Investigação?

Na semana que passou, mãos amigas (plural, que eu gosto de cruzar fontes) facultaram-me uma diatribe relativamente recente de um dos cortesãos maiores da Educação Costista contra todos os que vão contra a sua Fé e o seu Verbo, alegando, por exemplo, que os críticos das suas platitudes não praticam “Investigação” na matéria, pelo que deveriam reduzir-se a um prudente e envergonhado silêncio.

Ora bem… eu sou reconhecidamente imprudente, mas também sei a diferença entre “Investigação” e umas cenas que dão para fazer 20 artigos, com esta ou aquela colaboração, quase clonados em diversos suportes e línguas, que não passam de revisão da literatura e eventuais dados de “estudos de caso” sobre a “problemática”. Nos meus tempos – e sou mais novo – isso daria para fazer um trabalho de uma cadeira da licenciatura ou um relatório do seminário de mestrado com nota mediana. è que mesmo em alguns nichos “Ciências Ocultas da Educação” não devemos colocar a fasquia tão baixa, só para ser inclusiva e dar indicadores de “sucesso” para efeitos académico-políticos.

De Volta Ao Frango Esfriado

Desculpem-me, mas vou voltar a um naco da prosa do ministro a perorar aos jovens, para exemplificar no que dá pensar-se que se está a falar muito bêim, mas no fundo estar-se a dizer uma coisa que nem é vitela, nem é carrrapau.

Ora leiamos:

O ministro da Educação advogou que o melhor instrumento contra a desinformação “é ler, ler e ler, porque é no confronto entre várias leituras que se avalia o que lê no momento bate certo com outras leituras já feitas, ou se é uma novidade que coloca em causa essas anteriores leituras.

Se o que foi dito é isto e não tem mais nada a completar, não passa de uma declaração cujo sentido essencial tende para a irrelevância em termos lógicos e substantivos.

Vejamos: se aquilo que lemos não bate certo com outras leituras já feitas e é uma “novidade que coloca em causas essas anteriores leituras” podemos ter pelo menos as seguintes possibilidades:

a) é um avanço nos nossos conhecimentos, um salto nos nossos conhecimentos, uma “mudança de paradigma”, uma verdadeira “ruptura espistemológica” e isso pode ser bom, como por exemplo podemos achar da teoria da relatividade do tio Alberto.

b) é um disparate completo, que não bate certo com nada, sendo apenas uma atoarda que coloca em causa essas anteriores leituras, mas sem qualquer fundamento.

c) é uma alteração da nossa perspectiva sobre a realidade, uma “mudança de paradigma”, um incentivo a novas práticas, impensada até então, mas isso pode ser mau, como por exemplo podemos achar das teorias daquele Adolfo de má memória.

O que é importante, perante estas leituras “desconformes”, “alternativas”, “radicais”, que nos confrontam com verdades estabelecidas é termos a capacidade para avaliar, mesmo que não seja de modo muito profundo, da “validade” ou “bondade” do que surge como “novidade”. Se o que lemos ou ouvimos é a), b) ou c).

Repito-me muito a este respeito: “novidade” não significa necessariamente algo bom, positivo ou vantajoso. Pode ser um disparate ou algo horrivelmente mau. Não nos chega “ler, ler, ler”, porque muitos apoiantes da Terra Plana ou do Nazismo leram muito. A questão não esteve na “quantidade” do que leram, mas do uso que deram a essa leitura, da “qualidade” do que extraíram do que leram.

Ora, avaliando por este tipo de patacoadas, mesmo estando a minha opinião disponível para críticas e revisões, quer-me parecer que há quem ande por aí e fale, fale, fale, fale muito, mas diga muito pouco de válido.

O Galamba Chama-lhe Um Figo

Especialista em ver os navios a passar na Educação, agora vai para uma das mais inúteis, desculpem, relevantes Comissões Permanentes (nada como uma nulidade para fiscalizar as tramóias da energia cá pelo burgo) e ainda vai fazer uma perninha em mais duas. Será que dão senhas de presença? A dos Negócios Estrangeiros e Comunidades deve dar umas viagenzitas À conta do erário…

Tiago Brandão Rodrigues é o novo Presidente da Comissão de Ambiente e Energia da Assembleia da República.

Depois de ter sido o Ministro da Educação durante as duas últimas legislaturas (2015-2022), com um tempo recorde à frente da exigente pasta da Educação, Desporto e Juventude, o recente cabeça de lista do Partido Socialista no Alto Minho assume agora Presidência de “uma das mais relevantes” Comissões Permanentes da Assembleia da República.

“Este prestigiante papel na dinâmica da Assembleia da República vem acompanhado de um conjunto de outras responsabilidades para os deputados socialistas do Alto Minho. Assim, Tiago Brandão Rodrigues será ainda membro de outras duas comissões parlamentares de alto relevo, como são a Comissão de Orçamento e Finanças e a Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas”, considera a Federação do PS de Viana do Castelo.

2ª Feira

Augusto Santos Silva foi muito aplaudido porque censurou no Parlamento uma intervenção de Alexandre Ventura sobre a comunidade cigana, alegando que em Portugal não existem “atribuições colectivas de culpa”. Estou de acordo, claro, até porque a intervenção . As generalizações abusivas são um mal no discurso público e pior no político, que deve ser mais informado e exemplar do que as conversas de café. O problema, também me parece claro, é que se não existem atribuições colectivas de culpa é porque existirá a possibilidade de atribuir culpas individuais, certo? Só que se o fizermos um outro qualquer santossilva dirá que estamos a fazer ataques ad hominem (a expressão é assim não me acusem já de machismo e misoginia) e que não adianta andarmos à procura de “culpados”, que isso é “muito português. E ficamos naquela terra de ninguém da desresponsabilização colectiva e individual em que, no essencial, o que interessa é nunca apontar os culpados pelos erros.

Por exemplo, em 2008 houve um político que acusou os “professores de atitude antidemocrática”, porque se estavam a manifestar contra as políticas do governo do “engenheiro”, de que fazia parte. Ainda há pouco tempo, esse mesmo político, acusava “fortemente os partidos que na quinta-feira aprovaram a contabilização total do tempo de serviço congelado aos professores”, no que me parece ser uma atribuição colectiva de culpa, já que quem votou no Parlamento foram os deputados e não “os partidos”. Pena que Augusto Santos Silva, o actual ético presidente da Assembleia da República não pudesse ter trocado umas ideias com esse político. Porque um problema “muito português” é o da oportuna falta de memória. E outro é o de uma certa falta de vergonha na cara, sob a justificação de que o “contexto” era diferente.

(este é outro que, como o Super-M, diz sempre que quer voltar a dar aulas, mas – raios! – nunca o deixam…)

Sábado

Penso que a questão da “maioria absoluta” pode ter ficado definitivamente afastada ontem à noite, com a ida do “absoluto” Sócrates à CNN Portugal. O que poderia parecer mais uma péssima ideia, provavelmente acabou por ser serviço público, pois ver e ouvir aquela figura mais uma vez a repetir uma narrativa gasta e mitómana pode ter valido dezenas de intervenções políticas de outras figurinhas deprimentes que andam por aí. Não sei a audiência da coisa, mas só fazer lembrar que aquele tipo teve, graças a uma maioria absoluta, mais de 4 anos para perverter ainda mais o sistema democrático e quase o fez, é remédio decisivo para qualquer pessoa sensata querer repetir a fórmula, para mais com um dos seus ministros e muitos descendentes da sua corte. Não será por acaso que Passos Coelho não aparece a dar entrevistas ou a fazer intervenções muito mediáticas, pois também sabe o lastro da sua maioria absoluta. Portanto, paradoxalmente, obrigado, CNN Portugal, por um inesperado serviço se interesse público.

O Homem Que Reconhece A Si Mesmo Muitas Qualidades E Obras Feitas

Em tempos de final de mandato, o ministro Tiago da Educação dá uma longa (e até com transcrição repetida de algumas questões e perguntas) entrevista ao Jornal de Letras, na qual se percebe até que ponto está convencido de ter feito uma obra que na verdade outros fizeram atrás do seu nome. A bem da clareza – e até porque ele já disse publicamente que me desconhece e ao que escrevo, o que só abona em favor da imagem que dele tenho – convém deixar bem explícito que mantenho a ideia de que ele foi apenas uma cabeça falante colocada no ME para gerir as expectativas de algum sindicalismo docente e do super-Mário até aos limites da razoabilidade, missão que desempenho com competência durante até aos referidos limites da razoabilidade. E o que diz do assunto não contraria nada esta leitura, pois confirma que lá esteve para reduzir o “ruído” e o “desconforto” que antes existiriam.

Quanto ao mais, outros governaram por ele, seja Alexandra Leitão, de forma inflexível, na parte da gestão escolar, da carreira docente e da avaliação do dezempenho, seja João Costa na parte da organização curricular e da implementação das suas teorias na área pedagógica. Em termos operacionais, na parte dos “programas” dominantes de “combate ao insucesso”, os primeiros anos foram marcados pelo PNPSE de José Verdasca e os últimos pelo MAIA de Domingos Fernandes. Em matéria de “inclusão” a eminência parda foi David Rodrigues. Em matéria de “formação” sobre flexibilidades e coisas assim sabe-se que quase tudo foi deixado a cargo do par Cosme/Trindade, cada um em sua função. Sobre estes temas, o ministro Tiago limitou-se a aparecer e a falar de acordo com o guião. Sempre que dele saiu, ou não disse nada de substantivo ou disse asneira. Em termos políticos, parece que tem peso na sua região de origem, mas em termos nacionais, a política da Educação foi defendida pelo deputado Silva, de sua graça Porfírio, no Parlamento, e de modo menos público muito foi controlado a partir de um núcleo “nortista” do PS, em articulação com o SE Costa que sempre fugiu das matérias mais polémicas na relação com a classe docente.

Atendendo a esta minha leitura destes seis anos, a entrevista do ministro Tiago representa uma espécie de bailado sobre o vazio e um auto-elogio que só pode resultar de um auto-convencimento pouco sadio ou de um quase total solipsismo em relação à realidade que quase todos observamos (mesmo @s que não o admitem).

Mas fiquemo-nos por algumas passagens da dita entrevista, começando pelo primeiro destaque, no qual se nota logo o tom do resto:

Pronto, o ministro Tiago Acha que cumpriu “mais plenamente um conjunto de desideratos e compromissos”, restando saber quais eram, para além dos que ele próprio enuncia de um modo que revela ou ingenuidade ou algo mais estranho:

O ministro Tiago acha que devolveu “uma certa normalidade e qualidade às políticas educativas” o que não é coisa pouca de afirmar acerca de si mesmo. O problema é quando entramos no reino da fantasia e da fuga à verdade como nesta parte:

O senhor ministro Tiago que chegou ao cargo em finais de 2015, diz que “desde esse momento passou a a haver progressão na carreira”, o que dá vontade logo de lhe dirigir uns impropérios à capitão Haddock, até por ser uma mentira facilmente verificável e absolutamente desnecessário. E, de certa forma, também nos diz muito acerca da pessoa que faz esta afirmação.

Como nos dizem muito as passagens sobre o balanço do(s) seu(s) mandato(s) e as suas aspirações futuras de continuar ministro, que nunca nega, preferindo aquele discurso “redondo” de político de terceira ordem, ideal para estes tempos de neo-aparelhistas com imensa flexibilidade vertebral.

Há sempre mais coisas para fazer… era improvável ter sido ministro, mas voltou a ser o que era mais improvável ainda, pelo que se for ainda mais uma vez, apenas acrescenta improbabilidade às coisas. Não é capaz de dizer que não quer mais porque, já se percebeu, quer.

Mesmo se continua com uma enorme falta de conhecimentos sobre a História da Educação em Portugal, mesmo em aspectos que apresenta como testemunhos pessoais. Veja-se esta passagem:

Não sei a que “tempo” se refere o ministro Tiago, visto que a escolaridade obrigatória passou a ser de 9 anos (até aos 15 anos de idade) com a Lei de Bases do Sistema Educativo (cf. artigo 6º da Lei 46/86 de 14 de Outubro), quando ele tinha apenas 9 anos e ainda andaria no 1º ciclo. Um tipo já nem estranha este tipo de coisas porque, em boa verdade, não se espera mais do que isto.