3ª Feira

A comunicação social destaca hoje, com aparente indignação, uma das conclusões do relatório do CNE sobre o Estado da Educação em 2018. Parece que as crianças andam a passar muito tempo nos infantários e nas escolas. Mas, afinal, o projecto terceiro-mundista do PS não é, há mais de uma década, ainda renovado no actual programa do governo, a “escola a tempo inteiro”? Que me lembre não está lá nada de relevante para combater o crescente fenómeno da “família a tempo parcial”.

JN26Nov19

Jornal de Notícias, 26 de Novembro de 2019

Sábado

Vivemos num país imaginário, onde a representação impera sobre a realidade. Onde se “produz” riqueza ou pobreza, sucesso ou fracasso conforme as conveniências. O trabalho do Expresso sobre a cartografia dos carros de luxo é apenas um exemplo adicional. Consta que é na região de Lisboa que está a maior riqueza e os rendimentos médios mais altos, mas depois temos a maioria das “bombas” em concelhos do interior, empobrecidos e onde se diz que a riqueza é menor, quase sempre no norte do país. Enquanto uns gostam de produzir uma aparência estatística de sucesso (como na Educação), há os que preferem a humildade fiscal, mas não resistem ao exibicionismo.

Já Eduardo Lourenço escrevia, na esteira de quantos outros em outros século, que vivemos numa estado de permanente representação. Somos actores, em especial palhaços ricos e palhaços pobres, conforme as conveniências.

mascaras

6ª Feira

Os pais do 54 (agora 116) e do 55 já vieram a público defender as suas crias e como pensam que elas devem crescer no novo mandato. Pelo país, decorrem formações múltiplas com apóstol@s das palavras, curiosamente com apresentação de currículos extensos de onde está, quase sempre, ausente qualquer prática daquilo que enunciam como sendo dogma da única fé verdadeira, inclusiva e autónoma.

As coisas estão em movimento com a aparência de sucesso, embora existam sinais de perturbação quando se quer colocar uma segunda linha a chegar-se à frente. Continuo a achar que foi uma crueldade colocarem a presidente do CNE na ribalta, enquanto secretários e conselheiros se resguardavam. Ou andar a preparar campanhas mediáticas, prometendo de forma anónima falsas poupanças para cativar “os contribuintes” e alguns “liberais” e se estabeleciam comparações falacciosas com outras paragens, querendo que acreditemos que todo o sucesso é finlandês ou algo assim, prometendo aos alunos um sucesso que cai por terra quando, concluída a escolaridade, perceberem que o mundo real não acredita em nada disso. Sim, arranjam-se uns cursos de banda curta e terceira linha nos politécnicos ou universidades mais carentes de clientela, na sequência do paupérrimo princípio do “aprender para fazer”, Basta perguntarem-lhes se foram essas vias em que colocaram ou pensam colocar a descendência.

Continua a dar-se a entender que os “exames” são a causa de todos os males e desigualdades (embora sejam aqueles em que os apelidos menos contam quando chega à altura da avaliação) e mesmo que para o acesso à Universidade devem deixar de contar, para que possam ser elas a escolher os seus alunos. Como está mais do que demonstrado (quase iria escrever “todos os estudos demonstram/provam” como certos enunciadores do lugar-comum), esse modelo cria um sistema que aumenta as desigualdades, criando nichos de excelência para os tais 1% (por cá talvez 5%), enquanto os restantes 99% (ou 95%) se acotovelam no resto.

Acredito, a sério que sim, que alguma desta malta que assim pensa e tem o poder de decidir, até tenha boas intenções. Mas quer-me parecer que ou ficaram ceguinhos algures no tempo ou então têm um défice de informação enorme sobre o funcionamento do mundo real.

O que se passa com o SNS é um bom exemplo do que teorias de “boa governança” provocam quando aplicadas por gente parva. Ainda há dias um médico já reformado do SNS, agora no sector privado, explicava-me resumidamente como tivera de enfrentar, a dada altura, “gestores” que usavam como argumento para as suas teses o seu currículo e desempenho no sector privado ou, num caso específico, nos CTT. Como se tratar doentes e entregar cartas e encomendas fosse o mesmo. No caso da Escola Pública, acham que a educar crianças e jovens se devem aplicar princípios de gestão de recursos humanos equivalentes aos de qualquer empresa de vendas a retalho.

O resultado será, atrás da menorização permanente dos professores através da desvalorização do seu saber profissional e científico, apoiada no discurso sem vergonha na cara de alguns directores de escolas-pipis e uns quantos pedagogos de cartilha, o da erosão final da credibilidade do que o ministro Tiago pretendeu inovar no início do outro mandato designando como “Serviço Público de Educação”.

E que não se deixem enganar mais aqueles que consideraram que a redução dos apoios do Estado a colégios privados (sendo que a teia de um dos grupos vai sendo esquecida com a passagem do tempo, mas incluía vultos sempre muito próximos das equipas ministeriais do governos PS) foi em primeiro lugar uma medida de defesa da “Escola Pública”. Foi, sim, uma medida de poupança que, a médio prazo, visava que fossem apenas as “famílias” a suportar por completo a opção pelo ensino privado, opção que irá aumentar À medida que cada vez mais forem os que escolham fugir da desorientação que vai afectando o sector público da Educação, como já acontece no da Saúde, desde o esgotamento dos meios humanos à degradação das condições técnicas de funcionamento.

Estes senhores, que se apresentam cheios de princípios, todos engomados e bem-falantes, não passam de uma nova geração de cangalheiros, talhados à maneira das novas tendências internacionais em matéria de preparação de defuntos, apresentando os cadáveres com melhor cosmética do que quando estavam vivos.

Escuteiros

5ª Feira

A desqualificação profissional dos docentes faz-se de várias formas, começando por não reconhecer-lhes o devido valor académico ao menorizar-lhes o saber científico disciplinar e terminando na regular acusação de necessitarem de formação em diversas matérias “transdisciplinares” ou flexibilizantes (dada por umas luminárias de origem nem sempre muito clara, por vezes parecendo terem saído de um aviário vagamente universitário) para compreenderem devidamente a sua função “no século XXI”. E não adianta nada andarem, de vez em quando para parecer bem, a dizer que admiram muito os professores portugueses e que eles são excepcionais quando praticam o que acima descrevi em 99,9% do tempo.

Colbert Finger

 

4ª Feira

Grande medida de “descentralização” do Estado: há três secretarias de Estado que passam a funcionar no “interior”, curiosamente nas cidades (ou muito perto) onde vivem ou já trabalhavam quem as vai ocupar. Há notícias sobre isto que se lêem como se fosse a sério, mas há outras em que é impossível não notar o aroma, mesmo que involuntário, da ironia. Acho que muitos professores não se incomodariam de “descentralizar” assim.

Dumber