O Triunfo do Efémero

Lá seguiu o artigo para o JL/Educação de Setembro. Adivinho por aquelas páginas, loas e loas às novas medidas tomadas pelo grupo ideológico que governa e por lá escreve. Eu escrevi sobre o triunfo do efémero num currículo que cada vez se preocupa menos em transmitir às novas gerações o legado acumulado pela Humanidade em termos de Conhecimento e mais em divulgar modas transitórias e estilos de vida tidos como muito in e cosmopolitas. Dizem que é a modernidade e que a Educação se deve adaptar aos tempos, algo que ela, com bom senso, sempre demorou a fazer, para poder distinguir o trigo bom do simulacro plastificado, já para não dizer do joio.

Domingo

O despacho 6605-A/2021 é o elemento final (ou quase) do trabalho de “reconfiguração” da Escola Pública como Escola Mínima, depois de mais de uma década a transformá-la em Escola Low Cost. E Escola Mínima é aquela em que as aprendizagens disciplinares são secundarizadas em favor de uma competências transversais, de avaliação altamente subjectiva e cuja implementação se traduz numa fragmentação curricular dos conteúdos. Os saberes académicos são desvalorizados como “tradicionais” e resultantes de uma ilusão de saber global, sendo substituídos por conhecimentos mais ou menos utilitários, circunstanciais e locais. Como ouvi recentemente a uma orgulhosa liderança de uma escola que é “piloto” nesta lógica, “as aprendizagens disciplinares não são importantes”, porque o que interessa é que o aluno circule entre saberes transversais, resultantes das dimensões do canónico “Perfil”. Isto é apresentado como “moderno”, como “flexível” e adaptado a um século XXI que até agora não tem corrido nada conforme previam alguns visionários que tentam encaixar a realidade às suas caixas mentais desenvolvidas no final do século XX.

Esta Escola Pública Mínima não vai ser democrática, porque vai promover uma fuga ainda maior de alunos cujas famílias tenham alguns meios para isso para a rede privada. Vai ser inclusiva na retórica, mas apenas porque pretende nivelar pelos padrões menos exigentes e rigorosos; na prática, quem nela ficar terá como horizonte de conhecimentos aquilo que se define apenas como “essencial”. O que deveria ser tido como mínimo torna-se o padrão a alcançar. Claro que haverá excepções, porque continuarão a existir escolas que, em meios mais afortunados e exigentes, não cederão a esta tendência ou demorarão mais tempo a ser submersas por esta onda, que se sucede a várias outras, no sentido de uma desqualificação da Escola Pública como instituição destinada a transmitir os elementos fundamentais (diferente de “essenciais”) da Cultura e da Ciência que a Humanidade conseguiu erguer ao longo da sua História. A Escola Mínima privilegia os saberes meramente funcionais, úteis ao precariado, simulando uma certificação formal que o mercado de trabalho qualificado não reconhecerá. A Escola Mínima nunca poderá ser um “elevador social”, porque abdicou em definitivo de elevar, preferindo nivelar por baixo.

Neste despacho, pratica-se a adulteração da linguagem, enunciando-se conceitos e princípios que são esvaziados pelas práticas decorrentes do que é decretado. Não é honesto afirmar que “todos os alunos devem, ao longo dos seus 12 anos de escolaridade, desenvolver uma cultura científica e artística de base humanista, alicerçada em múltiplas literacias, no raciocínio e na resolução de problemas, no pensamento crítico e criativo, entre outras dimensões” se isso não tem qualquer verdadeira tradução num modelo de escola em que a compreensão do teorema de Pitágoras equivale a saber atravessar na passadeira ou em que a aprendizagem da tabela periódica equivale a saber o que é o “espírito do empreendedorismo”. E nem vale a pena falar de uma Filosofia reduzida a exames de escolha múltipla ou a uma História semestralizada em fatias polvilhadas de tópicos.

Por isso, os cursos de formação inicial de professores se baseiam cada vez mais num elenco de generalidades, estando praticamente ausente uma formação de tipo disciplinar/científico que vá além da leitura de uma qualquer enciclopédia temática para jovens. Para ensinar pouco ou nada, nada ou pouco é preciso saber. Muito menos qualquer tipo de pensamento crítico consistente, porque uma coisa é o exercício de uma crítica fundamentada e baseada em argumentos e outra a mera contestação da “autoridade” académica dos professores e conhecimentos.

Este despacho, se tivesse sido escrito por um grupo de trabalho criado pelos interesses privados na Educação, dificilmente seria diferente.

Centralismo Curricular

O maior exercício de terraplanagem curricular de sempre. E o inegável triunfo das seitas.

Despacho n.º 6605-A/2021

Sumário: Procede à definição dos referenciais curriculares das várias dimensões do desenvolvimento curricular, incluindo a avaliação externa.

(…)

Assim, no uso dos poderes delegados pelo Despacho n.º 559/2020, de 3 de janeiro, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 11, de 16 de janeiro de 2020, determino:

1 – Constituem-se como referenciais curriculares das várias dimensões do desenvolvimento curricular, incluindo a avaliação externa, os seguintes documentos curriculares:

a) O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, homologado através do Despacho n.º 6478/2017, de 9 de julho;

b) As Aprendizagens Essenciais, homologadas através dos Despachos n.os 6944-A/2018, de 18 de julho, 8476-A/2018, de 31 de agosto, 7414/2020, de 17 de julho, e 7415/2020, de 17 de julho;

c) A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania;

d) Os perfis profissionais/referenciais de competência, quando aplicável.

2 – São revogados os demais documentos curriculares relativos às disciplinas do ensino básico e do ensino secundário com aprendizagens essenciais definidas.

3 – O presente despacho entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação e produz efeitos a 1 de setembro de 2021/2022.

2 de julho de 2021. – O Secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Miguel Marques da Costa.

3ª Feira

Uma outra tendência é a de considerar que, para além de prolongar o ano lectivo, se devem ter as escolas abertas no Verão, de novo com o pretexto das tais aprendizagens “perdidas”, que ninguém ainda me demonstrou que o foram por causa dos efeitos da pandemia e não um efeito natural da desorganização e atomização que passou a caracterizar o currículo do Ensino Básico, com o aumento do número de disciplinas e áreas disciplinares e a redução de alguns programas disciplinares a esqueletos para arranjar tempo para áreas criadas a gosto desta ou aquela clique próxima do poder.

Escolas STEAME E O Fim Das Humanidades (Por Troca Com E-Shops)

Estive a assistir a uma webinar daquelas internacionais em que se apresenta o currículo do futuro, com chancela da OCDE, baseado no projecto “STEAME: Guidelines for Developing and Implementing STEAME Schools”. No fundo, é o conceito STEM, a que acrescentaram o A das Artes para ficar bonito, mas continuando a deixar de fora as Humanidades e Ciências Sociais, enquanto consideram essencial o E final de Empreendedorismo. É a visão da OCDE para a Educação em 2030 que o SE Costa tanto gosta de espalhar por cá, enquanto finge dar muito valor às Humanidades, enquanto as retalha no currículo. Vejamos o que é dito:

Without Entrepreneurial skills it is not possible to innovate and expect impact to life and this is
missing from the current definitions of STEAM activities. Therefore, STEAME Schools is a new
educational approach that uses science, technology, engineering, arts, mathematics and
entrepreneuship as a reference point for guiding student research, dialogue, critical thinking and
entrepreneurial mind set.
The STEAME framework takes STEAM to the next level, enriching it
with creativity, criticism, research and innovation and skills related to entrepreneurship with
introduction to technology transfer into the economy for better life.

Uma das actividades para alunos de 15-16 anos é a criação de e-shops em 2 aulas de 90 minutos, na segunda das quais “every group of students designs and creates a customized e-shop, that formulates a real problem. In this way, they understand the mechanism of the market in action.”

Os resultados esperados?

After the project, learners will be able to investigate the market and become more competitive using new technologies. This procedure develops their critical mind and fosters their curiosity about new markets and about their future as entrepreneurs. Their communicative skills and their ability to collaborate will be
enhanced, as they will be obliged to make decisions as partners.
The result will be the virtual e-shop with the aid of spreadsheet for billing and pricing the product.

E ainda devem chamar a isto uma Educação Humanista.

(pois, as coisas em que eu me meto só para saber como será o futuro…)

Coisas Que Me Parecem Claras E Óbvias

  • Um aluno do ensino público deve frequentar o seu currículo padrão que, no Ensino Básico, não contempla opções.
  • Um aluno do ensino público que se balda a uma disciplina e falta sistematicamente pode, em termos legais, ficar excluído por faltas se o faz sem justificação aceitável.
  • Um aluno do ensino público que tem boas notas a todas as disciplinas e tem excesso de faltas apenas numa, em regra, transita de ano por decisão do Conselho de Turma. Aliás, se não transitar, com “positiva” e de qualidade em tudo o resto, quase certamente uma decisão de retenção seria bloqueada em Conselho Pedagógico. Mais certo será passar com meia dúzia delas, com este ou aquele truque.

Dito isto:

  1. Eu não concordo muito com a posição daquele encarregado de educação que alegou objecção de consciência para impedir os seus educandos de frequentar a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. É uma espécie de bloqueio ideológico a reagir ao que se entende ser uma deriva ideológica do currículo.
  2. Concordo ainda menos que o SE Costa, por despacho, desautorize a decisão de Conselhos de Turma que decidiram pela transição dos alunos. É, em meu entendimento, um abuso de poder, por motivos ideológicos, pois aposto que se a coisa tivesse acontecido com Ciências, História ou Inglês, ele não teria feito tal intervenção.

Pelo que acho:

  1. Perfeitamente razoável que o encarregado de educação recorra aos Tribunais, tendo eu quase a certeza que lhe darão razão, pelo menos na parte da transição.
  2. Perfeitamente inaceitável que, em tal disputa, se lixe um ano ou mais da vida dos alunos em causa.

JCosta1

A Lusitânia Já Foi Toda Tomada?

É uma página rodeada de sete outras, em tons de cor de rosa, de loas e elogios à solução encontrada, à bondade de tudo e mais alguma coisa e auto-congratulação do seu principal mentor no JL/Educação deste mês. Um tipo olha à volta e sente-se quase tão solitário quanto nos tempos dos primeiros artigos para o Público em 2008.

Mas enquanto puder, vão ter de me aturar.

(…)

Quem cometeu o erro de usar grupos do WhatsApp para estabelecer uma linha imediata e rápida de comunicação com os alunos, viu-se obrigado a desativar o som das notificações ao fim de pouco tempo, ao perceber que os “horários” para enviar dúvidas ou comentários, nem sempre muito propositados, não respeitam nenhuma parte do dia ou noite. Para quem fez isso com duas ou mais três turmas começou a amaldiçoar o momento em que comprou o smartphone. Pelo que uma das prioridades deveria ter sido a da inclusão de aulas para desenvolver as competências dos alunos em ambientes ditais de tipo educativo, não chegando aceder à primeira página do doutor google ou à página da doutora wikipédia.

(…)

A forma como a área artística das Expressões volta a ser menorizada é coerente com o modo como o currículo, que se afirma pretender que os alunos desenvolvam competências estéticas e humanistas, tem maltratado em todas as mais recentes reformas as disciplinas ligadas às Artes e Humanidades, como se fossem uma espécie de resquício de um passado arcaico, sem interesse para o futuro digital e cibernético.

A Filosofia foi truncada no Ensino Secundário, a História e a Geografia passaram a ser servidas, por quem assim entende, em fatias semestrais no 3º ciclo do Ensino Básico. A Educação Musical está reduzida a dois tempos semanais e restrita ao 2º ciclo do Ensino Básico e quem a quiser explorar terá de recorrer a instituições exteriores ao ensino público. A Educação Visual e Tecnológica foi desmembrada no 2º ciclo e agora as suas componentes desaparecem, enquanto disciplinas autónomas, da versão televisiva/digital do currículo do Ensino Básico.

Se estes são sinais do que será um futuro currículo para os tempos digitais, são péssimos sinais para todos os que querem uma verdadeira Educação Integral das novas gerações.

JL 22Abr20

As Artes E O Novo Tele-Currículo Digital

Estive a reparar que na grelha  estão previstos dois segmentos para as vertentes artísticas e tecnológicas das Expressões todas misturadas do 1º ao 9º ano. Portanto, Educação Musical, Educação Visual e Educação Tecnológica que se cuidem que no futuro Currículo Digital serão enviadas para o olvido. Até que gostava de saber o que acha disto aquele colega muito amigo do poder que preside a uma associação que diz amén a tudo e ainda manda bocas a quem desalinha. E com isto, concorda? Ele não conseguia gravar umas aulas magistrais adequadas, pelo menos, a cada ciclo? Se hã disciplinas em que o ensino à distância (imagem e som) melhor poderiam ser explorados no sentido de desenvolver aquela parte do sentido estético que aparece no famigerado “Perfil” são as de Educação Visual e Educação Musical. Mas…

Pelo menos, assume-se o que é considerado “essencial”. Artes? Nem por isso… só se for para consumo pessoal. Não inalando, claro.

Pintura

 

Sim, Sempre Ficamos Com A Conta Redonda De 15 Disciplinas No 3º Ciclo

E depois ainda há quem fale na fragmentação do currículo ou na necessidade de o “emagrecer”… cada um quer a sua fatia, mas depois, ai que as crianças têm muitas aulas e tal, corte-se na História, nas Ciências ou nas Artes (ainda existem no currículo?).

E que tal o “voluntariado” ser voluntário?

É uma ideia peregrina, certo? Assim como ser algo feito na comunidade, em “tempo devidamente valorizado” com as famílias… num espírito de responsabilidade social e não apenas de um quilinho de feijão para o caso da jonê?

Marcelo quer disciplina de voluntariado nas escolas e mais atividade em empresas

Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu mesmo a introdução, “nos currículos, de um tempo devidamente valorizado para essa forma de responsabilidade social”, como acontece noutros países.

marcelo-rebelo-de-sousa-borat

(caro Presidente, dedique-se a coisas mais a sério, do tipo “regionalização já no terreno, a fingir que não” e deixe-se de floreados…)