6ª Feira – Dia 19

Há um par de dias, no contexto da preparação do debate sobre a renovação do estado de emergência, o ministro da Administração Interna culpou os portugueses pela degradação da situação pandémica no mês de Janeiro. Algo parecido já tinha sido feito umas semanas antes por outro ministro (o da Economia) num exercício muito habitual em políticos que, perante adversidades, optam logo por se desresponsabilizar de tudo o que acontece. Quando as coisas correm bem, apressam-se a aparecer a colher os foguetes e louros e a anunciar festividades onde se distribuem palmadinhas nas costas à discrição.

5ª Feira – Dia 18

De acordo com uma sondagem conhecida ontem, mais de 80% dos inquiridos concorda com o fecho das escolas e que elas assim se mantenham nas próximas semanas. Este resultado entra em claro conflito com a atitude de grande parte da opinião publicada e mediatizada. Porque se lermos ou ouvirmos muito do que surge nos jornais ou nos canais televisivos de notícias, ficamos convictos que a maioria dos portugueses está contra o encerramento das escolas e as quer abertas o mais depressa possível.

4ª Feira – Dia 17

Já pedi para desgralhar o original, que é o que dá escrever logo às 8 da manhã.

Uma pretensa “nova” normalidade tem de assentar em novas rotinas, estabelecidas com paciência e atenção ao que funciona minimamente e o que acaba por estar apenas a criar uma desnecessária ansiedade. E quando tanto se começa a falar em “saúde mental” (de alunos, mas de igual modo de professores e encarregados de educação), é fulcral que se busque o tal equilíbrio entre o conhecido e o novo, que as “novas” rotinas tenham as tais “luzes” que iluminem o caminho, mas que o façam no entendimento de que este é um caminho diferente do que estávamos habituados a percorrer.

3ª Feira – Dia 16

Até parece que estava a adivinhar esta carta, de mais (!) de duas centenas de notáveis, nos quais se incluem o presidente da Confap (que continuo sem perceber se ainda é encarregado de educação), o inefável Daniel Oliveira, a excelentíssima doutora Cosme e até um par de professoras não-superiores e uma directora escolar.

Por mim regressaria já amanhã, se não achasse que isso seria um disparate imenso em termos de saúde pública. Não porque as escolas sejam focos de contágio, até porque nesse aspecto particular a preparação foi feita com bastante cuidado. Porque foi feita localmente e não encomendada tardiamente pela 24 de Julho. As escolas não são aquele estranho oásis de “contágio zero” no meio do caos pandémico, onde flutuam “bolhas” estanques, mas são locais razoavelmente seguros. O problema não é esse e já deveria estar interiorizado o que está em causa.

2ª Feira – Dia 15

Só que em E@D, todos os trabalhos são para casa, em sincronia ou não. Mas não devem ser TPPC, ou seja, trabalhos para pais em casa. Porque muitos dos adultos que agora ficam pelo domicílio em permanência, ou estão em teletrabalho ou podem não estar com o melhor estado de espírito. E entendo alguns protestos com a sobrecarga de solicitações. Até porque também sou encarregado de educação e sei o que isso é. A dobrar. Porque estou dos dois lados da falsa trincheira. E em qualquer um deles sempre preferi adoptar algum equilíbrio.

Sábado – Dia 13

Na sala de aula tradicional, o contacto é imediato, assim como a interacção é estabelecida sem uma mediação que a torna mais lenta. Sinto uma maior capacidade de intervenção em tempo útil, junto dos alunos, quando estou perante eles. A aula física é uma aula a três dimensões, enquanto a aula virtual é 2D nos seus melhores momentos e quando as condições não são limitadas pelos contrangimentos da rede ou dos equipamentos.

6ª Feira – Dia 12

A escrita em dispositivos, com ou sem correcção automática, está a provocar uma erosão enorme no hábito de manuscrever seja o que for ou de o fazer com algum rigor, do uso das maiúsculas à própria pontuação, um pouco devido à velocidade com que tudo parece ter de ser produzido, transmitido e consumido.

5ª Feira – Dia 11

Ao contrário de algumas teses sobre a ansiedade que a avaliação impõe externamente aos alunos, eu estou mais familiarizado com a ansiedade e mesmo irritação quando a avaliação se atrasa e uma certa incompreensão quando eu enveredo pela conversa do “não se preocupem por enquanto com a avaliação, que não é o que me importa mais”. O olhar que me é dirigido em resposta é mais do tipo “despache-se lá com o código do quizz que eu estou aqui à espera, sem nada de mais interessante para fazer”.

4ª Feira – Dia 10

Hoje repetiram-se os problemas, não apenas para mim, ao tentar que os alunos fizessem um mini-questionário no Quizizz. Lentidão, quedas de ligação, tudo a servir apanas para aumentar níveis de ansiedade, em especial nos mais pequenos. A solução é memso recorrer a tarefas quase por completo assíncronas.

Ontem, as coisas fraquejaram e não houve largura de banda que aguentasse, pelo que duas das ligações, mesmo aquela que ganhou poiso ali defronte do router, andaram aos tropeções, às entradas e saídas de sessão, quase fazendo lembrar os tempos do modem de 56k dos idos remotos dos anos 90, quando consultar o mail do clix era uma aventura.

Quem tem essas memórias ganha uma resiliência (palavra que então nem se usava, era mesmo apenas paciência) enorme para enfrentar as agruras do mundo digital de fantasia que nos é vendido pelos gurus da Transição Digital, que parecem não entender que de nada adianta ter 5G se não existir meios para a maioria desfrutar de tamanha hiper-modernidade. Que me interessa o Ferrari, se não tenho como pagar o consumo? Ou melhor, de que me interessa dizerem-me que há Ferraris por aí, se são só para futebolistas de topo e “empreendedores” andropáusicos?