Quando Não Há Nada De Concreto Para Apresentar, Anuncia-se O Já Anunciado (Com Muitos Pilares E Coisas Assim Como Catalisadores)

São 3 pilares, 6 catalisadores, 57 iniciativas, 12 medidas emblemáticas. André de Aragão Azevedo detalhou em entrevista ao SAPO TEK as principais áreas de investimento e fez o ponto de situação do que já está a avançar.

Os últimos dias têm sido muito férteis em (re)anúncios:

As 12 medidas prioritárias do Plano de Ação para a Transição Digital

E depois o “discurso” é sempre tão entusiasmado, tão techno on steroids, que até impressiona. E nem poderia faltar a “abordagem holística” no universo digital.

Formar mais de 3 mil profissionais em TIC, garantir literacia digital a mais de 1 milhão de infoexcluídos e promover uma Escola digital são algumas das iniciativas do Plano que estão viradas para as pessoas. André de Aragão Azevedo explica o que está a ser feito e diz que não tem receio do “efeito” do programa Magalhães, que elogia.

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“Na capacitação e digitalização das pessoas fizemos uma abordagem por ciclo de vida. Temos a Escola Digital e a população ativa, onde o que estamos a fazer é verdadeiramente disruptivo, e a infoinclusão dos séniores”, afirmou numa entrevista à margem do Portugal Digital Summit.

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1.200 mil alunos e professores abrangidos pelo programa Escola digital

Na Escola Digital, André de Aragão Azevedo salienta que o programa foi desenhado para ter de abordagem holística na transformação do posto de trabalho, para alunos e professores. “Não queremos a visão tradicional das aulas TIC, queríamos democratizar o acesso à digitalização em contexto escolar e isso implica tirar partido de um conjunto de ferramentas que tinham de estar, na prática, disponibilizadas para o conjunto da comunidade, até porque um dos desafios que a pandemia pôs a nu foi o tema da vulnerabilidade económica e social de algumas franjas da população que quando se viram confrontadas com a necessidade de terem aulas à distância não tinham os meios para isso acontecer de forma natural e eficaz”, afirma.

Efeito E Causa

Ouvi parte da conferência de imprensa do actual PM, o que está longe de ser um hábito meu porque raramente fico impávido perante o atropelo formal da concordância nas frases mais elementares, mesmo se suporto as manigâncias do conteúdo.

Mas desta vez apetece-me embirar com a forma como alguém que todos afirmam ser dotado de uma inteligência superior, não apenas no plano político, parece não compreender a relação entre causa e efeito. Ou então acha que somos nós que não compreendemos.

Afirmou António Costa, com voz quase segura que na 1ª vaga, com menos casos de contágio e menos mortes se tomaram medidas mais duras, pelo que agora na 2ª vaga não compreende como, com mais casos e mortes, se acha que as medidas estão a ser muito duras.

Ora vamos lá tentar recapitular as coisas pela ordem certa.

Na 1ª vaga, perante o desconhecimento de alguns aspectos da pandemia, mas perante os avisos de um potencial crescimento exponencial, tomaram-se medidas duras, sim, bastante cedo. E, sim, os casos ficaram a um nível relativamente baixo ao ponto de ser falar em qualidades miraculosas da prudência nacional.

Depois… parece que, pelo menos entre alguma classe político-mediática, se acreditou que no Verão o vírus hiberna (sim, eu percebo o oxímoro) e que tudo poderia voltar ao “normal” que a 2ª vaga viria longe e daria muito tempo para fazer o que não apeteceu (ou existiu coragem para) fazer. Foi a fase da cigarra.

Chegou a 2ª vaga e as medidas tomadas começaram por ser tíbias, parecendo acreditar-se que tudo iria “acabar bem”, quando ainda estava a começar. E os contágios e as mortes começaram a acumular-se. E surgem então as tais medidas que se afirmam “duras”.

Ora bem… é impressão minha ou a sucessão entre causa e efeito é clara nas duas vagas, mas inversa à “lógica” do discurso do actual PM?

Os casos foram relativamente baixos na 1ª vaga porque se agiu depressa e com alguma firmeza. Depois veio a conversa da “economia não pode parar” e “ai meu deus que não aguento mais os putos em casa”. Começou a 2ª vaga e as medidas a sério (seja nos lares, seja em certos “eventos”) tardaram, pelo que os casos aumentaram.

As trancas na porta ainda podem impedir o pior, mas percebe-se que há receio disto e daquilo, das reservas economicistas às libertárias, passando pelas de pura e simples falta de clareza e o tal medo do “cansaço”.

Cansado ando eu de tanta conversa da treta. É que nem fazem, nem saem de cima. E, pelo meio, nem o pai, nem a mãe almoçam, mesmo com as crianças na escola.

Idiotice Em Estado Academicamente Puro

Uma ex-governante da Educação apareceu há uns dias a tentar explicar (?) que o aumento nas entradas no Ensino Superior se ficou a dever ao aumento do sucesso no Secundário e que antes não entrariam mais, insinua ela, porque o insucesso pré-pandémico era maior.

Ora bem.

A prosa tem um par de factos correctos (aumentou o sucesso e aumentou o número de entradas), mas estabelece entre eles uma relação causal falsa, porque ignora outras variáveis envolvidas, nomeadamente o número de vagas disponíveis.

Eu exemplifico: se numa dada carreira os autocarros tiverem um máximo de 60 lugares que vão todos ocupados e baixarem o preço dos bilhetes, não é por isso que passam a ir 70 passageiros lá dentro. Passam a ir 70, se os autocarros aumentarem de tamanho (ou estreitarem o espaço entre os lugares ou deixarem as pessoas ir de pé). Se, adicionalmente, os preços baixarem, tanto melhor, mas não é por isso que o número de passageiros aumenta.

Portanto… sem mais vagas nas Universidades, não teriam entrado mais alunos, mesmo se marginalmente entraram mais para aqueles cursos que costumam ficar quase vazios, porque mais gente chegou ao 9,5.

(quando nos livraremos desta assombração?)

Eu Sei Que Deveria Fazer Uns Textitos Mais “Positivos”…

… mas fico sem pachorra quando leio colegas a escrever coisas do tipo “ai, se nem com a pandemia a escola muda, o que podemos fazer?” Eu até poderia concordar, se estivessem a falar da forma de gerir as escolas, do modo como os poderes se encapsularam, mas não… são queixas quanto ao “modelo de sala de aula” e aquelas coisas muito típicas de quem parou nas sebentas das “pedagógicas” dos anos 90 do outro século.

Que Raios Quer Isto Dizer?

Tiago Brandão Rodrigues: “Se olharmos para o sistema de ensino como se fosse uma região, o número de casos positivos nas escolas é o mais baixo do País”

E se considerássemos os Tribunais como uma região? Ou a rede de farmácias? Ou as esquadras de polícia? Ou o conjunto dos supermercados do falecido engenheiro Belmiro? Como seria a coisa?

Se há coisa que os “cientistas” sabem é que as analogias têm uma analogia muito limitada e que o seu valor explicativo depende bastante da incorporação da variável “disparate”.

Até porque, se olhássemos para o Ministério da Educação como se fosse um programa cómico, o shôr ministro era capaz de ser um dos protagonistas de uma nova edição d’Os Malucos do Riso ou um secundário mirone num reboot do Maré Alta.

A Teoria Das “Bolhas”

Está em voga e não só por cá. A directora-geral da Saúde voltou a ela para explicar ao povo que deve socializar menos, mesmo em família, quando se juntam pessoas de agregados/núcleos/”bolhas” diferentes. Pois podem trazer contágios de uma bolha para outra.

O que seria engraçado, se não fosse trágico, é que parecem desentender que cada turma/bolha numa escola corresponde ao contacto entre 30 bolhas familiares (de alunos e professores diferentes), renovado todos os dias. É mesmo muita pena que aquelas conferências de imprensa pareçam as conversas em família do antigamente.

Todos Os Anos É O Mesmo

Aparece sempre um destaque oportuno do estudo anual da OCDE a dizer que os professores portugueses isto e aquilo, são uns privilegiados que ganham que se fartam e tem montes de regalias. É mais do que evidente que um professor ganha mesmo mais do que outros profissionais com qualificações idênticas… até porque os professores, na sua larga maioria, tiveram de fazer formações pós-licenciatura. Estou mesmo a ver um médico com 30 anos ou mais anos de carreira a levar 1500 euros limpos para casa. Ou um advogado. Ou um engenheiro. Ou um economista, mesmo no mais falido dos bancos.

Mas mesmo que assim fosse, garanto que o mereceria e só tenho pena que estes estudos do Education at a Glance deixem muito a desejar em algumas comparações que fazem sempre com base numa tabela salarial e estrutura de carreira que são uma ficção. Adoro quando eles fazem aquela de colocar um professor com 15 anos de serviço a ganhar pelo 4º escalão, quando quase todos estão no 2º. Mas é o que fazem passar para a opinião pública.

E depois há coisas incompreensíveis, quando a tabela salarial é única para todos os níveis do Ensino Não-Superior. O que quer isto dizer?

Quanto aos salários auferidos, os professores portugueses dos primeiros anos de ensino ficam a ganhar ligeiramente na comparação, mas recebem menos do que a média na OCDE nos níveis de escolaridade mais avançados.