4ª Feira

Não tivesse a net falhado de forma maciça e vergonhosa (para parafrasear o avô cantigas do PS que diz uma coisa e o seu contrário conforme a cor do partido que lhe dá guarida) na minha escola e eu teria feito uns “instrumentos de vigilância” das aprendizagens dos alunos que, já na segunda semana, apresentam uns “padrões irregulares” já neste “período específico do ano”. Porque eu assumo a honestidade de todos, mas é melhor vigiar do que prevenir.

3ª Feira

Políticos cinzentões, que ora dizem uma coisa, ora o seu contrário comprometidos com negócios comuns, que se percebe encenarem divergências para consumo mediático, espantam-se com a ascensão dos “radicais” e dos “populismos”. Depois do pânico com os “radicais de esquerda”, rapidamente normalizados como na Grécia ou na geringonça nacional, agora alarmam-se com o crescimento da “extrema-direita”. Culpam tudo e todos, menos a si mesmos, os principais responsáveis pela erosão da credibilidade de muitas democracias liberais, que capturam, como se fosse coutada exclusiva para os seus interesses.

Domingo

Fui espreitar as listas das RR3 e RR4, porque me dizem que a falta de professores está muito localizada a sul, em especial na zona da Grande Lisboa. O que constatei é que maioria d@s colegas colocad@s foram-no em escolas bem a norte do Tejo e, em especial, a norte do Mondego. Ou bem que há menos horários a sul do que dizem ou então não têm a capacidade de atrair candidatos. Para não falar em abstracto, exemplifico com a minha DT que ainda continua, pelo menos, sem dois elementos, sendo que há 14 páginas de nomes de candidat@s não colocad@s na RR3 e 12 páginas na RR4 para o conjunto dos dois grupos disciplinares em causa. Ou seja, não há falta de gente para os ocupar, o problema é que não compensa ocupá-los. Certo… são horários administrativamente temporários, mesmo se sabemos que são de pessoas que não estão em condições de voltar a dar aulas. Mas para o ME/DGAE, isso não interessa nada. Aliás, depois das ameaças de juntas médicas aos milhares, agora nem sequer irão verificar casos, até mais graves do que estes, em que as condições de saúde impedem a docência. Mas as regras, não do recrutamento, mas de apuramento das verdadeiras características das necessidades, impedem que as vagas sejam ocupadas. Porque o ME gosta de ser poupadinho e desconfiado. E é assim que muitos horários continuam por ocupar, enquanto muita gente continua por colocar.

A ver se nos entendemos de uma vez por todas, embora eu saiba que é praticamente impossível mudar as crenças e preconceitos a quem deixou que eles se instalassem de forma quase inamovível. Existem horários por preencher e existem pessoas com habilitações para os ocupar, o que falta é a coragem (política, financeira, intelectual) do ME assumir uma atitude diferente em relação aos docentes que não estão em condições de leccionar, permitindo-lhes uma aposentação digna e não a actual procissão de juntas médicas que, em diversos casos, são particularmente penosas de cumprir, chegando mesmo a agravar estados depressivos. Quem não percebe isto, ou é mesmo ignorante ou é profundamente [pi-pi-pi]. Se há abusos? Há, eu sei. São muitos? Não me parece, apesar das pessoas que olham só para o seu quintal 😀 e que clamam muito contra tais abusos. Mas se acham que assim é, que tal denunciarem-nos em concreto, em vez de bloquearem a resolução do problema, até que lhes deem mais poder para “escolher” as maçãs mais verdinhas do pomar?

Concluindo: o modelo de recrutamento não é culpado pela “falta de professores”. A culpa (que existe) é de um conjunto de procedimentos que o ME impôs ao logo das últimas duas décadas para a ocupação de horários que, sendo anuais, não aparecem como tal e que, podendo ser completados, são sistematicamente apresentados como incompletos. Solucionar isto não exige mais poder para quem já o tem em excesso. Basta permitir o tal completamento de horários, por exemplo, com 14 ou mais horas, quando se sabe que @ docente em baixa médica não voltará, ou manter quem veio fazer a substituição durante os dias ou semanas que passarão até que quem voltou à escola, porque ao fim de dois meses a isso foi obrigad@, se vá de novo embora, não por causa de “padrões irregulares”, mas sim porque foi chupad@ até ao tutano da “resiliência”, em especial mental.

Isto permitiria atrair, em primeiro lugar, os candidatos que recusam horários que só são incompletos e temporários porque a tutela tem regras estúpidas em nome de uma “boa governança” financeira que prejudica, antes de mais, os alunos, mas liberta dinheiro para a enésima avaliação estratégica do mítico novo aeroporto de Lisboa. E para uns eventos à maneira que andam a acontecer por aí.

Sábado

A minha petiza teve, entre o 7º e 12º ano, seis directores de turma diferentes (e nem me lembro se não chegou a existir um sétimo, quase só durante umas semanas, antes de ser substituído).

O mais lógico seria eu desenvolver uma investigação e propor um novo sistema de recrutamento de professores com base nessa experiência pessoal?

Parece que, embora eu esteja ligeiramente a exagerar (mas só ligeiramente), as coisas agora são assim. A partir de uma má (?) experiência pessoal, traça-se todo um diagnóstico. Quase me esqueço que uma das críticas que li e ouvi anos a fio foi – com a escassez imaginativa típica de certos intelectos – que eu só via “o meu umbigo” ou que só conheço “o meu quintal”. Quando agora apresento diversas situações, de vários pontos do país, ou me dou ao trabalho de exemplificar com o que aconteceu em outros países, saem-me com “o meu netinho tem muitas férias e eu estou cansada” ou “o filho da porteira da minha cunhada, que é uma querida, não gostou do professor de Ciências, porque ele era velho e não sabia o que era o Assassination Classroom”.

Lamento insistir, mas o modelo de recrutamento não aumenta o número de professores disponíveis, a menos que baixe o nível dos critérios para poder-se concorrer. A contratação de um terço do corpo docente pelas escolas, nomeadamente os teip, apenas os tornará mais monocromáticos em termos pedagógicos e desligados de outras realidades; a vinculação directa pelas escolas é uma péssima ideia e criará situações de enorme iniquidade num país com cerca de 10 milhões de habitantes e de 90.000 km2 no seu rectângulo continental.

Não me venham com conversas de necessidade de maior “proximidade” na “escolha dos professores mais adequados”, porque o que está em causa é mesmo um quid pro quo entre a tutela e os seus emissários nas escolas.

Numa típica jogada de esperteza sonsa, o ministro Costa fala muito em não duvidar dos professores, de não colocar em causa a sua integridade e e tc, mas na prática faz toda uma outra coisa. Para além de saber que a falta de transparência está do lado dos que têm o poder de “guardar os horários na gaveta” ou de fazer uma “distribuição de serviço” manhosa, que faz aparecer aqui o que desapareceu ali. Se, como já ouvi, há quem “não conheça esse país” de que falo, então maior é a razão para não @s deixar com o poder de decisão sobre a vida dos outros nas mãos.

6ª Feira

Andamos cá por casa, numa espécie de ritual diário, a ver ou rever a já clássica série Monk, sobre um detective com um transtorno obsessivo-compulsivo maior do que a cidade de São Francisco onde a acção se passa e uma memória de tipo eidético. A esse respeito, de se lembrar de quase tudo o que viu, leu ou ouviu, ele costuma dizer “it’s a gift… and a curse” ou “it’s a blessing anda a curse”.

Felizmente, os meus distúrbios mentais estão à escala da minha vilória original e a minha memória tem altos e baixos, embora muitos dos pontos altos sejam realmente uma benção (não preciso de ir à pressa googlar uma série de coisas ou imediatamente à procura do livro ou revista onde li determinada coisa), mas também uma maldição (lembro-me de coisas que muita gente gostaria que ficassem no esquecimento, em especial quando remontam a tempos pré-internet de banda larga).

Isto a propósito de me lembrar que, há quase 20 anos, o ministro David Justino ter tentado reformular o concurso para colocação de professores, introduzindo diversas alterações, algumas das quais visavam acabar com o que foi designado como “os horários dentro da gaveta” que os conselhos executivos não tornariam disponíveis de imediato, guardando-os para os mini-concursos, altura em que apareciam a concorrer as pessoas “certas”. Uma outra justificação era que alguns desses horários apareciam propositadamente incompletos, para que nem toda a gentes a eles se candidatasse, enquanto @s conhecedor@s sabiam que, mal chegassem à escola em causa, as 4-6 horas em falta surgiriam quase por milagre. Não era uma acusação descabida, pois se chegasse alguém imprevisto as horas nem sempre apareciam, como poderá confirmar o meu registo biográfico que contém pérolas como 11 meses com 21 horas, enquanto no grupo disciplinar ao lado (e que permite leccionar uma disciplina comum) alguém saltou rapidamente de 12 para as desejadas 22 horas.

Desonestidade? Corrupção? Não me parece. Em alguns casos, mera preocupação com o destino de pessoa estimada. O bom e velho modo de estar português, que permite “desenrascar” as coisas. Ou… se fosse agora… o cuidado em esperar/escolher a pessoa com “o perfil de competências certo” para o lugar. Naquele meu caso específico, ninguém por lá me conhecia… até tinha estado a dar aulas em outro nível de escolaridade, num “contexto” talvez não tão “desafiante”, não tinha uma “formação específica”, pois estava a fazer ainda a parte curricular de um mestrado fortemente centrado em “conteúdos” de História.

O que a mim mais espanta em tudo isto é encontrar quem fez bandeira do combate aos “horários dentro da gaveta” do lado dos que consideram que se deve “localizar” a contratação e mesmo vinculação de docentes. Mas então o sistema é “centralizado” e “ineficaz”? Mas é a “territorialização” do recrutamento dos docentes que permite abrir mais vagas ou multiplicar o número de professores? Não me parece, excepto em casos a que já nos últimos dias aludi, nomeadamente as situações de franca “autonomia” que as direcções já têm na gestão da sua busca de recursos humanos para certas “necessidades educativas” ou serviços específicos de ocupação dos alunos ou “combate ao insucesso e abandono escolar”. O curioso é ver quem achava que antes havia clientelismo e práticas de nepotismo, agora ao lado de quem, qual vestal maculada em seu manto, clama pela honestidade geral. Ou mesmo a apoiar iniciativas municipais que culminam na contratação de “recursos” á medida das conveniências pessoais ou políticas, desculpem, das necessidades dos alunos.

Claro que há aquelas pessoas que nesses tempo nem andavam por estas andanças – há quem, em funções executivas, me lembre apenas desde que fez uma curiosa primeira visita a uma escola dirigida por um velho amigo (a quem interessava muito “projectar” a sua escola em acelerado declínio), mas isso faz parte do tal modo de estar português de nos lembrarmos dos nossos amigos. Mas há quem ande há mais tempo nisto e, como acima escrevi, por vezes é uma maldição lembrar-me do que disseram e fizeram em Primaveras passadas.

5ª Feira

Não é muito difícil antecipar que a eventual vinculação directa pelas escolas terá muitos efeitos que, mais tarde, serão considerados “indesejados” e que se dirá terem sido imprevisíveis à data da tomada da decisão. Claro que não é bem assim porque as coisas estão estudadas para outras paragens e são mais do que conhecidas. Uma delas é uma variedade do efeito “porta giratória”, em que se aproveita o “mecanismo” da vinculação directa em determinado tipo de escolas, em nome de assim ser mais rápido ou “atractivo” o seu recrutamento, para depois delas sair o mais depressa possível para outras com melhores condições. Há forma de “mitigar”, como agora se diz, esse efeito mas o que a abundante “literatura” sobre o tema nos descreve é que a tal “vocação” ou “perfil” para determinados contextos escolares “desafiantes” (eufemismo para “muito complicados”) raramente resiste a melhores condições de trabalho, curiosamente até podendo sacrificar-se uma parte do salário (há casos em que existe um acréscimo salarial para trabalhar em determinadas zonas escolares). É o problema da “retenção” dos professores nas escolas mais problemáticas que abunda em estudos com conclusões muito semelhantes.

Essa “literatura” também nos explica, com algum detalhe, que o recrutamento directo pelas escolas pode ter um efeito positivo num período de tempo muito limitado, mas que a médio prazo não ajuda a combater qualquer tipo de desigualdades e até pode ter a consequência de as aumentar. A experiência demonstrou isso já no século XXI de forma muito clara. Em especial, quando se achou que seria a “localização” das políticas educativas a solução para um crescente problema de inclusão de grupos de imigrantes, mas rapidamente se verificou que isso estava a conduzir à criação de uma maior discriminação e mesmo “guetização” das comunidades escolares, em especial as que se começaram a fechar cada vez mais em si mesmas e cada vez mais indesejadas como ambientes de trabalho.

Não é por falta de estudos sobre estas questões que irão ser tomadas decisões que se revelaram pouco ajustadas em outras paragens. O mais curioso é que nuns momentos se elogia o avanço que os alunos portugueses tiveram em matéria de testes internacionais em relação aos de outros países, aparentemente mais desenvolvidos, que têm estado em acelerada descida ou incapazes de melhorar, mas não se estabelece a relação – óbvia – com a existência ou aumento da difusão de certas políticas alegadamente “descentralizadoras” na gestão do currículo e da gestão dos recursos humanos. Se tudo isso funcionasse, os resultados não teriam estagnado em alguns países anglo-saxónicos (incluindo os EUA) ou entrado em declínio (como nos longamente elogiados casos da Finlândia e Suécia).

Curiosamente, em Inglaterra o início da recuperação nos resultados é associado a medicas como “[a] massive shifts of schools from local authority (municipality) control to direct contractual relations with central government.”. Por cá, lê-se pouco e aprende-se menos ainda, porque não há nada como políticos para não realizarem ou consolidarem novas aprendizagens que contrariem os seus credos e preconceitos.

4ª Feira

Se pensarmos a fundo, ainda bem que se vão reformar tantos professores velhos, incompetentes, carentes de formação, carregados de preconceitos e privilégios. Nem sei porque há agora tamanha aflição. Não fizeram tudo para que se fossem embora, no maior número possível os que ainda têm memória de uma carreira? Assim, não ficam livres para contratar esposas, filhos, amigos, compadres, amig@s colorid@s (estou apenas a pensar em casos concretos que conheço em primeiro testemunho de quem está nesses “territórios” muito “inovadores”) ou recorrer a “agências de recrutamento” como num dos exemplos da peça do Público, em que quem passou por esse “modelo” apresenta aquela mesma atitude de amochanço que tanto a tutela deseja que se generalize por cá?

3ª Feira

Fica aqui o plano de estudos do Mestrado em Ensino de História do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. Como poderão confirmar não existe qualquer disciplina (nem uma) sobre História, mas apenas sobre o “ensino da” ou “comunicação”. Apenas a forma, nada de conteúdo. E não vale a pena ir em busca da licenciatura em Educação e Formação, porque ela não passa de uma abordagem generalista ao tema, com metodologias, psicologias, economias, sociologias, projectos, teorias e modelos.

Chega para ensinar o “essencial”, ou nem isso, de História, essa disciplina que só interessa a gente coeva da Mumadona (quem?), a servir às talhadas de 90 minutos semanais.

2ª Feira

Afinal não são pouco mais de 600 mas quase 2000 os horários por preencher (mais os que ainda não puderam ser colocados na plataforma) e a maior carência em Geografia e Físico-Química e não apenas em Informática. A falta de docentes de Geografia não se deve a carreiras mais atractivas para os respectivos licenciados, porque é preciso seguir a via de ensino para dar aulas e entrar para o quadro. O problema é que, quando da repartição de horas entre História e Geografia, por questões de maior poder junto dos decisores, foram reduzidas as horas daquela (sem falta assinalável de docentes) e aumentadas as desta (que já então tinham dificuldade em preencher os horários que havia). Até me lembro de ser exigido que pudessem leccionar H.G.P. em paridade com o pessoal de História. Só que não havia “oferta” suficiente e tudo foi uma jogada de poder da A.P.G., com gente bem colocada na DGIDC e outros meandros do ME, enquanto a APH se satisfaz em circuito fechado com umas palmadinhas nas costas e convites para umas formações. Isto não significa uma menorização da disciplina e professores de Geografia, mas apenas a constatação de factos. Tal como com TIC, não adianta criar horas no currículo se depois não é possível assegurá-las com pessoal devidamente qualificado.

Quanto aos horários por preencher, muito haveria a dizer sobre o modo como o ministro Costa tem gerido as coisas, evitando a acumulação de horários na plataforma, ao não permitir que certos horários de substituição sejam disponibilizados logo que são necessários. E, por favor, não me digam que isto é não é verdade, porque há casos bem concretos que muit@s director@s poderiam confirmar, não fosse o medo de ficarem mal na avaliação.