2ª Feira

Prefiro focar-me um pouco mais na metáfora ou analogia usada para caracterizar mais uma função das escolas, ou seja, a de “radar”, que até pode parecer atractiva ou expressiva, mas revela uma forma de pensar a escola com que tenho dificuldades em identificar-me, porque a encara como uma espécie de faz-tudo da sociedade portuguesa. Em vez de se pensar qual a melhor forma da sociedade responder aos graves problemas que enfrentam estas crianças e jovens e @s levaram a não conseguir (ou querer) seguir o ensino não-presencial, parece achar-se que as escolas é que têm a função de detectar à distância tod@s aquel@s que dela se mantiveram afastados.

Sábado

Não é nada de excepcional e acho mesmo que é uma espécie de metodologia padrão para grande parte dos docentes. Avaliar a progressão das aprendizagens dos alunos, comunicar o que não correu bem, desenvolver estratégias de remediação, recuperação ou remediação (como lhes queiram chamar) e verificar de novo como estão as coisas. Só que em tempos de recauchutagem do velho, como verniz para parecer novo, fazer isto passa por ser enorme inovação, desde que se lhe coloque a palavra “Projecto” e se acrescente mais qualquer termo identificativo que sirva para servir de pretexto para “formação”. Há casos em que até vejo antigos colegas meus, que sabem fazer isto há décadas, ser nomeados como “embaixadores” de tamanha novidade.

4ª Feira

A pandemia não pode ser desculpa para tudo, menos para os acessos de impaciência dos professores, não sendo excepção aquele sacramental conselho, velho como as barbas do matusalém mais antigo, de “calma, setor@!” quando qualquer coisa começa a correr menos bem e merece reparo sem direito a desculpa. Confirmei cá em casa e não só e é transversal aos ciclos de escolaridade, pelo menos a partir do 5º ano. 

3ª Feira

A minha profissionalidade não depende de aceitar tudo o que me queiram impor, mas sim do meu desempenho junto dos alunos. E da minha sinceridade. E eles compreendem quando eu fico mesmo nos limites mínimos da paciência. Eles compreendem. Mas há quem, mesmo na própria classe docente, pareça achar que um professor não pode confessar que tem estados de alma menos “positivos”, como se fosse sua obrigação, junto com a profissionalização, ter caído num caldeirão de xanax, qual Obélix, com efeitos permanentes e perpétuos ao nível das reservas de paciência.

2ª Feira

O problema é que são demasiados os exemplos em que esse “espírito dos tempos” se veio a revelar algo duvidoso ou, no mínimo, com muitos aspectos altamente contestáveis. O que num dado momento parece evidente, natural, dominante, quase inquestionável sem fortes riscos, não o será daí a uns tempos, após algumas décadas de perspectiva.

Sábado

Na área da Educação, é conhecida e por vezes discutida a questão da erosão da “autoridade” do professor. Começou pela esfera disciplinar, com o pretexto de abusos cometidos, mas estendeu-se cada vez mais ao plano do próprio conhecimento, considerando-se que o saber do professor é um entre outros, como referi em crónica anterior. E também se sabe que muitas críticas à “autoridade” do professor se aproveitaram de forma bem consciente da sua confusão com “autoritarismo”.