A Abelha Distópica Vive! – 2

Confesso que acredito sem dificuldade que existe quem produza certos documentos com a melhor das intenções, em especial quem não tem mais nada para ocupar o tempo. Acredito que há “dedicação” e “muito trabalho”, mas como escreve o Bill Bryson, no seu livro sobre o corpo, “os cérebros mais trabalhadores são, geralmente, os menos produtivos” (O Corpo – Um guia para ocupantes. Lisboa: Bertrand, 2020, p. 71), confirmando uma velha suspeita minha sobre quem trabalha muito tempo, sem que isso se perceba no que é produzido. Quando leio alguém a garantir que fica na escola 16 horas por dia em tarefas de gestão/supervisão/monitorização/etc, ocorre-me logo aquela citação.

Por isso, fico pouco intimidado por páginas e páginas de parlapeio, eventualmente “vertidas” a partir de formações feitas onde lhes “plasmaram” conceitos com que já deveríamos estar todos familiarizados desde a profissionalização, esquecendo boa parte deles no Verão seguinte, num evidente caso de summer learning loss.

Tudo isto a propósito do documento de que ontem comecei a transcrever alguns nacos. Alguns deles perfeitamente redundantes, enquanto outros parecem feitos à medida de quem tenha apenas uma vintena de alunos em cada dia de aulas. Para não falar dos que pura e simplesmente nem se percebe bem o que querem dizer.

Exemplificando:

Há 35 anos que produzo diariamente montes de feedback aos meus alunos, pois sempre lhes disse, a cada momento, o que estavam a fazer bem ou mal e como deveriam/poderiam corrigir os seus erros, dando-lhes “possibilidade” de o demonstrarem. Nem sempre terei sido “positivo”, porque em variadas situações isso se revelou manifestamente impossível e mesmo prejudicial para o futuro dos alunos. Para além disso, também nunca me ocorreu pedir-lhes que apenas me demonstrassem o que é do seu interesse ou que melhor sabem fazer, porque isso pode não interessar absolutamente nada para as aprendizagens em causa. Porque se formos nivelar a avaliação apenas pelo que interessa aos alunos ou sabem fazer, nem vale a pena estar a perder tempo com qualquer avaliação. Porque se assim for, realmente é bem verdade que toda e qualquer avaliação se torna vazia de sentido.

Já quanto ao princípio da “diversificação”, a utilização de “três instrumentos de avaliação de diferentes tipologias por período”, fica-se sem perceber exactamente do que se trata, pois eu pensava que em cada aulas se deveria avaliar o desempenho dos alunos, ocorrendo-me aqueles casos em que até se tinha de preencher uns quadros diários com bolinhas/sorrisos coloridos conforme o desempenho dos alunos. Não sei se a “diversificação” será a chave para a fiabilidade (ou equidade), porque sempre acreditei que isso dependeria da adequação dos instrumentos de avaliação às aprendizagens a avaliar. Mas deveria estar errado, até porque mais adiante se pode ler neste documento coisas que, em boa parte, eu considero quase incompreensíveis, como atribuir ao professor a produção de “narrativas de práticas” para avaliar os alunos.

As observações registadas pelo/a educador/a constituem o meio privilegiado de recolha de informação. Há, no entanto, muitos outros registos ou documentos, que decorrem da prática pedagógica, e que podem ser utilizados como recurso para registar e compreender o processo educativo e as aprendizagens das crianças. Estes podem subdividir-se em:

Documentos produzidos pelo/a educador/a:

  •  Registos de observação;
  • Registos audiovisuais;
  • Entrevistas a crianças e pais;
  • Narrativas de práticas.

Documentos produzidos com ou pelas crianças:

  • Registos de apoio à organização do grupo;
  • Produções das crianças;

“Semos” Mesmo Muitos

E ainda ando eu preocupado com as gralhas nos textos do blogue e a pedir que me verifiquem sempre que mando alguma coisa para “fora” daqui.. Pelos vistos, nem revisão dos textos há, ortográfica ou de sentido, onde deveria ser exigência máxima. Já nem falo das pós-verdades do mst e derivados. Todos erramos? Sim, claro. Mas…

Sacado do mural da Paula Magalhães.

Jornal de Notícias de hoje, presumo.

Pessoalmente, Acho Que Ele Se Está A Borrifar Para O Assunto…

… desde que o ministro Costa consiga encomendar umas pizzas a tempo. O Filipe do Paulo, de vez em quando, desvincula em forte velocidade da realidade. É de tanto pensar como “pró-longar” (trocadilho da treta) a ilusão de que está a preparar uma qualquer “ordem”.

Conhecendo como conheço, pessoalmente, há dezenas de anos, o atual primeiro-ministro (desde os tempos em que pertencemos à mesma turma na faculdade e até ainda antes), custa-me crer que ele tenha conhecimento do que se está a preparar nesta sede.

Quando As Pessoas Perdem A Compostura (Em Busca De Um Lugar Ao Sol)

Conheço o Gabriel Mithá Ribeiro irá para 20 anos, possivelmente. Desde que deu aulas aqui pela minha zona. Desde os tempos em que era dos escribas da segunda linha da Atlântico e tentava singrar no PSD, mesmo se na altura eu nem sabia disso. Sempre tivemos uma relação cordial e colaborativa, em matéria de partilha de pontos de vista e até materiais de trabalho. Só que há uma altura em que eu mantive o meu caminho – não quero ter cargos públicos na política ou directivos em qualquer escola – e o Gabriel achou que precisava de um rumo novo para a vida e de singrar pelos meios ao dispor. Foi para o Chega e achou que o professorado teria um potencial interessante em termos eleitorais, pois havia classes profissionais por “lapidar”. Já na altura achei por bem dizer-lhe que a mim não lapidaria. Agora, na sequência de uma observação periférica num post de há um par de dias, o actual vice-presidente do Chega parece ter entendido finalmente que não há qualquer afinidade minha com o partido onde se refugiou, mas poderia ter entendido a coisa sem disparatar. E então vai de me atirar bombarda no fbook, o que muito me divertiu, pelo que revela de desorientação em matéria de “alvo”.

Ficam aqui as imagens do que ele escreveu e eu respondi, para que não desapareça tudo na voragem do feed. Não faço link para a publicação, porque o Gabriel também não o fez para o meu texto, de modo a que se percebesse em que contexto surgiu o excerto que ele seleccionou, naquela estratégia de truncar as coisas para dar mais efeito à bojarda.

Gabriel, pá, doutor/investigador/professor, conforme os dias… procura outro alvo porque eu não sou o Santos Silva, cheio de cristais no telhado, e, muito mais importante, não dês a sensação de teres perdido por completo a tramontana, como se nota por esta outra tua publicação. Não achas que isto é demasiado ridículo? Sempre defendi publicamente que não te acho um “fascista” como já te acusaram e mantenho, apesar da tua relação complicada com a “ordem”, a “autoridade” e a “hierarquia”. Agora que começas a dar-me razões para confirmar que te transformaste num demagogo oportunista…

Danos Permanentes

Não sei como era antes, mas ninguém vive anos com aquela criatura sem efeitos tóxicos para o resto da vida.

Esta terça-feira, Laurinda Alves referiu que a organização do Rock in Rio Lisboa convidou jovens refugiados a ir ao festival e também foi pensado estender a oferta a pessoas em situação de sem-abrigo. O convite acabou por não ser feito porque, nas palavras da vereadora: “Ficava complicado, nomeadamente porque há situações de consumos e que poderíamos estar a potenciar”.

Longo, Descritivo, Mas Rigoroso (E Cómico, Se Não Fosse Trágico)

O inspector foi à escola

(…)

Vamos lá operacionalizar isto.

De cada vez que cada um dos 129 alunos da professora Joana resolve um item, ela vai escrever 129 pequenos textos que ajudem cada um dos seus alunos a perceber se cumpriu a tarefa com sucesso, se a cumpriu com algum sucesso, se tem de se esforçar e estudar um pouco mais ou se está completamente perdido relativamente àquele assunto, tudo isto acompanhado pelos respetivos smiles, desde a boca com a concavidade voltada para cima e os olhos a brilhar até ao esgar mais furioso, com os dentes a ranger, passando pelo estimulante piscar de olho, já que os coraçõezinhos não serão apropriados na relação professora-aluno.

Imaginando que a correção minuciosa da tarefa, a produção do pequeno texto descritivo e a busca do smile apropriado pode levar uns 15 minutos por item, que um teste de avaliação pode ter dúzia e meia de itens, que se fazem vários testes de avaliação por ano, nunca menos de meia dúzia (mas que, segundo as orientações superiores, devem ser muitos e frequentes), não sobra tempo para a senhora professora Joana escovar os dentes.

(…)

Em suma, o que durante séculos bastou para os alunos compreenderem em que nível se situava o seu desempenho, que era o feedback constante dado no decorrer das aulas e a nota atribuída pelo professor nos instrumentos de avaliação, agora não é suficiente. Vossas Excelências consideram que os atuais alunos, que andam muito distraídos com as “redes”, não conseguem compreender o que é um 31%, depois de, insistentemente, o professor o chamar à atenção para o fraco desempenho nas aulas. Talvez haja alguns para os quais 31% é suficiente. Então, cabe ao professor explicar, bem explicadinho e por escrito, que 31% é um nível insatisfatório, que o aluno tem de estar com mais atenção nas aulas, sem telemóvel, que tem de praticar mais, que deve trazer sempre o manual e o caderno diário, caneta, lápis e borracha, em vez de, como já aconteceu várias vezes, aparecer de mãos a abanar, pedir uma folha solta ao colega do lado, e ficar à espera que alguém tome a iniciativa de lhe emprestar uma esferográfica (se é que pretende escrever alguma coisa).

(…)

Bombardeie-se Helsínquia!

O estado de degenerescência intelectual demonstra-se irreversível quando, a propósito de uma conflito bélico, se começam a comparar as qualidades e “europeísmo”! (ou mesmo “mediterranismo”) das cidades com base no horário dos restaurantes e na facilidade de acesso a álcool barato (para desinfectar as feridas da alma?). Não é que não entenda as preocupações do escriba, mas… alguma coisa já apodreceu irremediavelmente ali como quem vai da fraqueia a caminho do cocuruto.

Expresso, 6 de Maio de 2022,p. 3.