Sábado

Manhã de formação iluminada por uma comunicação de Maria do Carmo Vieira. Em prol da Arte, do Belo, da Educação como abertura para outras realidades, valores, formas de expressão. Contra o que ela designou como “bestialidade” naquela sua voz suave mas plena de indignação; como a “boçalidade” de quem nos desgoverna com palavras que enganam e práticas que desqualificam. Contra o que eu acho um basismo pedagógico pedestre que considera que os “pobrezinhos” só se conseguem interessar pelo que está ao alcance da vista. A pior das formas de promover a inclusão é acreditar que todos podem “aprender”, mas reduzindo o acto pedagógico ao mais simplista e os seus objectivos apenas a vagamente conhecer algo que já os rodeia. Não sou dos que acredita que todos podem aprender tudo (olhem para mim e para o raio das funções, que só à martelada foram entrando a custo), mas que, pelo menos, podemos tentar despertar todos para o que de melhor nos foi legando a herança humana, do espírito às obras. Não é ser enciclopédico, elitista, etc, é apenas querer partilhar o que nos foi fazendo humanos, no que isso tem de melhor.

Fica, por não ter sido possível ouvir sem “ruído” precipitado a escolha original da Maria do Carmo para terminar a sua intervenção, a valsa mais conhecida de Shostakovich.

6ª Feira

A leitura tem imensas vantagens e não são poucas as que se relacionam com aprendermos coisas que desconhecíamos. Embora com capacidades pedagógicas limitadas, muitos livros que se limitam a oferecer-nos letras impressas em papel (que arcaico! que não-moderno!) transmitem-nos conhecimentos, ideias, permitem-nos conversar com gente que dificilmente teríamos possibilidade de encontrar e convidar para uma conversa pessoal. Quanto muito ver ao longe em debate e conseguir lançar uma pergunta, quase sempre com resposta apressada.

Ler ensina-nos ou coisas. Ou deveria.

Já livros marcantes, ideias que ficam para muito tempo connosco, seja porque nos abre a imaginação para impossibilidades, seja porque nos retrata com fidelidade o que é.

Li há muitos anos O Labirinto da Saudade de Eduardo Lourenço e fiz o que é raro em mim, sublinhei bastantes passagens e usei algumas várias vezes, apreciando a repetição do recurso. Depois, em movimento retrospectivo, li O Fascismo Nunca Existiu e deliciei-me com a ironia da abordagem do tema num período ainda crítico da análise do fenómeno.

Com José Gil e o seu conceito de “não-inscrição”, a ideia do “estado de representação” em que vive grande parte dos portugueses ainda me acompanha como um dos retratos mais felizes e certeiros acerca da nossa personalidade colectiva contemporânea.

Vivemos um quotidiano em que se representam papéis imaginários, individuais ou colectivos, assente num passado mítico e muito selectivo no que se pretende apresentar como memória histórica, da qual se expurgam (não inscrevendo) factos e fenómenos desconfortáveis, e na projecção de um futuro radioso que nunca chega, quiçá porque também somos, além de poetas, utópicos natos, daqueles que gostam de dizer que a utopia está sempre além como forma de justificar sucessivos inconseguimentos.

E o presente é o espaço em que, numa miopia pandémica, só vemos bem o que parece estar mesmo perto e parece ser assim embora se saiba que não pode ser. Cheira a pato, chapinha como pato, abocanha os pedaços de pão molhado que se atira como pato, mas dizemos que é formoso flamingo (a menos que perturbe o ambiente de alguma obra pública do regime). E se alguém diz que é pato – mesmo que admitindo que é um pato muito estimável – acusa-se logo da pessoa ser ela a de curtas vistas, de não conseguir ver no castanho das penas a plumagem de um rosa esfuziante, de ser um idoso incapaz de ir de trotinete a Belém ou de descer o Tejo numa nau pós-moderna.

Mas a verdade é que se trata mesmo de um pato que, se bem depenado, nem dá para um arroz de domingo para família nuclear reduzida.

Vivemos numa estado de permanente representação, escrevia Eduardo Lourenço há uns anos e eu, apesar de se terem passado uns 30 anos da compra, ainda guardo o labirinto na parte acessível da prateleira para revisitas regulares. Assim como não fica longe o livro de José Gil como qual aprendi, mesmo quando discordei de algumas passagens. E aprendi sem ser necessário um método muito “inovador” de leitura e sem que o cartapácio se resumisse em animações digitais, daquelas que os computadores das nossas escolas se engasgam a fazer andar.

Aprendemos quando queremos. Quando sentimos que essa é uma necessidade, um prazer, mesmo um dever. Mas o que há por aí mais é gente que lê apenas os títulos, cita quando faz entrevista para um “perfil”, quando “representa”. E a coisa é tão mais grave quanto a pessoa se sente pai ou mãe d’algo.

mascaras

4ª Feira

Reler boa parte daqueles livros (Michael Apple, Andy Hargreaves, Jenny Ozga,  Philippe Perrenoud, Carlos Alberto Torres) que fizeram a bibliografia básica da Sociologia da Educação da década de 90 do século XX, com alguns salpicos já para os anos 2000 (muito deles comprados depois em saldos que anunciavam a decadência do interesse pelas teses), é reencontrar os problemas que enfrentamos agora. A governança educativa do século XXI é claramente feita à moda das teses neocoiso das últimas décadas do século XX que recauchutavam o pensamento do capitalismo do século XIX. Parece que há quem ache que o currículo só é “oculto” e que a sua apropriação pela ideologia só acontece se o for pelos pelos outros. Os “maus”.

livros

2ª Feira

É um alívio  (embora não seja pelas melhores razões, claro), saber que não é só da Educação que existem governantes com evidentes inconseguimentos verbais como bem revela a conversa sobre cházinho e bolinhos do secretário de Estado da Saúde.

crazy donald

E nas escolas, passa a existir uma mesinha com pastéis de nata e café acabadinho de moer no átrio para quem chegar mais nervoso?

Domingo

Dia de detox digital parcial. Amanhã continuarão a faltar professores e a dizer-se e fazer-se muito disparate a esse respeito, como a da tutela descartar-se de responsabilidades, afirmando que as ” escolas podem fazer mais”. Claro. Então em articulação com as autarquias podem adoptar a figura do “professor convidado” e contratarem quem calhar desde que, à moda antiga, trata um “atestado de idoneidade”.

A ministra que não é da Educação agora parece saber mais do assunto que quando era secretária. E entra pela conversa de chacha acerca de não ter sido ainda “possível fazer uma “densificação dos critérios” de acesso à pré-reforma”, mas “considera que os professores são “uma classe profissional em que a pré-reforma faz muito sentido”, o que, mesmo assim, é mais do que disse e fez nos últimos quatro anos. Não há, portanto, ainda qualquer solução “robusta” para a questão, para adaptar a forma peculiar de se expressar do ministro oficial da pasta.

Apesar da carência de docentes nas escolas, esperam-se muitas candidaturas a mais uma edição do auto-denominado “Nobel da Educação”. Alguns dos premiados em anos anteriores poderiam dedicar-se a achar soluções para o problema, já que parecem ter atingido um estádio superior de eficácia pedagógica. Ainda bem que, num dos casos, apesar de toda a salgalhada que há por aí, não é de um grupo disciplinar com autorização para dar Português. Mas, quiçá, poderá chegar a ministro.

professor