Um Enorme Processo De Mistificação Em Curso

A falta de professores não resulta dos número de professores que estão em situação de mobilidade (por doença, por exemplo, ou por cedência a outros serviços públicos), por falta de gente diplomada ou certificada ou por causa do regime de recrutamento ou contratação. Essas são as desculpas atiradas para a opinião pública para dar a sensação que os motivos são, de certo modo, “endógenos” (há muitos professores a fazer outras coisas, há falta de gente para dar aulas ou as escolas deveriam contratar directamente os professores), de modo a esconder que continuam a existir milhares de pessoas com experiência na docência e certificação profissional para a exercer só não o fazendo por causa do que foi feito à profissão e respectiva carreira a partir de “fora”, através de uma investida continuada que aliou políticos a opinadores mediáticos no sentido de desqualificar, proletarizar e precarizar a docência.

Um professor contratado directamente por um director não fica mais estável ou ganha mais por causa disso. Pelo contrário, fica muito mais dependente e vulnerável do que se for colocado por um concurso nacional sem “entrevistas”. Muita gente (que continua a concorrer externamente) abandonou o exercício regular da docência porque ela se proletarizou, com as remunerações dos professores contratados a ficarem cada vez mais próximas do salário mínimo e as dos professores com uma carreira longa a terem sofrido um enorme apagão que o actual ministro apresenta como responsabilidade da troika, quando os congelamentos foram decretados e mantidos pelo seu partido.

E essa mentira, que repete de entrevista em entrevista, qual deputado porfírio, revela muito da natureza e carácter de quem tem a responsabilidade de resolver um problema sobre o qual teve muitos anos de silêncio, seja quando andava a tratar da sua vidinha, seja quando já estava no governo.

Eis o que disse ao Expresso, usando aquela parlapatice do não ser possível “refazer uma história” (afinal, quando se indemniza alguém a quem se causou danos, não é isso mesmo que acontece?)

Mais recentemente, na entrevista à Renascença, insistiu em atribuir quase todas as responsabilidades pela escassez de professores (e não só) ao período da troika, mas há factos (sim, ainda interessam a quem não tem uma abordagem “holística” das causas e efeitos, do que aconteceu antes, durante e depois) que o contradizem. Eu volto a colocar aqui os períodos de congelamento da carreira, para que se perceba que eles antecederam a vinda da troika e perduraram depois da sua saída em 2014.

O ministro Costa parece o exemplo acabado daqueles alunos que ele diz que apenas “empinam” a matéria e a esquecem a seguir. Ou pior, que nem sequer chegam a aprender seja o que for. Ou o pior de tudo… que até aprendem, mas depois dizem que não sabem e que o professor é que não lhes ensinou.

A troika fez muitas malfeitorias, que eu me lembro de denunciar já lá vão quase 10 anos (nessa altura, o que piava o actual ministro sobre esse assunto?), mas não é responsável por tudo. E há quem tenha arriscado e tenha falado em devido tempo contra as manigâncias troika quando o shôr ministro voava baixinho, caladinho lá pelos corredores da fcsh e do largo do rato. Assim como contra o engenheiro e a agora reitora. Que o ministro Costa esteja desmemoriado de tanto ubuntu na moleirinha até se percebe… o chato é se não passar de pura desonestidade política. Afinal, é ele que gosta de “refazer a História” a gosto. Mas terá de aguentar com quem não vai na conversa e lhe apontará sempre as derivas para os “factos alternativos”. Em suma, quando mentir.

Ainda (E De Novo) A Semestralidade

Neste caso, da divisão do ano lectivo em semestres, que ao fatiamento de algumas disciplinas se voltará em termos mais incisivos.

Fiquemo-nos agora, que se começa a estar nos preparativos do lançamento do próximo ano lectivo, pela nova investida, a partir das lideranças doutrinadas pelo secretário agora ministro e seus arautos locais, no sentido de alegadamente dividir o ano em semestres porque dizem que assim é melhor. Sem que se perceba porquê, pois as auto-avaliações do ME em relação a medidas que lança (e formalizadas em “encontros” de amigos com muita palmadinha nas costas e auto-congratulamento colectivo) raramente ficam abaixo do Excelente+, Ferrari Testarossa, top of the tops, com chancela especializada da ocdêé ou isczé, que as coisas da católica eram mais no tempo da troika.

Há algo que gostava que me explicassem devagar, a mim que sou de Letras enciclopédicas e tenha escassa capacidade de reflexão aprofundada em Hermenêutica da Treta.

Porque já ouvi e li que os semestres são melhores, porque reduzem a burocracia a dois momentos de avaliação em vez de três, mas depois também ouço e leio (mais ao nível das bases) que na prática existem intercalares com avaliação praticamente tão formal como a outra (com abundante preenchimento de registos e feedback e reuniões e o escafandro mal fechado), pelo que se fica com quatro momentos de avaliação e não dois ou os anteriores três

Mas também já li que esta forma de organizar o ano é mais “racional” (?) atendendo à disparidade da extensão dos três períodos tradicionais, pois o primeiro é quase sempre muito longo e cansativo. Mas, nesse caso, a transformação de um trimestre em semestre (mesmo que de 4 meses ou 4,5 meses) melhora as coisas como? E como é mais “racional” ficar com semestres com pausas pelo meio, raramente a meio do dito cujo, pois o Natal e o Ano Novo raramente mudam de data e a Páscoa, apesar de mais valdevina, também calha quase sempre mais para cá do que para lá, se o segundo semestres se iniciar com o fevereiro lançado? E se os alunos acabam esgotados e fartos a meio de Junho (ou antes), como é se ficarem sem a pausa pascal que já foi normal?

A nível local, o debate em torno destas questões raramente levanta voo, pois fica-se pelo “tem de ser” ou pelo “é melhor assim”, sem qualquer explicação razoável, preferindo acusar-se os cépticos de imobilismo, conservadorismo e outros ismos assim. Mas antes isso do que acrítico e salivante seguidismo.

O Grande Líder Apresenta-se – 4

Claro que não podia faltar a questão das remunerações, com a consequente reescrita da História sobre o congelamento da carreira, cujos “pormenores” provavelmente só conhecerá quem se preocupa com conhecimentos “enciclopédicos”. Antes de mais, há que perceber que para o actual ministro os professores nem ganham mal e, porventura, até ganharão muito para a incompetência que revelam em compreender os “problemas sociais” e em lidar com os alunos que não são “bons”. Gosto, em especial, quando afirma que quem entra agora “tem uma carreira pela frente”. Resta saber se a não lixarão, como fizeram aos que ficaram com anos de vida profissional perdida e, no limite, ficando encravados 2-3 anos no 4º e 6º escalão, cortesia de um modelo aplicado por gente cega, poderão mesmo vir a ser ultrapassados no futuro por quem entrou 10 anos mais tarde.

E que o actual ministro não venha com a cartilha do não ser possível “refazer a História” porque é mentira que tenha sido (apenas) a troika a ser responsável pelo tempo roubados aos professores dos quadros. Será possível deixar de mentir sobre quem decretou os “congelamentos” e quem governou mais tempo com a carreira docente congelada?

Vamos lá, senhor ministro, no blogue do meu colega Arlindo Ferreira (não sei se será um dos “blogues incendiários” na designação de um dos seus mais fiéis seguidores aqui no concelho onde já ambos morámos) há uma tabela simples que permite perceber quando começaram os congelamentos e quanto tempo duraram. Como verá, a troika foi apenas a fase intermédia do período do – há que assumi-lo com frontalidade – gamanço de tempo. Claro que ainda houve os cortes de salários, sobretaxas e tudo o mais, mas não vamos “refazer a História” a gosto, assim à moda estalinista. Afinal, até acredito que tenha nas estantes uma ou duas Histórias de Portugal, a começar pela do professor Mattoso (filho). Ficam-lhe mal estas imprecisões, deixe-as para o operacional porfírio.

Ora bem… a troika estava por cá em Agosto de 2005? Em 2006? Em 2007? Em Janeiro de 2011? Em 2016? Em 2017? “É fazer as contas” como diria um certo PM socialista que fugiu do “pântano”.

O Grande Líder Apresenta-se – 3

Há formas de pensamento que, de tão enraízadas, dificilmente deixam de vir à superfície, dando-se-lhe o tempo e a oportunidade. Os preconceitos acerca do que são “os professores” (leia-se professores do básico e secundário) estão incrustadas em muita gente, em especial em algumas que até pensam conhecer o meio, por terem amigos ou parentes professores (não-superiores) que, por se acharem uma elite, ajudam a perpetuar os mitos sobre os outros.

Esse tipo de preconceitos é muito comum, infelizmente, nos governantes na área da Educação, em especial desde que acharam que os alunos são o centro único da Educação e que é um sinal de força e independência “malharem” na profissionalidade docente. Nos últimos vinte anos temos assistido a um pouco de tudo, desde logo as acusações, com números “cozinhados”, sobre a falta de assiduidade, não esquecendo os remoques sobre o não quererem sair da zona de conforto ou, mais grave, estarem-se nas tintas para o sucesso dos seus alunos.

Nos últimos tempos, houve um evidente sublinhar das críticas à “qualidade” dos docentes (ver entrevista recente de Nuno Crato, na qual afirmou que iria demorar muito tempo a recuperar a qualidade dos docentes) e da sua formação (acusação especialmente curiosa quando surge de gente que fez carreira de décadas na formação de professores). Agora, surge o actual ministro a dizer que os professores foram formados apenas para dar aulas a “bons alunos” e que não estão preparados para lidar com algumas “mudanças sociais” que ocorreram nos últimos tempos. Ainda há pouco tempo tinham sido excepcionais no período não-presencial.

Talvez isto (só saberem dar aulas a “bons alunos”) seja verdade para certas brigadas de cortesã(o)s do regime, que formam aquela elite de almoços e jantares após as visitas governamentais, ou para grupos de amigos professores que se encaram a si mesmo como excepções, mas lamento dizer que, talvez por não ter uma linhagem académica distinta ou pergaminhos na área, a maioria dos professores que conheço não vive numa bolha ou casulo que os separa da sociedade envolvente. Pelo contrário, a minha geração atravessou um período que o actual ministro (uns bons anos mais novo) felizmente não terá conhecido, tendo chegado à adolescência e idade adulta já no “período europeu” e não no das primeiras vindas do FMI a Portugal. É verdade que tenho a minha origem social num ambiente muito próximo daquele que é o de muitos alunos meus. Tivesse o actual ministro nascido uns anos mais cedo e teria conhecido em primeira mão, como aluno ou mesmo já como professor, a “diversidade” de experiências que marcou o crescimento pessoal e profissional de muitos professores não instalados nos “liceus históricos” dos maiores centros urbanos.

Há afirmações que revelam mais sobre a falta de experiência de quem as produz do que daqueles a quem se dirige.

Quem está “formatado” para ser professor apenas de “bons alunos” é quem aguarda pelos melhores nas Universidades e mesmo assim se queixa da falta de qualidade do ensino no Secundário. Quanto à “frustração” dos professores em relação a uma alegada nova “diversidade”, acredito que exista, mas muito mais em relação aos disparates que o aparato de controlo administrativo ministerial impõe ao quotidiano docente.

A pobreza e a exclusão social são maiores agora do que eram há 30 anos? Em algumas zonas, até pode acontecer, por manifesta inépcia dos sucessivos governos que sempre desviaram o dinheiro europeu para as escápulas mais “rentáveis”. Mas dizer que os professores estão “frustrados” com “uma série de problemas sociais” é ignorar que os professores são uma das classes profissionais que lida com os efeitos dessas mudanças em primeira mão, todos os dias. A analogia com os médicos que seriam formados apenas para ver pessoas saudáveis é, para ser comedido, imbecil. Sei que há amigos do actual ministro, directores de teips e escolas-modelo que partilham desta visão redutora e amesquinhante de muitos colegas. Aqui pela minha zona – onde, como disse, até há directores amigos do poder que está, que quando são visitados varrem certos problemas para debaixo da alcatifa – poderíamos fazer-lhe uma demonstração do que é trabalhar com situações de extrema pobreza, desagregação parental, violência doméstica, pequena criminalidade (por enquanto), proto-gangues e muito mais.

Mas é verdade que somos “arcaicos”, velhotes com formação desajustada, sempre carentes de serem sensibilizados para os “problemas sociais” pelas estagiárias que dão as formações aprovadas lá pelo centro de controlo ideológico instalado no ccpfc e suas ramificações ou pelos tais amigos directores (ou aspirantes) que cultivam o cliché e a conversa fofa como manto para disfarçar um enorme vácuo intelectual e o facto de terem fugido das salas de aula logo que puderam. E acredite, senhor ministro, já tive de me confrontar com alguns e a sua imensa falta de rigor e qualidade, encoberta por imensos “documentos orientadores”, “projectos” e “grelhas” que de nada servem para os alunos superarem as situações dramáticas em que tantos infelizmente vivem.

O Grande Líder Apresenta-se – 2

“É pá, deixa de embirrar com o homem, que isso parece perseguição pessoal!”

Nada disso. Apenas acho que quem vai para cargos com a responsabilidade de gerir os destinos de mais de um milhão de pessoas (entre alunos, docentes e pessoal não docente) deve ser escrutinado de forma rigorosa, em especial quando já leva anos disto e não pode dizer que chegou de novo e precisa de um período de “graça”, que até se poderia compreender em relação a antecessor@s, mesmo @s de pior memória.

Para além disso, o agora ministro João Costa vai exercer o seu mandato em condições especialmente favoráveis – uma maioria absoluta monocromática, com um horizonte temporal de quase 5 anos – que neste século só aconteceram com Maria de Lurdes Rodrigues. E bem sabemos no que isso se transformou. Portanto, é importante que desde o primeiro momento separemos o trigo do joio de aparições mediáticas, programadas para produzir um efeito na opinião pública através de um jogo quase hábil de verdades, meias verdades e algumas pós-verdades muito evidentes.

Aliás, João Costa começa a entrevista praticamente por admitir que estava, mas ao mesmo tempo que não estava, na equipa anterior do ME. Ou melhor, ele estava, mas parece que os outros não faziam bem o trabalho que deveriam fazer. Ora vejamos:

Esta declaração é típica da mistura entre verdades e mistificações. Ora bem… “esta equipa chegou e começou a tomar medidas” (mas esta equipa é apenas ele, que transita das duas anteriores, e mais um secretário), “como permitir completar horários” (fingindo que isso não tinha sido dificultado de forma bem agressiva pela sua antiga colega de equipa Alexandra Leitão), acrescentando de forma sibilina que “tivemos de fazer um recenseamento do problema”. O que significa que anteriormente esse recenseamento não teria sido feito. A ser verdadeira esta declaração, ela significaria que o actual ministro pertenceu a equipas que descuraram o problema. O que até é verdade. Mas não é toda a verdade. Aliás, a declaração é uma “pós-verdade”. Porque o recenseamento já existia.

Entre os finais de 2017 e o início de 2018 foi publicado esse recenseamento por Isabel Flores, “doutoranda em Políticas Públicas no ISCTE e na Universidade Aberta”, que produziu o texto “Professores: Uma Profissão sem Renovação à Vista”, que não foi publicado numa obscura revista digital só do conhecimento de um grupo de nerds, mas sim no relatório anual do Estado da Educação do Conselho Nacional de Educação.

É verdade que esse estudo continha algumas conclusões inconsistentes com algumas das próprias premissas, mas a verdade é que se afirmava claramente que

Nos próximos 10 a 15 anos, a população docente vai reformar-se em massa. Dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), relativos a 2016, mostram que o envelhecimento dos docentes do 3.º Ciclo e Secundário é acentuado – metade dos professores de Português têm mais de 50 anos e os professores com menos de 30 anos são absolutamente residuais no sistema. Trinta e cinco por cento dos professores de Matemática, Física/Química e Biologia/Geologia têm mais de 50 anos – esta percentagem é mais baixa em Educação Física, com 20% com mais de 50 anos.

Estado da Educação 2016, p. 350 (Lisboa, 2017)

E acrescentava-se:

“A atual estrutura etária dos professores poderá conduzir à rápida carência de professores nos diversos grupos de recrutamento nos próximos anos. Os grupos mais afetados serão os dos professores de Português e de Matemática”, revela a doutoranda. Se não forem feitas novas contratações, o número de professores de Português diminuirá de cerca de 9500 em 2015 para pouco mais de 5 000 em 2030 e para pouco mais de 3000 em 2035. As restantes disciplinas também sofrerão reduções, mas numa proporção menos acentuada. Por isso, na sua perspetiva, é fundamental traçar uma previsão a 15 anos de forma a adequar a oferta à procura no sistema de ensino.

É falso, portanto, que fosse necessário fazer um recenseamento, que já fora feito antes. E os anos continuam a ter 365, fora os chatos dos bissextos. Tudo era fácil de prever. Não havia necessidade de fazer o já feito, para descobrir o já descoberto. Só que… por alguma razão houve interesse em nada fazer.

Aliás, o estudo de 2022 da Nova SBE foi feito com dados da mesma DGEEC. Assim como é curioso que a autora de um outro recente estudo prospectivo sobre a escassez de professores para a Pordata, tenha sido directora-geral da mesma DGEEC durante oito anos (2011-2019, incluindo os primeiro quatro anos de João Costa no governo), sem que lhe tenha lido uma linha a este respeito.

Pode haver quem ache que isto são pormenores, que isto agora não interessa nada, mas a mim interessa sempre avaliar da credibilidade de um decisor político que, mal abre a boca, diz uma falsidade facilmente verificável e desmontável. Pena é que pareça que nunca ocorre a ninguém confrontá-lo com isso, de forma pública, para ver como ele se desenrola dos “factos alternativos” de que usa e abusa nas suas intervenções. Porque não basta armar um ar de seriedade. Convém não aldrabar logo à primeira oportunidade quem o ouça/leia.

Porque devo confiar na bondade de intenções de alguém que adultera de forma tão descarada os factos?

O problema existia, era conhecido, tudo era previsível, mas nada foi feito. Porquê? Tenho umas ideias acerca disso, mas julgo que a partir de algumas “soluções” se perceberá o interesse que houve em deixar a situação supurar.

2ª Feira

Em tempos de campanha é muito instrutivo analisar os percursos e posicionamentos de diversas personagens no “campo” da Educação, em particular as ligadas a algumas das agremiações com maiores aspirações eleitorais. Mesmo sendo a área que mais desceu nas prioridades da governança e no próprio discurso da generalidade dos líderes políticos, apesar de toda a aflição com o funcionamento das escolas,há quem considere que esta pode ser a sua oportunidade numa qualquer configuração de uma nova geringonça, nova ou velha, à continental ou à açoriana. Há velhas candidaturas a algo e novas figuras em ascensão, mesmo que apenas nos seus quintais (olhó trocadilho!). Uma lareira de pequenas vaidades em inverno ameno. Às vezes, apetece-me colocar mais lenha, só para alimentar aqueles fogos que ardem e deixam apenas cinzas para ver.

4ª Feira

Aproveitei para reler o texto de António Nóvoa no JL/Educação de Dezembro, para ajudar a fazer uma espécie de purga em relação à sujidade quotidiana em que se transformou o quotidiano da gestão da Educação em Portugal fora das salas de aula. Sei que, por feitio e função, o seu discurso é muito mais suave do que o meu em relação a algumas matérias. O nosso contacto foi escasso e em nenhum momento vou (mesmo se lhe pedi para apresentar o livro que fiz sobre a manifestação de 08/03/08) além de encontrar afinidades sobre aquilo que é essencial na Educação e que muitos identificam como o “triângulo pedagógico” (alunos, professores, conhecimento), mas que não poucos desfazem ao menorizar dois dos pilares, relativizando o que se considera “Conhecimento” e apoucando o papel dos professores.

Por isso, transcrevo o que a esse respeito escreve Nóvoa, até pelo modo como sublinha a contextualização histórica da construção desse Conhecimento, o seu carácter evolutivo e não apenas a transmissão acrítica do que existe, em sincronia, de foram relativista em relação ao valor do que se considera serem “saberes” ou “filosofias”, muitas vezes meras crenças locais ou pessoais, por muito que tenham ajudado este ou aquele decisor nalgum momento da sua vida.

A partir do triângulo pedagógico – alunos, professores e conhecimento – a Comissão chama a atenção para a necessidade de pensar a Educação numa nova relação com o mundo e a Terra. Defende, por isso, a importância da literacia científica e de um ensino que ajude a compreender, o que implica integrar no ensino das disciplinas a forma como os conhecimentos se constituíram.

A passagem que destaquei pode ser formalmente subscrita por muitas criaturas que andam por aí em painéis, grupos de trabalho e formações, mas não isso não passa da enunciação. Na prática, nas políticas de desenvolvimento curricular, na opção por “aprendizagens essenciais”, no modelo de micro-registo dos desempenhos atomizados, as últimas duas décadas corresponderam a um esforço consistente e continuado pela fragmentação (e não pela unificação) do currículo e pela erosão dos conteúdos disciplinares, substituindo horas semanais de trabalho com os alunos em torno de conhecimentos construídos e acumulados pela Humanidades por horas que prezam o culto do imediato, do transitório e que desprezam activamente o processo como os conhecimentos científicos (num conceito alargado e não meramente reduzido às tecnologias ou permeável aos pós-modernismos que já deviam ter passado o prazo de validade) se formaram e se souberam renovar a partir dos seus próprios fundamentos de questionamento.

As Ciências Naturais, a História, a Filosofia, a Matemática, contêm em si e no seu método de trabalho o princípio do auto-questionamento, caso contrário não existiria um progresso com resultados demonstráveis e teríamos ficado pela roda quadrada e o isqueiro de sílex. Aliás, a opção pela redução do peso da Filosofia no currículo e a sua transformação num domínio quase exclusivo da Lógica, numa versão exacerbada ao ponto do mecanicismo formal, é um dos sinais mais evidentes do desprezo pela forma como o pensamento humano evoluiu e se redefiniu. assim como o corte em fatias semestrais de disciplinas como a História ou a Geografia, para dar lugar a coisas como “empreendedorismo”, “literacia financeira” ou “prevenção rodoviária” no currículo demonstra o quanto existe de confusão quanto ao que deve ser verdadeiramente o “essencial” e o que não passa de acessório e perfeitamente admissível num espaço extra-curricular.

Como a Maria do Carmo Vieira dizia de forma muito intensa numa formação, daquelas a sério, estamos cada vez mais entregues aos bárbaros. E, acrescento eu, cada vez mais empurrados para umas novas trevas, causadas por um excesso de luz artificial.

Ortorexia

Mesmo só para chatear, já que quase toda a gente ficou preocupada com a saúde mental da Simone Biles, mas não vai ao espelho. Até porque eu nem gosto especialmente de pizza e outro tipo de comidas rápidas, que eu sou mais slow food tradicional e muito raramente como na escola ou nos cafés em redor, preferindo um canto sossegado e com pouca agitação.

Quem sofre de ortorexia preocupa-se de tal modo com a alimentação que as outras dimensões da sua vida ficam em segundo plano. É caracterizada por um planeamento rigoroso das refeições, por vezes, até com dias de antecedência, adotando regras cada vez mais restritas, e pela exclusão de alguns alimentos tidos como “maus”, “contaminados” ou “impuros”, como gorduras, aditivos ou glúten, podendo chegar à abstinência.

(…) Inicialmente, pode parecer que o motivo da ortorexia é apenas a preocupação com a saúde, mas existem outras razões subjacentes, como uma compulsão para assumir o controlo e atingir a perfeição e a melhoria da autoestima.

(#OrtorexiaéDoença)

A Montra E O Miolo

Primeira página do Público:

A notícia (só tenho o destaque, pelas razões que há dias expliquei, pois não dei qualquer opinião).

Ministério da Educação revela resultados do inquéritos feito a professores. Entre os docentes consultados pelo PÚBLICO há uma nota que sobressai: as AE carecem de revisão urgente.

Nunca esperei que a “avaliação prometida pela tutela” fosse abaixo da xalência. Até porque as “consultas” são sempre muito “focalizadas”. E há uma enorme acção de propaganda para tentar influenciar a opinião pública. Se em si a propaganda já é algo que tende a distorcer a realidade para provocar a adesão de quem a consome, neste caso é de assinalável desonestidade intelectual.

As AE são um “programa mínimo” que nos deveria embaraçar a todos (não apenas aos más-línguas como eu) se é para as considerar um horizonte para as aprendizagens a realizar.