A Evidência Da Complexidade

Por uma questão de cortesia, tenho evitado comentar prosas incluídas no suplemento do JLetras/Educação, no qual sou colaborador há uns anos. Já li por lá algumas barbaridades, capazes de me fazerem enviar as barbas aos céus, mas tenho-me contido. A começar pelas platitudes e banalidades do ministro e continuando pelas peças de propaganda do secretário, até desaguar nas réplicas de alguns cortesãos, para quem a minha presença numa daquelas páginas deve funcionar como uma estranha anomalia.

Mas desta vez não há mesmo forma de um tipo se calar, porque o nível do discurso (e do “pensamento” que lhe parece estar subjacente) atingiu níveis mesmo insuportáveis de demagogia. O destaque da prosa deste mês do secretário João Costa é uma “evidência” do que ele parece considerar “complexo”.

Ao que parece foi preciso arranjarem um indicador qualquer para demonstrar o que todos sabemos desde que o matusalém descobriu as fraldas para idosos incontinentes, ou seja, que há alunos que com um mesmo contexto socio-económico atingem níveis de desempenho diferentes. Ele refere que isso acontece em escolas diferentes, mas eu acrescentaria que até acontece nas mesmas escolas em que não se inventam notas. Alunos com perfis socio-económicos semelhantes têm desempenhos académicos diferentes? Meu Deus, que “evidência” inovadora. E isso foi medido só para os “pobrezinhos” ou também recolheram “evidências” de desempenhos divergentes em alunos de meios favorecidos?

Já agora… tal constatação, a menos que devidamente apoiada em outro tipo de dados, não permite, por si só, garantir que a escola é o factor decisivo de mobilidade social. O SE Costa sabe isso, pelo que o que lá vem escrito é que “a escola pode mesmo ser fator de mobilidade social”.

JL/Educação, 6 de Outubro de 2021

Pode, claro que pode, senhor secretário. Poder, pode. Mas será que, em regra, isso acontece, se acompanharmos o percurso dos alunos pelo menos até à sua inserção na vida profissional e como isso se desenvolve na idade adulta em termos de estabilidade e nível de rendimentos?

Ahhhh… já sei… isso é um problema “complexo”.

Mas Podemos Ensinar A Andar De Bicicleta

As pseudo “aprendizagens perdidas” parecem-me mais uma oportunidade de negócio para alguns dos cortesãos (e cortesãs) do que outra coisa qualquer.

Em declarações à TSF, o secretário de Estado defende uma intervenção “cirúrgica” dos professores e realça a necessidade de dotar os alunos de competências essenciais para adquirir e compreender informação.

6ª Feira

Hoje é que é mesmo o dia do reencontro com a petizada. São os do ano passado, com mais 3 aquisições para substituir as saídas. O ministro Tiago, há uns dias, naquelas declarações pisca-pisca que gosta de fazer para mostrar que soube ler as instruções, ufanava-se com o aumento dos gastos por aluno no ano passado. Caramba, afinal sempre acabaram por comprar alguns computadores e, mesmo estando longe de ser material para uma verdadeira Escola Digital, custaram dinheiro e por certo aumentaram umas dezenas de euros por cabeça. Não é preciso fazer uma dança em cima disso, porque continuam a existir fortes limitações em termos de equipamentos e a largura de banda na escola continua uma estreiteza. Mas isso agora não interessa nada, que há gente muito entusiasmada com o DUA nascido há 50 anos e com o Maia que mais não é que recuperar toda a conversa sobre a avaliação formativa do início dos anos 90 do século passado. O ano começa velho e não é só por causa da idade dos professores.

Ó Paulo, Só Agora Nos Dizes Isso, Depois De Tantos Milhões De Sacrificados Ao Puritanismo Ideológico Do Prazer Só Para A Reprodução?

Paulo Rangel: “Deus não está assim tão preocupado com o que se passa no quarto de cada um”

(eu só não concordo com ele, porque me parece que Deus, a existir, também não se preocupará nadica de nada com o que se passa no sofá da sala, na mesa da cozinha e eventualmente por essas casas de banho públicas da vida…)

Messi

Foi tão comovente quanto hipócrita a comoção da conferência de imprensa de saída do Barcelona. Messi foi para onde se sabia há um ano que queria ir. Carpir mágoas agora, quando há um ano forçou a saída, parece demasiado postiço, mas ainda há quem vá na encenação. Desde o verão passado que o acordo com o PSG existe e espanto-me em que ache que existia alguma dúvida acerca disso.

Afinal Há Pelo Menos Outra…

prosa encomiástica quanto à preclara decisão de definir as Aprendizagens Essenciais como o cânone. É de uma professora da Faculdade de Letras do Porto, que pelo que percebo deve dar “formação” a professores do Básico, a partir da sua posição privilegiada. Não sei porque só achou três razões. Ou porque não as limitou a uma.

Eu sei que não é argumento tido como relevante mas, com os autores das duas outras prosas, penso que terão aplicado as suas teorias num valor não muito distante do zero em aulas na última década no Ensino Básico e Secundário.

A Treta Em Dois Passos

O texto de SE Costa, já com um par de anos [data da referência revista], revela uma carga de preconceitos enorme sobre o trabalho “tradicional” das escolas e eu até percebo porquê, mas pensava que eu era o míope que só via o meu quintal. A ele, pedir-se-ia um pouco menos de estreiteza de vistas e tacanhez de concepções, que parecem muito decalcadas de experiências próximas que o terão marcado de forma traumática.

Só o recordo, porque este domingo temos um subproduto da propaganda costista, com a directora-especialista Cohen a espraiar-se em prosa que parece escrita em piloto automático para um novo guião/manual a vender a editora interessada no “produto”.

Basta ler o destaque para se saber ao que vamos:

As Aprendizagens Essenciais estão longe de serem objetivos mínimos. Trata-se de transferir para as escolas o exercício emancipatório da autonomia, sempre complexo, mas que potencia o desenho de possibilidades de ação.

(acho que anteontem li um texto do jornal As Beiras, de que não guardei o link, que era outro monumento ao passadismo crítico, revelando mais sobre as práticas de quem escreve do que propriamente daqueles que critica… como se, afinal, quem faça a escola velha sejam aqueles que se querem afirmar veículos de uma novidade há muito conhecida)

2ª Feira

O secretário Costa saiu em defesa do programa TEIP. Pelos vistos o tema é-lhe tão caro que não enviou uma 2ª linha fazer a defesa da honra desta sua menina dos olhos, ao contrário de outras. Talvez tenha sido porque as críticas resultaram de uma tese de doutoramento. O texto em si é o habitual reportório de propaganda à obra própria, sem cedência a grandes dúvidas, mesmo quando se admitem necessidade de retoques. O secretário Costa presta-se a fornecer “informação verdadeira” e uma pessoa quase se engasga com a torrada matinal. O secretário Costa considera, desse modo, que terá andado “informação falsa” a circular, embora afirme, em plural majestático, que “não nos compete comentar a qualidade de uma investigação académica”; que isso “essa é tarefa dos pares académicos”. E isto é tudo muito curioso. Porque dá a entender, implicitamente, que os académicos não deveriam ter a ousadia de avaliar a qualidade das políticas. A menos que seja o ipps do iscte. Ou algum centro amigo da católica, claro.