Lamento Ser Insistente Nisto, Mas As Coisas São O Que São

Ao segundo dia, chegam-me relatos da necessidade, desde já, de substituir equipamentos ou ir comprar por parte daqueles que tiveram de usar os seus meios para que a segunda vaga do serviço público de E@D tenha uma aparência de funcionamento. Alunos e professores que viram, ao fim de apenas dois dias de sincronias, computadores entregarem a alma à manutenção (caso tenham salvação ou seja economicamente racional) ou que, com tanto delírio sincrónico, perceberam que precisam de adquirir mais meios, pois nos telemóveis, por muito inteligentes que sejam, a realização de algumas tarefas não é exequível.

O problema é que perante certa propaganda televisiva, quem fica com a maioria das culpas acabam por ser escolas e professores, por parecer que não estão a querer dar/emprestar os computadores que o anti-génio e a máquina mediática do ME dão a entender que existem. Fora aquelas pessoas – por muito especialistas que sejam – que não têm mesmo noção nenhuma do que é o país real, fora de alguns nichos ainda funcionais da Parque Escolar ou de um ínfimo número de pseudo “salas do futuro”.

Na casa da maioria, é o presente tem muito peso. E em casa onde não chegam kits para as necessidades, todos protestam achando ter a razão que, em boa verdade, até terão.

Só que eu e tantos outros não temos culpa, por muito que tenhamos avisado desde Setembro que as coisas não estavam a ser feita devidamente.

Mas há quem viva no mundo da fantasia (caso da presidente do CNE em algumas das suas crenças aqui expostas sobre a “melhor preparação” das escolas) e dê muito jeito ao governo que assim continue, porque funciona como cortina de fumo e primeira linha de choque com a opinião pública.

Que Coisa D’Espantar!

Mas segundo certos “decisores”, a Escola é que serve para apagar todas essas “assimetrias” e os atrasos em equipar os tão apregoados “mais desfavorecidos” é culpa do coelhinho da Páscoa.

Já sei que #SóCrioProblemas, mas como não vivo na Aldeia dos Sorrisos Digitais e ainda hágórinha mesmo vi os problemas de uma reunião com 15 pessoas teoricamente já treinadas para isto, só posso cruzar os dedos e acreditar que tudo vai acabar bem.

A partir de uma leitura cruzada de vários indicadores oficiais, investigadores da Nova School of Business and Economics concluem que, num país onde grassa a privação material, o ensino à distância “só funciona para os filhos dos burgueses” .

O Ano Lectivo Começa Na Primavera?

Tenho andado eu a dizer que os computadores que chegaram às escolas teriam custado no máximo 30 milhões de euros e ainda errei por razoável excesso. Quanto ao resto, fica bem claro que o “plano” foi sempre o de manter o presencial, independentemente das “vagas”. O investimento total é uma gota de água nos buracos do Novo Banco ou da TAP e não me venham dizer que é demagogia. Porque uma “geração perdida” vale certamente mais do que um banco, mesmo para liberais de aviário que se dizem amantes da Vida e do Humanismo. A começar pelos novos doutorados (honoris causa?) em Educação para Totós que parecem ter descoberto agora que a Terra é mais ou menos redonda (ocorre-me aquele novo bostoniano que escreve no Expresso acerca do que já sabemos, mas que ele acha que é muito novo, porque chegou agora e… enfim, há que ter paciência, muita paciência…),

Expresso, 29 de Janeiro de 2021

Domingo

Após as descobertas incríveis feitas na passada semana sobre, por exemplo, o Inverno nas escolas em tempos de pandemia (ou não), pessoalmente gostaria que muita gente “descobrisse” como estão a funcionar as aulas de Expressões (em grande parte quase sem componente prática), as em especial as de Educação Física, porque nem todos temos as mesmas condições para trabalhar. E o caso de Educação Física é o que me parece mais evidente. O CNAPEF e a SPEF divulgaram os resultados de um inquérito sobre o modo como foi preparado este ano lectivo e têm dados muito interessantes, desde logo o modo como essa preparação foi feita com a colaboração dos colegas da disciplina.

O que não traz o inquérito? Por exemplo, em quantas escolas ou agrupamentos, para além das restrições decorrentes da pandemia, os alunos continuam a ter aulas a céu aberto no Inverno ou têm de sair da escola para as ter em pavilhão exterior ao perímetro escolar. Como sou um tipo cheio de azar, este século ainda não estive numa escola (seja em qzp ou quadro de escola) que tivesse pavilhão no seu perímetro. Ou pura e simplesmente não o havia (nem ainda há), ou os alunos tinham de ir a escola vizinha (agora em agrupamento, mas não nessa altura) ou a um pavilhão no exterior, a centenas de metros. É o caso dos meus alunos actuais de 5º ano que têm Educação Física nas mesmas condições que eu tive quando estava no 1º do Preparatório há 45 anos, no mesmo concelho, só que na altura o Pavilhão a que nós íamos era novo e o deles, agora, é capaz de ter essa idade e aguarda há anos e anos por uma intervenção da tutela.

(alonguei as contas e nos últimos 25 anos só estive em 1999-2000 numa escola com pavilhão no seu perímetro)

O que não traz o inquérito? Que há alunos do Ensino Básico e do Secundário de Letras (e que fique claro que a minha filha está em Ciências e adora Educação Física até debaixo de neve ou trovoada, por isso é que escrevi “de Letras” que, como eu, são todos considerados nerds ou sedentários incorrigíveis) que têm de ir às 8 da manhã para um campo de relvado sintético de um clube desportivo próximo da sua escola (se quiserem saber qual é, perguntem ao “João”, que deve saber da “parceria”) e que por estes dias está todo coberto de geada e inviabiliza qualquer actividade desportiva em segurança. Sim, o ar fresco da manhã “enrija” o físico e é belíssimo para a saúde, mas não me parece que seja menos grave do que o que se passa nas aulas regulares com o frio.

Há quem pareça descobrir agora que o ensino para o século XXI enfrenta problemas que alguns de nós – sempre do “contra”, sempre “negativos”, sempre a ver o copo “meio vazio” – procuram denunciar há muito tempo perante a condescendência de uns e a indiferença de muitos outros. Porque parte significativa da nossa rede escolar pública não tem pavilhões adequados (ou laboratórios para as Ciências ou oficinas para as disciplinas mais tecnológicas), mesmo se há escolas com “salas do futuro”, espaço para equitação e acesso a aulas de natação ou outras coisas assim, como se fossem colégios privados de topo. Parte significativa da nossa rede escolar é muito século XX e há aspectos que fazem lembrar efectivamente os tempos intermédios da industrialização oitocentista. Claro que nem tudo é assim, mas desde 2005 tudo se veio a agravar em termos de desigualdades.

A cosmética da avaliação para o sucesso pode encobrir algumas coisas em termos estatísticos, mas não consegue encobrir tudo. Há quem diga que eu “exagero” ou que só vejo o que me rodeia. Não é bem assim, porque posso dar exemplos de norte a sul e do litoral ao interior, sem me fixar no meu “habitat” natural. A essa gente “positiva” ou que insiste em que “para a frente é que é o caminho” e “não precisamos de quem só vê os problemas” eu diria que não gosto de avançar, cantando alegremente, para nenhum precipício (não estou a ser literal, ok?) e muito menos para “soluções”, apressadas, lacunares e demagógicas, que agravam cada vez mais a distância entre nichos locais “de excelência”, que dispõem de condições para isso e uma parcela muito importante do “resto” que começa a ficar cada vez mais para trás. Que até se pode “abonecar” para visitas de Estado, para ficar bem nas fotografias, que varre para baixo da alcatifa as misérias (de novo… não estou a ser completamente literal) por vergonha ou desejo de ficar bem, mas que, nos outros dias luta para conseguir mudar estores, isolar janelas, substituir fechaduras, instalar novos cabos de cada vez que alguém decide pontapear as calhas por onde passa a net.

Talvez para a semana tudo isto consiga mais do que reportagens algo anedóticas na comunicação social e consiga revelar à opinião pública o quanto tem andado enganada nas últimas décadas.

Sábado

Na semana que vai terminando chegou-se conclusões interessantes acerca da forma de propagação do vírus. Ele não é sensível ao tempo (não reconhece o Natal ou o Ano Novo, entrando por eles adentro sem cerimónias), mas é sensível ao espaço (reconhece os portões das escolas e fica do lado de fora, porque não trouxe cartão).

Adicionalmente, parece que muita gente descobriu que faz muito frio nas escolas durante os tempos mais agrestes da invernia. Um destes dias até descobrem que faz um calor do caraças no Verão nas salas viradas a Sul, não sabendo quem lá está se há-de abrir tudo para tentar que o ar circule (e leva com o Sol em cima e com a luz que impede que se veja seja o que for nas telas e quadros interactivos brancos), se fecha o que há de estores ou cortinas e fica um abafo do caraças, bem potenciado pela circulação dos humores corporais em ebulição). Já há uns meses, houve que tenha percebido, por fim, que o trabalho dos professores é bem mais complicado do que pensava, assim como que as teorias da “escola digital do século XXI” é uma demagogia sem decoro de certos “especialistas” que estão no poder formal ou fático há décadas.

Diz-se que as escolas portugueses não chegaram ao século XXI e eu concordo, pois em matéria de aquecimento nem sequer chegámos, na maioria, ao tempo das lareiras e em termos tecnológicos ainda estamos muito longe de ter o que têm algumas “salas do futuro” em escolas dirigidas por quem tem “o telefone do João” (e não digam que é mentira, porque eu sei de mais do que casos esporádicos em que as coisas assim foram e são) e pode sacar – mesmo assim com razoáveis limites – aquilo que os zecos comuns apenas podem desejar. Os professores até estão muito avançados porque, mesmo se em métodos estão no século XX, em condições têm quantas vezes de trabalhar mesmo como se fosse num armazém de Manchester do século XVIII.

Testemunhos Da “Inclusão”

Publico, conforme me chegou e com autorização da autora.

Passo a apresentar me.

Chamo-me Marta e sou mãe da Maria. Mais conhecida como Maria Ervilhinha.

A Maria nasceu, há 5 anos, com uma Monossomia 22, denominada de Síndrome Phelan McDermid. Esta doença rara que assolou a Maria, por sequência da delecção do cromossoma 22 é enormíssima, o que lhe atribui inúmeras dificuldades, limitações e incapacidades.

A Maria faz ciclos intensivos terapêuticos de reabilitação em Braga, desde o seu diagnostico. Ja vai no sexto ciclo. Com muita luta e, as vezes, algum desespero, pois sao tratamentos muito caros: 10,200€ cada ciclo de 9 semanas.

Estes ciclos são espaçados semestralmente. Isto para a contextualizar.

A Maria andou numa IPSS aquando do seu diagnostico. Correu mal. Procuramos um Colégio privado. Ingressou e correu muito bem. Porém, engravidei e ela ficou comigo ate hoje. O mano fez agora 1 ano de idade.

Colocar a Maria numa escola dita inclusa sempre foi uma luta. Desde a primeira má experiência. A única opção viável e de aceitação em receberem a Maria foi apenas daquele Colégio.

Ora como a Maria está numa fase de pré escolar, com muitas limitações e atraso cognitivo ( um atestado multiusos com 99% de incapacidade), foi aconselhado pela equipa que a trabalha o regresso rápido á escola. Todos os parâmetros associados – socialização, grupo de pares, interacção – teriam de ser realmente trabalhados agora, nesta fase. Começou toda a busca por uma escola com valência de educação especial. Zero resultados obtidos. Descartou-se hipóteses com filtros de proximidade de casa e contexto/valência de ensino especial. Zero.

Fase 1) ir ao agrupamento da freguesia de residência e perceber como funciona. Péssima ideia. Apresentam o espaço com uma unidade de “deficientes, em que só saem de la para ir ao ensino regular 1h por semana, se se portarem bem; se se portarem mal voltam à unidade”. Imaginei logo que enjaulavam me a filha, como num zoológico, não fosse ela ter actos canibalistas.

Fase 2) Perceber como funciona a revisão da Lei 54/2018 e uma série de direitos relativos à área da deficiência e ensino das pessoas portadores de deficiência.

Fase 3) Procurar Colégios e Instituições Privadas. Bastava dizer que a minha filha tem NEE diziam de imediato que não haveria vaga, nem agora nem nos anos seguintes.

Fase 4) Retorno ao Colégio que acolhera a Maria em tempos, e planearmos em conjunto (equipa do Colégio e nós pais) a melhor forma de dar resposta à Maria. A necessidade de um professor, educador de ensino especial (pago por mim, aparte do Colégio) foi unânime.

Fase 5) Nós pais, na procura do dito acompanhamento para a nossa filha poder voltar à escola, encontramos uma associação que faria essas deslocações a contexto escolar com crianças como a Maria.

Acompanhamento das 10h as 13h, 5 vezes por semana = 1008€

Somando a isto, o pagamento da propina escolar e as sessões de terapias que a Maria necessita de fazer, pelo menos 2 vezes por semana, e que ascende aos 790€ / mês.

Posto isto, e sabendo que a minha filha recebe 62 € da bonificação da deficiência unicamente, como é possível o nosso governo dizer que não há discriminação na área da deficiência. Onde está a inclusão? Como posso eu ir trabalhar se as escolas fecham se a crianças deste tipo? Como é comportável para qualquer família este tipo de gastos para que a filha tenha um “normal” acompanhamento diário? Que raio de decretos e leis anda aquela gente toda no parlamento a criar?

No terreno é tudo tão diferente. Tão cru. Tão suicidário.

E recordar que para o próximo ano lectivo a Maria tem que estar matriculada numa instituição de ensino – seja para estar entregue ao “Deus dará” ou apenas para criar estatística de rankings – é revoltante. Desesperante.

O país é isto!

Aparte desta luta, existe a luta de angariar dinheiro para que a minha filha (e tantas outras filhas, de tantos outros pais!) tenha acesso a tratamentos de valores absurdos como os que referira. Há cerca de um mês atrás, numa publicação das redes sociais consegui fazer mexer o mundo; mexi com os ditos influencers e com alguma nata da sociedade que se diz benemérita, quando lhes pedi apenas a partilha da história da minha filha. Não mendiguei dinheiro. Correu muito mal e correu muito bem. Li gente a debater-se uns contra outros pela minha filha; gente a dizer me “você se pensa que os influencers têm que salvar a sua filha, está enganada! Bata a porta do governo e vá fazer greve de fome para a porta do parlamento, ninguém tem que a ajudar”…

E então… ficamos sem saber o que fazer, nem pensar…somos desprotegidos de uma constituição que se aparenta não discriminatória, e de dados estatísticos entregues ao Comité Europeu de Pessoas Portadoras de Deficiência fantásticos, quando na verdade nada de nada está a funcionar. Isto sem eu falar do que vejo na realidade, na prática quando me desloco aos locais onde estas crianças deveriam ser bem acolhidas. Ou minimamente acolhidas.

Desculpe a revolta nas palavras mas já me vejo sem saída para me fazer ouvir. Já me imaginei ate nas galerias do parlamento a ser algemada para gritar todas estas injustiças. Mas ninguém quer saber…

Nos últimos tempos já me revejo do outro lado da linha, sem solução. à espera que chegue o dia em que eu, obrigada, tenha que deixar a minha filha não-sei-onde, a não-sei-quem, a fazer-não-sei-o-que. Com o enorme receio de voltar para busca-la, e ela tenha fugido, esperneado, gritado, descompensado ou simplesmente sobrevivido a mais um dia estúpido, enrolada numa manta sem estimulação, qual lar à espera que os dias passem.

Morro dia a dia. E já quando me sinto no fim da linha, já só peço que o comboio passe rápido para acabar com este sofrimento.

Os melhores cumprimentos de uma mãe desesperada

Grata pela sua atenção,

Marta L.

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A Ler

Só falta vir a réplica irritada dos pachecos e pachequinhos. Porque não querem perceber que uma escola experimental pode ser um sucesso aqui e ali ou mesmo em todo um pequeno país do terceiro-mundo ou numa província amazónica mas, no mundo ocidental actual, apenas acaba por agravar a diferença entre os que podem escapar à rebaldaria e aqueles que lá ficam, por ausência de alternativas ou porque querem ainda creditar muito que a Escola Pública pode ser outra coisa. Basta ver, em matéria de coerência, o que certos governantes fazem com a sua descendência. Ou já escaparam no tempo ou escapam no espaço.

Uma fábrica de desigualdades

Vítimas de teorias e práticas pedagógicas que já eram velhas há 40 anos, porque lhes dão jeito para camuflar o insucesso que realmente existe e continuará a existir por este caminho, há escolas (e cada vez são mais) que vivem um autêntico PREC educativo.

Finger

Fico Sem Saber Que Título Dar…

… a textos sobre situações extremamente dramáticas que me chegam, em alguns casos com extrema revolta e sem pedido de anonimato. De qualquer maneira, fiquemos apenas pelo primeiro nome, Manuela, da colega cuja situação me chegou primeiro por amiga comum e depois de viva voz, a poucas horas de correr o risco de ficar sem ela, antes de lhe abrirem uma fenda no pescoço, sendo obrigada a escrever num bloco para comunicar, antes de lhe inserirem um dispositivo para o efeito.

Declarada apta para o serviço por uma Junta de Mérdicos, está internada, ficando aqui uma pequena parte do testemunho de uma colega que a tem acompanhado e ao marido.

Ela sofre de insuficiência renal, pulmonar, cardíaca e tem as artérias calcificadas. Como fez muitos tratamentos na sequência de um cancro nos ovários, já não pode fazer mais. Na segunda ou quarta (feira), vão retirar-lhe o tumor. Ficará sem cordas vocais. Parte da personalidade já lhe foi amputada, pois exprimia-se através da voz.

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O Meu Aplauso Para O Joaquim Colôa

Que tem uma autoridade acrescida para falar sobre estes temas. O texto é do mural dele no facebook e a sua reprodução aqui foi devidamente solicitada e autorizada.

Dicas para uma liderança em prol da educação inclusiva

– Desconheça que o nosso sistema era caraterizado desde as mudanças do Ministro Marçal Grilo pelo princípio orientador da flexibilidade e pelo princípio organizador da diferenciação pedagógica. Fale destas coisas em público com o entusiasmo da descoberta do que é uma discoteca já em tempo tardio.

– Desconheça que no nosso sistema houve competências essenciais e fale em público das aprendizagens essenciais como se fosse o dia em que finalmente tirou a carta de condução.

– Mostre uma fotografia de uma sala que parece ser de uma discoteca. Escreva que é uma sala multisensorial e diga em público com o entusiasmo de quem tem tudo controlado que é uma sala para onde vão os alunos para acalmarem.

– Mostre uma foto dos putos todos deitados no chão (fica bem se for em círculo) e diga em público que uma das ultimas grandes mudanças para a inclusão foram as assembleias de turma. Não diga que desconhece que essas coisas já se fazem há anos em muitas escolas e turmas para não ofender muitos professores, alguns até já reformados. Ah e diga que no MEM também se fazem essas coisas mas que no seu agrupamento não é bem o MEM, para não ofender o Prof Sérgio Niza de quem já ouviu falar.

– Diga que os alunos planificam e autoavaliam, mas quando mostrar as grelhas para esses e outros fins diga que é parecido com a Escola da Ponte mas que não é bem igual com as coisas que o Prof Pacheco diz, para não criar confusoes que imagina poder haver desde que coincidiu com ele num coloquio ou deu uma vista de olhos pela primeira vez num dos seus artigos.

– Fale em publico da sala de projetos aglutinadores (em momento nenhum fale que desconhece que neste pais já houve áreas de projeto e esquisitices do género), da sala das tecnologias e da sala para a inclusão (de preferência nomeie algumas destas coisas em inglês é mais moderno) não mostre nunca as salas onde estão os multidificientes para as quais comprou o material mais moderno e onde fazem muitas atividades tipo Jardim de Infância independentemente da idade. Se tiver que falar disto fale dos bibes das professoras de como se divertem a fazer bolos e faianças para o natal e páscoa e diga como em nome da inclusão têm um projeto em que os colaboradores, os voluntários, os da disciplina de cidadania ou algo do género lá vão cantar canções e contar histórias.

– Quando falar de avaliação criterial diga logo que só está à vontade na sua disciplina e assim evita perguntas incomodas do que é isso de avaliação criterial… de preferência encaminhe a conversa para os benefícios de haver ou não exames e testes é uma questão demagógica e fica sempre bem como distrator porque dá muita discussão. Não fale de avaliação formativa ao mesmo tempo que mostra todas as grelhas e que se refere em pormenor a todos os códigos e de como o excel deita fora os relatórios descritivos à medida que se muda os tais critérios de que falava antes. Meta o número de uma portaria aqui pelo meio… sabe que ninguém leu e cala toda a gente. Fale em tom mais baixo de feedback para não lhe darem muita atenção e não ter que aprofundar essa coisa da avaliação… Não se mostre surpreendido se alguém lhe disser que as tais assembleias de escola são um ótimo mecanismo de avaliação e de autoavaliação e já agora de feedbacks e autoregulação das aprendizagens.

– Quando falar dos muitos projetos e da sala de projetos não mostre as muitas grelhas (lençóis na minha época em que não havia inovação) que todos têm que preencher igualmente…

Ah e fale com entusiasmo das modernidades do sistema na Islândia onde os alunos se descalçam para entrar na escola.

Ah e nunca se esqueça de referir em público muitas vezes quem são os timoneiros da monitorização desta grande revolução no seu agrupamento (seja o pai ou a mãe desta grande revolução), enfatizando que vai sair para estar com ela/ele e como nunca se cansa de ouvir essa/esse timoneiro da grande revolução.

Ah e para que o rio não fique maior nunca queira saber o que dizem os professores que lidera sobre a realidade… à exceção daqueles que o acompanham às vezes ao estrangeiro e menos vezes a colóquios….

…/… continua

Joaquim Colôa

JColoa

 

Balanço Breve Da Implementação do 54/2018, Após Dois Períodos De Work In Progress

São raras as pessoas com quem falo que não me confirmam o seguinte panorama:

  • Multiplicação da papelada a usar, numa espécie de “grande farra” para os grelhadores de serviço.
  • Morosidade dos procedimentos, que vão e vêm e vão e vêm..
  • Tendência para as decisões críticas serem tomadas por quem nem vê os alunos, mas apenas grelhas e outros “registos”.
  • Tendência para as decisões a aprovar serem no sentido de manter os alunos numa resposta estruturada para o médio/longo prazo, desincentivando perspectivas de alteração das soluções propostas (o que significa que se fica um bocado como estava, mudando cabeçalhos), conforme a evolução dos alunos.

Ou seja, se o pomposamente chamado “Novo Regime Jurídico da Educação Inclusiva” tinha algumas vantagens em termos teóricos – sendo as maiores uma eventual maior celeridade do processo e a possibilidade de respostas permeáveis (o tal “multinível”) dinâmicas no tempo, isso está a ser destruído no concreto devido à obsessão pela recolha e registo de “evidências” em toda uma nova panóplia de “instrumentos” para posterior análise. após a análise inicial. E este tipo de deriva é tanto maior quanto as pessoas estão mais alto na escala das “formações” dadas ou recebidas.

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(não é de estranhar que quem mais queira avançar com soluções eficazes para os alunos concretos em sala de aula sejam os “ignorantes” que leram o decreto e acreditaram em algumas coisas que foram ditas em seu redor… mas que falharam a doutrinação “inclusiva” com muitos powerpoints, flowcharts, setinhas e cruzinhas a aparecer)

(ahhh… mas não acreditem em mim… eu sou do “velho paradigma”, um “velho do Restelo” certificado por sumidades e autoridades na matéria…)