Tempos Estranhos

Os defensores da Verdade absoluta a tornarem-se relativistas e os arautos da tolerância a revelarem a maior das intolerâncias.

Quando os tempos ficam difíceis, o verniz estala e percebe-se que há muito poucas verdadeiras diferenças entre as cliques em disputa. Apenas interesses e estratégias divergentes para manter os poderes.

Demagogia À Solta

Já depois da meia-noite, na RTP 3, apareceu a notícia de que o senhor da EPIS (o entusiasmado com a “oportunidade” criada pela pandemia para fazer avançar a Educação da Nação) tinha ido à Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha, entregar 2 (dois) computadores a alunos carenciados daquele agrupamento para que pudessem seguir as aulas à distância.

Na peça, o director do Agrupamento, com um ar meio embaraçado e de quem tinha sido “convidado” a fazer aquele papel, dizia que tinha 2900 alunos, 500 dos quais sem equipamentos para acompanharem o ensino à distância. Mas pronto… o senhor da EPIS, em nome dos “empresários pela inclusão social”, estava ali a dar 2 (dois) computadores a dois alunos escolhidos a dedo, obrigados a ir à escola em altura em que a dita deveria estar fechada, com direito a reportagem televisiva, numa modalidade de demagogia que roça a obscenidade propagandística.

Hoje de manhã, já estava na SICN a anunciar que vão dar não sei quantos computadores a alunos  restando saber se os vão obrigar também a desrespeitar as regras do confinamento social para que as televisões possam gravar a coisa sem terem de ir a bairros mais complicados e menos fotogénicos.

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(no site oficial da EPIS dizem que estão a acompanhar 4379 alunos e que estão prontos a gastar 370 euros no máximo por aluno, o que daria, no máximo dos máximos, 1,6 M€, o equivalentea pouco mais de 60% do salário anual de um qualquer mexia)

Eu Quero Do Mesmo Que Este Senhor Tomou!

O discurso das “oportunidades” e “desafios” em quem desconhece o quotidiano escolar diário e só frequenta salas de aula do Básico ou mesmo Secundário em modelo VIPtende a deixar-me um bocado farto. O salto lógico é… um professor até pode dar aulas assim a 10.000 alunos e resolvemos tudo com aquela centena de brigadeiros que mandámos para o terreno e merecem ser recompensados.

E acreditem que el@s já andam por aí…

A oportunidade de ouro para criar as escolas do século XXI

A crise da covid-19 criou a oportunidade de ouro para darmos o salto, finalmente, para uma Educação do século XXI. Há recursos humanos disponíveis e talento suficiente no país para iniciarmos este caminho já. Mãos à obra!

Orgasm

Nem Sempre Gostamos Do Que Os Espelhos Reflectem

Há um discurso anti-redes sociais com uma fortíssima componente demagógica e uma muito pouco menor de hipocrisia. E não falo apenas de ser gente que lá passa muito mais tempo do que eu a dizer mal do que lá se passa. É mais daquele género de postura “ética” a dizer que as redes sociais são uma espécie de antro do pior que existe na natureza humana e nisto incluo pessoas que até estimo bastante à distância, mas que me parecem desligadas da vida do país e que confundem o seu casulo particular com a Humanidade em geral. Ou então também não frequentam, por pouco que seja, cafés ou outros espaços públicos de convívio, o que inclui filas nos postos de correios, serviços públicos ou supermercados. A única diferença é, no essencial, a impossibilidade de se verem memes a partir do que as pessoas dizem, embora eu consiga vê-los nas suas caras.

Sim, há muita estupidez nas redes sociais, porque também há muita estupidez à solta por aí, mas, curiosamente, não foi nelas que nasceu a falsa notícia da primeira morte por covid-19 em Portugal. Foi num canal alegadamente noticioso e nem sequer a tão criticada CMTV. Assim como foram canais noticiosos tidos por fidedignos que multiplicaram a notícia de um inexistente estado de coma do escritor Luís Sepúlveda.

Claro… há as palermices em torno do mau uso de lixívias ou vinagre para matar o vírus ou tantas outras coisas da ordem das velhas mézinhas de outros tempos (poderia contar-vos uma de uma avó minha para resolver a obstipação que envolvia um talo de couve e… bem, fiquemos por aqui, restando dizer que só a ideia da concretização me faria ficar curado de qualquer pandemia). Mas não me parece que sejam coisas específicas das redes sociais, as quais são feitas do que as pessoas lá colocam.

As redes sociais são um espelho dos seus utilizadores, gente com banda larga, smartphone e nem sempre com apenas o 4º ou 6º ano de habilitações. Por observação directa, garanto que há gente bem certificada e mesmo com posições relevantes na sociedade que propaga mentiras de forma consciente em plataformas de que depois diz mal em conversas “inteligentes”. Nos últimos dias, foi um rodopio de candidatos a spin doctors ou a spinners, já não sei. E as ânsias censórias partem de muitas direcções, baseando-se tanto na ignorância como na sapiência mais sapiente. Num caso, ainda podemos explicar as coisas pela falta de (in)formação; mas no outro, apenas pela falta de carácter ou, hipótese muito válida, por ser muito incómodo o retrato/reflexo que as redes sociais fazem do que a sociedade é, pós-moderna no verniz, mas tacanha ali logo uns milímetros abaixo.

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E Agora Todos Percebem De Eutanásia; Desta, De Outra, De Nenhuma

Até o engenheiro decidiu escrever o seu artigo, que o Expresso acolheu. Como alguém (e estou longe de ser o único) que tem uma noção razoavelmente clara do que é a realidade de viver o sofrimento alheio em fase terminal, prefiro evitar qualquer das demagogias em confronto.

Debate

5ª Feira

Roça a obscenidade política toda a novela do IVA do gás e electricidade. Votar as contrapartidas antes de se votar a medida a que se aplicam é de uma maravilhosa singularidade. Assim como guardar para o fim as votações que, na devida ordem, podem causar birrinhas, dando tempo para negociatas de bastidores.

E depois queixam-se que os “populismos” nascem de fenómenos de iliteracia disto ou daquilo. Não, eles nascem de se constatar que temos quem ache que é por manter o IVA da luz em 23% que eu acendo velas em casa após o anoitecer. Ou que passo a tomar banho com água gelada. Que o ambiente se defende com impostos, enquanto se destrói a cobertura vegetal do país ou se criam excepções em série para construções em zonas protegidas. Quando muito pouco se faz para reduzir a poluição industrial ou a eficácia energética das grandes indústrias.

Há um dia ou dois, o nosso excelso PM declarava que era uma “bizarria” dar-se atenção aos novos partidos na comunicação social. Bizarro é ter décadas a fio gente a comentar sem qualquer contributo para nos esclarecer, funcionando apenas como correntes de transmissão das chefias partidárias e interesses pessoais. Gente que, em muitos casos, assistiu de camarote ou colaborou, nem que seja por omissão, em políticas de transparência altamente duvidosa. “Economistas” de ocasião que nada viram de grave anos a fio nas negociatas em torno da PT e da banca privada ou políticos, incluindo com responsabilidades executivas, que acharam que tudo foi uma “festa”. Comentadores que saltitam da vida política para administrações de grupos económicos, com apeadeiro em gabinetes de advogados. Para quem Angola era o paraíso dos negócios até terem medo de apanhar com salpicos de petrodólares corruptos.

Os “populismos” nascem de uma classe política de oportunistas que mentem sem pudor ou de invertebrados que saboreiam os ventos. Esta é uma tirada demagógica? Lamento, mas parece mais ser um retrato de uma realidade que não muda. Porque agora acusa-se de serem “demagogos” aqueles que denunciam a verdadeira demagogia do “ambientalmente irresponsável” e do “socialmente injusto”. Porque há “paradigmas” que parecem impossíveis de substituir.

Alcatrao

Será Que O PM Costa Se Aconselhou Com O SE Costa Quanto Ao Uso Demagógico Dos Advérbios De Modo?

Costa voltou a destacar os benefícios da proposta do Governo em contraposição com a do PSD que considera “financeiramente insustentável”, e que não respeita os princípios ambientais e é “socialmente injusta”.

Só faltou o “ambientalmente irresponsável”.

Embora eu ache que se poderia dizer que é uma medida “sustentavelmente financeira” e “justamente social” e andaríamos mais próximos da verdade dos factos.

Entretanto, aproveitando-se dos meandros das politiquices, o PCP ainda acaba em segunda muleta, porque o PAN já não consegue esconder ao que anda.

AntCosta

(parece que desta vez não ameaça demitir-se, apesar de birrar como menino mimalho que é…)