O Ovo E A Galinha

Qual apareceu primeiro? Um aluno meu de 5º ano respondeu, de forma muito acertada, que foi obviamente o ovo, pois já existiam ovos antes das galinhas, como se pode verificar por espécies como os dinossáurios.

Por cá, continuam a acusar-se os rankings de males imensos para a Educação, confundindo-se o retrato com a causa das coisas. PArece que seria melhor não se saber de nada. Dá origem a prosas e retóricas inflamadas, colhendo-se aplausos a esmo, mas não passa de demagogia e populismo ou, pior, de ocultação das razões profundas de alguns aspectos do “declínio” da Educação. Foram os rankings que deram cabo do currículo, reduziram os programas de várias disciplinas a esqueletos, alteraram regras da avaliação, desresponsabilizaram a indisciplina, aplainaram a carreira docente ou decretaram este modelo de gestão escolar?

Parece que sim para quem lava a alma e se purifica em público ao diabolizar os rankings, apagando tudo o resto por estes dias. Lamento, mas acho sempre curiosa a denúncia do maniqueísmo com base em argumentos maniqueístas.

Já sabemos que os rankings dão uma visão redutora da realidade escolar. A inexistência deles dá uma visão melhor ou dá visão nenhuma? Ou apenas a visão da propaganda oficial?

A Redescoberta Da Roda Quadrada

A OCDE descobriu que os alunos têm dificuldade em distinguir factos de opiniões na Internet e o ME acrescenta que são preocupantes os problemas resultantes da dificuldade em compreenderem o que lêem. Que constatações extraordinárias e inesperadas, só ao alcance de estudos internacionais. Claro que nestas ocasiões aparece logo o SE Costa (tão parco em intervenções em outras matérias menos demagógicas) a debitar chavões e verborreia variada, em alegre troca de preconceitos com o seu grande amigo Schleicher.

Entre os dois, espremendo bem, ainda se ficará a saber, quase por certo, que tudo isto resulta dos efeitos da pandemia (mesmo que o estudo seja anterior) e que tudo se resolve recuperando aprendizagens e formando os professores para ensinarem os alunos o que deveriam saber e foi culpa dos professores não terem ensinado, apesar dos alunos terem dito que ensinaram. E lá aparecem as “aprendizagens essenciais” como salvadoras do gosto pela leitura, quando a cada ano que passa o espartilho das obras a analisar nas aulas é maior. Quando o ensino da língua faz, em muitas passagens das tais “aprendizagens”, lembrar uma checklist de tipo administrativo.

Não tenho paciência para isto. Mandem-me costinhas, arianinhas e tiaguinhos da nova geração que aceitem dar aulas sem pensar, que não há mais pachorra para este nível de patacoada propagandística sem substância de quem confunde as suas opiniões com factos.

Importa-se de Repetir?

Há gente que de tanto se esforçar em agradar ao chefe, faz figuras muito tristemente apressadas. Foi a 3 de Junho, quando acreditavam em “milagres” (que não aconteceram por terem fechado “postigos”).

Daqui a uma semana os portugueses comemorarão o Dia de Portugal. Tal como em outros períodos da nossa longa historia, há fortes motivos de orgulho nos portugueses”, sustentou Joana Sá Pereira. 

Segundo a deputada do PS, na resposta à pandemia de covid-19, por parte do Governo, não houve sorte.

“O vírus teve, eu diria, talvez o azar de encontrar pela frente um povo experimentado e um Governo capaz”, contrapôs. 

Estou Cansado De Delírios

Estou cansado destes discursos “positivos”, desta tentativa de transmitir “confiança”, de revelar “esperança”, de suspirar por excelentes para quem mais amochar perante os interesses políticos governamentais.

Escolas garantem que estão a postos se for preciso continuar o ensino à distância

É mentira que as escolas estejam “preparadas” se isso quer dizer que estão em melhores condições do que em Março, porque não estão. Há a experiência do que se passou (e já se percebeu que foi um fiasco em termos globais, com estas ou aquelas excepções) e a chegada de um número insuficiente de kits tecnológicos para os alunos. Mais nada se fez,para além dos bastidores do Plano de Capacitação Digital dos Docentes.

Se passarmos de novo ao ensino não-presencial (o que seria da mais elementar prudência) quase tudo será igual ao que foi e só poderá funcionar se os professores usarem de novo os seus recursos, porque nada – NADA – chegou à generalidade das escolas para que a partir delas se faça algo de diferente. Aqui em casa conhecem-se três realidades distintas, mas que confluem no essencial: foram 10 meses em que a incompetência do ME foi por demais evidente, pois só sabem falar, falar, falar e debitar chavões ou parvoeiras (o caso dos “cornudos” do ministro Tiago é apenas o exemplo mais deplorável) sem que as medidas necessárias tenham surgido.

Há escolas onde @sdirector@s conseguiram alguns avanços? Há. Mas a generalidade dos Planos de Contingência vai muito além de explicar a diferença entre ensino presencial, misto ou não-presencial no caso de ser necessário alternar entre modelos? Muito poucos, esmo se são muito explicadinhos sobre condutas a adoptar e circuitos a seguir, no caso do ensino presencial.

Foram redefinidos critérios de avaliação pelos Conselhos Pedagógicos para a eventualidade de ter de alterar a forma de avaliação? Os Conselhos Gerais foram consultados em nome das comunidades educativas? Talvez, mas duvido que isso tenha acontecido na maioria dos casos. Basta consultar a documentação que está publicada nos sites das escolas e agrupamentos. Basta passar uns minutos pelo Google.

Claro que a norma tem excepções; não nego que há onde tudo esteja previsto. Mas garantir que as escolas estão preparadas para um novo E@D é risível. A menos que seja em forma de encenação como há 10 meses, apesar de toda a boa vontade que possamos ter. E que a mim cada vez mais escasseia, porque me pedem uma dedicação e competência de que quem tem responsabilidades de decisão superior não dá qualquer exemplo.

Tempos Estranhos

Os defensores da Verdade absoluta a tornarem-se relativistas e os arautos da tolerância a revelarem a maior das intolerâncias.

Quando os tempos ficam difíceis, o verniz estala e percebe-se que há muito poucas verdadeiras diferenças entre as cliques em disputa. Apenas interesses e estratégias divergentes para manter os poderes.

Demagogia À Solta

Já depois da meia-noite, na RTP 3, apareceu a notícia de que o senhor da EPIS (o entusiasmado com a “oportunidade” criada pela pandemia para fazer avançar a Educação da Nação) tinha ido à Escola Secundária Braamcamp Freire, na Pontinha, entregar 2 (dois) computadores a alunos carenciados daquele agrupamento para que pudessem seguir as aulas à distância.

Na peça, o director do Agrupamento, com um ar meio embaraçado e de quem tinha sido “convidado” a fazer aquele papel, dizia que tinha 2900 alunos, 500 dos quais sem equipamentos para acompanharem o ensino à distância. Mas pronto… o senhor da EPIS, em nome dos “empresários pela inclusão social”, estava ali a dar 2 (dois) computadores a dois alunos escolhidos a dedo, obrigados a ir à escola em altura em que a dita deveria estar fechada, com direito a reportagem televisiva, numa modalidade de demagogia que roça a obscenidade propagandística.

Hoje de manhã, já estava na SICN a anunciar que vão dar não sei quantos computadores a alunos  restando saber se os vão obrigar também a desrespeitar as regras do confinamento social para que as televisões possam gravar a coisa sem terem de ir a bairros mais complicados e menos fotogénicos.

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(no site oficial da EPIS dizem que estão a acompanhar 4379 alunos e que estão prontos a gastar 370 euros no máximo por aluno, o que daria, no máximo dos máximos, 1,6 M€, o equivalentea pouco mais de 60% do salário anual de um qualquer mexia)

Eu Quero Do Mesmo Que Este Senhor Tomou!

O discurso das “oportunidades” e “desafios” em quem desconhece o quotidiano escolar diário e só frequenta salas de aula do Básico ou mesmo Secundário em modelo VIPtende a deixar-me um bocado farto. O salto lógico é… um professor até pode dar aulas assim a 10.000 alunos e resolvemos tudo com aquela centena de brigadeiros que mandámos para o terreno e merecem ser recompensados.

E acreditem que el@s já andam por aí…

A oportunidade de ouro para criar as escolas do século XXI

A crise da covid-19 criou a oportunidade de ouro para darmos o salto, finalmente, para uma Educação do século XXI. Há recursos humanos disponíveis e talento suficiente no país para iniciarmos este caminho já. Mãos à obra!

Orgasm