Outra 5ª Feira, 25 De Abril (Ou… Um Post Meio Anarca Para Descarregarem A Bílis, Porque Faz Bem)

Não faço parte dos “donos do 25 de Abril” e acho que há muitos anos, para além de actividades nas escolas, que não me envolvo no cerimonial formal de comemoração da data. Não porque ela deva ser esquecida ou os próprios rituais eliminados, mas porque me sinto que estaria mal acompanhado na maior parte das iniciativas oficiais. Não sou dos que dizem que não serviu para nada, mas estou longe de o festejar porque serviu para tudo, para alguns. Não critico o regime democrático que instaurou, critico o que agora querem fazer passar por uma democracia plena, até alargada no seu arco de apoio à governação, quando o que se passa é uma degenerescência evidente dos procedimentos e uma mediocridade assustadora do pessoal político. Sinto-me, enquanto cidadão, ofendido por ter de escolher na maior parte dos casos, quando nos deixam votar entre opções medíocres, más ou muito más. Porque foi assim que as coisas evoluíram, sendo mais rápida a adesão às más práticas permitidas pela liberdade do que às suas virtudes. Não por falha do “sistema”, mas mesmo por uma espécie de sofreguidão e volúpia de quem desde cedo se apropriou do poder. Dos poderes. E modelou a sua acção à medida dos seus interesses, chamando-lhe “interesse colectivo” ou “comum”.

A culpa é dos cidadãos, que assim deixaram que fosse? Que votaram “neles”? Que não se envolveram de modo a que as coisas fossem diferentes?

Não sejamos ingénuos. A arraia-miúda só sobre na cadeia alimentar da política se tiveram o perfil adequado e a flexibilidade vertebral essencial para se adequar às situações. Os partidos e outras “organizações” rapidamente se transformaram em estruturas burocráticas que premeiam a lógica e disciplina da obediência hierárquica, mesmo quando se encenam dissidências. As verdadeiras “alternativas” surgem de mal disfarçadas cooptações. Os fenómenos “novos” rapidamente envelhecem e se distinguem do que havia antes. Os rostos são os mesmos ou são herdeiros do que eram e infirmam a crença numa evolução que aperfeiçoa.

Basta ligar a televisão e ver a naftalina que cobre a cerimónia no Parlamento onde a ética é definida por quem dá a senha para lhe marcarem a presença e a transparência é legislada de forma a que quem prevaricou sem decoro seja retrospectivamente ilibado.  Onde a figura máxima da “Casa da Democracia” parece uma figura de cera premiada pela sua rebeldia juvenil. Em que os cidadãos são gozados quando tentam fazer algo fora da caixa, que está em letra de lei mas não é para levar a sério. Recentemente, ao contrário de quem gosta de me acusar de procurar protagonismos vários, disse aos meus colegas que me recusava a voltar a ir a reuniões encenadas com grupos parlamentares ou comissões de peixeiradas, onde se atropelam as regras com a maior falta de vergonha. Levo a maior parte do tempo a pensar até que ponto devo exercer auto-censura no que escrevo pois, para ser mesmo sincero, acho que somos governados há muito tempo por sucessivas camarilhas de mentirosos compulsivos, sendo excepção, seja a nível central ou local, quem se preocupa mesmo com o bem-estar dos seus concidadãos.

É simplista dizer que são todos iguais? Sim, claro, quem disse que a aldrabice e a mentira só têm uma modalidade? A “arte” está mesmo em fornecer-nos diferentes “alternativas” que não passam de diferentes mentiras. Porque a “verdade” (por relativa ou contextual que possa ser) tende a ser uma e as falsidades podem ser múltiplas.

E o fenómeno das fake news, convenientemente associadas às “redes sociais” e à vox populi de quem não entra nos grandes pactos comunicacionais do regime, tem sido de enorme utilidade para quem espalha notícias falsas a partir dos centros de poder, fazendo primeiras páginas há anos e anos com informação mistificadoras. Porque não tenham dúvidas que as fake news existam há muito mais tempo do que a invenção do termo. Temos um Presidente que já há décadas, enquanto “jornalista” ou “analista” crou entre nós os então chamados “factos políticos”. Temos uma imprensa amarrada por vulnerabilidade económica a estar nos favores de quem detém poder económico (público ou privado) para promover gurus de ocasião e comprar o silêncio sobre o que pode incomodar ou promover a sua divulgação quando já nada pode ser evitado. Em que se estabeleceu um pacto de bastidores de mútuo interesse para coordenar a divulgação de uma “realidade” conveniente aos interesses partilhados. Em que os ministros e “especialistas” aparecem quando querem e lhes dá jeito, não na sequência da sua chamada por ser isso de interesse efectivamente público. Costa e Centeno comunicam quando desejam aparecer. E a vénia é feita, a carpete adequadamente vermelha é estendida. A guarda pretoriana à esquerda (como em outro mandato era à direita) entra em cena se as coisas correm mal e usam as amaldiçoadas “redes sociais” para fazerem aquilo que dizem que as redes sociais não deveriam fazer: espalhar mentiras, insinuações, factos falsos. As estratégias de controle da informação na comunicação social dos tempos do engenheiro, pensadas inicialmente com durão/portas/santa (criação de “centrais de comunicação”, lembram-se?), vieram para ficar e apenas estão ligeiramente menos óbvias. Aprenderam a encobrir melhor o rasto dos favores. São mais insidiosos na forma como tecem a rede que os protege “da rua”. Que, como se sabe, em 25 de Abril de 1974 ficou serena, deserta, tendo caído a ditadura por obra e arte de alguma comissão parlamentar com silvanos e porfírios.

O espírito libertário ou liberal (conforme os gostos) do 25 de Abril está em quem resiste à cristalização destas estratégias, à adulteração da linguagem, à manipulação dos dados, não em que coloca um cravo na lapela um dia por ano. Em quem resiste, em quem corre o risco de ser difamado pelas costas, denunciado ou investigado por querer saber a verdade. Não em que se apropriou dos aparelhos ideológicos e persecutórios do Estado para os colocar ao serviço de alguns, em coreográfico rotativismo,

O 25 de Abril está morto? Viva o 25 de Abril!

cravo murcho

Pelo Jornal de Letras – O Triunfo da Lógica Feudal nas Escolas

Dois anos depois de começar a colaboração permanente com o JL/Educação, comecei a colocar alguns dos textos mais antigos (2017, mas irei em breve acrescentar os de 2018), ali a partir da ligação sob o título do blogue. Como é a única colaboração paga, procuro não divulgar os textos na íntegra, mas já é tempo de os ir deixando arquivados para “memória futura”.

O desta semana é sobre a fase final de instalação da lógica feudo-vassálica no sistema educativo e nas escolas. Por amanhã ser 25 de Abril deixo um excerto mais longo do que o habitual.

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No sistema educativo e no interior das escolas passou a predominar um modelo feudal, em que o suserano distribui os seus favores aos vassalos, mas que os pode retirar a qualquer momento. Os directores e todos os órgãos internos de administração das escolas e agrupamentos podem a qualquer momento ser exonerados das suas funções por parte da tutela, assim como os directores podem exonerar dos seus cargos os elementos escolhidos numa eleição restrita para coordenadores de departamento. Em que o Conselho Geral tem uma lógica de Câmara Corporativa, mesmo se os representantes do pessoal docente e não docente (ainda) são escolhidos por voto directo.

Estando no quarto ano de um governo apoiado por uma maioria parlamentar de “Esquerda”, incluindo as forças partidárias onde se concentra a larga maioria daqueles que se declaram como os mais legítimos herdeiros do “espírito de Abril”, nada, absolutamente nada, foi feito na área do modelo de gestão escolar para recuperar os mecanismos democráticos que foram sendo perdidos. Pelo contrário, aprofundaram-se medidas que são completamente incompatíveis com um regresso da Democracia às escolas, como seja a sua colocação na dependência de estruturas autárquicas que, embora eleitas, não o foram para se sobreporem, no agravamento de uma lógica de hierarquização, aos órgãos internos das escolas.

O que a chamada “descentralização de competências” trouxe foi apenas mais um degrau na estrutura da hierarquia feudo-vassálica que tem o Ministério da Educação no topo como “suserano dos suseranos” e os professores como meros súbditos, que se querem arregimentados sem discussão, uma espécie de vavassalos dos directores que são suseranos no seu domínio, mas ao mesmo tempo vassalos, se desobedecerem às indicações do seu suserano (que em crescentes partes do território começa a ser o presidente da câmara ou em quem ele delegue as questões da Educação).

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Atrofia Democrática Ou Apenas Medo De Perder “Espaço”, Negócios, ETC?

Há uns meses que um grupo de professores dinamizado, entre outros, pelo Maurício Brito, tem o projecto de submeter os dados “vendidos” pelo Governo sobre o custo da recuperação integral do tempo de serviço docente a um exame especializado. O próprio Maurício fez os seus cálculos, que funcionam como uma boa base de trabalho (e foram entregues no Parlamento quando da audição da Comissão Representativa da ILC), mas é algo que merecia um aprofundamento maior, por quem tem mais conhecimento deste tipo de meandros.

E então começaram a fazer-se contactos a vários níveis, de empresas reconhecidas na área da auditoria a investigadores universitários na área da Educação, ficando claro que o estudo seria pago e não se estava a pedir uma “borla” fosse a quem fosse. De um modo que não posso dizer inesperado, houve contactos que ficaram sem qualquer resposta e outros que, por esta ou aquela razão, optaram por recusar de forma mais ou menos cortês realizar tal estudo. Claro que se continuará a insistir… até porque os sindicatos neste particular são tão rigorosos na forma de apresentar as contas como o ME (não chega apresentar um número final, sem especificar contas, critérios, metodologias), mas percebe-se que estamos neste momento bem pior do que nos tempos de Sócrates. Porque em 2009, por exemplo, percebia-se um aroma de fim de regime e o Governo de então era uma ilha cercada. Agora, em 2019, com a geringonça a blindar de um lado, um PSD inócuo e um CDS-não-me-comprometam a fazer de muro disfarçado do outro, a fortaleza é quase inatacável.

Mas ainda há gauleses irredutíveis…

 

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O Conceito de “Recurso Humano” Em Educação

De acordo com a boa governança central e local passa por aproveitar seja quem for para fazer seja o que for. Basicamente, qualquer pessoa com insuficiência de horário ou horas do 79 tem qualificações instantâneas para desempenhar uma multiplicidade de funções numa escola, só faltando varrer os corredores (sem desprimor para quem o faz a 3-4 euros a hora, arrancado a um Centro de Emprego). A “boa gestão” passa por aproveitar tudo o que mexa para qualquer coisa que seja preciso fazer. Como se, num hospital, um radiologista com algumas horas sem exames marcados pudesse ir fazer colonoscopias, partos ou qualquer coisa em falta. Ou, em outro cenário, um advogado especializado anos a fio em Direito Comercial ir defender um acusado de homicídio em massa.

Não, isto não é uma caricatura.

Antes fosse.

(e não me venham com a greve aos excessos não lectivos, porque não é disso que se trata)

Nas escolas, educadores e professores servem para tudo e mais alguma coisa; desde que faça falta e existam “recursos humanos” disponíveis, não interessa se é professor de mecânica, mandarim ou miscelâneas variadas, fica logo habilitado para leccionar qualquer coisa acabada de inventar por um secretário cheio de ideias ou para assegurar uma função que satisfaça os cálculos de uma secretária que se queira destacar pela “boa administração”.

Ora… um professor não é, por formação ou obrigação de economia financeira, um assistente social, um mediador cultural ou familiar, um terapeuta educacional, um especialista em acompanhamento de crianças no espectro do autismo ou um psicólogo, desde que misturado em meio litro de conversa fiada a elogiar-lhe as imensas capacidades. Sim, há quem tenha “jeito”, mas isso não pode ser a regra. Qualquer coisa que seja “multidisciplinar” não pode ser constituída por 90% de pessoas com a mesma matriz formativa.

Nas escolas, penso que em grande parte por uma crescente falta de vértebras, tem-se aceitado tudo e mais alguma coisa. Eu, que me formei em História e profissionalizei em Português. já perdi a conta às disciplinas ou áreas disciplinares que polvilharam o currículo nos últimos 25 anos. É o sonho dos que acham que os professores não são técnicos qualificados especializados mas meros “generalistas” que podem acudir a tudo, desde que não se gastem mais recursos.

Infelizmente, quem deveria funcionar como filtro aos desvarios da tutela nestas matérias, em defesa da própria qualidade do serviço público prestado, limita-se a enunciações retóricas de insatisfações inconsequentes, aceitando que sejamos meras peças de engrenagem.

Se isso me desgosta e m’anoja?

Digamos que isso é um tímido understatement, para dar uma de cosmopolitismo linguístico.

engrenagem

É Melhor Começarem Mesmo A Ver Como Estão As Escolas…

Mas o que há mais entre nós são “documentos” nas gavetas ou n’ “Os meus documentos”.

Documento de 2014 previu colapso e aconselhava encerramento da estrada de Borba

(…)

Este memorando é divulgado pelo Expresso que refere que o documento foi assinado por representantes de quatro empresas que exploram pedreiras na zona, depois de “reuniões informais de trabalho” com a Direcção Regional de Economia do Alentejo (DREA) e com a Câmara de Borba.

Avestruz

 

Causalidades

Leio artigos que procuram explicar a causalidade de certos fenómenos sociais ou educativos com base na coincidência no tempo de outros fenómenos, escolhidos de forma tão conveniente quanto aleatória. Não vou apontar dedos, nomear nomes, fazer ligações desconfortáveis. Dá mais gozo exemplificar o disparate… imaginemos que sempre que a tia Ifigénia vai à janela vê carros a passar na rua. Ora, não é por causa dela ir à janela que os carros passam. É uma coincidência no tempo, apenas. Não há uma relação causal. Mas, infelizmente, em Educação o nível da explicação técnico-política do “(in)sucesso” e outras coisas anda neste patamar de sofisticação. À macro e micro-escala.

AI