5ª Feira

Uma das poucas “vantagens” de irmos sendo mais velhos e, já agora, adultos, deveria ser uma certa capacidade de desmontar as tretas, as desculpabilizações com escassa vergonha, as justificações sem ponta por onde se lhe pegue, enfim, a chamada banha da cobra. Mas parece que não. Dá a sensação de cada vez ser mais apertado o espaço entre a infantilidade e a senilidade.

E Um Plano Humano da Educação?

Depois de ler ontem as declarações do actual ME sobre a necessidade de renovar o Plano Tecnológica da Educação, fiquei para aqui a remoer, remoer, remoer e nada de melhor resultou para a opinião que vou tendo dele, da sua desnecessidade política e da sua debilidade “conceptual”. Será que o senhor ministro não achará mais necessário, atendendo ao panorama que temos, uma espécie de Plano Humano da Educação em que se aposte nos factores humanos relacionados com a aprendizagem, em vez de se andar a correr atrás das modas tecnológicas, quase sempre transitórias?

Porque o discurso em torno do papel essencial dos professores na aprendizagem dos alunos só serve quando é para responsabilizá-los pelo insucesso, mas não para – com actos, além de palavras circunstanciais de apreço – defender a (re)valorização da condição docente e a aposta na melhoria objectiva das suas condições de trabalho. Essas matérias, dizem agora como outrora com Crato, são da competência das Finanças, porque têm implicações orçamentais, mas parece que comprar maquinaria que fica obsoleta em alguns anos já não é assim. Apesar de tudo, mesmo com danos, os professores ainda têm uma validade de décadas e a progressão na carreira com os seus naturais encargos, poderia ser algo encarado como os custos de manutenção do “equipamento”.

É para mim profundamente deprimente que um ministro da Educação, mesmo que venha da área “científica” e da “investigação” tenha a curteza de vistas de pensar que apenas a tecnologia deve ser a sua preocupação (isso e mais umas coisas sobre pseudo-vida saudável à força), desresponsabilizando-se de tudo o que tenha a ver com o elemento humano da Educação. É deprimente que, após 10-15 anos de marteladas constantes, veja mais este e seja mais do mesmo, mais com o mesmo, mais com menos e tudo o resto, por muito que falem em reversões.

Só os alunos interessam, desde que exista “maquinaria” ao dispor? Mas acaso o shôr dôtôr ministro cientista não sabe que as coisas não são (mesmo nada) assim? Que raio de “défice oculto” condiciona o pensamento de Tiago Brandão Rodrigues, que parece feito à medida pelos alfaiates economicistas que agora e antes dizem sempre o mesmo?

A bibliografia sobre este tema é imensa. Não acredito que o ministro Tiago, ao fim de quase dois anos no cargo, ainda a desconheça e insista e análises de deslumbramento simplório com as “escolas do século XXI” e a necessidade de um “novo paradigma” de que andamos a ouvir falar há décadas. Até porque os alunos portugueses são dos que mais valorizam o trabalho dos seus professores.

 

 

 

As Contas do Insucesso (mas com Sentido)

Há vários anos que discordo abertamente das contas que por cá se apresentam sobre o custo financeiro do insucesso escolar. Não falo das questões sociais, psicológicas ou pedagógicas. Refiro-me à demagogia desenfreada que, independentemente da cor dos governantes ou especialistas, assalta quem fala disto com contas mal feitas. Arranjam um valor médio por aluno e multiplicam-no pelos “chumbos” e acham um valor que praticamente ninguém questiona (e a comunicação social amplifica de forma acrítica), excepto este ou aquele idiota como eu a quem esse tipo de contas cheira a esturro. Mas, como se sabe, os títulos e as medalhas de valor e mérito estão todas do lado deles e eu passo por ser apenas um tipo que não percebe nada de contas públicas e a quem, quando a coisa aperta, se dirigem umas bocas assim pró foleiro, em especial na minha ausência ou em remoques privados.

Só que… parece que o problema não é só meu. Acedi há uns dias ao relatório feito em 2015 pelo Institut des Politiques Publiques que faz o estudo dos custos das reprovações em França, numa perspectiva que até é favorável ao seu fim ou redução e que, entre outras coisas, faz as contas aos encargos financeiros do insucesso.

Só que… eis o que é escrito a esse respeito:

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Isto significa que um país que de acordo com o nosso CNE apresenta um nível de insucesso relativamente próximo do nosso (28,4% dos alunos com pelo menos uma retenção por lá contra 34,3% por cá de acordo com um estudo feito praticamente na mesma altura do francês) teria uma poupança de 2 mil milhões de euros em 10 anos, sendo o orçamento anual da Educação de 65 mil milhões. Ou seja, uma poupança numa década de 3,1% de um único orçamento (cerca de 0,3% em média por ano).

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Por cá, as contas são todas outras… para um orçamento anual a rondar os 5,5 mil milhões de euros (valores dos orçamentos de 2015 e 2016) , os nossos especialistas apontam valores de poupanças anuais de 600 milhões (nos momentos de maior delírio demagógico) ou de mais de 250 milhões de euros (quando tomaram um cházinho de camomila). O que significa algo como uma poupança entre os 4,5% e quase 11% por ano. Isto só faria sentido de tivéssemos um insucesso 15-20 vezes superior ao francês, o que não é o caso.

As observações metodológicas do estudo francês aplicam-se de igual modo ao caso português: os alunos que não chumbam não deixam de ser alunos (só saem os que terminam a escolaridade obrigatória e não continuam estudos), até passam para ciclos de escolaridade mais caros e há custos fixos que não desaparecem com o fim dos chumbos.

Mesmo com poupanças a triplicar as francesas para compensar diferenças “sistémicas” ou da amostra usada (1% do orçamento anual), o valor seria de 50 a 60 milhões de euros. Nunca os valores que andam por aí a espalhar,  incluindo nas “formações para o sucesso”, mesmo na versão menos despudorada. Pode ser muito, mas é certamente muito menos do que a agit-prop dos sucessivos ME, seus apóstolos do sucesso e do próprio CNE com todo o seu saber técnico (vá… quem ler isto faça lá as queixinhas do costume a quem sabemos).

Porque entre nós se engana a opinião pública desta forma e com tanta facilidade e colaboração de muita comunicação social? Há resposta para isso, mas já me chega de criar amigos. Porque ou são incompetentes, apesar de tão qualificados, ou são pura e simplesmente desonestos e eu tenho dificuldade em definir as fronteiras da “mera” desonestidade “política”. Há (deveria haver) limites para o spin político. E, já agora, para o colaboracionismo mediático.

PG Verde

Leis Mortas

Eu poderia ir buscar as minhas escrevinhices da altura em que estas parvoíces foram legisladas. Como outras. Recorrer ao “eu bem disse”. Mas não vale a pena. Há leis que nascem mortas por serem completamente irrealistas. Como a dos telemóveis e outras. Como quando se quer fazer crer que um bisnau é um papagaio colorido e falador. Não vale a pena, porque os legisladores diarreicos que temos querem é fazer parecer que estão a resolver problemas. E produzem os decretos, os despachos e as porcarias do costume que atiram para os outros aplicarem, sem forma razoável disso acontecer. Claro que os que estão não vão mudar seja o que for. No essencial, no estrangular da vida nas escolas com burocracia inepta e ineficaz, estão sempre de acordo e dificilmente se lhes vê um acto para melhorar seja o que for, por muitas proclamações que façam. Há quem insista em não querer ver para além dos epifenómenos (dos “exames”, por exemplo) e defenda a geringonça educativa. Eu posso não querer os outros de volta, mas não estou para esconder que em matéria de Educação, estes são uma tristeza mal encapotada. Batam-lhes palmas os masoquistas.

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Público, 1 de Agosto de 2016

Concordo, Mas…

Como já escrevi e não me arrependo, concordo com parte do que Nuno Crato dizia e escrevia antes de ser ministro e em que, ao que parece, continua a acreditar, pelo menos no plano discursivo, nomeadamente que:

O que acho importante termos claro é o seguinte: não podemos mascarar a realidade em relação à educação, pelo contrário, devemos conhecer a realidade, atuar sobre ela, ser mais ambiciosos e querer que os nossos jovens saibam mais. Não podemos olhar para resultados educativos que são ainda fracos e pensar “vamos mascarar esta realidade” seja eliminando avaliações, ou baixando o nível dos exames e das provas, ou simplificando os programas. Não podemos pensar assim, devemos pensar ao contrário. Temos de pensar que os nossos programas devem vir a ser ainda mais ambiciosos, que os nossos jovens devem saber ainda mais.

O meu problema é com a sua acção como ministro e com a forma como a avalia, usando exactamente o estratagema de mascarar que muita da redução estatística do abandono se fez com base em habilidades administrativas destinadas a fomentar o subregisto da falta de assiduidade dos alunos ou mesmo a sua ausência da escola. A fé aparentemente inabalável no vocacional é uma fé como outra qualquer, um fundamentalismo que olha de forma selectiva para a realidade e não quer entender que aos 13 e 15 anos não são três meses de simulação de uma prática mais simulada do que a simulação ela mesma.

Julgo que o ensino vocacional tem uma ambição muito maior do que pura e simplesmente reduzir o abandono escolar. O ensino profissionalizante, em geral, tem como efeito reduzir o abandono escolar, é verdade, porque oferece uma outra via aos jovens, em que eles conseguem ver muito em breve à sua frente uma profissão, e isso para muitos jovens é decisivo. Mas não é só uma questão de retenção e de abandono escolar. É uma questão do futuro desses jovens e do futuro do país. Precisamos de técnicos qualificados, não podemos ambicionar ser um país só de doutores. Temos de ser um país em que as diversas profissões técnicas existam e em que os jovens sejam formados para elas.
(…)

O que fizemos com os vocacionais do básico foi tentar estruturar durante um momento esses jovens, recuperá-los para que eles depois pudessem seguir uma via ou científico-humanística ou profissionalizante. Julgo que se trata sobretudo de uma questão ideológica ultrapassada.

É possível voltar ao vocacional?

Acho que é inevitável, porque é uma via de sucesso e pouco a pouco as coisas virão ajustar-se outra vez nesse sentido. Não sei se é com este governo, se é com o próximo. Diria que certamente nos próximos anos – estou a falar nos próximos cinco, dez anos – as vias profissionalizantes vão continuar a desenvolver-se e que mesmo no básico alguma via semi-profissionalizante, como foi o vocacional, se manterá e se desenvolverá. Deixemos a ideologia cega, isto é uma necessidade dos nossos jovens e é algo que funciona para eles.

Se é para deixar a ideologia cega, então deixemos tudo o que seja cego à realidade e, já agora, não se façam auto-avaliações de desempenho como aquelas que se criticava serem feitas nas escolas. O vocacional no Ensino Básico foi uma mistificação imensa que, à vista desarmada, consistiu em escolas e professores serem praticamente obrigados a criar cursos desse tipo e, depois, a fingir que os alunos estavam nas aulas e realizavam aprendizagens vagamente relevantes. E a médio prazo iria transformar-se num imenso gueto socio-educativo, arrastando consigo muitas escolas. Assim, com um pouquinho mais de pressão, até se passava a ter 0% de abandono num único ano. Um pouco como o actual governo vai fazer com o sucesso. A bem dizer, duas faces de uma mesma moeda, quando se trata de produzir estatísticas de sucesso, não sendo de estranhar que existam, à esquerda, algumas vozes lamentosas pelo fim do dito vocacional.

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ADSE

É uma das bestas negras – com a CGD, RTP, TAP – de um grupo de gente que pretende destruir um conjunto de intituições – muitas outras já foram – que eles consideram simbolizar o papel do Estado na sociedade e economia. No caso da ADSE, essa sanha mistura-se com o ódio profundo aos funcionários do Estado, querendo-os proletarizados, precarizados e completamente vulneráveis a todo o tipo de pressões e seduções externas. Um pouco como fazem com grande número de políticos. A sua destruição é um desígnio que muitos, mesmo no PS, partilharam e ainda partilham, sendo curioso como é que algo que dizem não ser sustentável serve para pagar contas de outros. O Tribunal de Contas apenas veio sublinhar o óbvio.

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