E Há Aquela Altura Em Que Se Entra Em Delírio Megalomaníaco

Ministério da Educação quer criar rede mundial de “escolas magalhânicas”

(…)

Durante a apresentação hoje em Vila Real das iniciativas da Educação no âmbito do programa das comemorações do V centenário da primeira viagem comandada pelo navegador português Fernão de Magalhães, o secretário de Estado da Educação, João Costa, disse que se pretende promover o estudo, a partilha de conhecimento sobre a circum-navegação, o intercâmbio, a cidadania e a multiculturalidade.

Até 2022, vai ser realizado “um conjunto alargado” de iniciativas que juntam as escolas do ensino regular, do ensino profissional e artístico e as bibliotecas escolares.

O desafio é, segundo João Costa, criar “uma rede de escolas a nível mundial nas cidades tocadas na viagem de circum-navegação”.

E depois lembrei-me…

 

O Beco Da Cidadania

A criação da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento é daquelas medidas que parece muito béééém às pessoas muito béééém, muito dentro do seu tempo e da construção dum século XXI fraterno, solidário e humanista, que acham que a sua visão do mundo e da democracia é a única válida, por muito que seja completamente distópica.

No enquadramento oficial da disciplina pode ler-se que:

Visando a construção sólida da formação humanística dos alunos, para que assumam a sua cidadania garantindo o respeito pelos valores democráticos básicos e pelos direitos humanos, tanto a nível individual como social, a educação constitui-se como uma ferramenta vital. Deste modo, na Cidadania e Desenvolvimento (CD) os professores têm como missão preparar os alunos para a vida, para serem cidadãos democráticos, participativos e humanistas, numa época de diversidade social e cultural crescente, no sentido de promover a tolerância e a não discriminação, bem como de suprimir os radicalismos violentos.

Se bem percebem, a disciplina é uma “missão” dos professores (nos nossos tempos há que relembrar que o uso do masculino é redutor, em especial numa profissão tão feminina, mas quem escreveu isto não deve ter ido a nenhuma formação com aquele miúdo tããão esperto do Bloco sobre igualdade de géneros e bonés), mas é de uma grande ambição em relação aos alunos.

O primeiro problema é que, embora prevendo a avaliação da “componente CD”, conforme se pode ler no mesmo documento, não terá ocorrido ao legislador e aos seus operacionalizadores teóricos que a mesma entra nas contas para a retenção/transição dos alunos.

A avaliação interna das aprendizagens no âmbito da componente de CD, à semelhança das restantes disciplinas, é da responsabilidade dos professores e dos órgãos de administração e gestão, de coordenação e supervisão pedagógica da escola, a quem competirá os procedimentos adequados a cada um dos modos de organização e funcionamento da referida componente.
Tendo em conta as características desta componente, a avaliação deverá ter lugar de forma contínua e sistemática, adaptada aos avaliados, às atividades e aos contextos em que ocorre. Assim, as formas de recolha de informação deverão ser diversificadas e devem ser utilizadas diferentes técnicas e instrumentos de avaliação, valorizando o desenvolvimento das atividades.

O segundo problema é que tão doutos legisladores e teorizadores apenas ignoraram que a natureza humana, em particular a rebeldia natural e tão apreciada nos jovens (com destaque para os delegados do Bloco desde os 15 anos), faz com que a “componente CD” nem sempre tenha sido verdadeiramente entendida, em especial quando servida em 45 minutos semanais ou 90 (se for em fatia semestral), confundindo-se com a velha “Educação para a Cidadania” ou “Formação Cívica” que tinha nota mas sem efeitos na transição. E, por muito “humanistas” que @s professor@s sejam, não conseguem em 10 aulas num período, alterar uma situação que, em algumas turmas, é de absoluta descontracção e total desinteresse por nacos de prosa como o seguinte:

A componente de Cidadania e Desenvolvimento visa contribuir para o desenvolvimento de atitudes e comportamentos, de diálogo e no respeito pelos outros, alicerçando modos de estar em sociedade que tenham como referência os direitos humanos, nomeadamente os valores da igualdade, da democracia e da justiça social.

Consequências:

  • Ou a “componente CD” deixa de ter classificação a contar para a transição e consta-me que já há por aí emissários de tão ditosa nova.
  • Ou a pressão para garantirem sucesso por portaria/despacho/nota informativa será brutal sobre @s professor@s da “componente” e serão fustigad@s até entrarem no verdadeiro espírito da coisa tod@s aquel@s que revelarem excesso de autonomia e escassez da flexibilidade adequada.

Vamos a uma aposta?

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Sou Mesmo Bruxo!

Eis o projecto do próximo mandato da geringonça. O PS não adere já apenas por achar que o assunto ainda não está maduro, mas é só achar que o povo já engole tudo.

Bloco vai propor fim dos exames do 9.º ano

Deputada Joana Mortágua fez o anúncio durante o debate das recomendações do CDS e do PCP para que o Governo estude a reorganização dos vários ciclos de ensino, desde o básico ao secundário. O PS alega que o assunto não está no programa de Governo.

Já o tinha previsto esta semana e enviei ontem um texto para sair daqui a dois sábados sobre rankings e transparência em que falo disto mesmo. Prepara-se o fim de tudo que permita uma avaliação externa do desempenho dos alunos e das escolas no Ensino Básico, num salto espectacular para o passado, directamente para meados dos anos 90, a época dourada de alguns. Que não percebem que, mesmo sem aquela obsessão do “século XXI” os tempos mudaram e medidas destas só servem para retirar credibilidade à tão amada Escola Pública. Ficarão as provas de aferição que, vamos lá ser sinceros, só têm servido para alguns reclamarem mais horas no currículo do 1º ciclo.

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É O Delírio Das Cruzinhas

Isto (FINAL Mobilidade de Medidas 2º 3º ciclo e Sec) é uma espécie de orgasmo inclusivo. Anda a ser partilhado por aí como sendo algo a aplicar. Para operacionalizar estas explicações, igualmente orgásmicas: FINAL AVALIACAO Alunos NecAprend. Que parecem querer “ajudar” a aplicar o 54/2018.

Cruzes, credo. Embora sinta a falta de umas alíneas explicativas adicionais. Numa perspectiva holística, claro. Desde que desmontemos tudo em quadradinhos e grelhas. E depois eu é que sou má-língua, David!

Cruzes

 

Delírios da Aferição “Artística” – 3

Para compreender melhor este post, convém ler a contextualização feita no anterior. Embora, mesmo sem isso, seja perceptível o enorme paradoxo dos defensores de uma pedagogia “moderna”, “inovadora”, “criativa” e a forma como depois pretendem proceder ao registo exaustivo do desempenho (ou será das competências) dos alunos de 7-8 anos numa prova de “Expressão Artística”. As grelhas, antes de mais, são um quebra-cabeças para quem tem de as preencher. Mas têm um sentido mais profundo… quando se percebe que isto é a “aferição boa” que certas almas defendem para levar o nosso ensino para o século XXI.

Para que é de pequenino que se grelha o pepino.

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Delírios da Aferição “Artística” – 2

Acho que é importante contextualizar-se a realização destas provas de aferição para o 2º ano de escolaridade, para efeitos de análise da coerência dos conceitos e das metodologias.

Relembremos: uma prova final de 4º ano com um peso de 30% na avaliação era má, afunilava o ensino para o treino para as provas, traumatizava crianças ainda muito jovens com o seu formalismo e, não estou a exagerar, era uma espécie de resquício do “fascismo” e do “exame da 4ª classe”. É importante termos isto em mente e mais umas coisas sobre a importância da libertação do ensino das amarras de uma pedagogia muito directiva e obcecada com o desempenho, os conhecimentos, o tempo para fazer algo mais lúdico.

Observemos agora o que se pretende que alunos com 7-8 anos façam durante 90 minutos mais 45, mantendo a sua atenção numa prova profundamente palavrosa e com um enunciado que seria excessivo numa tarefa curricular de leitura criativa, seguida de dramatização.

Até pode ser “giro”, mas para alunos do 2º ano é esta a forma correcta de se avaliar/aferir seja o que for numa área como as expressões “artísticas”? Qual o “paradigma” conceptual que permite avaliar/aferir o desempenho “artístico” de uma criança nesta altura? Sim, conheço alguns referenciais para se fazerem diagnósticos individuais, mas não com provas “universais”.

 

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Delírios da Aferição “Artística”

Ainda não coloquei as mãos em todo o guião do aplicador da provas de aferição “expressões artísticas” do 2º ano. Mas já me chegaram algumas imagens que demonstram até que ponto quem faz estas coisas desconhece em absoluto os miúdos com esta idade. Há nacos de instruções completamente disparatados, seja em extensão, seja em multiplicidade de indicações.

Perdoai-lhes, senhor@s, porque não sabem o que fazem!


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