém que divulgou notícias erradas e enganosas, porém agradáveis para o poder,  pode sempre ser recompensado com a presidência da Lusa; alguém que pôs a seriedade de lado pode ter direito a uma avença (ao menos, até ser descoberto); e alguém que além de amigo foi cúmplice, alertador e bombeiro de Sócrates pode sempre contar com bom progresso na carreira. Basta que em vez de jornalistas escolham ser fake e falsários.

Sábado – Dia 2 Do Re-Re-Confinamento

Começou ontem a contar o tempo para um novo ajuste de contas com os professores, não tenha qualquer dúvida. Porque estas duas semanas de “férias” irão ser pagas a dobrar daqui a não muito tempo. Pois, vão-se percebendo – claro que há ingénuos, verdadeiros ou nem por isso, que dizem que não é assim – os contornos da “narrativa” em construção para, sacrificando uma parte (a opinião pública começou a ter uma “percepção” errada dos riscos e/ou o governo teve uma “percepção” errada dessa outra “percepção”, numa espécie de jogo de espelhos), salvar o essencial (a bondade das intenções do governo, que reagiu tarde porque tudo tentou fazer para evitar os maiores problemas, não podendo prever o que se está a passar).

Sendo mais claro: o governo não poderia ter feito de outra forma o que fez, pois tudo isto ganhou uma dimensão imprevisível e a opinião pública “forçou” a que se tomassem medidas que esse mesmo governo estava convicto de não serem necessárias.

Bullshit (caca de boi em português).

Desde há mais de um mês que se sabe que a evolução da pandemia não podia ser medida apenas pelos dados de Março-Abril, seja por causa das variantes do vírus, seja por causa da procrastinação de medidas mais firmes para travar a progressão dos contágios.

E é aqui que entra a necessidade do encerramento das escolas – óbvio pelo que implica de mobilidade da população, não por ter focos virais nas salas – que foi apresentado de modo errado como uma espécie de fronteira final de combate à pandemia, quando deveria ter sido encarado como a primeira barreira a erguer (e que no caso da primeira vaga, sem estirpe britânica, se revelou bem eficaz).

E é aqui que surgem aqueles sinais, nem sequer especialmente difusos, em que o “fecho das escolas” começa a ser um problema de que o governo que alijar responsabilidades. E começam a surgir expressões como “a vontade dos professores” ou tiradas completamente despropositadas como a do economista Aguiar-Conraria que já começou a acenar contra a “corporação dos professores e sindicatos” (só quem não viu o estado do Mário Nogueira nas últimas intervenções é que pode ainda apresentá-lo como bicho-papão) a propósito da posterior necessidade de compensar estas duas semanas de “férias”. Que até podem ser mais.

Em que se vai sublinhar que os professores nem estão a trabalhar. Porque nem há “ensino à distância”, como se isso fosse culpa deles e não da falha grosseira da equipa do Ministério da Educação e do governo. E basta ler o que foi sendo escrito por mais um punhado de “opinadores” para se perceber que o fecho das escolas é o “símbolo maior do falhanço nacional”. E não a acumulação de cadáveres em contentores nos hospitais, porque já não existirem condições para os ter nas instalações. Um deles fica a pouco mais de 1 km da minha escola, talvez por isso eu dê mais atenção a esses “detalhes”. Mas há quem ache que a culpa das escolas encerrarem é das próprias, dos seus directores e professores (parece que era ontem a tese na TVI24de um dos comentadores, mas ainda não confirmei) por não terem preparado um novo período de E@D. Como se a culpa de não aparecerem omoletes fresquinhas pela manhã fosse do cozinheiro a quem não deram os ovos.

A estranha e permanente raiva mal disfarçada contra os professores irá voltar à superfície de modo mais claro em pouco tempo. Ui, que eles estão de férias e fizeram tudo para fechar as escolas e nem sequer dar apoio aos alunos, essa matilha se parasitas da sociedade. O ministro da Educação, pisca-piscando de nervoso, já começou a desresponsabilizar-se de tudo, afirmado que mandou comprar paletes de computadores. Os pontas de lança alinhados com a Situação lançaram as primeiras farpas, a ver se algumas pegam.

Por mim, já estou convencido que este ano não terá “férias” de Verão. Ou quaisquer outras que não forçadas. Se essa é uma necessidade de corrente destas paragens de aulas, não tenho qualquer problema em as compensar. E digo-o desde já, apenas garantindo que não estou disponível para outros “fretes”.

Não preciso que venha alguém espicaçar-me o “espírito cívico” ou equivalente. Ou fazer elogios hipócritas aos professores quando isso dá jeito. Só quero que guardem lá já as facas que andam a afiar.

Domingo

Após as descobertas incríveis feitas na passada semana sobre, por exemplo, o Inverno nas escolas em tempos de pandemia (ou não), pessoalmente gostaria que muita gente “descobrisse” como estão a funcionar as aulas de Expressões (em grande parte quase sem componente prática), as em especial as de Educação Física, porque nem todos temos as mesmas condições para trabalhar. E o caso de Educação Física é o que me parece mais evidente. O CNAPEF e a SPEF divulgaram os resultados de um inquérito sobre o modo como foi preparado este ano lectivo e têm dados muito interessantes, desde logo o modo como essa preparação foi feita com a colaboração dos colegas da disciplina.

O que não traz o inquérito? Por exemplo, em quantas escolas ou agrupamentos, para além das restrições decorrentes da pandemia, os alunos continuam a ter aulas a céu aberto no Inverno ou têm de sair da escola para as ter em pavilhão exterior ao perímetro escolar. Como sou um tipo cheio de azar, este século ainda não estive numa escola (seja em qzp ou quadro de escola) que tivesse pavilhão no seu perímetro. Ou pura e simplesmente não o havia (nem ainda há), ou os alunos tinham de ir a escola vizinha (agora em agrupamento, mas não nessa altura) ou a um pavilhão no exterior, a centenas de metros. É o caso dos meus alunos actuais de 5º ano que têm Educação Física nas mesmas condições que eu tive quando estava no 1º do Preparatório há 45 anos, no mesmo concelho, só que na altura o Pavilhão a que nós íamos era novo e o deles, agora, é capaz de ter essa idade e aguarda há anos e anos por uma intervenção da tutela.

(alonguei as contas e nos últimos 25 anos só estive em 1999-2000 numa escola com pavilhão no seu perímetro)

O que não traz o inquérito? Que há alunos do Ensino Básico e do Secundário de Letras (e que fique claro que a minha filha está em Ciências e adora Educação Física até debaixo de neve ou trovoada, por isso é que escrevi “de Letras” que, como eu, são todos considerados nerds ou sedentários incorrigíveis) que têm de ir às 8 da manhã para um campo de relvado sintético de um clube desportivo próximo da sua escola (se quiserem saber qual é, perguntem ao “João”, que deve saber da “parceria”) e que por estes dias está todo coberto de geada e inviabiliza qualquer actividade desportiva em segurança. Sim, o ar fresco da manhã “enrija” o físico e é belíssimo para a saúde, mas não me parece que seja menos grave do que o que se passa nas aulas regulares com o frio.

Há quem pareça descobrir agora que o ensino para o século XXI enfrenta problemas que alguns de nós – sempre do “contra”, sempre “negativos”, sempre a ver o copo “meio vazio” – procuram denunciar há muito tempo perante a condescendência de uns e a indiferença de muitos outros. Porque parte significativa da nossa rede escolar pública não tem pavilhões adequados (ou laboratórios para as Ciências ou oficinas para as disciplinas mais tecnológicas), mesmo se há escolas com “salas do futuro”, espaço para equitação e acesso a aulas de natação ou outras coisas assim, como se fossem colégios privados de topo. Parte significativa da nossa rede escolar é muito século XX e há aspectos que fazem lembrar efectivamente os tempos intermédios da industrialização oitocentista. Claro que nem tudo é assim, mas desde 2005 tudo se veio a agravar em termos de desigualdades.

A cosmética da avaliação para o sucesso pode encobrir algumas coisas em termos estatísticos, mas não consegue encobrir tudo. Há quem diga que eu “exagero” ou que só vejo o que me rodeia. Não é bem assim, porque posso dar exemplos de norte a sul e do litoral ao interior, sem me fixar no meu “habitat” natural. A essa gente “positiva” ou que insiste em que “para a frente é que é o caminho” e “não precisamos de quem só vê os problemas” eu diria que não gosto de avançar, cantando alegremente, para nenhum precipício (não estou a ser literal, ok?) e muito menos para “soluções”, apressadas, lacunares e demagógicas, que agravam cada vez mais a distância entre nichos locais “de excelência”, que dispõem de condições para isso e uma parcela muito importante do “resto” que começa a ficar cada vez mais para trás. Que até se pode “abonecar” para visitas de Estado, para ficar bem nas fotografias, que varre para baixo da alcatifa as misérias (de novo… não estou a ser completamente literal) por vergonha ou desejo de ficar bem, mas que, nos outros dias luta para conseguir mudar estores, isolar janelas, substituir fechaduras, instalar novos cabos de cada vez que alguém decide pontapear as calhas por onde passa a net.

Talvez para a semana tudo isto consiga mais do que reportagens algo anedóticas na comunicação social e consiga revelar à opinião pública o quanto tem andado enganada nas últimas décadas.