Para Os Liberais, Parece Que Sem Pandemia Estaria Tudo Bem Na Educação

O problema são os confinamentos e as férias. Note-se que nesta agremiação política não é raro haver queixas contra o excessivo tempo da petizada em aulas, mas parece que desde que fiquem na escola, com ou sem contágios, não interessa. neste caso, penso que em convergência com as prioridades do SE Costa.

“O problema da educação em Portugal está, por via de decisões política, relativas a confinamentos, horários e férias, a transformar-se numa autêntica tragédia, relativamente à qual, se não tivermos atenção, vamos demorar décadas a recuperar”, disse João Cotrim de Figueiredo, em Lisboa.

Em Bicos De Pés

É curioso quando um secretário de Estado acha que, mais ou menos de saída, deve responder ao líder da oposição, colocando-se assim no plano curioso de se armar em ministro ou ainda mais do que isso. Foi o que fez João Costa em defesa das políticas educativas que são como as meninas dos seus olhos. Já aqui bati o suficiente em Rio, mas sem usar terminologia demagógica, como falar em “exames”, “expulsar alunos” ou “explicações” (deve ter emperrado no “ex”) por tudo e nada para apoucar as opiniões adversas. Sinceramente, seria mais interessante que viesse explicar a lógica do despacho de 6ª feira em que, no final do 1º período, dá carta branca para as escolas amigas retorcerem o currículo de forma a conseguirem esconder a falta de professores, falando em “inovação” e “disciplinas agregadoras”, quando se trata de puro truque e mistificação. Até porque já há uns bons dias quem com ele terá discutido estas coisas (ou disso teve conhecimento prévio) as referiu publicamente como formas de combater a escassez de professores em alguns grupos disciplinares e nunca em termos de “inovação” curricular. Se a Rio falta quase tudo em matéria de conhecimentos sobre Educação, há quem use os seus conhecimentos para enganar a opinião pública. Como o deputado Silva, que também achou por bem colocar-se em pontas nas páginas virtuais do Observador, veja-se lá onde, usando exactamente o mesmo tipo de vocabulário (“exames”, “explicações”), típico de uma cartilha. Ingratidão evidente quando se chama hipócrita a quem consigo votou medida atrás de medida contra as justas reivindicações dos professores.

E Os Que (Ainda) Cá Estão?

Sobre política educativa, muito mais haveria a escrever acerca do que disse Rui Rio, mas não vou estar com aquelas tretas do politicamente correcto do costume, só para evitar ser considerado “corporativo”. Até porque ele se dirigiu directamente aos professores e há que lhe tentar explicar que a combinação entre promessas vagas e a manutenção do que mais desagrada aos professores de carreira não pode passar em claro. Na ausência do texto completo do discurso de hoje (nem no site do PSD está), vou valer-me do que em alguma comunicação social surge como citação directa, pois não tive paciência para ver e ouvir tudo.

Comecemos pelas promessas aos professores vindouros, a partir de duas notícias:

Não é compreensível que a uma profissão tão decisiva para a formação das novas gerações, ou seja, para o futuro do país, não sejam conferidas a dignidade e as condições de trabalho que merece. Um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores“, defendeu, sustentando ser necessário tornar “a profissão mais atrativa par aos jovens”, mas também “ser criteriosos e exigentes na sua seleção”.

“um Governo do PSD terá de dar uma especial atenção aos professores, desde a sua formação inicial, até ao seu recrutamento e profissionalização. Temos de tornar a profissão mais atrativa para os jovens”, afiançou, reiterando que “se não o conseguirmos, vamos enfrentar no futuro uma grave carência de professores”.

Não sei bem se isto quer dizer que irão reformular os cursos de formação de professores (na linha do “aproveita-se tudo”, em especial se for a partir de projectos de pseudo-voluntariados, como algumas iniciativas que por aí apareceram) se querem “localizar” (leia-se, municipalizar) o recrutamento dos docentes à imagem do que já acontece com os chamados “técnicos especializados”, se pretendem criar um novo modelo de profissionalização. Também não é claro que o “rigor” e “critério” na selecção dos professores significa um regresso à PACC ou se é apenas conversa fiada, tudo se resolvendo com a atribuição de mais poderes aos directores para recrutar (rigorosa e criteriosamente, claro) os professores ao seu preceito.

Quanto ao “tornar mais atractiva para os jovens” a profissão docente não sei se tem como reverso torná-la mais detestável para os “não-jovens” ou propor a troca (que alguns defendem por aí, talvez pensando que não chegarão a “velhos”) de mais uns 100 euros à entrada por menos 200 ou 300 à saída. Por outro lado, na sua enorme miopia, Rui Rio ainda parece não ter entendido que a “grave carência” de professores já existe. Pior, não percebe a sua causa.

O homem chega ao ponto de dizer que “reduziram o número de alunos por turma, mas de forma tão atabalhoada, que agora se debatem com a falta de professores em alguns grupos de docência”, não se percebendo se defende que o número de alunos deve aumentar, como já defendeu o ex-presidente do Conselho de Escolas, que não tardou no aplauso a este discurso. Ao que parece, acham que faltam professores em Português, T.I.C., Francês ou Geografia porque o número máximo de alunos por turma desceu num par, mesmo se repetem que o número global de alunos está em queda, no que é um paradoxo que não lhe(s) ocorre à inteligência. Tenhamos esperança que, afinal, Rio defende a redução de alunos por turma, mas não de forma “atabalhoada”, quiçá, apenas em algumas disciplinas.

Para os que estão na carreira, com décadas de serviço, nada se diz de verdadeiramente concreto quanto à “dignidade” e às “condições de trabalho” merecidas porque a primeira é amesquinhada a cada esquina por gente ligada ao PSD, que entre outras continuidades defende a manutenção do modelo único de gestão escolar e do modelo de avaliação do desempenho quando declara de modo demagógico que “considerá-los todos como iguais é, neste como em todos os demais setores da nossa sociedade, não só desvalorizar o mérito e a competência, como ignorar um elemento absolutamente decisivo para o sucesso, que é o brio profissional”. A verdade é que com um sistema de quotas como o que temos e com a responsabilidade pela sua implementação entregue a comités que são escolhidos a dedo num órgão seleccionado, no essencial, pel@s director@s como é o Conselho Pedagógico, dificilmente o “brio profissional” e a “dignidade” se conseguem rever, como se tem constatado ao longo desde últimos anos, onde imperaram a arbitrariedade, o compadrio e, em tantos casos, a pura e simples incompetência.

Mas Rio nada tem contra tudo isso, porque de Educação nada percebe (nem está interessado em perceber, pois a encara apenas na perspectiva da “racionalidade” economicista) e o seu principal conselheiro nessa matéria é um dois principais defensores deste modelo de gestão escolar, da municipalização da Educação e do actual sistema de avaliação docente, mais ou menos detalhe purgativo. Basta ver como o PSD votou nestes seis anos (que Rio considerava horríveis na Educação), sempre que ao Parlamento chegou alguma proposta no sentido de alterar o “paradigma” existente.

Portanto, em relação aos professores de carreira, em especial aos que estão desanimados e a quererem sair o mais cedo possível, nenhuma esperança é dada que algo de significativo mude. Por mim, fiquei perfeitamente esclarecido e não adianta mandarem os do costume “aclararem” a posição do líder, garantindo estima imorredoira aos docentes que têm aguentado com tudo e mais alguma coisa nos últimos 15-20 anos, se nada têm para lhes oferecer sem ser mais do mesmo.

(há uma expressão inglesa que se aplica maravilhosamente a Rio sempre que fala de Educação e que é thick as a brick)

Já Não Me Pasmo…

… quando leio gurus do eduquês há décadas e seus fiéis a clamarem que só há indisciplina porque os professores não usam pedagogias activas e não “envolvem os alunos na aprendizagem e construção do seu conhecimento” ou algo assim. E depois aparecem uns a bater palminhas, fortes e entusiasmadas e a corroborar que numa aula “activa” não há indisciplina. Gente crescida a escrever isto com convicção. Fico sempre com a sensação de viver num mundo paralelo. Ou então alguém anda com uma ganda moca, daquelas que duram anos.

Erro?

Pois… O Pai Natal chegou mais cedo.

Erro da procuradora coloca elemento do Corpo de Segurança da PSP no carro do ex-ministro, quando o polícia seguia no carro de trás a pedido do governante. Na sua ausência, era Eduardo Cabrita quem dava as ordens, mas este garantiu não ter dado qualquer indicação sobre a velocidade a adotar.

Adoro, Adoro, Adoro!

Fazer fichas com avaliação por rubricas/dimensões/domínios/competências, ou o camandro a trote, porque no fim só ajuda a aumentar a confusão, sem especial ganho para os alunos. É um dos exemplos da “sofisticação” metodológica que se diz ser no interesse dos alunos e da qualidade do feedback, mas que é uma rematada treta, mais ou menos embaixadores e arautos no terreno. Como se, na prática, fosse algo mais eficaz do que explicar a est@ ou aquel@ alun@ a matéria que revelou não ter percebido (ou estudado). Não, agora em HGP/História dizemos “querid@, tens graves falhas na temporalidade e na contextualização, mas espacializas muito bem, mesmo se a comunicação e o tratamento da informação deixam um pouco a desejar”, em vez de “olha, não entendeste o que foi o absolutismo e baralhaste a cronologia toda dos acontecimentos no século XVIII, mas acertaste nos territórios do império português*, mesmo se não conseguiste distinguir o Convento de Mafra do Aqueduto das Águas Livres”.

Chamem-me velho, mas acho que a segunda frase é bem mais compreensível.

* mas não digas isso à ainda deputada Joacine...

4ª Feira

Porque será que muitas pessoas ligadas à web summit falam de um modo irritante, no tom e na forma? A voz é quase sempre assim a modos que aflautada (entre o Sócrates e o Moedas, no caso dos homens) e gostam imenso de introduzir neologismos ou termos em inglês quando existem equivalentes directos em Português corrente. Hoje no noticiário da TSF falava uma jovem ligada à galp que até afligia no modo como tentava demonstrar todo o seu enorme conhecimento do papagueio “inovador”.

A Evidência Da Complexidade

Por uma questão de cortesia, tenho evitado comentar prosas incluídas no suplemento do JLetras/Educação, no qual sou colaborador há uns anos. Já li por lá algumas barbaridades, capazes de me fazerem enviar as barbas aos céus, mas tenho-me contido. A começar pelas platitudes e banalidades do ministro e continuando pelas peças de propaganda do secretário, até desaguar nas réplicas de alguns cortesãos, para quem a minha presença numa daquelas páginas deve funcionar como uma estranha anomalia.

Mas desta vez não há mesmo forma de um tipo se calar, porque o nível do discurso (e do “pensamento” que lhe parece estar subjacente) atingiu níveis mesmo insuportáveis de demagogia. O destaque da prosa deste mês do secretário João Costa é uma “evidência” do que ele parece considerar “complexo”.

Ao que parece foi preciso arranjarem um indicador qualquer para demonstrar o que todos sabemos desde que o matusalém descobriu as fraldas para idosos incontinentes, ou seja, que há alunos que com um mesmo contexto socio-económico atingem níveis de desempenho diferentes. Ele refere que isso acontece em escolas diferentes, mas eu acrescentaria que até acontece nas mesmas escolas em que não se inventam notas. Alunos com perfis socio-económicos semelhantes têm desempenhos académicos diferentes? Meu Deus, que “evidência” inovadora. E isso foi medido só para os “pobrezinhos” ou também recolheram “evidências” de desempenhos divergentes em alunos de meios favorecidos?

Já agora… tal constatação, a menos que devidamente apoiada em outro tipo de dados, não permite, por si só, garantir que a escola é o factor decisivo de mobilidade social. O SE Costa sabe isso, pelo que o que lá vem escrito é que “a escola pode mesmo ser fator de mobilidade social”.

JL/Educação, 6 de Outubro de 2021

Pode, claro que pode, senhor secretário. Poder, pode. Mas será que, em regra, isso acontece, se acompanharmos o percurso dos alunos pelo menos até à sua inserção na vida profissional e como isso se desenvolve na idade adulta em termos de estabilidade e nível de rendimentos?

Ahhhh… já sei… isso é um problema “complexo”.