Sábado – Dia 55

Logo coloco link, quando sair no Educare.

Dia 55 – Um Diagnóstico Estranho

Gostava de voltar ao todo o aparato que se armou em torno do “diagnóstico” realizado pelo IAVE às aprendizagens que se diz terem sido perdidas em virtude dos efeitos da pandemia na Educação. Porque há muitas inconsistências na metodologia do estudo, mas ainda mais na encenação que envolveu a divulgação dos seus resultados. Não me parece que tenha sido por falta de preparação – tudo está a decorrer de acordo com uma lógica facilemnte perceptível – mas porque os encenadores parecem voltar a tomar-nos todos por tolos. Haverá uma quantidade razoável por aí, que nem dá por isso, mas nem todos gostamos de ser assim tratados.

Desde logo, são estranhos alguns dos resultados obtidos, até porque acontecem de forma sistemática e transversal às provas e aos anos, dando a entender – sem ironia – que a concepção da ferramenta de avaliação não foi a melhor. Não é muito normal que os alunos respondam de forma mais acertada a questões apresentadas como de maior dificuldade do que às consideradas mais fáceis.

Na prova de “Literacia da Leitura e da Informação”, mais de 80% dos alunos do 9º ano conseguiram responde a pelo menos dois terços das questões de nível 3, enquanto menos de 50% conseguiram isso para as questões de nível 1 ou 2 (os mais baixos, numa escala até 4). No caso dos alunos de 6º ano, as respostas a questões de nível 2 e 3 também tiveram melhores resultados dos que as de de nível 1. Na prova de “Literacia Matemática”, as discrepâncias são menores, mas de qualquer modo, os alunos de 9º ano responderam melhor às questões de nível 2 do que às de nível 1, e às de nível 4 melhor do que às de nível 3. Os do 3º e 6º ano responderam de modo equivalente às de nível 3 e 4. Já na prova de “Literacia Científica”, voltam a verificar-se incongruências que, se fosse em testes feitos nas escolas por professores (não especialistas em avaliação recrutados para o efeito, portanto), levariam a críticas quanto á fiabilidade da ferramenta usada: Os de 3º e 6º ano ano respondem melhor a questões de nível 3 e 4 dos que às de nível 2, enquanto os de 9º ano respondem melhor às de nível 2 do que às de nível 1.

Gostava de sublinhar que a “categorização” da dificuldade das questões foi feita pelos “especialistas” do IAVE, sendo que qualquer manual de avaliação nos explica que uma distribuição tão irregular e assimétrica dos resultados (acontece, repito, em todas as provas realizadas e em quase todos os anos diagosticados), não é “culpa” dos alunos, mas sim de quem elaborou a prova/teste/ferramenta.

Basear qualquer estratégia de combate a aprendizagens alegadamente perdidas com base em ferramentas que parecem ter sido elaboradas seguindo pressupostos desadequados, mesmo que tenham sido pensadas de acordo com os pré-conceitos de quem ordenou o referido “diagnóstico”, parece-me muito arriscado, muito pouco fiável e pouco sério.

Prognósticos Depois De Saber O Resultado (Esperado E Pré-Anunciado)?

Afinal não estavam apressados em arranjar “soluções”, apenas acederam aos dados antes dos outros e, pelos vistos, tiveram autorização para apresentar planos ainda antes dos resultados serem divulgados. Isto sem falar nas muitas reservas que se podem colocar à generalização dos dados de provas feitas com uma amostra de que não se conhecem exactamente os critérios, mesmo se o presidente do IAVE garante que não está em causa a sua “representatividade” (como? se responderam apenas os alunos que assim o entenderam da amostra inicial, já de si muito limitada?)

Mas os resultados do diagnóstico às aprendizagens “perdidas” feito pelo IAVE na sequência do período do E@D parece que confirmam tudo o que deles se esperava. Nada de inesperado, portanto. A vários níveis. Atentemos no secretário Costa, o homem que aparece sempre nestas alturas, porque o ministro Tiago nunca recebe o guião a tempo:

Na apresentação dos resultados do estudo diagnóstico, o secretário de Estado da Educação, João Costa, sublinhou que as dificuldades demonstradas pelos alunos nos níveis mais elevados “não é diferente” da registada em outros instrumentos de avaliação, nomeadamente em testes internacionais como o Programme for International Student Assessment –  PISA. No entanto, o governante manifestou a sua preocupação com as “percentagens elevadas” de alunos com uma performance inferior ao esperado “em itens de nível mais simples”.

Ou seja, no fundo os alunos falharam acima do “esperado” nas questões mais simples e mantiveram o desempenho nos “níveis mais elevados”. O que nos pode dizer tanto sobre o dito desempenho dos alunos quanto em relação à adequação da ferramenta usada para a sua aferição A qualquer aluno de um curso de formação inicial de professores (ou a formando numa qualquer formação sobre avaliação dos alunos) é ensinado que se deve ter atenção à forma como se elabora a ferramenta de avaliação, pois pode estar desadequada ao perfil dos alunos.

Se um professor aplicar um(a) teste/prova em que os alunos têm resultados fracos e “abaixo do esperado”, costuma afirmar-se que o erro está do lado do professor, não dos alunos. Não será que se passou isso com o IAVE e os seus “especialistas”? Não terão falhado na concepção das suas provas? Pelo menos, essa é a doutrina se acontecer a um professor comum. Ou então, deve fazer nova prova, de remediação, para ver se os resultados se adequam mais às expectativas. Que me desculpem. mas levamos há décadas com esta cartilha.

Afinal, a culpa não pode ser só dos alunos, como parece ser a leitura do SE Costa:

A forma como foram desenhados [os testes de diagnóstico] avalia transversalmente as literacias. Por isso, alguns dos resultados são obtidos “independentemente da pandemia”, reconheceu o secretário de Estado da Educação. Ou seja, correspondem a debilidades estruturais dos alunos.

A menos que a explicação a dar pelo inevitável grupo de trabalho formado para analisar este problema seja outra. 🙂 Adivinham qual? Pois… adivinha-se que alguém andará a precisar de “formação” 🙂 .

Mas, só porque tenho assim um pouco de mau feitio, coloquemos em cima da mesa algumas hipóteses de trabalho engraçadas, a partir da própria “leitura” do especialista-mor do ME:

  • A primeira: será que os alunos, mesmo sem pandemia, não teriam resultados deste tipo, com uma prova com estas características?
  • A segunda: será que estes resultados não serão também em parte resultantes de alguns erros nas políticas globais de avaliação desenvolvidas no Ensino Básico nos últimos anos, que tanto tem privilegiado os “perfis” aos conhecimentos “enciclopédicos”?
  • A terceira: se “reconfigurássemos” o tipo de provas a aplicar aos alunos, de modo a não colocar em causa a sua auto-estima, não obteríamos resutados muito mais favoráveis?
  • A quarta: e se aplicássemos tais provas a um pouco mais de 13.000 alunos, já que as que foram realizadas nem chegaram a 2% dos alunos do Ensino Básico e, neste tipo de coisas, talvez seja apropriado não usar extrapolações à maneira de empresas de sondagens?

Ficam aqui estas maldosas pistas para o grupo de sumidades mais da preferência do poder neste momento, com destaque para a economista do regime que está e para a eminência parda do poder na 24 de Julho, a quem se conhece bem a tendência para atirar as culpas de todo e qualquer insucesso para os do costume, assim como a falta de paciência para quem contrarie a sua experiência de décadas a repetir o mesmo.

Uma das pessoas convidadas pelo Governo para este grupo de trabalho é a professora da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) Susana Peralta, uma das economistas que, na semana passada, apresentou um plano de recuperação das aprendizagens dos alunos que inclui escolas de Verão e um reforço de tutorias. A implementação desse programa custaria, pelo menos, 200 milhões de euros.

No grupo têm também assento a especialista em Saúde Mental Margarida Gaspar de Matos e a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho, sinal da preocupação do Ministério da Educação de centrar o plano “não só nas aprendizagens, mas também nas competências emocionais” que possam também ter sido afectadas pela pandemia, de acordo com o secretário de Estado. 

Neste grupo estão outros académicos como Domingos Fernandes (ISCTE), João Pedro da Ponte (Universidade de Lisboa), Sónia Valente Rodrigues (Universidade do Porto) e professores do ensino básico e secundário – José Jorge Teixeira, professor de Física e Química no agrupamento de Escolas Dr. Júlio Martins, em Chaves, e vencedor do prémio Global Teacher Award 2020, David Sousa, director da escola Frei Gonçalo de Azevedo, em Cascais, e Júlia Gradeço, directora do agrupamento de escolas de Oliveira do Bairro.

O grupo está armado. O plano vem a caminho. Se quiserem as conclusões/soluções, a partir de todas estas premissas tão pouco evidentes, eu posso escrevê-las já amanhã, pela manhã (pensando bem, vou fazer mesmo isso).

2ª Feira – Dia 50

Mas comecemos pelo princípio: será que duas semanas sem aulas (compensadas com a extensão do ano lectivo) e menos de dois meses de ensino remoto produziram assim tamanha “perda de aprendizagens”? Com que base empírica isso é afirmado, quando nem sequer foi feita a avaliação deste período e o ano passado terminou com níveis recorde de sucesso? Foi feita avaliação a “olhómetro”, lá por casa, com os filhos ou netinhos?

Sábado – Dia 48

Eu sei que não podemos estar fechados em casa o tempo todo. Eu percebo até quem acha que são os seus direitos que estão em causa, por muito que discorde dessa leitura, pois o exercício dos nossos direitos não deve colocar os outros em risco. Na notícia online do Expresso, pode ler-se que se pode “dizer que o dia 19 de março teve um índice de mobilidade de 99% da normalidade pré-pandemia”. Desculpem-me, mas 99% da mobilidade há cerca de uma semana, significa que o confinamento se tornou uma ficção. Algo que não me surpreende, quando tenho mesmo de sair e me deparo com as estradas e ruas como se estivesse tudo como dantes, mais umas máscaras de cores sortidas.

4ª Feira – Dia 38

O que lamento é que esta “autonomia”, este nível de liberdade dado às escolas em matéria tão sensível só aconteça numa situação de emergência, não ficando completamente afastada a sensação de que é uma estratégia do ministério para afastar de si qualquer responsabilidade pela resolução de uma situação complicada que ajudou pouco a minorar. Se as coisas correrem bem, foi uma óptima decisão; se correrem mal, foi porque “as escolas” não souberam usar bem tão generosa concessão de poder pela tutela. De qualquer das maneiras, na dúvida, prefiro ter mesmo algum grau de “autonomia”, mesmo que passageiro do que nenhum.

O Nosso Pilatos

Sempre que as coisas apertam, lá vem a tal da “autonomia”. Se alguma coisa correr mal, já se gastou o sabonete líquido.

Ministro Tiago Brandão Rodrigues entende que as escolas têm “maturidade suficiente para entender como querem fazer a avaliação dos seus alunos”. Governante assinalou regresso do ensino presencial em escola de Paços de Ferreira.

Sábado – Dia 27

Só que uma espécie de fascínio com as novas tecnologias acometeu alguns teorizadores da “Educação do Futuro”, ao ponto de considerarem que grande parte das funções desempenhadas pelos professores podem ser substituídas pela automatização, da transmissão de conhecimentos à avaliação das aprendizagens. E é curioso encontrarmos alguns defensores de uma Educação humanista e diferenciada a promover processos de ensino mecanizados e determinados por algoritmos. 

6ª Feira – Dia 26

O que estas pessoas não parecem entender é que com aulas via Teams ou Classroom, os professores ficam com o seu mail “oficial” submerso por mensagens porque ou desligam as notificações (e têm de andar de sala em sala, publicação a publicação em buca de comentários) ou o ritmo diário é de muitas dezenas ou mesmo centenas, quando se leccionam 6, 7 ou 8 turmas e cada aluno (podem ser 100, 150 ou mesmo 200) decide colocar uma dúvida ou fazer um reparo qualquer. No caso das direcções de turma em escolas onde a presença d@ DT é obrigatória em todas as salas, a sobrecarga é brutal, sendo aparentemente de difícil compreensão para quem tem um par de petizes em casa e já acha que é muito e que as suas dificuldades são o centro do mundo.

A Ler

Give Thanks to Our Teachers for Braving the Pandemic!

(…)

These days, it’s impossible not to hear cries of “get kids back in school” and “we need to reopen schools.” These declarations certainly suggest that schools are closed.

In this era of alternative facts, there is some bizarre belief out there that, all over the nation, school leaders have decided just to skip this year, allowing teachers to take a long, paid vacation. Of course, that would mean students have a year of free time with no lessons to complete, no grades to earn and no chance of moving on to the next level next year.

I suppose that means that virtual school or remote learning will no longer be officially considered “school.” (…)

For the vast majority of students, there is no equivalent alternative to the academic and social advantages offered by in-person classroom settings.

So, while virtual education is not the best option for most children, it is still a viable secondary option in circumstances where in-person learning is impractical or potentially unsafe.

It is worth pointing out that, until the COVID-19 pandemic, there weren’t a lot of supportive voices joining the proponents of in-person school over virtual education; tax dollars in multiple states were siphoned from traditional schools and diverted to online schools under the guise of supporting “school choice” initiatives.

Some of the very same voices shouting about the need to reopen schools that are currently virtual – as if virtual school isn’t really school – are the same voices that supported pre-pandemic virtual schools over traditional public schools in the first place.