2ª Feira

Em tempos de campanha é muito instrutivo analisar os percursos e posicionamentos de diversas personagens no “campo” da Educação, em particular as ligadas a algumas das agremiações com maiores aspirações eleitorais. Mesmo sendo a área que mais desceu nas prioridades da governança e no próprio discurso da generalidade dos líderes políticos, apesar de toda a aflição com o funcionamento das escolas,há quem considere que esta pode ser a sua oportunidade numa qualquer configuração de uma nova geringonça, nova ou velha, à continental ou à açoriana. Há velhas candidaturas a algo e novas figuras em ascensão, mesmo que apenas nos seus quintais (olhó trocadilho!). Uma lareira de pequenas vaidades em inverno ameno. Às vezes, apetece-me colocar mais lenha, só para alimentar aqueles fogos que ardem e deixam apenas cinzas para ver.

4ª Feira

Aproveitei para reler o texto de António Nóvoa no JL/Educação de Dezembro, para ajudar a fazer uma espécie de purga em relação à sujidade quotidiana em que se transformou o quotidiano da gestão da Educação em Portugal fora das salas de aula. Sei que, por feitio e função, o seu discurso é muito mais suave do que o meu em relação a algumas matérias. O nosso contacto foi escasso e em nenhum momento vou (mesmo se lhe pedi para apresentar o livro que fiz sobre a manifestação de 08/03/08) além de encontrar afinidades sobre aquilo que é essencial na Educação e que muitos identificam como o “triângulo pedagógico” (alunos, professores, conhecimento), mas que não poucos desfazem ao menorizar dois dos pilares, relativizando o que se considera “Conhecimento” e apoucando o papel dos professores.

Por isso, transcrevo o que a esse respeito escreve Nóvoa, até pelo modo como sublinha a contextualização histórica da construção desse Conhecimento, o seu carácter evolutivo e não apenas a transmissão acrítica do que existe, em sincronia, de foram relativista em relação ao valor do que se considera serem “saberes” ou “filosofias”, muitas vezes meras crenças locais ou pessoais, por muito que tenham ajudado este ou aquele decisor nalgum momento da sua vida.

A partir do triângulo pedagógico – alunos, professores e conhecimento – a Comissão chama a atenção para a necessidade de pensar a Educação numa nova relação com o mundo e a Terra. Defende, por isso, a importância da literacia científica e de um ensino que ajude a compreender, o que implica integrar no ensino das disciplinas a forma como os conhecimentos se constituíram.

A passagem que destaquei pode ser formalmente subscrita por muitas criaturas que andam por aí em painéis, grupos de trabalho e formações, mas não isso não passa da enunciação. Na prática, nas políticas de desenvolvimento curricular, na opção por “aprendizagens essenciais”, no modelo de micro-registo dos desempenhos atomizados, as últimas duas décadas corresponderam a um esforço consistente e continuado pela fragmentação (e não pela unificação) do currículo e pela erosão dos conteúdos disciplinares, substituindo horas semanais de trabalho com os alunos em torno de conhecimentos construídos e acumulados pela Humanidades por horas que prezam o culto do imediato, do transitório e que desprezam activamente o processo como os conhecimentos científicos (num conceito alargado e não meramente reduzido às tecnologias ou permeável aos pós-modernismos que já deviam ter passado o prazo de validade) se formaram e se souberam renovar a partir dos seus próprios fundamentos de questionamento.

As Ciências Naturais, a História, a Filosofia, a Matemática, contêm em si e no seu método de trabalho o princípio do auto-questionamento, caso contrário não existiria um progresso com resultados demonstráveis e teríamos ficado pela roda quadrada e o isqueiro de sílex. Aliás, a opção pela redução do peso da Filosofia no currículo e a sua transformação num domínio quase exclusivo da Lógica, numa versão exacerbada ao ponto do mecanicismo formal, é um dos sinais mais evidentes do desprezo pela forma como o pensamento humano evoluiu e se redefiniu. assim como o corte em fatias semestrais de disciplinas como a História ou a Geografia, para dar lugar a coisas como “empreendedorismo”, “literacia financeira” ou “prevenção rodoviária” no currículo demonstra o quanto existe de confusão quanto ao que deve ser verdadeiramente o “essencial” e o que não passa de acessório e perfeitamente admissível num espaço extra-curricular.

Como a Maria do Carmo Vieira dizia de forma muito intensa numa formação, daquelas a sério, estamos cada vez mais entregues aos bárbaros. E, acrescento eu, cada vez mais empurrados para umas novas trevas, causadas por um excesso de luz artificial.

Ortorexia

Mesmo só para chatear, já que quase toda a gente ficou preocupada com a saúde mental da Simone Biles, mas não vai ao espelho. Até porque eu nem gosto especialmente de pizza e outro tipo de comidas rápidas, que eu sou mais slow food tradicional e muito raramente como na escola ou nos cafés em redor, preferindo um canto sossegado e com pouca agitação.

Quem sofre de ortorexia preocupa-se de tal modo com a alimentação que as outras dimensões da sua vida ficam em segundo plano. É caracterizada por um planeamento rigoroso das refeições, por vezes, até com dias de antecedência, adotando regras cada vez mais restritas, e pela exclusão de alguns alimentos tidos como “maus”, “contaminados” ou “impuros”, como gorduras, aditivos ou glúten, podendo chegar à abstinência.

(…) Inicialmente, pode parecer que o motivo da ortorexia é apenas a preocupação com a saúde, mas existem outras razões subjacentes, como uma compulsão para assumir o controlo e atingir a perfeição e a melhoria da autoestima.

(#OrtorexiaéDoença)

A Montra E O Miolo

Primeira página do Público:

A notícia (só tenho o destaque, pelas razões que há dias expliquei, pois não dei qualquer opinião).

Ministério da Educação revela resultados do inquéritos feito a professores. Entre os docentes consultados pelo PÚBLICO há uma nota que sobressai: as AE carecem de revisão urgente.

Nunca esperei que a “avaliação prometida pela tutela” fosse abaixo da xalência. Até porque as “consultas” são sempre muito “focalizadas”. E há uma enorme acção de propaganda para tentar influenciar a opinião pública. Se em si a propaganda já é algo que tende a distorcer a realidade para provocar a adesão de quem a consome, neste caso é de assinalável desonestidade intelectual.

As AE são um “programa mínimo” que nos deveria embaraçar a todos (não apenas aos más-línguas como eu) se é para as considerar um horizonte para as aprendizagens a realizar.

Hoje, No Público

Tudo se apresenta com a legitimação das consequências da pandemia, mas nada de novo está em causa. Só alguém muito distraído poderá acreditar que é por aqui que passa alguma reforma da Educação que vá além da tentativa de dar novo ímpeto a medidas que se viu serem incapazes de funcionar em tempos de emergência.

Ainda As Aprendizagens Alegadamente “Perdidas”

Alguém me consegue demonstrar que aquilo que o Iavé diagnosticou de forma tão canhestra não acontece já, normalmente, em virtude da atomização e abastardamento do currículo do Ensino Básico às mãos de uma clique de gente cujo pensamento parou nas sebentas pseudo-críticas dos anos 90 do século passado?

Tema a desenvolver, em diferentes “plataformas”. nos próximos dias. Porque acho que tudo isto me cheira a oportunismo e, as palavras são para serem usadas, fraude.

A Outra Narrativa

Não sou ingénuo ao ponto de achar que estas notícias surgem por acaso, que não aparecem porque também são convenientes para a nova atitude do actual PM e da maioria dos que o apoiam. Mas, pelo menos, parecem assentar mais em factos demonstráveis do que as considerações vagas e pouco baseadas na realidade de certos “istas” que por aí andam a assinar cartas ou a subscrevê-las de cruz, sem grande preocupação em saber se têm algum fundamento ou se não se limitam à expressão de uma certa dor d’alma, causada por incómodos muito particulares.

Afinal, o confinamento indesejado foi “eficaz” e, afinal, não temos estado mais tempo fechados do que os outros. Que o economista Coraria e a economista Peralta são fracos neste tipo de contas, eu já tinha notado, assim como tenho escassa esperança na lisura e substância da argumentação de Oliveiras, Raposos & Tavares.

Expresso, 5 de Março de 2021

Mais Uma Cavadela…

… mais uma minhoca apanhada na argumentação da economista Peralta que parece uma daquelas especialistas instantâneas em economia da pandemia, só que truncando ou adulterando a informação que depois outros papagueiam de forma acrítica. E não há nada mais divertido do que ver alguém a “armar-se”, a colocar-se em bicos de pés em cima de barro por cozer.

No seu texto de 26 de fevereiro (“Costa, Marcelo e a penitência da Quaresma”), Susana Peralta argumenta em favor da abertura das escolas, apoiando-se num editorial publicado na revista médica The BMJ. A economista não deve ter feito uma análise cuidadosa da publicação que escolheu, ou teria detetado que o trabalho não apresenta informação científica que negue às escolas impacto na propagação do vírus – explico porquê nos últimos parágrafos deste texto, para quem interessar.