5ª Feira

Um horizonte de mais de 4,5 anos de governação em maioria absoluta tende a agravar fenómenos já endémicos entre nós, porque cresce o sentimento de impunidade e desresponsabilização de quem é da “equipa” e sente ter as costas quentes para os desmandos, graças às linhas directas para quem decide e manda. O nível de subida das lamas do pântano acelera muito, mesmo em relação a situações semelhantes do passado recente.

4ª Feira

E quando se pensa que há já pouca margem para ver/ler coisas piores em matéria de add, eis que se lêem umas contra-alegações que nos dão um imenso desgosto por se partilhar a profissão com quem se comporta de um modo absolutamente indigno das funções que desempenham e que, por má que seja a legislação, a ultrapassam no desejo de amesquinhar o desempenho de colegas que, em termos absolutos, obtiveram classificações de mérito. A add é uma podridão a céu aberto em que ninguém quer mexer, preferindo-se distrair a populaça com as mobilidades.

3ª Feira

É notícia que “Quatro em cada cinco alunos de minorias sexuais e de género ainda preferem não o revelar aos professores ou funcionários no contexto da escola” e que “A escola ainda não é um espaço seguro para uma grande parte dos jovens LGBTQ.” A questão que gostava de colocar é se já perguntaram às professores e professores se sentem segurança em assumir, no espaço escolar, uma orientação sexual/de género diferente da convencional e se acham que isso vai ser encarado “naturalmente” pela comunidade escolar, alunos e “famílias”, incluídas. Porque nas escolas os direitos são muito assimétricos, só que não no sentido que muitas vezes se gosta de propagandear.

2ª Feira

Não sei se é bem “vergonha alheia”, porque isso talvez implique alguma empatia com quem deveria sentir “vergonha própria” e essa já se gastou há uns tempos. É mais embaraço, ao observar certos descalabros que me rodeiam e que, nem que seja de forma indirecta, acabam também por me atingir e manchar, por incúria, desleixo ou incompetência de terceiros. Nada que aconteça por falta de avisos a tempo, mas quando se opta pela via da “representação” e do “tudo está bééém”, estamos com mais de meio caminho para asneira da grossa. Espero que não tenham a lata de pedir que trate de raspar os ossos a quem nunca acharam que merecesse carninha do lombo, que essa é para @s amig@s. Ou para os vassalos mais invertebrados. Ou para os guardiões da honra perdida. E que se lixe quem afiar o barrete até aos pés, que só vai tarde.

E quem não percebeu, é porque era para não perceber.

Domingo

Historicamente, os triunviratos (ou troikas, já agora…) acabaram, em regra, mal e com soluções de carácter autoritário. Dos finais da república romana à decadência do ideal republicano da revolução francesa. Significa uma de duas coisas: ou que a “estrutura” não conseguiu gerar um mecanismo de sucessão forte ou que alguém se quer disfarçar, de momento, antes de tomar o poder. Ao contrário do que podem querer fazer passar para o exterior, é uma solução que resulta de uma fraqueza. E presta-se a confusões. Claro que podemos teorizar tudo o que se entender. Mas o que me quer parecer é que há quem, de tanto não querer sair, tenha tornado tudo árido em seu redor.

Sábado

“Professor, eu não tenho nenhuma imaginação”. Ouvi esta frase, ou uma sua variação, por diversas vezes esta semana, na sequência do pedido, a finalizar o teste de Português de 6º ano, para que os alunos imaginassem “uma cena em que te encontres a bordo de um navio pirata e prestes a enfrentar um ataque inimigo”, acrescentando que não se esquecessem de usar diálogos Mais nada, mais nenhuma condição, de mínimos ou máximos de palavras. Nos dias anteriores, excepção feita ao tema, já lhes tinha dito que a parte de produção escrita seria com estas características, mas, tendo terminado a leitura de Os Piratas de Manuel António Pina, não seria propriamente uma surpresa.

O mesmo número de vezes, respondi que não acreditava que não tivessem imaginação, apenas não estavam a tentar, sequer, imaginar qualquer coisa a partir de algo que já conhecessem, tivessem lido ou visto em filme. Que na idade deles (11 anos, em média) a imaginação deveria estar em boa forma e que era difícil acreditar que não conseguissem imaginar uma cena de um ataque de piratas. Alguns lá tentaram avançar, mas um punhado não tentou ou, ao fim de duas linhas, desistiu e ficou a olhar para a folha. Não se tratou de qualquer caso (talvez um!) de pura e simplesmente se estar nas tintas. A verdade é que – ao contrário do que por vezes se diz – não sentirem capacidade para criar algo seu e passá-lo para o papel. Outros colegas conseguiram-no e houve mesmo quem perguntasse se podia acrescentar uma página do caderno.

Em regra, todos os anos há um par de alunos que passa por este tipo de “crise”, seja de confiança ou mesmo de “imaginação”. Mas o número vem aumentando, não achando eu que é falta de capacidade, mas sim de atitude perante o esforço que é pedido e que vai além de extrair informações de um texto ou estudar conteúdos. A “criação” parece algo que, em vez de equivaler a liberdade, se assemelha a um dever indesejado. Claro que é fácil relacionar esta atitude com a crescente dependência de gadgets que já trazem quase tudo feito, bastando seguir os caminhos pré-estabelecidos. Não sei se é apenas isso. Não tenho dados para avaliar se é algo mais geral do que o que resulta da minha observação directa de 56 petizes, dos quais 10-15% se revelam incapazes de alinhavar mais de umas 20 palavras, antes de desistirem, por muito que os estimulemos ou provoquemos. Não me venham com a pandemia a este respeito, que é treta. É algo diferente. Também não tem a ver com qualquer “mudança de paradigma”, nas necessidades de ensino/aprendizagem. è apenas algo que me deixa desconfortável, mais do que desiludido. Que eu gostaria de não ver aumentar ainda mais nos próximos anos. Porque quando aos 11 anos se desiste de fazer algo, quando não se têm quase limitações, chegando mesmo a dizer que seria mais fácil terem instruções muito mais restritivas e direccionadas, isso não prenuncia nada de muito bom.

5ª Feira

Parece continuar a existir uma insanável incompreensão em quem aconselha ou toma medidas teoricamente para combater a “escassez de professores”, acerca das razões que levam muita gente a sair e a não querer voltar. Ou a não querer andar a tapar buracos como há 30 ou 40 anos se fazia. O símbolo maior dessa incapacidade cognitiva (para ficarmos assim) foi aquela coisa do “voluntariado” que o actual ministro anunciou, pensando estar nalguma missa lá na paróquia a pedir aos fiéis para se oferecerem para arranjar o telhado do baptistério. Quem não compreende as origens e razões da desafeição, tenderá sempre a falhar qualquer tentativa de a remediar. Como aquele médico que insiste em curar uma fractura na perna esquerda com um curativo na ponta do nariz. João Costa não compreende que quem saiu não quer voltar e que, com as condições de carreira que tem, a maioria dos que estão perto da reforma só quer ver o momento de sair. E não existe volta a dar, enquanto a teoria for a de que o grande desígnio deve passar por trazer de volta quem saiu ou desistiu (voltaram 116 dos 5000 que tinham sido excluídos da contratação, o que até deveria ajudar a abrir os olhos, mas nem isso deve ter funcionado) e não em tentar manter quem está, não estando sempre a pedir mais e mais, sem dar nada em retorno, nem o produto de furtos passados. Porque antes de conseguir arranjar professores em regime de “mais vale isto do que nada”, seria boa ideia tentar desacelerar a hemorragia.

Nada mais triste do que ter ao mais alto nível do ME um exemplo renitente de aprendizagens não realizadas que, para agravar, insiste em não as querer recuperar.

4ª Feira

A memória de muitos adultos é curta. Quantos se esquecem do que foram e como eram diferentes na escola, nas aulas, nos intervalos e em casa. Quem não perceba que não se lhes está a negar a proximidade quando se lhes diz que, porventura, talvez, quiçá, o jaquinzinho ou a Marianinha, na escola têm um comportamento, atitude ou desempenho – para o bem, o mal ou o simplesmente diferente – do que têm em casa. E é especialmente estranho – embora não raro – quando tem de ser @ professor@ a acreditar mais n@ petiz.