Sábado

Vivem-se realmente dias de maravilhas sem fim. Ontem, o ministro Cabrita queixava-se do Sporting não ter colaborado, ao não fornecer os elementos alegadamente solicitados, numa investigação. E conseguiu falar com ar sério, aborrecido, como num bom número de stand up. Claro que já foi desmentido, mas ele é o mai’lindo do primeiro Costa, portanto, fazia parte do acto.

Entretanto, algumas almas voltam a agitar-se com a crise humanitária da ditadura cubana, sem que digam grande coisa acerca do caos democrático na África do Sul. De novo, tais almas falam com a indignação própria dos bons comediantes. Então sobre a Guiné, nem uma palavra. Se colocarem no Google “Guiné, protestos”, os primeiros links são quase todos da Deutsche Welle.

Chegou (alguma vez terá terminado?) a silly season.

3ª Feira

Dia do exame do “cadeirão” do 12º ano, Matemática A. Lá fui deixar a petiza no portão da escola, junto ao qual já se alinhavam umas dezenas de outr@s petiz@s, a grande maioria dobrad@s sobre os zingarelhos digitais, pelo que não deu para aferir do estado de espirito geral ou particular. Embora tenham passado muito anos, ainda me lembro dos meus exames de 12º e do ambiente solene em seu redor. Ave rara, sempre gostei mais dos momentos singulares do que dos rotineiros, pelo que, apesar do que estava em jogo, preferia de longe fazer o exame do que ter mais uma aula chata de uma das disciplinas, a começar pelas de História, que nem sempre eram propriamente entusiasmantes.

Sempre tive esse feitio em forma de defeito de preferir as aulas de teste às aulas de matéria. Porque grande parte destas eram chatas e, com todos os cuidados que já na altura existiam (sim, existiram, pelo menos nos meus professores que em regra não acabaram em colunistas de jornais) para repetir o que não era percebido, aborreciam-me de morte com a segunda, terceira ou quarta explicação do que me parecia evidente á primeira. Sim, as minhas turmas eram quase sempre as do fim da lista e não propriamente com um desempenho médio genial, a que acrescia (em especial no 7º e 9º ano, mas também no 10º e 11º) um comportamento a uma distância muito razoável do desejável. Por isso, os dias de teste traziam qualquer coisa de diferente e menos barulho na sala, até porque na altura era possível a quem não se importava com o zero, ir-se embora depois de assinar o cabeçalho. O que, por exemplo no 9º ano, em Matemática, deixava logo a sala com 20-25% de alunos a menos.

Até ali ao 8º ano (e em parte do 9º), a escola tinha dois momentos de interesse: jogar à bola incessantemente nos intervalos e fazer/receber testes, sendo que os dias de os receber tinham quase sempre contornos épicos nas minhas turmas, tamanha era a saraivada de negas. Fica-me na memória o dia em que a minha estimável professora de História, com ar de grande enjoo, decidiu dar uma lição aos futebolistas (e por tabela às pobres e inocentes raparigas) e anular-nos um teste porque teríamos grande parte das respostas iguais uns aos outros. Mas isso só aconteceu porque as respostas estavam certas, pois nunca se chateou quando estavam iguais por estarem erradas. Achou estranho e achou bem, mas ninguém a mandou deixar um enunciado a mais na sala de outra turma, que o passou a nós e assim pudemos estudar com alguma “orientação” durante a aula de Electrotecnia, com a activa colaboração do professor, gajo porreiraço que quase desistiu de nos ensinar a fazer uma ligação eléctrica funcional.

A partir de meio do 9º ano, a escola manteve dois interesses, mas o assédio (quase sempre consensual, calma|) às raparigas substituiu gradualmente o futebol. No meu caso, até por ser um caso perdido sem ser como guarda-redes destemido, capaz de dar cabo de umas calças novas (o piso dos campos era um relvado de cimento) para impedir um golo quase certo do avançado da equipa dos gajos de Mecanotecnia (a turma do 9º ano com quase 25 rapazes, todos a transbordar testosterona juvenil e a querer exibir-se para as miúdas das outras turmas). Os testes continuaram a ser, até quase ao fim do Secundário, os momentos de maior animação no quotidiano estritamente lectivo.

Curiosamente ou não, sempre tive mais dificuldades em fazer testes nas disciplinas em que os professores eram mais fracos. Porque ensinavam pouco e muitas vezes aplicavam testes feitos pelos que ensinavam bem ou já tinham alguma experiência. Em Ciências nunca tive professor@ com mais do 1º ano da Faculdade e no 9º ano era um simpático cabeludo, com uma gabardina até aos joelhos, que andava no Propedêutico e tinha mais uns seis meses de idade do que alguns dos meus colegas mais resistentes ao sucesso. Levávamos as aulas a fazer jogos com nomes de bandas de música e filmes e depois gramávamos com o mesmo teste do pessoal das turmas A e B que já queriam ser quase todos médicos. Acho que nunca passei dos 80%, mesmo se ele se estava nas tintas se copiávamos, mas, como é habitual nestes casos, a maioria nem sabia o que copiar.

Em resumo… em dia de exame a comichão no estômago existia, mas era uma comichão agradável, que não me fazia vomitar à porta da sala (o exame de História foi às 15.00 e houve quem não aguentasse o almoço sem o partilhar connosco no corredor da Alfredo da Silva). Claro, não era Matemática A, mas acreditem que estudei mesmo a sério para o exame de Filosofia.

4ª Feira

Uma fnac às 8.05 da manhã é uma visão quase paradisíaca. Apenas a senhora da limpeza e dois funcionários algo estremunhados. Melhor, só mesmo se a oferta não fosse toda tão mainstream.

(quanto à razão de estar ali a tal hora – assim como se ter revelado impossível lá entrar cerca de 12 horas antes – é melhor não perguntarem, ou volto aos temas chatos do costume…)

3ª Feira

Como pode a Educação servir para formar alunos críticos e futuros cidadãos activos e emancipados, se todo o sistema tem sido progressivamente desenhado para transformar os professores numa massa amorfa e cada vez menos capaz de se opor aos desmandos dos vários poderes, preferindo a “estabilidade” do remanso à agitação da defesa dos seus direitos, e nem sequer me refiro a questões salariais? Pode quem se transformou em parte de um rebanho ou pastor oportunista ensinar alguém a ser outra coisa? De que adianta tanto encherem a boca e as prosas de Paulo Freire se alinham pelo lado do “opressor” e quase tudo fazem para reduzir os outros a oprimidos? Pode a “libertação” acontecer numa sala de aula, quando toda a escola está sitiada por uma prática que desvaloriza e amesquinha qualquer tentativa de verdadeira emancipação? Poder, até pode, mas quase de forma clandestina, fugindo ao guião dos que travestiram o que dizem ter sido os seus ensinamentos. Acreditem, Paulo Freire, mesmo que estejam muito datadas as suas concepções, coraria de vergonha ao ver a prática de tant@s que o citam por aí, sem pudor e por simples conveniência.

6ª Feira

O ME parece que já tem uma plataforma ou algo assim para registo dos casos de covid-19 nas escolas. Mas tenho a certeza que os dados que lá serão lançados e depois publicitados serão bastante “mitigados” em relação à realidade, por causa das estratégias locais e centrais de “manter a calma e a confiança”. Até porque isto anda a cada lugar, cada sentença de quem decide, a começar por critérios perfeitamente desconformes consoante a “autoridade local de saúde” com que se entre em contacto.

Dia 55 – Absentismo Remoto

Conheceram-se nos últimos dias os dados das audiências da “telescola” e constatou-se que foi necessária apenas uma semana para os valores iniciais descessem 50%. Apesar de toda a propaganda governamental sobre o imenso sucesso dos primeiros dias, da reacção muito dura a quaisquer críticas feitas às aulas à distância e ao elogio generalizado à “coragem” dos docentes que aceitaram o “desafio”, a evolução do desinteresse foi ainda mais rápida do que a reservada às aulas presenciais no arranque dos anos lectivos.

(…)

diario

3ª Feira

Já refeito do aumento de glicose no sangue enquanto via o PeC de ontem, fez-se-me luz no neurónio saudável e entendi que a mensagem a transmitir é “as escolas são seguras” e quem leva nas trombas (por incivilizado e “residual” que isso seja) é porque não soube flexibilizar as abordagens ou a escola não soube oferecer aos alunos o que eles desejam (aparentemente, serão aulas de Teatro) e não tem direito a indignar-se. Para além disso os professores portugueses parecem embaraçar-se por ser cultos e adoram coisas da Cidadania.

Ou seja, a mensagem foi “para fora”, para tranquilizar quem não está todos os dias nas escolas e percebi como alguns dos presentes, não intervenientes de microfone nas mãos, pareciam pacificados. Quase todos quiseram transmitir uma “boa imagem” das escolas públicas, o que é estimável, mas me parece altamente hipócrita. Não é verdade que o problema seja meramente de erupção “mediática”, pois existem assuntos muito mais suculentos, a começar pelo caminho de Sócrates para o arquivamento ou do Sporting para os lugares que lutam pela não descida de divisão ou o relvado da Luz que não deixou o Pizzi fazer aquela escorregadela pós-golo sem dar um tombo.

Valha-nos o Luís “Resíduo” Braga e alguns fogachos dispersos de quem, quando com a possibilidade de falar um ou dois minutos, desperdiçou a maior parte do tempo em demonstrações de adesão ao século XXI ou se perdeu em contradições, terminando intervenções a dizer o contrário do início (demonstrando à saciedade o burnout mental que vai por aí).

Na sequência do que escrevi ontem, o programa poderia ter sido sobre a mudança da cor das folhas no Outono que não teria tentado fugir de forma mais rápida ao tema. Nem sei se foi pena, mas, curiosamente, esperava melhor. E honra seja feita desta vez à Fátima Campos Ferreira que, apesar de querer tanto “dinamismo” que o resultado final pareceu uma manta desconexa de retalhos e purpurinas, ainda foi quem mais tentou “focar” a tertúlia.