Dia 55 – Absentismo Remoto

Conheceram-se nos últimos dias os dados das audiências da “telescola” e constatou-se que foi necessária apenas uma semana para os valores iniciais descessem 50%. Apesar de toda a propaganda governamental sobre o imenso sucesso dos primeiros dias, da reacção muito dura a quaisquer críticas feitas às aulas à distância e ao elogio generalizado à “coragem” dos docentes que aceitaram o “desafio”, a evolução do desinteresse foi ainda mais rápida do que a reservada às aulas presenciais no arranque dos anos lectivos.

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diario

3ª Feira

Já refeito do aumento de glicose no sangue enquanto via o PeC de ontem, fez-se-me luz no neurónio saudável e entendi que a mensagem a transmitir é “as escolas são seguras” e quem leva nas trombas (por incivilizado e “residual” que isso seja) é porque não soube flexibilizar as abordagens ou a escola não soube oferecer aos alunos o que eles desejam (aparentemente, serão aulas de Teatro) e não tem direito a indignar-se. Para além disso os professores portugueses parecem embaraçar-se por ser cultos e adoram coisas da Cidadania.

Ou seja, a mensagem foi “para fora”, para tranquilizar quem não está todos os dias nas escolas e percebi como alguns dos presentes, não intervenientes de microfone nas mãos, pareciam pacificados. Quase todos quiseram transmitir uma “boa imagem” das escolas públicas, o que é estimável, mas me parece altamente hipócrita. Não é verdade que o problema seja meramente de erupção “mediática”, pois existem assuntos muito mais suculentos, a começar pelo caminho de Sócrates para o arquivamento ou do Sporting para os lugares que lutam pela não descida de divisão ou o relvado da Luz que não deixou o Pizzi fazer aquela escorregadela pós-golo sem dar um tombo.

Valha-nos o Luís “Resíduo” Braga e alguns fogachos dispersos de quem, quando com a possibilidade de falar um ou dois minutos, desperdiçou a maior parte do tempo em demonstrações de adesão ao século XXI ou se perdeu em contradições, terminando intervenções a dizer o contrário do início (demonstrando à saciedade o burnout mental que vai por aí).

Na sequência do que escrevi ontem, o programa poderia ter sido sobre a mudança da cor das folhas no Outono que não teria tentado fugir de forma mais rápida ao tema. Nem sei se foi pena, mas, curiosamente, esperava melhor. E honra seja feita desta vez à Fátima Campos Ferreira que, apesar de querer tanto “dinamismo” que o resultado final pareceu uma manta desconexa de retalhos e purpurinas, ainda foi quem mais tentou “focar” a tertúlia.

2ª Feira

Um dia tão bom como outro qualquer para encomendarem e/ou começarem a ler um dos melhores livros de não ficção que li nos últimos anos. Só vacila ali no penúltimo capítulo, quando explica em excessivo detalhe como podem ser produzidos vídeos automáticos para o Youtube, em especial para crianças com conteúdos violentos. Mas o resto é apenas um retrato de um presente praticamente invisível e dos erros e perigos dos deslumbrados com um futuro cibernético. O Neuromancer tem 35 anos e era ficção, mas agora começa a não ser.

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3ª Feira

A manhã não estava de nevoeiro nas minhas bandas, mas vi  uma imagem do futuro a aproximar-se. Tinha o rosto de mais um mandato PS na Educação e tinham desaparecido do horizonte provas finais do 9º ano, rankings, quase todas essas coisas más que permitem estabelecer qualquer diferenciação das escolas com base no desempenho directo dos alunos, ficando apenas indicadores interessantes (percursos directos de sucesso) mas dependentes apenas das políticas internas de avaliação das escolas e da inclusão por decreto. Vi o “autónomo IAVÉ entregue a gente de confiança adepta da aferição assimétrica em coisas criativas e outras cambalhotas. Vi uma Escola Pública de 2ª e 3ª opção, com excepção daqueles palácios escolares em que algumas luminárias tiveram (ou têm) filhos e netos a estudar e o resto a debandar para onde o empenho efectivo dos alunos no seu sucesso seja relevante, não apenas o desejo de.

Depois acordei. Mas continuei a lobrigar o mesmo. Hosana nas alturas.

Majestic sunset in the mountains landscape. HDR image

 

Sábado

Como director de turma peço pouco: que me coloquem as classificações de forma atempada. Fazendo isso, eu trato do resto, porque não acho que, lá por eu ter de passar pela burrrocracia associada aos finais de período, não tenho de obrigar mais gente a sofrer mais do que o estritamente necessário. Sei que há quem discorde, que ache que o mal deve ser dividido por todos. O problema é que há colegas que têm 6-8-10 turmas e se todos os dt forem desse modelo, a sua vida torna-se ainda mais infernal. Perdem-se muito menos horas preciosas de vida num conselho de turma se a lógica for outra. Uma forma estranha de vingança sobre terceiros inocentes por causa dos desmandos da mentalidade retrógrada da tutela que de tudo quer registo é para mim uma modalidade soft daquele terrorismo que pode não matar logo mas acaba por moer tanto, tanto. Alinhar com as práticas idiotas dos nossos verdugos não é comigo.

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