Tele-Servidão

(…) hoje, encontramo-nos livres das máquinas da era industrial, que nos escravizavam e exploravam, mas os aparelhos digitais trazem com eles uma nova coação, uma nova escravatura. Exploram-nos em termos mais eficazes porque, dada a sua mobilidade, transformam qualquer lugar num ponto de trabalho e fazem de todo o tempo um tempo de trabalho. A liberdade da mobilidade paga-se por meio da coação fatal de termos de trabalhar em toda a parte. Na era das máquinas, o trabalho distinguia-se do não-trabalho pela imobilidade das máquinas. O local de trabalho, até ao qual tínhamos de nos deslocar, podia separar-se com facilidade dos espaços de não-trabalho. Na atualidade, em grande número de profissões, essa delimitação foi suprimida. O aparelho digital torna móvel o próprio trabalho. Cada um de nós leva consigo de um lado para o outro o posto de trabalho numa espécie de regime de campanha. Já não é possível escaparmos ao trabalho.

Os smartphones, que prometem mais liberdade, exercem sobre nós uma coação fatal – isto é, a coação de comunicar. Entretanto, a nossa relação com o aparelho digital torna-se quase obsessiva. compulsiva.

Byug-Chul Han, No Enxame – Reflexões sobre o Digital. Lisboa: 2016, p. 46.

5ª Feira

Deve ser da idade, arcaísmo e rigidez, porque sei que há gente que acha tudo isto a quinta essência do maravilhamento digital. Só que há momentos em que ter de lutar com o E360 e as suas lacunas em termos de rotinas intuitivas para fazer tarefas simples é quase mais desanimador do que preencher as velhas folhas em que se contavam as cruzinhas. Porque essas, pelo menos, estavam ali todas à vista e não era preciso abrir (repetidamente) não sei quantos separadores ou janelas de opções.

A Transição Digital

Só por Gaia? E só no 1º ciclo?

O objetivo, num tempo em que há recurso frequente a aulas à distância [devido à pandemia da Covid-19] é dar aos professores as ferramentas necessárias para o seu trabalho. Fizemos um levantamento pelos agrupamentos e temos relatos de professores a comprar computadores em segunda mão, a dividir com o filho ou pedir emprestado ao marido”, contou o autarca.

Ainda O Plano De Capacitação Digital Dos Docentes

Ficam aqui os modelos das acções de formação conforme o nível de “capacitação” dos docentes.

Um bónus, já agora:

Plano De Acção Para O Desenvolvimento Digital

A formação contínua vai fazer uma viragem da Flexibilidade e da Inclusão para a Digitalização. Até 7 de Janeiro os projectos de acções de formação têm de estar prontos para ser financiados.

O esquema geral é o que se segue:

O mais certo é que a partir deste questionário europeu, tenham de preencher em breve a versão nacional, para que possam ser posicionados e recrutados para formações de 50 horas. Eu fiz duas vezes, uma com as condições actuais resultantes da pandemia, que limitam a presença de turmas inteiras nas poucas salas devidamente equipadas nas escolas, e o facto de ter 5ºs anos com muito pouca literacia digital (o que limita as possibilidades de trabalho) e cheguei aos 63 pontos. Respondendo com o que consegui fazer em outros anos, nomeadamente quando tive 9ºs consegui chegar aos 68, porque é complicado responder que, com as condições existentes na maioria das nossas escolas não é muito sério afirmar que se recorre ou faz “sistematicamente” seja o que for.

Não deixa de ser interessante que o questionário ignore por completo a formação do docente ou a formação já feita na área.

A Web Some-te

É ridículo ver o actual PM a regozijar-se com o enorme evento global do mundo digital e, na generalidade das escolas (eu sei que há que há lugares onde mãos amigas conseguiram fazer chegar apoios para coisas-piloto), estar tudo exactamente como estava em Março, na pré-pandemia. Aposto que os 11 milhões de euros não precisaram de grandes discussões, nem chegaram com atrasos.

Já sei… dá projecção a Portugal… António Costa até já nos fez campeões da inovação do pé descalço. Cada vez está mais “engenheiro”.

João Costa, O Desmaterializador

Nuno Crato queria implodir. Apenas estragou, mas ganhou uns milhões para mandar estudar o que não fez e devia ter feito.

Agora temos João Costa que quer desmaterializar, mas não consegue fazer chegar computadores às escolas, pelo que os alunos devem ver os manuais digitais por um canudo pago pelos pais.

A propósito do 20º encontro digital da Leya, caiu-me isto no mail:

João Costa, Secretário de Estado Adjunto e da Educação, escreveu para a LeYa Educação:

“A desmaterialização dos manuais inscreve-se no Programa do Governo por motivos independentes, mas que se complementam:

Por um lado, o potencial que os recursos digitais têm na exploração de várias fontes de informação, de relacionar o texto escrito com outros meios. Num momento de informação abundante, não faz sentido que o manual seja estático e constitua o único apoio para o desenvolvimento curricular.

Por outro lado, o piloto dos manuais digitais enquadra-se no programa Escola Digital. Através do qual se promoverá o desenvolvimento de competências digitais, a promoção de literacia digital e de informação. Numa política que incorpora quatro eixos fundamentais: a disponibilidade de equipamentos e conectividade, a formação de professores e a produção de recursos educativos digitais.

Finalmente, estamos perante uma medida que contribui para a sustentabilidade do planeta, por se usar menos papel e para também por resolver o antigo problema de excesso de peso nas mochilas dos alunos.

A partir das escolas participantes foi criado um piloto que serviu para obtermos informação sobre as necessidades e ritmo de transição digital, sobre as necessidades de capacitação dos docentes e por fim para obtermos um leque de experiências que possam servir de exemplo às escolas que vieram a implementar a desmaterialização nos próximos anos.”

(já viram quantos “nichos de mercado” com os dinheirinhos da “bazuca” . caso húngaros e polacos possam a fazer do Estado de Direito o que entenderem – esta opção cria para os cortesãos do costume, mais umas parcerias à maneira?)

E Por Falar Em Negócios

Alguém se lembra de quando tínhamos de nos registar de acordo com as nossas competências digitais? Eu nunca o fiz, mas sei que era obrigatório e não serviu para nada.

Quanto a isto, quer-me parecer que, como tantas outras “formações”, irão dar muito jeito às “entidades formadoras”.

15 M€ FSE para a formação contínua de docentes e outros agentes de educação e formação em competências digitais

Basta Lembrar Que Ninguém Previu O Presente

A conferência internacional online organizada pela Virtual Educa acontece nesta segunda e terça-feira. Ministro da Educação será um dos oradores. Especialistas prevêem modelos de ensino “híbridos” e personalizáveis, apontando ainda que o acesso à Internet deve ser gratuito na educação.

Eu sei que é indispensável “prospectivar”, “cenarizar”, “perseguir a utopia” e demais verbalejos e expressionismos assim a atirar para o espingardoso, mas a realidade é que se oscila muito entre a recuperação de fórmulas do passado que nunca se comprovaram e um tecno-entusiasmo que só será acessível a elites ou parcelas reduzidas da população (até as salas com pufes devem ter chegado a zero vírgula quantos por cento de alunos).

A iniciativa tem grande aparato (a Virtual Educa parece ter ambições globais pelo menos para o mundo latino-americano), mas basta chegar à intervenção do ministro Tiago (‘Educação pública: o motor da mudança em Portugal’, aqui perto da hora de “directo”) e ficamos logo a perceber que é apenas outra oportunidade para mais do mesmo, agit-prop com cheirinho a patchouly, muitos clichés digitais e esbracejamento a gosto. Espremendo, é de uma pobreza confrangedora.