O Debate Dos Debates?

Depois de um número que desconheço de debates sem qualquer interesse ou chama entre líderes políticos a jogar à defesa, estratégia do quadrado reforçado para não perder votos, sem qualquer ideia verdadeiramente mobilizadora, eis que nos anunciam “O Debate” entre os dois representantes de Portugal que Balsemão levou há uns anos a conviver com as figuras mundiais do Clube Bildeberg (sobre o qual não tenho uma visão especialmente tenebrosa, em especial depois de ter lido o que Jon Ronson escreveu sobre o encontro deles em Lisboa/Sintra).

Um debate entre António Costa e Rui Rio é mais soporífero do que a 214891ª edição da Quadratura/Circulatura do Triângulo Isósceles e menos variado do que as tiradas dos Dupondt. Porque eles, no essencial, concordam, pois Costa embolsou a esquerda “radical” durante quatro anos em que todos baliram à moda do Centeno, uma espécie de Vítor Gaspar grisalho e de uma Maria Luís Albuquerque gaguejante. Duvido que Rui Riuo se sentisse desconfortável como vice de um governo com a maioria dos actuais ministros e secretários, pois até o galamba se rendeu às rendas. Talvez mudasse o Cabrita por um autarca do PSD e na Educação há sempre ali o Justino à espreita. Quanto muito alargaria o leque de famílias a ser nomeadas, pois há uns quantos laranjinhas a precisar de lugar executivo no currículo para poderem “dar o salto” para uma qualquer empresa privada em regime de liberalismo monopolista ou de oligopólio firmemente cartelizado.

Para que o raio do debate tivesse interesse, mais do que transmitido por três canais ou retransmitido nas homílias dominicais, seria preciso que Rui Rio, em vez de se achar muito bom, fosse mesmo apenas bom. Porque “apenas bom” dá para meter as vacuidades retóricas de António Costa no bolso, mas eu sou dos que sempre acharam que ele não consegue dizer duas frases sem assassinar a concordância e enterrar qualquer ideia original. Era preciso que Rui Rio percebesse que o país não vive na sua cabeça e que nem todos conseguimos perceber a sua genialidade. Não basta que ele enuncie virtuosas qualidades, mas que as possamos observar, não apenas nele mas na sua titubeante “equipa”.

Era preciso que Rui Rio fosse mais do que se limitou a ser, um líder transitório, útil para negociar subsídios europeus sem azedume e, no limite, servir de bengala a um eventual Bloco Central se o PAN desinchar.

Seria preciso que ele fosse “apenas bom”.

RioCosta

 

As Minhas Respostas Para A Peça Do Jornal De Negócios…

… que saiu hoje (conteúdo completo apenas para assinantes).

Tiago Brandão Rodrigues: o ministro à “sombra”

Vindo de fora do setor, da política e do país, Brandão Rodrigues entrou como um desconhecido, fugiu das luzes nos momentos turbulentos e termina o mandato sem um legado em tons vivos.

Aqui vai o que escrevi:

1-    Como avalia, de forma genérica, o desempenho do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues?

O ministro Tiago B. Rodrigues cumpriu de forma muito disciplinada a missão que lhe foi confiada neste governo, nomeadamente a de manter os sindicatos do sector sob controle durante mais de dois anos, assumindo um papel político de “ombro amigo” que chegou mesmo a merecer elogios a alguém tão exigente nestas matérias como Mário Nogueira. Como ministro propriamente dito da pasta, ficou por se lhe conhecer uma marca distintiva, pois as principais políticas desenvolvidas com impacto no quotidiano das escolas ou na orgânica do sector têm a assinatura do secretário de Estado João Costa e da secretária de Estado Alexandra Leitão.

2-    Aponte um dossiê que considere que tenha corrido bem e outro que tenha corrido mal – justificando.

Penso que o dossier que correu melhor ao ministro foi exactamente o da manutenção de uma política de aplainamento da carreira docente, em termos de progressão profissional e salarial, pois conseguiu, como referi, manter uma assinalável “paz social” no sector até ao início de 2018. Se isso não foi apenas responsabilidade sua, não se deve retirar-lhe o mérito de ter sido o rosto de uma relação amistosa com a generalidade dos sindicatos durante esse período.

Uma área em que as coisas correram mal, embora esta avaliação esteja muito sujeita à subjectividade de cada um e à forma como encara o que “qualidade” em Educação, foi a da completa cedência ao sector político mais permissivo em termos de avaliação dos alunos e à adopção de um discurso marcadamente datado em termos ideológicos sobre a monitorização das aprendizagens dos alunos, aceitando deslocar ainda mais do que antes todo o ónus da prova para os professores, desresponsabilizando quase por completo os alunos pelo seu próprio desempenho. De certa forma, a falta de experiência do ministro no sector, aliada à sua falta de conhecimentos teóricos nesta área, tornou-o uma presa fácil de uma retórica atractiva e acredito que bem intencionada, mas profundamente demagógica.

3-    Além do desconhecimento do setor, no início do mandato muito se falou também da falta de experiência / influência na política e nos palcos mediáticos. Que balanço faz destes outros aspetos, incluindo os que são mais de “perfil” do ministro?

Este ministro iniciou o mandato sem qualquer escrito conhecido sobre Educação, o que não será inédito. Mas o que talvez seja mais notável, pela negativa, é terminar esse mandato sem qualquer intervenção pessoal marcante sobre uma única matéria educativa, limitando-se a reproduzir lugares-comuns conhecidos, pelo menos, desde os anos 60 ou 70 do século XX. Há titulares da pasta que, por si só, concordemos ou não com eles, trouxeram um “peso” específico (Roberto Carneiro, Marçal Grilo, David Justino), aqueles que vieram cumprir uma missão definida superiormente, mas que a tornaram sua (Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato) e os que passaram pela pasta como simples rosto pacífico para consumo público (Isabel Alçada) como Tiago Brandão Rodrigues. Digamos que funcionou como um medicamento com suaves propriedades analgésicas e calmantes durante a maior parte do tempo e raramente conseguiu transmitir a ideia de que era ele que conduzia qualquer política. Nas áreas mais técnicas (pedagogia, gestão curricular, inclusão) a obra que fica deve-se a João Costa, enquanto nas mais polémicas (relação com ensino privado, gestão da carreira docente, greves no sector) a condução das medidas ficou a cargo de Alexandra Leitão. Isto para não falar nas matérias que passaram completamente ao lado do próprio ministério como sejam os casos da descentralização de competências ou do investimento público no sector.

Quanto a outros pontos de vista deixo aqui um dos destaques, com duas observações:

PG JNeg12Set19

  • Caro Filinto, o ME deve ter ido muito a escolas a norte do Mondego e acredito que entre o Douro e o Minho tenha sido figura muito presente, mas a sul do Tejo e em outras zonas mais agrestes, parece-me que só ia onde o mandavam ir ou a escolas com direcções amigas de alguém na 5 de Outubro ou na 24 de Julho. Se falou muito com os directores? Talvez, mas o resto do pessoal não ganhou grande coisa com isso. E sabes bem que eu cada vez tendo a confundir menos o clube d@s director@s com o resto da classe docente ou mesmo com a “voz das escolas”.
  • Por outro lado, quanto ao senhor da confap, o “segredo” não é ter o número de telefone deste ou daquele (isso arranja-se com mais facilidade do que parece), mas sim saber resistir à tentação e ter a capacidade de NÃO o usar. Eu sei que somos muito diferentes em termos de práticas, mas nunca é suficiente sublinhá-lo.

Tiago, O Míope Familiar

Tiago Brandão Rodrigues nada viu de relações familiares no Governo. Mesmo quando lhe apontam o nº de 40 casos, diz que isso é como nas escolas, em que as pessoas trabalham e se apaixonam e depois casam. E eu fico abismado com a indigência argumentativa.

Porque, caramba, estas nomeações a) aconteceram já depois dos casórios; b) envolveram casos de primos, cunhados, filhos e/ou esposas de colegas, o que deixa a questão da paixão em maus lençóis, salvo seja; c) não existem nas escolas, pelo menos por por enquanto, pois as colocações ainda são maioritariamente por concurso público e não por nomeação (chegará o tempo em que se estenderão algumas práticas em desenvolvimento, mas…).

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5ª Feira

3,60 para a Visão com a entrevista do ministro Tiago, o disponível. 12,72, para o livro do SE Costa, com 20% de desconto na Wook. E ainda me queixo de estar dois escalões salariais abaixo do que deveria.

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Visão, 5 de Setembro de 2019

(há pessoas que, provando-lhe o sabor, só pensam em mais “serviço público”…)

Será Esta A Noção Que Ele Tem De “Combate Político” Que Lhe Permita Manter Uma Pastinha?

No vídeo é visível que só fala, sem tropeçar em si mesmo, se usar cábulas. É um bocadinho deprimente. Realmente, alguém vive numa espécie de mundo de fantasia (da Disney ou do Canal Panda, não sei).

Tiago Brandão Rodrigues: “A direita está tão à rasca que acabou por agarrar-se às casas de banho”

PapelHig

(por este andar, quando chegar à minha idade, ainda estará mais rotundo… mas eu paguei quase todos os meus almoços… e jantares… e lanches…)