Seria Sensato

Adiar para dia 26 a nova fase do desconfinamento. Até porque, estando já os petizes mais pequenos nas escolas (e as esplanadas abertas) não se corre o risco de cartas abertas e artigos em cascata na imprensa da malta do costume.

Mesmo se para a maioria do pessoal a carta de alforria foi no dia 5, pelo que entra pelos olhos dentro.

C’Um Caneco!

Internamentos desceram, mas casos em cuidados intensivos registam aumento na terça-feira.

Ministra da Saúde convoca reunião de urgência para debater vacina da AstraZeneca

Com ritmo de vacinação ainda lento, reabertura total das escolas pode levar a quarta vaga de covid-19

A Outra Narrativa

Não sou ingénuo ao ponto de achar que estas notícias surgem por acaso, que não aparecem porque também são convenientes para a nova atitude do actual PM e da maioria dos que o apoiam. Mas, pelo menos, parecem assentar mais em factos demonstráveis do que as considerações vagas e pouco baseadas na realidade de certos “istas” que por aí andam a assinar cartas ou a subscrevê-las de cruz, sem grande preocupação em saber se têm algum fundamento ou se não se limitam à expressão de uma certa dor d’alma, causada por incómodos muito particulares.

Afinal, o confinamento indesejado foi “eficaz” e, afinal, não temos estado mais tempo fechados do que os outros. Que o economista Coraria e a economista Peralta são fracos neste tipo de contas, eu já tinha notado, assim como tenho escassa esperança na lisura e substância da argumentação de Oliveiras, Raposos & Tavares.

Expresso, 5 de Março de 2021

3ª Feira – Dia 16

Até parece que estava a adivinhar esta carta, de mais (!) de duas centenas de notáveis, nos quais se incluem o presidente da Confap (que continuo sem perceber se ainda é encarregado de educação), o inefável Daniel Oliveira, a excelentíssima doutora Cosme e até um par de professoras não-superiores e uma directora escolar.

Por mim regressaria já amanhã, se não achasse que isso seria um disparate imenso em termos de saúde pública. Não porque as escolas sejam focos de contágio, até porque nesse aspecto particular a preparação foi feita com bastante cuidado. Porque foi feita localmente e não encomendada tardiamente pela 24 de Julho. As escolas não são aquele estranho oásis de “contágio zero” no meio do caos pandémico, onde flutuam “bolhas” estanques, mas são locais razoavelmente seguros. O problema não é esse e já deveria estar interiorizado o que está em causa.

O Regresso

Já fizeram constar que a reabertura das escolas poderá ser amanhã abordada na reunião a realizar no Infarmed. A jovem ministra, aquela que é filha do pai que também foi mais de uma vez ministro, já se adiantou e comunicou à sua juventude que as escolas serão os primeiros estabelecimentos a siar do confinamento. Resta saber se o plano que o presidente Marcelo pediu para isso já foi feito pelo governo ou se é como com quase tudo o resto, à espera para ver se não há necessidade. Ou se basta dizer que umas abrem antes das outras, para isso contar como faseamento estudado.

O Fracasso Estrondoso Da Escola Digital

A decisão inédita e algo inesperada de fechar durante duas semanas (até ver) todas as escolas por completo, incluindo o chamado ensino à distância, para além de demonstrar até que ponto o governo perdeu por completo o rumo nestas duas últimas semanas, é uma declaração ruidosa do fracasso do projecto a que chamaram pomposamente Escola Digital, prometendo o actual PM 400 milhões para o efeito há mais de 7 meses.

Depois de tanta declaração parola sobre a modernização digital das escolas, chegamos a esta semana praticamente sem nada de novo a esse nível, ou pelo menos sem nada de verdadeiramente operacional. Mais de sete meses depois, período durante o qual muito tempo se perdeu em outras irrelevâncias ao gosto do ministro Tiago e do secretário João, agarrados que nem lapas às suas “convicções” e muito pouco abertos às necessidades reais das escolas.

Fazendo um inventário curto dos inconseguimentos:

  • Em relação aos alunos “mais desfavorecidos” de que alguns tanto gostam de falar”, a larga maioria dos que não tinham conseguido aceder ao E@D após Março, continuam sem equipamentos disponíveis, apesar de uma espécie de sprint trôpego a partir de meados de Dezembro. Os 100.000 kits tecnológicos são menos de metade do “essencial” para garantir que não aumentam as “desigualdades”. Se 20-25% dos alunos e famílias não tinham capacidade para seguir o ensino à distância há perto de um ano, isso implicaria, no mínimo, a disponibilização de 200 a 250.000 kits. Os dados mais recentes do Estado da Educação apontam para mais de 360.000 alunos com Apoios da Ação Social Escolar, com 13% (Secundário) a 24% (2º ciclo) dos alunos matriculados nos vários ciclos de escolaridade a beneficiar do escalão A/1
  • Em relação aos professores, terminou na 2ª feira a fase de diagnóstico das competências ou capacidades digitais. Os meses anteriores foram gastos na tradicional “formação de formadores”, tão cara a qualquer “projecto” nacional na área da Educação. Equipamentos para uma situação de ensino misto ou não-presencial que não passem pelos dos próprios professores? Até agora zero e parece que só haverá, em sistema de usufruto temporário, para quem frequentar as futuras formações que, por este andar, talvez estejam terminadas pela Páscoa, na melhor das hipóteses. Como em tantas outras ocasiões, muita preocupação em alimentar a “estrutura”, pouco empenho em chegar a tempo ao terreno.
  • E o que dizer do #EstudoEmCasa, que ainda anda a transmitir aulas que, pelos vistos, não servem para nada, excepto para compensar alguns serviços prestados à tutela e alimentar umas quantas vaidades, por muito mérito que tenham os colegas que por ali andam e tiveram a sorte de dar aulas um ano inteiro para as câmaras, sem o ruído da petizada e materiais para ver e classificar? Para que serve aquilo se, com uma interrupção das aulas presenciais, se esquece a sua existência, bem como dos laboriosos planos feitos em quase todos os agrupamentos e escolas não agrupadas para a eventualidade de se passar ao ensino misto ou não-presencial?

Parece evidente que nunca se pensou ser mesmo necessário encerrar as escolas e, portanto, tudo foi sendo feito com todo o vagar e a displicência que caracterizam aquilo que não se leva a sério e se vai fazendo porque enfim. Talvez o nervoso, irritação e teimosia do ministro Tiago (e do seu mentor, o PM Costa) resultem da consciência de que, no caso de ser preciso passar para novo período de E@D, se perceberia com muita clareza tudo o que não foi feito apesar de gongóricas promessas ou que está a ser feito a um ritmo impensável, acaso fosse uma emergência bancária.

Preocupação com “os mais desfavorecidos”? Com “o agravar das desigualdades”? De palavras andamos fartos, de actos é que a mingua é forte.

Quiçá para uma 4ª ou 5ª vaga de urticária comichosa esteja tudo mais ou menos remendado. Quando ao maravilhoso mundo da transição digital, fiquemo-nos pelo modelo tradicional.