Isolamento 2.0

Num qualquer vilarejo perto de si: criatura nos trintinhas, em plena rua, sem máscara, falando com conhecida, ambas confinadas por terem crianças (do 1º ou 2º ano, pelo tamanho do pobre coitado que ficou no carro com ar de cachorrinho abandonado) que testaram positivo, fazendo ouvir o seu desagrado por não ter a professora mandado ainda nada para a criança fazer e ela já estar farta de a ouvir, pelo que decidiu sair um bocado de carro e acabou ali a trocar ideias profundas de modo a poder ser ouvida num raio de várias dezenas de metros. Ahhh… faltava-me dizer que se notava gravidez adiantada ou então tinha sido uma feijoada capaz de bater o recorde daquela da ponte Vasco da Gama.

(é a chamada “auto-gestão da pandemia”)

3ª Feira

Esta é centésima crónica desta série diária para o EDUCARE. Eu devia escolher um tema de relevância mais transcendental para o debate sobre a Educação em Portugal. Mas se assim fosse, não seria bem a mesma coisa. E hoje apetece-me escrever sobre um assunto que talvez não tenha a dignidade de outros, mas que é bem verdade que me influencia o quotidiano de todos os dias.

Seria Sensato

Adiar para dia 26 a nova fase do desconfinamento. Até porque, estando já os petizes mais pequenos nas escolas (e as esplanadas abertas) não se corre o risco de cartas abertas e artigos em cascata na imprensa da malta do costume.

Mesmo se para a maioria do pessoal a carta de alforria foi no dia 5, pelo que entra pelos olhos dentro.

2ª Feira – Dia 64

Agora, passou a destacar-se a importância da escola para o bem-estar dos alunos e a necessidade de eles voltarem à escola para socializarem e não necessariamente para retomarem actividades predominantemente lectivas. Um especialista, em declarações ao Educare considerou que “desconfinar as crianças de casa e confiná-las na sala de aula, estando quietas, sentadas e caladas é um disparate completo”, acrescentando que deveriam ir para a escola para estar “com os seus amigos, estar em contacto físico com eles, fazer brincadeiras, de fuga, de perseguição, de lutas”.

Sábado – Dia 62

A primeira semana do regresso ao ensino presencial do 2º e 3º ciclo tem um balanço positivo, dos portões para dentro da escola, mas muito pouco satisfatório quanto ao exterior. Os alunos, em especial os mais novos, interiorizaram bem a necessidade de cumprir regras, mesmo se nem sempre o conseguem, naquele entusiasmo do reencontro com colegas, professores, com o convívio e a brincadeira. O problema são mesmo muitos adultos, que deixaram de procurar excepções às regras, para considerarem que a máscara é que já deve ser a excepção.

C’Um Caneco!

Internamentos desceram, mas casos em cuidados intensivos registam aumento na terça-feira.

Ministra da Saúde convoca reunião de urgência para debater vacina da AstraZeneca

Com ritmo de vacinação ainda lento, reabertura total das escolas pode levar a quarta vaga de covid-19

Sábado – Dia 48

Eu sei que não podemos estar fechados em casa o tempo todo. Eu percebo até quem acha que são os seus direitos que estão em causa, por muito que discorde dessa leitura, pois o exercício dos nossos direitos não deve colocar os outros em risco. Na notícia online do Expresso, pode ler-se que se pode “dizer que o dia 19 de março teve um índice de mobilidade de 99% da normalidade pré-pandemia”. Desculpem-me, mas 99% da mobilidade há cerca de uma semana, significa que o confinamento se tornou uma ficção. Algo que não me surpreende, quando tenho mesmo de sair e me deparo com as estradas e ruas como se estivesse tudo como dantes, mais umas máscaras de cores sortidas.

A Proibição Dos Ajuntamentos Acima De 5 Pessoas Inclui A Zona À Saída Das Escolas?

Eu sei que cada vez os tempos são de maior encenação ou representação da realidade, mas… a sério… será que desconhecemos o que se passa diante dos portões das escolas, à vista de pessoal docente e não docente, que na maioria dos casos nem abre a boca para não levar com ofensas de quem se acha no “direito” de estar ali como bem entende?

Há quem ande a suspender alunos por partilharem comida ou a marcar faltas disciplinares por trocarem material escolar numa aula onde estão ombro com ombro, mas depois, mal passam o portão já pode valer tudo? Será que não está bem à vista de todos que tudo parece estar como sempre esteve, mais ou menos máscara padrão ou como acessório fashion?

Calamidade é ter gente que navega à vista, com um olho na “economia não pode parar” e outro nas conveniências políticas. Calamidade é ter, nas últimas semanas, um PR que parece ter assumido a função de secretário adjunto do PM para os assuntos parlamentares em geral e aprovação de orçamentos em particular.

Calamidade é esta mediocridade em que os poderes, macro e micro, usam a pandemia como desculpa para tudo, o que me está a dar uma imensa vontade de atravessar alguns limites auto-impostos à linguagem e a temas que, pela proximidade, sempre achei melhor deixar do lado de fora deste quintal. Só que há alturas em que os abusos de poder sem qualquer rebuço, o desrespeito indecoroso por qualquer legalidade e a mentira descarada não podem passar impunes.

Ando muito irritado? Nem por isso, apenas a sentir-me algo anojado. Porque tudo isto era previsível, mas a maior preocupação é quem fica com as maiores peças da “bazuca” e o que fazer para a coisa ser o mais desregulada e menos controlada de sempre.

(o que dizer daqueles cortesãos que andaram a escrever que isto a partir de Setembro ia ser um Outono maravilhoso de desconfinamento? não deviam levar nas belas faces com o barro que andaram a atirar às paredes?)

A Praia É Do Povo

A parte mais “gira” foi ver 2 jeitosos da baywatch nacional a tentarem (com um 3º a observar a partir da viatura do ISN):

  1. colocar uma bandeira vermelha num poste (a bandeira amarela que se vê na foto é a do estado do mar e não da lotação da praia)
  2. colocar o poste no ponto de fixação no chão.
  3. irem-se embora sem conseguirem completar a tarefa anterior, numa de “que se lixe”.