Uma Questão De Liberdade?

Sim, podemos prescindir de regras básicas destinadas a travar contágios e a maioria sobreviverá. Morrerão os mais velhos e mais frágeis, mas isso até apurará a raça, desculpem, a Humanidade, certo? A sobrevivência dos mais fortes. A destruição criativa.

Sim, podemos prescindir de fechar escolas ou de mandar a miudagem para casa, para que os pais possam trabalhar em paz. Ou ficar em paz, em certos casos, porque há entre quem protesta muito, gente desocupada, que não se deve confundir com desempregada. Ou que até pode trabalhar em casa, mas estar com os miúdos o dia todo é uma chatice. Até podemos, contra o “pânico injustificado”, reservar informação e dar espaço aos boatos, podendo tudo acabar nisto.

Mas, depois, se as coisas correrem pelo pior a quem defende isso, acham que ficarão calados e não quererão apurar “responsabilidades”? Sim, porque muitos dos primeiros a clamar por “liberdade” contra a conspiração global das máscaras e do confinamento, serão dos primeiros a apontar o dedo. Aos outros.

5ª Feira

Uma das poucas “vantagens” de irmos sendo mais velhos e, já agora, adultos, deveria ser uma certa capacidade de desmontar as tretas, as desculpabilizações com escassa vergonha, as justificações sem ponta por onde se lhe pegue, enfim, a chamada banha da cobra. Mas parece que não. Dá a sensação de cada vez ser mais apertado o espaço entre a infantilidade e a senilidade.

Uma Questão De Prioridades

De acordo com os dados do INE, o saldo orçamental situou-se em 1.111,2 milhões de euros no conjunto dos três primeiros trimestres de 2018, representando um excedente de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período do ano passado verificou-se um défice de 1,9% do PIB.

Os funcionários públicos que em janeiro tiverem um aumento salarial superior a 28 euros podem ficar sem direito à progressão na carreira, perdendo os pontos obtidos na avaliação de desempenho, segundo uma proposta do Governo entregue hoje aos sindicatos.

Patinhas

Mais Uma (Não) Promessa Cumprida

Procurei no programa do governo e não encontrei. Mas posso estar um bocado pedrado de calor. Nem reparei se existiu alguma resolução parlamentar. Mas percebo que seja algo que a geração patchouly (e herdeiros) sempre ansiou e eu acho bem.

Todos os partidos exceto o CDS votam a favor do recurso à canábis para fins medicinais

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As Contas do Insucesso (mas com Sentido)

Há vários anos que discordo abertamente das contas que por cá se apresentam sobre o custo financeiro do insucesso escolar. Não falo das questões sociais, psicológicas ou pedagógicas. Refiro-me à demagogia desenfreada que, independentemente da cor dos governantes ou especialistas, assalta quem fala disto com contas mal feitas. Arranjam um valor médio por aluno e multiplicam-no pelos “chumbos” e acham um valor que praticamente ninguém questiona (e a comunicação social amplifica de forma acrítica), excepto este ou aquele idiota como eu a quem esse tipo de contas cheira a esturro. Mas, como se sabe, os títulos e as medalhas de valor e mérito estão todas do lado deles e eu passo por ser apenas um tipo que não percebe nada de contas públicas e a quem, quando a coisa aperta, se dirigem umas bocas assim pró foleiro, em especial na minha ausência ou em remoques privados.

Só que… parece que o problema não é só meu. Acedi há uns dias ao relatório feito em 2015 pelo Institut des Politiques Publiques que faz o estudo dos custos das reprovações em França, numa perspectiva que até é favorável ao seu fim ou redução e que, entre outras coisas, faz as contas aos encargos financeiros do insucesso.

Só que… eis o que é escrito a esse respeito:

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Isto significa que um país que de acordo com o nosso CNE apresenta um nível de insucesso relativamente próximo do nosso (28,4% dos alunos com pelo menos uma retenção por lá contra 34,3% por cá de acordo com um estudo feito praticamente na mesma altura do francês) teria uma poupança de 2 mil milhões de euros em 10 anos, sendo o orçamento anual da Educação de 65 mil milhões. Ou seja, uma poupança numa década de 3,1% de um único orçamento (cerca de 0,3% em média por ano).

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Por cá, as contas são todas outras… para um orçamento anual a rondar os 5,5 mil milhões de euros (valores dos orçamentos de 2015 e 2016) , os nossos especialistas apontam valores de poupanças anuais de 600 milhões (nos momentos de maior delírio demagógico) ou de mais de 250 milhões de euros (quando tomaram um cházinho de camomila). O que significa algo como uma poupança entre os 4,5% e quase 11% por ano. Isto só faria sentido de tivéssemos um insucesso 15-20 vezes superior ao francês, o que não é o caso.

As observações metodológicas do estudo francês aplicam-se de igual modo ao caso português: os alunos que não chumbam não deixam de ser alunos (só saem os que terminam a escolaridade obrigatória e não continuam estudos), até passam para ciclos de escolaridade mais caros e há custos fixos que não desaparecem com o fim dos chumbos.

Mesmo com poupanças a triplicar as francesas para compensar diferenças “sistémicas” ou da amostra usada (1% do orçamento anual), o valor seria de 50 a 60 milhões de euros. Nunca os valores que andam por aí a espalhar,  incluindo nas “formações para o sucesso”, mesmo na versão menos despudorada. Pode ser muito, mas é certamente muito menos do que a agit-prop dos sucessivos ME, seus apóstolos do sucesso e do próprio CNE com todo o seu saber técnico (vá… quem ler isto faça lá as queixinhas do costume a quem sabemos).

Porque entre nós se engana a opinião pública desta forma e com tanta facilidade e colaboração de muita comunicação social? Há resposta para isso, mas já me chega de criar amigos. Porque ou são incompetentes, apesar de tão qualificados, ou são pura e simplesmente desonestos e eu tenho dificuldade em definir as fronteiras da “mera” desonestidade “política”. Há (deveria haver) limites para o spin político. E, já agora, para o colaboracionismo mediático.

PG Verde

Web Summit

Parece que vai por aí uma enorme excitação hoteleira e mediática que me parece menos justificada do que aquela que proporciona uma regata com veleiros todos fotogénicos ou a belucci a estender a roupa em alfama. Se retirarmos gigabytes de hype comunicacional algo auto-contentinho de todos os indígenas com salvo-conduto para participarem, o que resta de concreto para o zé do manguito?

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Barranco de Surdos?

Parece que há preocupação com o facto de um elevado número de alunos dos cursos profissionais do Ensino Secundário desistirem sem os completar. Fala-se mesmo em “antecâmara” do abandono escolar. E um tipo não sabe se deve rir-se ou chorar. Rir-se do ridículo que é o aparente desconhecimento que esta malta tem do funcionamento dos cursos profissionais e do perfil dos alunos que lá vão metendo, mais ou menos à força dos 12 anos de escolaridade? Ou chorar perante a permanência de tamanha ignorância, apesar de repetidamente se tentar explicar a muita pessoas que a maior parte dos “cursos profissionais” são apenas uma forma de mascarar o abandono escolar e, mesmo quando isso se consegue, de fingir um sucesso completamente fabricado? A meta de aumentar até aos 50% o número de alunos nestes cursos, partilhada pelos últimos governos TODOS, é daqueles disparates que só fazem sentido nas cabecinhas pensadoras que sabem muito mais do que todos aqueles que só conseguem ver o seu quintal e os quintais ao redor. Pior… no Ensino Básico, os cursos pseudo-“vocacionais” foram uma total mistificação e só não foram uma “antecâmara” para o abandono porque todos os envolvidos nas escolas, das direcções aos professores e formadores, passando pelos DT, se viram condicionados para fingir que as faltas não eram bem faltas ou que eram justificáveis e que tudo poderia parecer o que não foi. O mesmo com o aproveitamento, em particular quando se percebeu que os vocacionais se iam finar e só os alunos com 100% dos módulos poderiam transitar para os “profissionais”. E foi um fartote de recuperações de módulos em atraso, quantas vezes com muitos meses ou anos de prazo. Pactuámos quase todos com este enorme fingimento que é a pretensão de ser possível termos um ensino vagamente pré-profissional no Ensino Básico e ele estender-se a 50% dos alunos no Secundário? Sim, porque estes eram alunos que se limpavam das pautas das provas finais e exames e isso favorecia a avaliação das escolas. E internamente produzia-se sucesso e maquilhava-se o insucesso e mesmo formas mais constantes intermitentes de insucesso para evitar inspecções muito rigorosas com a preservação do artifício. Sim, temos sido quase todos cúmplices, mas ainda há quem tenha dito desde o início que o modelo era errado e só funcionaria na base da ficção.

Antecâmara? A sério? Descobriram isso agora porque um terço dos alunos não completou os cursos? Se fossem ver com mais atenção descobririam que completá-los mesmo a sério nem um terço. Mas há uma autêntica câmara escura onde escondem os retratos incómodos, a menos que seja depois da asneira feita e para apontar o dedo a outrém.

Mas, provavelmente, sou eu que sou demasiado crítico e só vejo o copo meio vazio quando ele está quase todo vazio, em vez de dizer que há muito potencial para o seu preenchimento. Os nossos decisores políticos e muitos especialistas em Educação são excelentes no estudo da evidência e na conclusão do óbvio quando não é possível demonstrar que a água é vinho e que o coelho que nem a luz do dia viu em vida é lebre selvagem e fugidia.

Mas podemos continuar todos a fingir, agora com um colaboracionismo mais alargado do alargado arco da governação e a acusar quem vê e fiz o que vê de não conseguir ver o grande cenário da macro-coisa e da eficácia financeira do sistema que pode produzir estatísticas a baixo preço.

Porque o insucesso é caro e verdascam-nos às esquerda com os milhões por ano ajustados à direita, dizem que 600 ou ainda mais, bastando para isso adulterar uns factores da multiplicação dos 150.000 por 4.000.

PG Verde

O Ano do Verdasca – 2

Como poderá ser lido em post mais abaixo, a reacção foi rápida ao post 1 com este tema, com comentário digno de um abrantes dos outros tempos, a alegar que eu estou a fazer um ataque pessoal, quando o que faço é criticar as ideias e as práticas conhecidas de alguém que muito dirige e supervisiona, mas pouco faz em concreto em sala de aula há muito tempo. De qualquer forma, fica aqui a parte 2, dando a palavra, com transcrição fiel dos excertos da entrevista ao Público, a José Verdasca e à sua desconfiança em relação à capacidade profissional dos professores, para não falar nos tropeções lógicos como o seguinte:

Pub6Ago16aOu seja, o facto de terem legislado a transição automática do 1º para o 2º ano, levou a que os professores se desleixassem e passassem depois a reter alunos no 2º ano. Não se considera a hipótese de – nem que seja em tese – a eliminação da repetência por decreto ter sido errada. A sua aplicação é que foi mal feita pelos professores.

O mesmo se passa com a retenção enquanto fenómeno cultural que os professores, de forma irreflectida, não pensada, natural, aplicam aos alunos por não verem mais longe. Quanto ao facto da retenção não ter valor pedagógico, tudo depende do que se faz com esses alunos. Por exemplo, se pudessem repetir apenas as disciplinas a que tiveram classificação “negativa”, assistindo às restantes sem necessidade de classificação, as coisas seriam diferentes, mas isso seria muito avançado, certo?

Pub6Ago16cObservemos agora como até parece que são os professores que são responsáveis pelo “modelo burocrático” de funcionamento das escolas e como são eles que só pensam na sala de aula em termos de alunos médios e, como estão quase todos velhos, já nem têm paciência para inovar. O caminho “não é fácil”, os professores estão a “caminho do fim da carreira”, portanto…

O que está escrito é claro. Claro que podem colocar todo o spin em cima disto e até fingir que o início da escravidão docente não foi coincidente com os dois governos que José Verdasca aceitou servir como director regional de Educação do Alentejo. A forma de pensar as coisas é a do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, podendo agora até ser envernizada para alguns efeitos, mas está lá toda.

Pub6Ago16d Pub6Ago16ePara “mudar as práticas” (as erradas, dos professores centrados na sala de aula), há que dar “formação” aos ditos cujos professores, porque os coitados já se esqueceram das sebentas de outrora.

Pub6Ago16hE a “formação” começou pelos directores e chefias intermédias a quem se pediu para replicarem a formação recebida e fazerem planos de intervenção estratégica. O que ainda não foi dito foi a quantas das 640 escolas foram dados recursos adicionais para conseguirem implementar mais este pacote de medidas. “Ousem sonhar” ou algo parecido foi o motto inspirador de algumas sessões. Mas aguentem-se com o que têm, esses velhos em fim de carreira, incapazes de ver mais do que o “aluno médio” quando entram na sala.

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Claro que, para finalizar, e em nome da estabilidade, os programas e metas irão mudar de novo. O que parece um contra-senso, se o problema está nas práticas e se Verdasca defende, na mesma entrevista, que o currículo e os manuais não sejam levados à risca. Algo com que concordo, pois até acho que a obrigatoriedade dos manuais deveria ser abolida.

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Mas como temos capelinhas novas a mandar, lá vamos em nova correria mudar programas, com base – quase que aposto – num inquérito feito aos professores em que só se perguntava se os programas eram extensos e se havia tempo para tudo, não existindo qualquer questão sobre quais as alternativas. Isso fica para os sábios.

Podem dizer-me que a globalidade da entrevista não deixa transparecer uma enorme desconfiança em relação ao trabalho dos professores, não esconde os enormes ganhos conseguidos em diversos indicadores internacionais e que não se limita a focar-se no que o entrevistado acha negativo.

Permito-me discordar e aí ficam nacos extensos da entrevista para o comprovar e para que não digam que o descontextualizei (até porque o link para o texto integral ficou no outro post).

Repito: a pessoa José Verdasca não me levanta qualquer animosidade, nem em qualquer momento é minha intenção amesquinhá-lo profissionalmente ou dizer que está em fim de carreira e que poderia dar lugar a gente mais inovadora, como ele faz com a classe profissional a que pertenço. Critico as suas ideias e a forma como todo este processo tem decorrido, sublinhando o aspecto venda de ilusões às escolas e agrupamentos e a adesão à prática do mais com menos que tanto criticámos a Nuno Crato

Mas prevejo um sucesso estrondoso para o seu Programa Nacional, se as escolas acabarem por se render à mitologia dos 600 milhões de euros dos custos da retenção dos alunos, aderindo a um sistema de aferição das aprendizagens aos saltos pelos ciclos de escolaridade, de modo a poupar dinheiro muito necessário para disfarçar as imparidades do sistema bancário.

O Ano do Verdasca – Intermezzo

Antes de passar ao miolo da entrevista de José Verdasca, gostaria de aqui relembrar o plano que ele considerava essenciais em finais de 2015 para melhorar o sistema educativo:

Se tivesse o poder de decidir, quais seriam as três medidas que tomaria de imediato e que, na sua opinião, poderiam significar uma melhoria efetiva no sistema educativo português?

Para ser sintético, baseá-las-ia em três princípios: 1) princípio da autonomia das escolas, abrangendo as dimensões curricular e pedagógica e de gestão estratégica de recursos; 2) princípio da contratualização de metas de melhoria escolar a médio prazo por ciclos de estudos e com negociação de recursos; 3) princípio da vinculação e responsabilização da comunidade escolar face aos compromissos de melhoria e de desenvolvimento da escola negociados e contratualizados.

Deram-lhe o poder e ele fez. A verdade é que os planos estratégicos que as escolas diligentemente (parece que 640 em 660) enviaram para o ME são isto mesmo, mas sem a parte da autonomia (que se resumirá, como veremos em breve, a manter critérios subjectivos para a contratação de docentes). São mais uma amarra a metas de sucesso que aceitaram colocar em si mesmas, sem que nada em retorno tivessem (afinal… os envelopes financeiros são para as autarquias…) e levassem em cima com outra modalidade de mais com menos porque, apesar das críticas a Crato, os de agora querem ainda mais sucesso com os mesmos meios que antes diziam ter sido cortados a um nível inimaginável pelos que estavam antes,

E é aqui que eu choco frontalmente com os adeptos da geringonça educativa e com a sua imensa hipocrisia política. Mas como eles acham que somos uns imbecis, que vamos lá por “palpites”, que não temos capacidade “cognoscitiva” e que o medo de voltar ao passoscoelho é mais forte do que tudo, fazem-nos engolir e esperam que nos calemos, havendo mesmo quem anuncie vitórias dignas de um pirro em dia mau.

Não contem comigo para isso.

Zepov