A Lei Da Greve Até Pode Continuar A Existir Formalmente…

… mas na prática morreu. Como naqueles regimes em que existem formalmente eleições, mas em que os resultados calham sempre à casa, neste momento só existirão greves, no sector público ou privado, quando não perturbar quem manda nos cordelinhos dos serviços máximos e da requisição civil (ou dos militares). E tudo no turno das “esquerdas”. Fosse isto no Brasil do Bolsonaro (ou na França ou Itália) e já haveria aí alminhas a gritar contra o regresso do fascismo. Por cá, até há sindicalistas a aplaudir, de forma mais ou menos encoberta. Ou artigos disparatados (tipo bssantos há dias) contra uma anémica extrema-direita que dificilmente faria pior do que isto.

À meia noite eram três governantes (incluindo aquele do ambiente que nem se percebe se foi o que estava mais à mão), em directo ou diferido nas televisões a lavar-nos mais branco o fim de um dos princípios da liberdade.

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As Boas Intenções (Alegadamente)

Têm sido a razão para alguns dos maiores desastres da História. Quantas vezes em nome dos “desfavorecidos” acaba por se prestar um enorme serviço aos “privilegiados”. Neste conjuntinho deprimente de reformas da educação pública em que nos querem convencer que seremos finlandeses (há realmente quem tenha perdido – ou nunca tido – qualquer noção de contextualização histórica e cultural, mas é o problema de certas sociologias apressadas) estão todos os elementos que os promotores dos interesses privados na Educação poderiam desejar para atrair todos aqueles que, na classe média, tenham horror ao laxismo e ao nivelamento pela mediocridade em nome da “igualdade de oportunidades”. Aquela ideologia pastosa dos anos 90 do século XX voltou e com ela muitos dos rostos de então, agora apenas com este ou aquele testa de ferro mais útil, e cada vez são menos aqueles que já têm a energia para se levantar contra e dizer que o Imperador não tem qualquer fato novo e a Corte está toda nua (e nem é agradável à vista, por muito fitness e zumba que @s cortesã(o)s façam em lycra).

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O Colapso do Estado

Não acontece apenas quando os serviços ficam reduzidos ao esqueleto e mesmo assim com falta de tíbias, costelas, cúbitos ou falangetas. Acontece também, e com efeitos muito graves, quando quem ficou a assegurar o que sobreviveu está de tal forma desmoralizado que acha que já não vale a pena sequer desempenhar funções desvalorizadas quotidianamente, porque poderiam ser melhor desempenhadas por privados ou máquinas. Os exemplos alastram e nem sequer falo de quem já recorre ao Antigo testamento para fingir que serve um moribundo Estado de Direito.

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Descongelamento ou Desaparecimento da Progressão?

Confesso, não li os detalhes da proposta de OE para 2018. A par da leitura do relatório sobre Pedrógão e da acusação a Sócrates é um dos elementos da trilogia mais deprimente das últimas décadas da vil e apagada tristeza nacional. Ao que percebo, este descongelamento vai tentar legitimar o desaparecimento de uma série de anos da carreira docente para quase 100.000 educadores e professores. De certa forma, até acho coerente que quem começou este estratagema em 2005 (muito antes da troika) acabe por querer consolidar a supressão de quase uma década da vida de toda uma classe profissional. Mas, como é natural, isso não será feito sem que diversos sentimentos surjam e que seja muito difícil não pensar numa forma de retaliação (que não passa por entregar-lhes mais dinheiro, entrando nas coreografias sindicais internas da geringonça). E, como também penso ser natural, a fúria não se dirigirá apenas contra o tripé político da geringonça, por muito que apostem num spin para consumo rápido (o Bloco anuncia 3500 novas contratações, o PCP que a reposição das migalhas será mais rápida) na ausência de uma alternativa credível.

Isto é demasiado deprimente. E ainda mais quando se observa gente a colaborar de forma entusiasmada e activa na palhaçada, no circo, das formações do sucesso, da propaganda da “mudança” e da “inovação”. Há mesmo gente que ou é irremediavelmente estúpida ou estruturalmente invertebrada. E continuem a dar a patinha a quem a pisa ou a alistar-se para kapos dos colegas.

Se apagarem todos estes anos será mais de 20% da nossa vida profissional que desaparecerá de vez. Não há qualquer retórica da “reversão” ou “reposição” que resista a isso. E, como devem calcular, ainda há gente com energia – não confundir com os parceiros das pizzas e dos entendimentos, fénes, fnés ou os outros liliputianos, para os quais nada se apagar, por nenhuma aula deram, só andarem a passear-se por negociações de soma zero – para que a coisa não passe em claro. Eu sei que o desejo é que o pessoal fuja, desapareça, se satisfaça com “ter trabalho” ou então se vá para “dar lugar aos novos”, em especial aos lobos esfaimados de algumas redes sociais.

Mas as coisas poderão não ser assim tão simples.

Haddock

Andam a Acordar Tarde e de Mansinho

Cruzes, credo, se fossem capazes de tomar uma decisão colectiva a sério sobre esta matéria. Ganhariam muito crédito nas suas escolas, mas eram capazes de haver muito consumo de fraldas.

A manter-se o que se encontra previsto no projecto do Governo, será “uma catástrofe para a escola pública”, diz o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares, Manuel Pereira. Não só porque as escolas perderão ainda mais autonomia a favor dos municípios, como também, e sobretudo, porque irá permitir que as escolas fiquem sujeitas ao “jogo político e partidário”, alerta, para defender que têm de ser criadas normas-travão que impeçam esta possibilidade.

Há anos que o projecto é este, há quem avise, esbraceje para indiferença quase geral e quando o pelotão de fuzilamento já está perfilado é que algumas pessoas parecem acordar de um torpor imenso. E não vale a desculpa de terem 548 plataformas electrónicas para preencher. Compreendo a overdose, mas não chega como desculpa para a apatia da ande e da andaep.

Já agora, quanto ao caso da Educação Especial, é bom que se afirme com clareza que há muita mentira (seria melhor dizer “inverdades” ou “verdades alternativas”?) por aí a justificar algumas medidas. O Currículo Específico Individual tem sido uma ferramenta que promove a progressão de muitos alunos. Dizer o contrário é ignorar a realidade ou mentir descaradamente. E é batota enviar a secretária de Estado da Inclusão para divulgar as medidas. Lá porque sou míope não sou especialista em oftalmologia. Nem politicamente correcto.

Soneca

O Cansaço

É o maior inimigo do discernimento. Da lucidez. Da capacidade de decidir de forma rápida, justa, ponderada.

Os imbecis que têm governado a nossa Educação (de forma directa ou com fios) parece que discordam ou então pensam que o quotidiano alheio é igual ao seu, de condutor ao peito e secretária prestimosa sempre à distância de um toque.

Mas lá que têm poupado tostões, não há dúvidas… sempre podem sair do país aos 10 mil milhões para offshores e o berbigão que as pague.

Pareço repetitivo? Há boas razões para isso, porque eles não deslargam.

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Muito Menos

Todas as retóricas desabam quando os dados são analisados de forma objectiva. Claro que o atávico ódio aos professores – excepção aos do ensino superior, nicho a que pertencem muitos desses mesmos odiosos – encontrará explicações muito sofisticadas para justificar tudo isto, a começar pelo gastíssimo argumento demográfico. A verdade é que o que se passou foi um corte brutal no serviço prestado aos alunos, com uma enorme sobrecarga sobre os professores. Que nada disto é possível sem que se atinja um ponto de ruptura, é mais do que óbvio. Só que há quem esteja à espera que o colapso aconteça antes de fazer qualquer coisa para prevenir a implosão das escolas públicas. Talvez porque isso seja uma justificação para o outsourcing?

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