Não Posso Ter A Menor Dúvida

Que o mesmo líder sindical que processou um colega pelo que escreveu num blogue, alegando que isso causa danos à sua organização, processou de igual forma quem disse na televisão pública que os professores portugueses são uns “miseráveis”. E outras coisas que tais, que me parecem causar danos à dignidade moral de todos os professores, um valor que me parece estar – assim à primeira vista – ligeiramente acima dos pruridos organizacionais.

Entretanto, reproduzo, sem comentar, por causa de eventuais excessos que me possam levar a ser processado também, a última novidade negocial que li por aí:

A proposta que a FENPROF voltará a defender é que a recuperação se faça ao longo dos 5 anos, sendo recuperado, em média, 20% do tempo a considerar e, ao mesmo tempo, sendo garantido que até 31 de dezembro de 2019 todos os docentes terão progredido, pelo menos, uma vez.

Running

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Vi Uma Mesa Cheia de Sindicalistas Há Bocado no Facebook A Apelar à Luta e Tal

E no site da Fenprof tem assim uma espécie de mosaico de imagens a mostrar muita gente numa grande reunião unitária. E lembrei-me de 2008. E depois do entendimento. E lembrei-me de 2010. E depois do acordo das pizzas. E lembrei-me de 2013. E depois do acordo com o Crato para acabar com a greve às avaliações.

Mas não me lembrei daquelas pessoas ali na zona central partilharem o quotidiano docente há muito tempo, pois fazem da pseudo-luta uma profissão a tempo inteiro e não @s reconheço como colegas. Não há nada a fazer, tudo acabará como antes numa mão cheia de nada anunciada em forma de vitória? Estou a ser derrotista e a fazer o “jogo da Direita”? Mas não são as “esquerdas” que estão no Poder a lançar as cartas?

O pior é quando um tipo já se está a praticamente a [pi-pi-pi] para isto tudo, apenas estando interessado em, saber em que lista aparecerão alguns daqueles rostos daqui a ano e meio. Alguns dos “novos” de há uns anos já se encostaram.

Sindical

(no site do colectivo não vem a autoria desta foto panorâmica; não me voltem a lançar o aposentado vargas às canelas por causa disso)

Os Falsos Provedores

A criação do “provedor do leitor” em algumas publicações foi uma tentativa curiosa de dar aos leitores a sensação de terem alguma capacidade de intervenção junto, em especial, dos jornais. A figura de que me recordo melhor é de Mário Mesquita no DN há 20 anos. No Público, jornal que acompanhei mais, as coisas tiveram altos e baixos. Entretanto, a coisa espalhou-se por outros órgãos de informação, incluindo rádios e televisões e, há que dizê-lo com frontalidade, abandalhou-se de uma forma assinalável, sendo que em diversos casos os “provedores” são uma espécie de serviço de resposta automática, mais preocupados em (en)cobrir quem deveriam “fiscalizar” em nome dos leitores do que em servir estes nas suas demandas, em especial quando justa e fundamentadas. Se bem me lembro, muito menos nestes últimos tempos de simulacros, nunca recorri a este tipo de simulacros de provedoria, mas admiro e respeito quem ainda espera que sirvam para alguma coisa mais do que alindar um currículo em fase terminal.

Se estivessem mesmo preocupados com as coisas do rigor e ética informativa, podiam começar por um serviço de fact checking em relação a muita prosa polvilhada de disparates.

prophets

Desacordo

Cansam-me as notícias e comentários em torno das negociações entre sindicatos de professores e Governo, na figura da SE Leitão. Porque até um ceguinho já viu que com o “descongelamento” se considera concluída toda e qualquer “reversão” no que aos professores e à carreira docente diz respeito, mesmo se o “congelamento” foi obra do próprio PS que está no Governo.

Claro que podemos fingir que não é assim. Há vidas estranhas. E há quem precise de manter uma aparência de movimento (a “luta”) para justificar a utilidade.

gelo

(derrotismo? nem por isso… apenas uso lentes descoloridas para ver as coisas à transparência; talvez em 2019, algumas migalhas… e mesmo assim…)

Recomeçou – 2

A coreografia negocial em torno do regime de concursos e de progressão na carreira. Pelas novidades que se lêem de raspão, tudo na mesma, fazendo com que as asneiras concursais se mantenham e o estrangulamento na progressão seja dos fortes (50% no acesso ao 5º escalão e 33% ao 7º e é se tiverem autorização do tipo do ecofin), apesar do que andaram semanas a fio a dizer em grande parte da imprensa sem que ninguém do ME desmentisse. Obviamente, os moitasdedeus, júdices, sousatavares, marquesmentesmesmo e tantos outros não sentirão qualquer necessidade em se desmentirem. Exigiria um enorme esforço em algo que lhes passa ao lado… a ética.

Madeira

(estava-me aqui a lembrar do habitual anúncio de uma grande vitória pírrica há umas semanas…)

Abandonai Toda a Esperança, Vós, Que Aqui Entrais

As declarações deputado Silva (Porfírio, de sua graça) e o texto de Paulo Trigo Pereira no Observador são mais do que a exposição de pontos de vista pessoais sobre a questão da carreira dos professores. Ambos representam o inner core do actual PS de António Costa, aquele PS que não era pelo engenheiro mas nem sempre tinha coragem de o assumir com clareza, que acha que muito do que foi feito esteve bem, apenas tendo sido mal comunicado à populaça. Por isso, o que ambos transmitem é o que o actual PM quer que se saiba sem ele meter mais as mãos no assunto, até para não se baralhar nas concordâncias. Se a verborreia do senhor deputado Silva é especialmente pouco criativa ou imaginativa e tem o valor que se pode dar ao seu equivalente para as questiúnculas económicas (o Galamba mais novo, aquele que aparece naquelas coisas chatas relacionadas com o tal engenheiro, que já então o usava como amplificador, enquanto outros reviam os textos da “tese”), já o texto de PTP é todo um programa para a relação do governo com os protestos dos professores.

Há muita coisa que ali está e que pode passar despercebida de tão explícita que é. Passemos sobre a falta de transparência intelectual (olha-me eu a cair para os eufemismos) relacionada com o uso habilidoso do termo “retroactivos” para contaminar todo o debate e tentar colocá-lo num terreno considerado favorável. Essa de irmos atrás do engodo tem limites. Chega dizer o que acima fica.

Passemos ao que é mesmo importante. Vou isolar três questões (isto não vai ser breve):

  • A primeira tem a ver com o facto do PS de António Costa considerar que não existe qualquer compromisso com os professores acerca deste assunto, seja de forma directa ou indirecta (através de compromissos com os outros partidos da geringonça), Como escreve PTP  não se está em causa, em seu entendimento, o “incumprimento do programa de governo que está a ser cumprido (reversão de cortes e descongelamento respetivamente na primeira e segunda partes da legislatura), nem dos acordos do PS com os partidos à sua esquerda.” Aliás, qualquer “reversão” neste caso do congelamento seria uma reversão em relação a duas decisões do próprio PS (2005 e 2011). Seria reconhecer que fizeram mal e a injustiça foi causada por muitos dos mesmos que lá estão agora e aplaudiram. Não acreditem nisso, pois a arrogância do velho PS do engenheiro não desapareceu, só levou uns tiritos na máquina corporativa dos abrantes. Mas os outros andam todos aí, às claras e às escuras a plantar notícias e a encenar opiniões.
  • A segunda relaciona-se com a forma como PTP apresenta a forma de solucionar a disputa em torno da contabilização integral do tempo de serviço dos professores. A forma correcta é aquela que trata a questão como “política” e não como “sindical”. Desse modo “uma questão política de elevado impacto social e orçamental que deveria ser resolvida politicamente nas suas linhas gerais por Costa/Centeno com o acordo de Catarina e Jerónimo. A negociação com sindicatos deveria ser subsequente à negociação política e trataria dos detalhes.” Ou seja, em nenhum momento entram em linha de conta quer os professores, quer os sindicatos, quer o próprio ME. O ministro Tiago anda lá para tratar de “detalhes” com a secretária Leitão, enquanto o SE Costa “flexibiliza” os professores com conversas mansas pelo país. O Mário Nogueira faz o que o “Jerónimo” mandar e os outros “radicais” aquilo com que a “Catarina” concordar. Não é, já agora, por acaso e apenas por assim serem mais conhecidos publicamente, que uns são tratados pelo apelido e outros pelo primeiro nome. É mesmo uma espécie de patamar hierárquico. Há os dos apelidos, os dos primeiros nomes e, por fim, aqueles que nem são nomeados (os professores, incluindo o sindicalista, líder da Fenprof). Se tivermos memória, foi um bocado desta forma que em outros momentos as coisas se resolveram, só que com outros nomes, com a curiosidade do papel central do triunvirato de das Silvas (Vieira, Carvalho, Dias, por ordem decrescente de grandeza e influência). O resto tratou dos “detalhes” e assina a papelada para a posteridade.
  • A terceira tem a ver com o trade off apresentado em relação a uma falsa questão. Se os sindicatos querem falar de “retroactivos” (não é verdade, mas a partir de dado momento pretende assumir-se como verdade o que é uma adulteração do conceito), então deve também introduzir-se no debate a recuperação da divisão formal da carreira docente. PTP é claro, pois considera “que mais importante que a avaliação de professores, sempre difícil, é a formação e a seleção de docentes e uma diferenciação da carreira em duas categorias.” E aqui temos a recuperação do que de mais detestável teve a investida de Maria de Lurdes Rodrigues. É verdade, a ADD foi sempre um pretexto desonesto para encobrir o desejo de partir a carreira e estrangular a sua progressão com a figura do “professor titular”. Não nos deixemos enganar, António Costa e quem interessa e tem poder no Governo e no PS que está no poder não abandonou o projecto de MLR neste aspecto. A ADD foi sempre o pretexto fácil e demagógico para diabolizar os “professores que avaliam e não querem ser avaliados”. O que esteve sempre em causa foi uma questão financeira, pura e dura. Com a legitimidade limitada de tantas outras questões apresentadas de forma desonesta. O que está em causa é, por via da revisão do ECD, reforçar os mecanismos já existentes de travagem da progressão salarial dos professores. Se a questão está em premiar o mérito, porque baixaram as bonificações pela obtenção de graus académicos e acabaram com as licenças para os obter ou dias de dispensa até para participar em congressos e colóquios? Sei do que escrevo por conhecimento de causa, não por algum parente ter sido gaseado algures na Flandres (é ler o artigo todo). Já agora, o PTP ganharia em saber que já não existem coordenadores de área pedagógica (porque será que se lembrou de tal? algum efeito “retroactivo”?)

Por fim, gostaria de replicar às “desconversas” de PTP que se coloca naquela posição cómoda de qualificar as posições contrárias dessa forma. Passo adiante a parte dos militares (concordo que devem ter uma carreira sem comparação com as restantes do Estado e não me morreu ninguém na família em combate, pelo que nem vou comentar a demagogia do argumento usado por PTP para se legitimar) e concentro-me na teoria do one shot (foi assim que me foi qualificada por outra pessoa) das injecções financeiras na banca por contrapartida com os encargos contínuos decorrentes do efeito da progressão dos professores. Para começo de conversa, para one shot, as “injeções que pretendemos que nunca mais se repitam” têm-se repetido de forma bem recorrente, quase anualmente. E quanto a números concretos, os alegados 600 milhões são bem mais do que os encargos reais e não entram sequer em conta com o facto de muitos dos docentes em causa estarem em idade de se aposentarem na próxima meia dúzia de anos (o “envelhecimento docente” só aparece quando dá jeito); e as “injecções” na banca são de uma escala muito maior e pelos últimos cálculos dariam para mais de 15 anos (com os valores deste ano) ou 30 anos de encargos (com o valor já a<cumulado) com a recuperação do tempo de serviço dos professores pela estimativa mais elevada (é fazer as contas, 10 000M€ ou 21.000M€ a dividir por 600M€).

Resumindo: desenganem-se aqueles que acham que é mesmo com novos desfiles e greves episódicas que se consegue vencer um muro erguido durante 12 anos.

Concordo plenamente com o desejo de PTP de ter uma “conversa razoável” acerca destas coisas. Mas, para isso, há que ter seriedade nos fundamentos e argumentos das posições em confronto.

A mim parece que de um lado há uma posição “política” que entra pela “pós-verdade” e pelos argumentos de autoridade. Deste lado, tenta-se responder com a verdade à moda antiga e argumentações que tentam fugir às falácias (aquela do tempo de progressão entre as várias carreiras nem merece já desmontagem).

Inferno1