Dia 75 – Humildade

A última crónica desta série diarística para o Educare, agora que entrámos na fase do “cruzem os dedos e esperem que corra bem”.

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Esta nova fase deveria revelar que se aprendeu qualquer coisa, que se entendeu o quão frágil é a Humanidade e as suas “conquistas” quando um pequeno vírus fica descontrolado. Mas não é isso que me parece. A humildade é algo que nos ficaria tão bem ou melhor do que qualquer máscara usada como acessório de moda.

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Dia 74 – Saturação

Agora já com o link para o Educare.

Na última conversa síncrona com os alunos da minha direcção de turma, foi notório o cansaço de todos com este modelo de E@D, não um cansaço físico ou intelectual com o excesso de tarefas, mas um cansaço nascido do que se tornou uma rotina que perdeu novidade, interesse e capacidade de os cativar. A pergunta feita mais vezes foi “quando é que são as matrículas?” ou “como são as matrículas para o ano?”, porque a cabeça da maioria já deixou este ano lectivo para trás.

Não é caso único, pois cá em casa existem três canais de informação em primeira mão sobre o que se passa nas escolas, para além de todas as conversas que se vão mantendo pelos canais digitais. E começam a acumular-se as evidências de que este “modelo”, que a alguns entusiasma, aos alunos nem por isso. E não há rap telescolar para os petizes ou gamificação das aprendizagens para os mais velhos que salve a sensação geral de desgaste. Sim, o ensino de base quase exclusivamente tecnológica e digital pode tornar-se tão ou mais aborrecido do que o presencial de recorte “tradicional” e talvez esta seja a conclusão que muita gente não terá coragem de assumir.

Depois das primeiras semanas de descoberta (apara quem já não as usava) de algumas novas ferramentas de trabalho, começou a instalar-se um efeito de repetição em que até o espaço da sala de aula começa a ser recordado com saudade pelos alunos que antes diziam detestá-la. Sim, o digital é menos interactivo do que o humano e essa é uma outra conclusão que poderiam fazer por não encobrir. Não há plataforma que chegue aos calcanhares de um professor mediano. E nem @ mais criativ@ d@s docentes em meios digitais consegue impedir que se instale uma evidente saturação com uma solução que poderá ser uma “alternativa” em tempos de crise, mas dificilmente o “novo paradigma” que melhorará o gosto dos alunos pela escola ou o seu desempenho.

É verdade que funciona bem como “tempero”, mas não satisfaz como prato principal.

Temos ainda mais quatro semanas para cumprir, em especial no Ensino Básico, num tempo cada vez mais penoso, pois todos sabem que, salvo excepções, para o ano teremos – se for possível o regresso em segurança ao modelo presencial – de fazer novamente boa parte deste caminho. O prolongamento do ano lectivo foi uma decisão que se revelou mais errada a cada nova semana que foi passando. Agora já só podemos mitigar s situação e fazer os possíveis por transmitir a esperança, que nem sempre temos, aos alunos de que para o ano será diferente. “Mas será melhor?” perguntam-me os mais perspicazes. E eu que nem conheço o emoji certo para o encolher de ombros com ar de quem não faz a mínima ideia, não tenho resposta.

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Dia 73 – Os Ecrãs São Inodoros

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Quando leio ou ouço alguém a multiplicar êxtases e arrebatamentos com sessões de Zoom ou Teams ou com classrooms virtuais, salta-me logo aquele preconceito que me faz pensar que estou perante alguém que tem uma noção muito diferente da minha do que deve ser a dimensão humana da Educação, com o mínimo de mediações. Fico a pensar que é gente que considera um consolado jogo de FIFA 2020 mais interessante do que o futebol ao vivo, ele mesmo, apesar dos nossos dirigentes, comentadores e árbitros.

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Li há uns dias alguém a dizer que esta crise tinha sido um “abridor de olhos” para o papel essencial dos professores em aulas presenciais. Penso que a expressão se aplica apenas a quem tinha os olhos fechados para isso e já estava a navegar virtualmente há uns tempos.

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Dia 72 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 5

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Não estão apenas em causa – e são de monta – os condicionalismos económicos, mas igualmente os culturais e os que se relacionam com os eventuais handicaps dos alunos, desde dificuldades de natureza cognitiva com múltiplas potenciais origens a défices sensoriais, sendo mais óbvios os da visão e audição.

Para esses alunos, mais do que buscar as plataformas mais intuitivas ou com mais funcionalidades para trabalhar com a generalidade dos alunos, há que mobilizar as “tecnologias assistivas” (assistive technologies, na designação original) mais adequadas à inclusão de alunos com situações que vão da dislexia à cegueira, passando por muitas outras situações que parece mal agora designar como “necessidades educativas especiais”, sendo mais politicamente correcto optar por necessidades específicas de aprendizagem.

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Dia 71 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 4

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Uma “comunidade de aprendizagem”, realmente adaptada ao século XXI, assenta na possibilidade de estabelecimento, a qualquer momento, de interacções entre o professor e os alunos e entre estes. Que podem acontecer num tempo e espaço que se multiplicaram e quebraram as barreiras da sincronia e da presença, mesmo se podem manter momentos de partilha presencial na realização de algumas tarefas, em especial no lançamento das sequências de aprendizagem. A redefinição, em especial numa perspectiva conectivista, implica que o tempo da aprendizagem é balizado pelo professor nos seus limites máximos, mas pode ser gerido pelos alunos de acordo com o seu ritmo; assim como permite que o espaço seja multiplicado de acordo com as possibilidades e condições dos alunos. As salas de aula físicas tornam-se pontos de referência, mas não de presença obrigatória de acordo com uma grelha rígida diária ou semanal.

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Dia 70 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 3

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Nos últimos meses, tendeu-se a apresentar como se fosse uma “revolução” o processo de substituição das aulas presenciais nas escolas por variantes que procuraram replicá-las da forma mais fiel possível, só que à distância. O maior exemplo disso é o das aulas da “Telescola”. No fundo é uma “aula” dirigida ao mesmo tempo a todos os alunos, com o problema de não ter interactividade com o seu “público”. O mesmo se passa com as sessões “síncronas” em que tantas escolas parecem ter colocado ênfase, obrigando alunos e professores a estar ao mesmo tempo a realizar uma determinada actividade. No fundo, tirando o meio pelo qual se concretiza a “aula”, pouco acontece de verdadeiramente novo e há mesmo importantes perdas em relação às aulas presenciais.

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Dia 69 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 2

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No presente, as teses construtivistas regressaram em força e tentam mostrar-se compatíveis com a era digital, quase como se a tivessem antecipado, mas a verdade é que tentam sem sucesso colocar roupas velhas a algo novo. Tentam explicar os fenómenos do século XXI, com teorias do século XX que, na origem, desconfiavam muito da desumanização tecnológica. E não conseguem resolver o paradoxo de quererem mudar a Educação, mas acabarem por usar os novos meios digitais como se fossem apenas algo equivalente ao aparecimento do stencil, do projector de slides ou da fotocopiadora, quando está em causa uma transformação muito maior.

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Dia 68 – Vamos Falar Disto Mesmo A Sério? – 1

(esta semana vou ser muito construtivo… para não dizerem que não há proposta ou alternativas)

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Há opções a tomar que têm implicações profundas no modo de conceber e praticar o ensino e promover as aprendizagens, não se limitando a discutir que plataforma é melhor para simular uma aula presencial à distância ou que ferramentas tem cada plataforma para apresentar um powerpoint aos alunos numa sessão síncrona ou partilhá-lo de forma assíncrona. Enquanto andamos por estas “águas”, nada de muito novo se passa, porque continuamos (por muito que se negue) no “velho paradigma”, seja ele behaviourista, cognitivista ou construtivista, Mas é o que tem acontecido, porque é neste caldo cultural que os decisores e conselheiros próximos se sentem confortáveis.

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Dia 67 – Não Chegam Rótulos

O ministro da Educação deu uma entrevista há um par de dias em que disse muitas coisas óbvias, mas muito pouco de concreto sobre o próximo ano lectivo. Afirmar que temos de avaliar “ tudo aquilo que não foi consolidado ou tão bem ensinado” ou que “a recuperação das aprendizagens tem de ser um dos pilares fundamentais no regresso às aulas” são evidências que se impõem desde dia 16 de Março. Por acaso, ao ministro faltou falar no que não terá sido “aprendido”, pois só referiu “consolidado” ou “ensinado”, o que é redutor.

Por outro lado, também é evidente que temos de nos preparar para vários cenários, pelo que quando afirma que “temos de nos preparar para uma conjugação entre ensino à distância e presencial” é como dizer que temos de nos preparar para a possibilidade de sol ou chuva, frio ou calor, vento ou calmaria. Sim, temos de nos preparar para quase todas as eventualidades perante a incerteza que nos rodeia.

Por isso mesmo é que é tão importante uma avaliação rigorosa, desapaixonada e não política ou demagógica do que se está passar durante estes meses. É fulcral que a análise do que se está a viver seja feita com rigor e não numa modalidade de ficção embelezada para efeitos de aproveitamento político. É tempo de ter a coragem de não se encomendarem estudos para gastar verba com cliques académicas que já sabem que conclusões devem tirar logo que conhecem o caderno de encargos. É muito importante que, já que se tornaram os quase exclusivos representantes das “escolas”, os directores optem por não querer apenas ficar bem na fotografia ou nas graças do poder, à espera de não comprometerem o futuro. E é decisivo que os encarregados de educação não oscilem entre o mais completo colaboracionismo sejam com quem for (através dos “parceiros” oficiais para estas matérias) e a reclamação descabelada e excessivamente emocional.

Porque já se percebeu que o ministro da Educação se aprendeu algo nestes anos foi a entrar no “jogo político” e a enunciar fórmulas vagas e números sem grande sustentação. Quando, na mesma entrevista, declara que se afirmou “dos cerca de 1,2 milhões de alunos, 50 mil não teriam acesso a computador ou meios de acesso, o que acontece é que esse número foi sendo reduzido”, percebe-se que ou descolou da realidade ou está a mistificar a opinião pública. Os estudos disponíveis indicavam-nos, de forma consistente, no início da pandemia, que cerca de 20% das famílias não estavam em condições de assegurar aos alunos condições para um ensino à distância em condições mínimas. Se é verdade que as autarquias (mais do que umas parcerias privadas que surgiram para consumo mediático) fizerem em certas regiões um trabalho muito meritório na aquisição e fornecimento de equipamentos, isso terá dado quase só para compensar o crescimento das bolsas de pobreza que resultaram dos despedimentos e quebra de rendimentos. A maior parte dos testemunhos indica-nos que, neste momento, o ensino remoto não passa de um remendo, que a “telescola” é um complemento muito fraco em termos pedagógicos, pois a partir do 1º ciclo são “aulas” tradicionais em que se tenta dar matéria a rodos em meia hora, e que o número de alunos “desaparecidos” ou “intermitentes” aumentou em relação às aulas presenciais.

Seria bom que tudo isso fosse avaliado, antes de nos quererem fazer acreditar que é possível, a começar pelo Ensino Básico, implementar um modelo credível de blended learning.

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Dia 66 – A História Repete-se?

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Boa parte de quem não regressa às aulas presenciais, não o faz só por questões de segurança, mas porque irá manter apoio em casa, com ou sem ensino remoto da rede pública. Basta pensar em todos aqueles alunos que nas aulas regulares se mostravam displicentes e não negavam que o seu maior investimento era no par de horas de explicações privadas.

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