Sim, Descobrimos O Caminho Marítimo Para A Índia, Em Busca De “Cristãos E Especiaria”, Mas Acabámos Falidos E Nem O Camões Deixou Descendência Para Ganhar Com Os Direitos De Autor Da Epopeia Maior

Tenho sempre um problema fundamental com o uso e abuso demagógico da História para efeitos de agit-prop. Neste caso é por causa da questão do “digital” na Educação. Como se meia dúzia de “salas do século XXI” equivalessem a chegar a Calecute, João Couvaneiro vai por ali abaixo e esquece-se que se o Gama conseguiu glória, honrarias e extensão generosa para o título majestático de D. Manuel, não é menos verdade que a meio do século XVI estávamos falidos e que países que pouco ou nada descobriram souberam ser empreendedores de outro modo (Holanda, só para dar o exemplo de um pequenito em extensão) e conseguiram manter-se ricos desde então. Embora eventualmente com poetas de menor qualidade.

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João Couvaneiro in JL/Educação, 26 de Fevereiro de 2020

Não é que eu ache que a grande Poesia valha menos do que uma balança comercial razoavelmente favorável desde o século XVII, mas talvez fosse bom irmos além da superfície dos chavões históricos.

E depois, claro, lembro-me sempre do Magalhães e do duplo inconseguimento, seja o do próprio Fernão, frechado ao serviço de Castela na ilha de Máctan, seja o do aparato digital dos tempos dos engenheiro e seu muito mitigado aproveitamento pedagógico.

(ninguém está contra o uso de tecnologias que há quem use antes dos concursos para professor do ano, apenas contra um certo deslumbramento meio apatetado que por aí anda…)

Será Que Nos Andam A “Vender” A “Narrativa” Verdadeira?

Porque eu ando cansado do mito finlandês e não é por falta de informação que continuam a papagueá-lo. É por outro tipo de razões.

Finland’s recent decline in international test scores has led many to question whether its education system is truly the best.

(…)

In 2000, the Program for International Student Assessment (PISA) released the results of its first survey of education attainment. Administrated by the Organization for Economic Cooperation and Development, the triennial assessment tested the skills and knowledge of 15-year-olds around the world.

That year, Finland handily came out as a top performer, scoring high in math and science, and number one in reading. The United States’ performance that same year, for comparison’s sake, could best be described as middling. These results led many to claim that Finland had the best education system in the world. Educators and politicians swarmed to the Nordic country in the hopes of discovering the source of their golden touch.

Then things took a turn, and Finland’s standings began to slip. Between 2006 and 2012, its scores in science, reading, and math fell sharply: 18, 23, and 29 points respectively. PISA 2015 saw further drops; meanwhile, other top performers have remained relatively steady.

“Finland was on a downwards slope, not an upwards one,” writes Tim Oates, director of assessment research and development at Cambridge Assessment. “All the assumptions in 2000 seemed to be of Finland at the top and on the rise, not on the way down. And that was mistaking PISA for a longitudinal study, rather than a cross-sectional one.”

While Finland remains a top performer, it has lost its luster in the eyes of many experts, bringing criticisms of Finland’s education system to the debate.

Já em 2005, havia que explicasse a razão do “milagre” e antecipasse uma evolução problemática com base nos paradoxos que se verificavam na educação finlandesa, ou seja, que devia o seu bom desempenho em boa parte ao seu carácter tradicional, rural e herdeiro de um passado conservador e autoritário.

In conclusion, two paradoxes are identifiable in the success story of Finnish schooling. First, the model pupil depicted in the strongly future-oriented PISA 2000 study seems to lean largely on the past, or at least the passing world, on the agrarian and pre-industrialized society, on the ethos of obedience and subjection that may be at its strongest in Finland among late modern European societies. This paradox leads to the question of what will happen to teaching and learning in Finnish schools when teachers no longer believe in their traditional mission to be model citizens and transmitters of knowledge, but rather see themselves as facilitators, tutors and mentors.
What will happen to teaching and learning in Finnish schools when the pupils no longer accept their position as pupils, but rather ‘climb the walls’, as one urban primary-school principal put it?

O que aconteceu? Uma queda nos resultados!

Claro que não é isso que nos/vos contam as deslumbradas luminárias nacionais. Como aconteceu com as maravilhosas reformas descentralizadoras da Suécia que acabaram revertidas em função do aumento das desigualdades e dos maus resultados.

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O Horror À Falácia

Já cheguei à página 51 do livro de João Costa e João Couvaneiro, mais uma em que se não se cumprem as pretensas boas intenções enunciadas antes (pp 18-19) sobre a moderação do discurso adoptado.

Esta página corresponde ao início do capítulo em que se pretende ridicularizar – nunca nomeando de forma clara, para evitar o confronto transparente – quem alegadamente considera ser da ordem do “horror ao conhecimento” a postura de alguns pedagogos que insistem na prioridade das competências, algo que é mais do que evidente nos documentos orientadores (Perfil do Aluno, Aprendizagens Essenciais, etc) produzidos durante este mandato na área da Educação.

Citemos, com a devida imagem:

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Em matéria de argumentações intelectualmente pouco sérias, procurando iludir o debate com o ruído de proclamações arreigadas em slogans, o que dizer da seguinte, produzida por alguém que diz ter uma postura “equilibrada”, na tal entrevista em que considerou que também falou da menoridade dos “conhecimentos enciclopédicos” (algo que seria profusamente glosado nos dias e semanas seguintes pelos discípulos do novo tempo educacional):

Nas escolas, os alunos estão a viver rotinas de “memorizo informação, despejo no dia do teste e, a seguir, esqueço”. E isto significa que há aprendizagens que não se estão a consolidar.

Mas pronto, vamos tentar perceber ao que se referirão aos autores ou a quem. Coloco-me fora da contenda, pois sou soldado raso. Sei que há dois ou três autores que, ao longo dos anos, têm um discurso muito crítico da abordagem das “competências” e da forma como o conhecimento é menorizado nesta tendência pedagógica. Uma pesquisa breve devolve-me um artigo conjunto de dois deles (Carlos Fiolhais e Guilherme Valente) com o título de “O horror aos melhores ou a inutilidade da escola”. Mas… é de 26 de Abril de 2001, como reacção à primeira investida deste tipo de pedagogia das competências e transversalidades, que ficou conhecida como ” Gestão Flexível do Currículo”. Porque é importante que se perceba que este pseudo-debate tem vinte anos e João Costa e João Couvaneiro chegam muito atrasados a algo que tem História. Não sei se a desconhecem ou se apenas fazem por ignorar.

Curiosamente, nos tempos recentes, essa é uma expressão de que o google não nos devolve referências, muito muito em relação aos debates ligados à promoção das competências como uma espécie de fase superior do desempenho dos alunos. Nem sequer nos devolve nada relativo ao anterior ministro Nuno Crato. Ou seja, não sabemos bem sobre o que ou quem estão a falar os autores, em especial quando recorrem a tal expressão, pelo que seria mais claro que evitassem, como prometerem nas primeiras páginas, a caricatura e o simplismo das posições que identificam como adversas. Sim, a mim não horroriza tal expressão, mas, como disse, não estou ao nível dos autores na elevação intelectual e argumentativa com que tratam estas questões.

Mas… posso sempre recorrer ao único autor que julgo “incontroverso”, avesso ao “óbvio” e que escreveu sobre o “horror de conhecer”.

Por que pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas, [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma idéia
A qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.  
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano; 
Quer na ilusão, quer na desilusão.

Retiremos e guardemos para pensar e repensar que “A fé é isto; o pensamento a querer enganar-se eternamente”.

Da Incomunicabilidade

Há vários meses, em off, discutia com um articulista de “Direita” a obsessão que ele e alguns outros pareciam ter com os professores e contra as suas reivindicações. A resposta dele, a certa altura, só me surpreendeu pela metade e acho que já a citei nalgum post por aqui. Escreveu ele qualquer coisa como “tu não fazes ideia da malta de Esquerda que vos detesta”, acrescentando algo como “só que há quem não o queira assumir claramente em público”.

Ora bem, a São José Almeida deixou de ter esses problemas. Na boa tradição marxista (não sei se neo) os enfermeiros e professores fazem parte das classes privilegiadas e, portanto, qualquer tipo de “justiça” que pretendam leva com a falácia demagógica do “foram só vocês que sofreram?” Como se “justiça” e altruísmo fosse sofrer toda a gente o máximo. Sim, tenho gente amiga e mesmo parentes na comunicação social, sei que perderam muito do que tiveram em outros tempos. Isso justifica que todos tenhamos de levar pela medida grande, para que se sintam menos mal? O nivelamento pela mediocridade argumentativa e material não deveria ser a norma em gente que se quer inteligente. Mas a geringonça ideológico-comunicacional é isto.

Andam-lhe a faltar algumas leituras sobre o que é “absurdo” ou até sobre o “egoísmo”, embora as palavras em tempos de geringonça – como em tempos de troika, eu sei, ok? – passaram a ter apenas a membrana exterior e mais nada é reconhecível no seu interior.

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São José Almeida, Público, 2 de Março de 2019

2ª Feira, 25 – Conclusões, Só Antes das Negociações

Servidas em primeira página no Semanário do Regime com o detalhe (para mim, secundário) das declarações atribuídas a Centeno não corresponderem a factos verificáveis ou, pelo menos, coincidentes com outras declarações.

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Expresso, 23 de Fevereiro de 2019

(onde andam os “radicais” quando era preciso denunciar que a “ditadura das Finanças” em defesa do “interesse nacional” tem uma das suas raízes no Salazar de 1928-32?)

E Se Ousarmos Pensar Fora do Politicamente Correcto…

… e formos analisar as causas do ano de “atraso” e do “chumbo”? E se forem alunos que já fizeram o Básico com imensas dificuldades ou – blasfémia! – mesmo com imenso desinteresse?

Desde quando desistimos de toda um leque de explicações só porque deslocam a responsabilidade do insucesso para os próprios alunos? A que ponto vamos chegar nessa truncagem da realidade?

Basta entrar no secundário um ano mais tarde para o insucesso duplicar

Chumbar nem que seja um ano tem impacto no percurso durante o secundário. Região, natureza da escola e escalão do apoio social também ditam sucesso ou insucesso.

P(érolas de) S(abedoria) – 2

Conheci episodicamente Paulo Trigo Pereira em dois debates civilizados e corteses, um deles por convite dele. Pareceu-me sensato, embora já se estivesse a lançar na política, o que é sempre sinal de que as coisas podem descambar. Como seu aparente “saber técnico” dá uma face de rigor a posições políticas questionáveis, em especial quando embrulha tudo em muitos números que pouca gente se preocupe em desmontar. Em relação aos professores, percebe-se que o que está em causa é mais do que uma análise técnica da questão, mas sim um qualquer preconceito profundo que ele confunde com “justiça” e algumas vezes com “equidade”, noções que não desenvolve sem saltos na lógica da argumentação.

Na entrevista que dá hoje ao Público já nem se preocupa em esconder isso quando afirma:

Imaginemos que o PS ganha sem maioria absoluta e precisa de apoio parlamentar. Não pode casar com um partido que tenha como linha vermelha, por exemplo, dar o tempo integral de serviço aos professores. Mesmo que houvesse dinheiro, eu achava que não se devia dar, porque não é justo.

O que significa que ele assume por completo a tese do esbulho salarial dos professores, praticado a partir dos dois congelamentos de carreira iniciados pelo seu partido. Ele acha que não se deve contar o tempo de serviço aos professores porque não e ponto final, parágrafo. Não é “justo” e segue com a conversa para outro lado. PTP é uma outra face de António Costa, aquela que desde o início nunca considerou sequer a possibilidade de devolver aos professores a contagem integral do seu tempo de serviço. A face de António Costa que corresponde ao ministro de Sócrates, ao amigo de Maria de Lurdes Rodrigues, ao actual aio de Centeno, ao político que não perdoa aos professores terem tido um papel fulcral na queda do regime socrático. Papel que, infelizmente, muito pouca gente agradece, reservando para si (quantas vezes sem terem feito pevas) uma inexistente coragem e glória.

Paulo Trigo Pereira sabe certamente que a forma como fala em “justiça” é falacciosa e corresponde a um atropelo ao Estado de Direito na forma como é ignorado e massacrado o Estatuto da Carreira Docente que ele desejava continuar a ter uma divisão com titulares e talvez mesmo mais “categorias”.

PTP poderia justificar de outro modo as suas posições e de António Costa. Assim é apenas alguém que usa palavras como simulacros do seu significado, perdendo qualquer credibilidade pela forma como abusa da “justiça”.

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