Sábado

Penso que a questão da “maioria absoluta” pode ter ficado definitivamente afastada ontem à noite, com a ida do “absoluto” Sócrates à CNN Portugal. O que poderia parecer mais uma péssima ideia, provavelmente acabou por ser serviço público, pois ver e ouvir aquela figura mais uma vez a repetir uma narrativa gasta e mitómana pode ter valido dezenas de intervenções políticas de outras figurinhas deprimentes que andam por aí. Não sei a audiência da coisa, mas só fazer lembrar que aquele tipo teve, graças a uma maioria absoluta, mais de 4 anos para perverter ainda mais o sistema democrático e quase o fez, é remédio decisivo para qualquer pessoa sensata querer repetir a fórmula, para mais com um dos seus ministros e muitos descendentes da sua corte. Não será por acaso que Passos Coelho não aparece a dar entrevistas ou a fazer intervenções muito mediáticas, pois também sabe o lastro da sua maioria absoluta. Portanto, paradoxalmente, obrigado, CNN Portugal, por um inesperado serviço se interesse público.

O Homem Que Reconhece A Si Mesmo Muitas Qualidades E Obras Feitas

Em tempos de final de mandato, o ministro Tiago da Educação dá uma longa (e até com transcrição repetida de algumas questões e perguntas) entrevista ao Jornal de Letras, na qual se percebe até que ponto está convencido de ter feito uma obra que na verdade outros fizeram atrás do seu nome. A bem da clareza – e até porque ele já disse publicamente que me desconhece e ao que escrevo, o que só abona em favor da imagem que dele tenho – convém deixar bem explícito que mantenho a ideia de que ele foi apenas uma cabeça falante colocada no ME para gerir as expectativas de algum sindicalismo docente e do super-Mário até aos limites da razoabilidade, missão que desempenho com competência durante até aos referidos limites da razoabilidade. E o que diz do assunto não contraria nada esta leitura, pois confirma que lá esteve para reduzir o “ruído” e o “desconforto” que antes existiriam.

Quanto ao mais, outros governaram por ele, seja Alexandra Leitão, de forma inflexível, na parte da gestão escolar, da carreira docente e da avaliação do dezempenho, seja João Costa na parte da organização curricular e da implementação das suas teorias na área pedagógica. Em termos operacionais, na parte dos “programas” dominantes de “combate ao insucesso”, os primeiros anos foram marcados pelo PNPSE de José Verdasca e os últimos pelo MAIA de Domingos Fernandes. Em matéria de “inclusão” a eminência parda foi David Rodrigues. Em matéria de “formação” sobre flexibilidades e coisas assim sabe-se que quase tudo foi deixado a cargo do par Cosme/Trindade, cada um em sua função. Sobre estes temas, o ministro Tiago limitou-se a aparecer e a falar de acordo com o guião. Sempre que dele saiu, ou não disse nada de substantivo ou disse asneira. Em termos políticos, parece que tem peso na sua região de origem, mas em termos nacionais, a política da Educação foi defendida pelo deputado Silva, de sua graça Porfírio, no Parlamento, e de modo menos público muito foi controlado a partir de um núcleo “nortista” do PS, em articulação com o SE Costa que sempre fugiu das matérias mais polémicas na relação com a classe docente.

Atendendo a esta minha leitura destes seis anos, a entrevista do ministro Tiago representa uma espécie de bailado sobre o vazio e um auto-elogio que só pode resultar de um auto-convencimento pouco sadio ou de um quase total solipsismo em relação à realidade que quase todos observamos (mesmo @s que não o admitem).

Mas fiquemo-nos por algumas passagens da dita entrevista, começando pelo primeiro destaque, no qual se nota logo o tom do resto:

Pronto, o ministro Tiago Acha que cumpriu “mais plenamente um conjunto de desideratos e compromissos”, restando saber quais eram, para além dos que ele próprio enuncia de um modo que revela ou ingenuidade ou algo mais estranho:

O ministro Tiago acha que devolveu “uma certa normalidade e qualidade às políticas educativas” o que não é coisa pouca de afirmar acerca de si mesmo. O problema é quando entramos no reino da fantasia e da fuga à verdade como nesta parte:

O senhor ministro Tiago que chegou ao cargo em finais de 2015, diz que “desde esse momento passou a a haver progressão na carreira”, o que dá vontade logo de lhe dirigir uns impropérios à capitão Haddock, até por ser uma mentira facilmente verificável e absolutamente desnecessário. E, de certa forma, também nos diz muito acerca da pessoa que faz esta afirmação.

Como nos dizem muito as passagens sobre o balanço do(s) seu(s) mandato(s) e as suas aspirações futuras de continuar ministro, que nunca nega, preferindo aquele discurso “redondo” de político de terceira ordem, ideal para estes tempos de neo-aparelhistas com imensa flexibilidade vertebral.

Há sempre mais coisas para fazer… era improvável ter sido ministro, mas voltou a ser o que era mais improvável ainda, pelo que se for ainda mais uma vez, apenas acrescenta improbabilidade às coisas. Não é capaz de dizer que não quer mais porque, já se percebeu, quer.

Mesmo se continua com uma enorme falta de conhecimentos sobre a História da Educação em Portugal, mesmo em aspectos que apresenta como testemunhos pessoais. Veja-se esta passagem:

Não sei a que “tempo” se refere o ministro Tiago, visto que a escolaridade obrigatória passou a ser de 9 anos (até aos 15 anos de idade) com a Lei de Bases do Sistema Educativo (cf. artigo 6º da Lei 46/86 de 14 de Outubro), quando ele tinha apenas 9 anos e ainda andaria no 1º ciclo. Um tipo já nem estranha este tipo de coisas porque, em boa verdade, não se espera mais do que isto.

Sábado

Manuel Pinho considera que não recebeu um único euro que não lhe fosse devido. Sem a devida contextualização, esta frase pode aplicar-se a uma imensidade de situações, dependendo muito do tipo de serviços prestados que justificam os pagamentos. Sendo público que ele recebia pagamentos do grupos BES enquanto era governante, as coisas nem se adensam, transparecem. Claro que quem presta um serviço – volto a dizer que depende do tipo de serviço para se avançar com outras considerações – acha que recebeu apenas o devido ou ainda menos do que isso. O problema é que em Portugal, a larga maioria do pessoal que cumpre as suas obrigações não recebe o que lhe é devido. Só de pensar nisso, acho que Manuel Pinho é um privilegiado, tenham sido quais foram os serviços que prestou em troca do que recebeu.

Em Tempos De Campanha Bate Uma Amnésia Do Caraças

São coisas destas que, queiram ou não, desacreditam a política, revelando o quando não passa, em tantos casos, por mero oportunismo. Nem merece o tempo de ir ao google buscar as vezes em que David Justino alinhou na desvalorização e apoiou quem a promoveu. Desde a amizade com Maria de Lurdes Rodrigues e o apoio à generalidade das suas medidas quanto à carreira docente ao apoio ao indecoroso processo da PACC durante o mandato de Nuno Crato. Não esquecendo aquela medição a olho dos professores que nunca o deveriam ter sido, a enorme preocupação em apresentar custos inflacionados sobre a redução dos alunos por turma (em que só contava com a despesa bruta, ignorando a receita fiscal que cativa logo mais de um terço dos salários nominais) e a imensa ambiguidade em relação à reposição do tempo de serviço congelado.

Há ambições do caraças, pelas quais há seja capaz de tudo e o seu contrário, uma e outra vez.

(penso que será uma rasteira falar em prefácios, certo? até porque acredito piamente que terão sido graciosos e desinteressados)

Afinal O Que É Ser “Anti-Sistema”?

Admito, estive a ouvir o André Ventura a fazer a apresentação dos candidatos a deputados. E fartei-me de o ouvir dizer que o Chega é o partido “anti-sistema” para todos os deserdados e órfãos de outros partidos que os representem, em especial á direita. Assim como o ouvi dizer que o objectivo do Chega é fazer parte de um governo que, penso eu de que, será algo só possível à boleia do PSD, um dos grandes obreiros do “sistema”. Só não fiquei baralhado, porque ainda me lembro de outras piruetas de mais esta curiosa criatura que nos saiu na rifa. Basicamente, o homem quer ser ministro. O que é ambição escassa se tivermos atenção ao nível de muitos que têm andado por aí. Afinal ser “anti-sistema” é apenas ser mais um na fila para as despesas de representação e chófére às ordens.

Falta-me Pachorra…

… para a sucessão de notícias sobre o destino político de Francisco Assis. Parece que se afirmou disponível para amar, mas o recusaram, o que ele depois acho ser normal. O que eu acho anormal é que este “senhor” consiga fazer-se notícia por tudo e nada, quando o seu passado ao serviço do socratismo no Parlamento (e não só) foi o que foi, vivendo sem problemas anos a fio ao lado (e a defender politicamente) aqueles que ou vão presos para não fugirem ou ficam cá fora por causa. Parece que não lhe chega ser presidente do CES, onde pode parece que poderá ficar mais uns anos a passear a sua inutilidade. Consta que um dia foi professor de Filosofia, mas parece que é daqueles que deve ter detestado, assim como deve detestar ter um emprego a sério, que não dependa das sucessivas direcções partidárias. Não é que as listas do PS sejam maravilhosas, mas a sua ausência sempre é um dos seus poucos pontos positivos. Já o deputado Siva, Porfírio de nossa desgraça, outro filósofo de formação, continua por Aveiro, em 4º lugar. Quando se prova, a coisa entranha-se e não se quer outra que se estranhe.

Está Sempre Disponível

É a vantagem de um amplo vazio interior de convicções que não passem pelas conveniências dos suseranos.

Governantes voltam a ser chamados pelo líder do PS para encabeçar listas de candidatos a deputados. Para já, dois membros do atual Governo (e o número dois no PS) entram de fresco e vários mantêm-se.