Pelo Educare

Os cenários e as certezas

Anunciaram-se meios para o projecto de uma Escola Digital, mas não se conhecem em detalhe como isso será implementado, como serão disponibilizados os meios, com base em que critérios e, muito importante, quando estarão disponíveis.

(…)

Resumindo, todos queremos que o próximo ano lectivo seja em regime presencial por razões sanitárias (a pandemia estaria controlada), por motivos pedagógicos (é a melhor solução para alunos e professores) ou mesmo por motivos psicossociais (foi evidente que uma parte da população não está preparada, nem tem condições, para ficar em casa a apoiar o estudo da sua prole), não esquecendo os económicos e financeiros (que acabam por se sobrepor aos restantes em muitas medidas).

Infelizmente, a maior certeza é que não sabemos se assim poderá ser.

pg contradit

António Nóvoa – As Mudanças Na Educação São Sempre Mudanças Muito Longas

Não há mudanças rápidas em Educação. Não há nenhum exemplo, É sempre no tempo longo. A covid não trouxe nada de estruturalmente novo, que não soubéssemos antes.

Uma coisa é ouvir António Nóvoa, outros algumas figurinhas deprimentes de 2ª ou 3ª linha.

Breves Lições Dos “Bate-Papo”

  • Em primeiro lugar, fica claro quem é verdadeiramente o califa do ministério, mesmo que ostente apenas o título de vizir. É ele que sabe, é ele que comunica e explica, é ele que está em proximidade. Todos sabem(os) isso há muito, mas é sempre bom que se perceba com clareza.
  • Há director@s que precisam de uma mão que os guie em todos os caminhos, por forma a tudo poderem fazer de acordo com as regras, o figurino e a sebenta oficial. Ninguém quer correr riscos e verdadeiramente “inovar”, não vá o raio da inovação não ser a certa e certificada pelo vizir e seus fiéis.
  • Qualquer “oportunidade” que pudesse existir para que pudessem repensar-se alguns aspectos do “paradigma” foi ignorada por completo no que à preparação do próximo ano lectivo diz respeito.
    • O calendário é como os antigos mas mais extenso, apesar de terem levado anos a dizer que os alunos estão muito tempo na escola;
    • As turmas ficam como estavam, fazendo-se apenas uns retoques nos horários, mesmo se há por aí quem proclame há c’anos que o importante é centrar tudo no aluno, individualizar e diferenciar. Mas, mesmo com perigo de contágios, fica tudo na mesma e só como excepção será diferente. Porque todos cabem nas salas, sempre que possível ou não.
    • Quanto à avaliação e assiduidade, fica tudo como estava, em especial se os níveis singulares de sucesso deste ano se puderem replicar pois – é natural – quem vai querer explicar, daqui a um ano, que “cara a cara” (sendo possível) os alunos terão menos sucesso do que à distância tiveram este ano?
    • As provas externas já têm data marcada, incluindo as do Secundário, por muito que se diga que deve ser – lá está – “repensado” o acesso ao Ensino Superior. Que não deve ser feito com pressas? Certo, mas nem sequer está na “agenda” deste mandato.
    • Há uma enorme consideração da tutela pelos professores em termos retóricos mas, caso digam que têm este ou aquele risco, mesmo que o regime evolua para misto ou não-presencial, se não estão em condições de se meter com centenas de alunos na escola, metam atestado e pronto. Não interessa se depois não quem os substitua e a petizada fique com intervalos de 90 ou 100 minutos.

Em suma… esqueçam todas aquelas tretas que andam por aí os cortesãos a espalhar sobre a necessidade de se repensar o “modelo” herdado do século XIX, de reconfigurar o paradigma educativo, adaptando- ao século XXI, que já vai bem avançado. Há quem defenda isso com convicção e fé, porque é como com qualquer fundamentalista religioso agarrado às barbas do filho de Deus, do profeta ou do primeiro Buda (que não sei se tinha barbas), que não consegue sair da sua “caixa” enquanto critica os outros por não saírem da deles.

Mas também há quem ande a espalhar o Verbo apenas porque lhes facilita a vidinha, financia formações e dá lugar de destaque na Corte da Situação. E o “54” e o “55” têm dado muito que comer e beber. No fundo, o que querem é chegar ao fim do mandato e apresentar um sucesso inaudito que irão atribuir às suas políticas, mesmo que isso tenha sido conseguido à custa de uma emergência em que a larga maioria dos professores decidiu que os alunos não tinham culpa das circunstâncias e passaram muitos em conformidade, desde que tivessem dado alguma prova de vida a partir de meados de Março.

janus

Pela Margem Sul

O município do Barreiro decide a “Aquisição de uma plataforma de Gestão Municipal de Educação” à empresa CTT Contacto, SA, aparentemente especializada na distribuição de publicações municipais, publicidade e flyers. Sim, há antecedentes e isso também é curioso. Especialmente pela margem sul. Pode ser o início (ou continuação) de uma boa amizade, se a razão for a tradicional “falta de recursos próprios”, o que, contudo, seria estranho em quem pretenda gerir a educação a nível municipal.

Telesc

Pelo Educare

Educar para a adversidade

“Brucie dreams life’s a highway
Too many roads bypass my way
Or they never begin
Innocence comin’ to grief
At the hands of life’s stinkin’ car thief
That’s my concept of sin”
(Prefab Sprout, Cars and Girls, 1988)

(…)

Há um enfoque sistemático em educar de forma “positiva”, assumindo que a “felicidade” e o “sucesso” estão garantidos se fizermos tudo aquilo que nos dizem ser o certo. Mas a vida não é assim e o facto de se descurar a prevenção do que pode correr mal deixa muitos indivíduos vulneráveis, com níveis elevados de frustração, cada vez mais jovens. Porque não foram preparados para que as coisas corram mesmo mal. A uma escala que vai para além da “negativa” ou do ocasional “chumbo”. Há problemas muito mais graves do que esses.

Educar para a adversidade pode parecer um lema pouco apelativo.

Mas é indispensável que entendamos a sua extrema necessidade.

pg contradit

O Texto Deste Mês Para O JL/Educação

Não conseguindo achar a edição em papel nem nos pontos habituais em que o conseguia comprar antes do confinamento, tive de o encomendar online, pelo que deixo aqui o texto, pois quer-me parecer que de outra forma será difícil lerem-no.

Foi escrito há uns 10 dias por questões de programação da edição e agora até é mais consensual do que seria há umas semanas. Não faço ideia do que outros escribas por lá deixaram, mas pelos nomes da douta gente convidada (como Domingos Fernandes ou David Rodrigues), dificilmente o meu não será o único texto pouco convergente com a Situação na Educação.

O fugaz apogeu de um fraco remendo

Numa peça recente (5 de Junho) do Wall Street Journal [i] fazia-se o balanço do recurso ao ensino à distância nos Estados Unidos da América, após o encerramento de dezenas de milhar de escolas que atingiu cerca de 25 milhões de estudantes do ensino não-superior, e as conclusões não são estranhas a quem acompanho este processo por cá: muitos alunos sem meios tecnológicos (computadores e acesso regular à net), professores a fazerem uma reconversão do seu trabalho num prazo curtíssimo, mesmo sem terem uma formação específica em ferramentas digitais para o ensino à distância e encarregados de educação sem capacidade ou tempo para apoiarem os seus educandos.

Em termos globais o “ensino remoto” (remote learning) foi considerado um falhanço, com muitos distritos escolares a, perante as dificuldades e desigualdades verificadas, comunicarem aos alunos para deixarem de desenvolver as tarefas que lhes eram solicitadas. Uma professora dum liceu de Brooklin é citada a afirmar aquilo que parecia uma evidência, mas estava longe de o ser: o facto de vermos muitos alunos agarrados imenso tempo aos seus dispositivos digitais fez com que se confundisse isso com a capacidade de acompanhar um ensino à distância com suporte nas novas tecnologias. Mas, como é sublinhado, “ser um consumidor digital e ser um aluno digital são coisas muito diferentes”. E isso é mesmo assim e bastaria um pouco mais de atenção para se ter percebido que é muito diferente fazer directos para redes sociais ou aplicar filtros pré-definidos a fotos e saber anexar no formato adequado e no separador certo um qualquer ficheiro com um trabalho solicitado numa plataforma com fins educativos.

Mesmo quando se pede apenas, e falo neste caso em primeira mão, que um trabalho manuscrito seja fotografado e anexado no espaço certo de uma “sala virtual”, em grande parte dos casos a imagem surge desfocada ao ponto de ser ilegível, está anexada da forma que calha ou, no limite, nem aparece, porque o aluno se esqueceu de guardar o anexo e mandou entregar o trabalho sem qualquer documento. E este tipo de situação não melhorou, infelizmente, com o passar do tempo, apesar de sucessivas tentativas para explicar o processo. A literacia digital para o lazer e diversão é uma coisa bem diversa da necessária para aceder a conteúdos educacionais e usá-los como base para desenvolver novas aprendizagens.

Isto já era sabido, mas sucederam-se semanas em que parecia que estávamos a entrar num admirável mundo novo, cheio de “oportunidades” e não num caminho com um enorme potencial distópico e multiplicador das desigualdades. E quem o afirmava é porque não queria colaborar nas soluções e avançar para os novos tempos.

Elogiou-se muito a “Telescola”, mas está por perceber se não foi mais uma forma de ocupar o tempo e uma curiosidade para os avós do que uma ferramenta eficaz para as aprendizagens dos alunos. Em sinal aberto, permitiria “chegar a todos”. Resta saber a quem se chegou verdadeiramente e se foi aos que mais necessitariam de um acompanhamento. Assim como diversas soluções adoptadas foram, em termos curriculares, de didática e de pedagogia, as mais adequadas. A quebra brutal das audiências ao fim de uma semana ou duas é apenas uma pista a ser analisada sem conclusões determinadas por quem encomende um necessário estudo sobre a experiência.

Por outro lado, o nível de retorno de trabalhos solicitados no chamado E@D, mesmo com prazos alargados, seguiu uma tendência de subida nas primeiras semanas do 3ºperíodo, a que se seguiu um progressivo declínio, à medida que a solução perdeu novidade e se instalou o cansaço e a saturação com este modelo de aprendizagem à distância que só terá viabilidade como complemento do ensino presencial, ao contrário de quem achou que estava encontrado o “novo paradigma” da Educação. O ensino remoto é tão mais desadequado quanto os alunos forem mais novos, pois é com os mais pequenos que a proximidade de educador@s e professor@s é essencial e o principal factor de adesão às tarefas e ao sucesso das aprendizagens. E ficamos sem saber até que ponto é fiável a qualidade do retorno, pois o fenómeno dos backchannels não funciona apenas como veículo para o debate paralelo entre os alunos sobre determinada tarefa e partilha de ideias, mas também para adulterar o seu desempenho, mesmo durante sessões síncronas.

O debate em torno das sessões síncronas ou assíncronas, das ferramentas a usar para as videoconferências, como fazer (ou não) o registo das presenças, o modelo de tarefas a solicitar, as metodologias de avaliação a aplicar, foram questões que serviram para ocupar muito tempo em discussões raramente produtivas e dar uma aparência de “inovação”, mas passou ao lado do que era mais importante. E o mais importante era perceber que a realidade não se transformava com empréstimos apressados de equipamentos a alunos ou “formações” para professores em regime intensivo. E a realidade é a de uma sociedade profundamente desigual que as exigências do confinamento e das novas formas de trabalho agravaram ainda mais.

Enquanto por cá se ficou pela produção de uma torrente de artigos e proclamações a favor de tudo o que ia sendo feito, criticando-se severamente quem ousasse colocar “problemas” para as “soluções” apresentadas, em outras paragens tentou-se desde cedo compreender o que estava a acontecer. Uma pesquisa realizada logo em Abril pelo Centre for Economic Policy Research[ii] dava a conhecer o impacto diferenciado do teletrabalho conforme as ocupações e respectivo nível de rendimentos, demonstrando como eram os mais desfavorecidos que, a acrescentar aos problemas pré-existentes, se viam em maiores dificuldades para acompanhar os seus educandos no ensino remoto. Porque muitos dos empregos pior pagos são exactamente os que não podem recorrer ao teletrabalho, por estarem ligados aos transportes, à recolha do lixo, à manutenção de infraestruturas básicas ou à venda de bens de primeira necessidade. Ou seja, os trabalhadores definidos como “essenciais” (à excepção dos profissionais de saúde) fazem parte dos mais mal pagos. E grande parte continuou a trabalhar com os filhos em casa. De acordo com o estudo, os trabalhadores com mais de 70.000 dólares de rendimentos conseguiam realizar mais de 60% das suas tarefas a partir de casa, enquanto aqueles com menos de 40.000 dólares só conseguiam assegurar menos de 40%.

Até o The Economist (“Many poor Americans can’t afford to isolate themselves”, peça de 24 de Abril)[iii] reconhecia que o impacto da pandemia era muito mais dramático para os blue collar workers do que para as ocupações com maior estatuto remuneratório. Não apenas porque eram obrigados a trabalhar, mas porque o tinham de fazer em situações de maior risco. Enquanto os seus filhos ficavam em casa, uns sem meios sequer para acompanhar o ensino remoto, enquanto outros ficavam sem uma orientação que o fim do ensino presencial cortou.

Mas em Portugal o que verificámos foi um fenómeno inverso, pelo menos em termos de ocupação do espaço mediático. Em vez de queixas dos mais desfavorecidos por não terem tempo apara acompanhar os seus filhos nas tarefas escolares, tivemos lamentos de gente bem posicionada no mercado de trabalho a lamentar-se por terem de estar em casa com os filhos e de os ajudar nos seus trabalhos. Os contributos dados tiveram alguma utilidade para além do registo dos humores individuais ou familiares.

São bem vindas as recentes declarações de alguns responsáveis pelas actuais soluções, ao reconhecerem que este não pode ser um caminho a prosseguir no futuro, mesmo que o regresso ao ensino presencial apresente problemas no próximo ano letivo. O ensino remoto pode ser uma solução para situações de emergência, mas é bom que seja assumido que são muitas as suas insuficiências e que está muito distante de ser desejável como modelo para o futuro da Educação não-superior.

Assim como seriam bem vindas todas as soluções que consigam libertar-se das suas amarras ideológicas ou de agendas políticas pessoais ou de facção. Como professor e encarregado de educação gostaria que o “novo paradigma” fosse o de uma Educação mesmo ao serviço dos alunos.

[i] https://www.wsj.com/articles/schools-coronavirus-remote-learning-lockdown-tech-11591375078

[ii] https://voxeu.org/article/large-and-unequal-impact-covid-19-workers

[iii] https://www.economist.com/graphic-detail/2020/04/24/many-poor-americans-cant-afford-to-isolate-themselves?fsrc=scn/tw/te/bl/ed/dailychartmanypooramericanscantaffordtoisolatethemselvesgraphicdetail

PG Verde

Webinar 1

O tema geral era “Da emergência a uma nova realidade”. Estiveram perto de 120 participantes , professores na zona de Sintra (algumas caras conhecidas de outros tempos) e lá zoomei pela primeira vez. Tirando a ligação ir abaixo, durante um par de minutos, já perto do fim, parece que correu bem, em especial juntando as participações em vídeo e áudio com as do chat.

Ocorrem-me, como “consolidação”, um par de notas específicas e um punhado mais gerais.

Mais específicas:

  1. Nunca esperem de mim um discurso muito contentinho com tudo, sempre a puxar por tudo o que corre bem e a varrer o que correu mal para debaixo da alcatifa. É pouco higiénico e mais tarde ou mais cedo dá-se pelo truque.
  2. O que significa que eu serei sempre (ou quase) o tipo que tenta perceber quais os potenciais bugs do programa, para ver se os conseguimos prevenir, em vez de metermos uma versão beta muito raw para o pessoal ir dando cabeçadas e aperfeiçoando. Não me interessa se me chamam “problemático”.

Agora mais gerais:

  1. O E@D carece de uma avaliação independente e descontraída, sem a pressão de querer agradar a este ou aquele, mas apenas com a preocupação de perceber o que se passou, o que correu bem e pode ser replicado e o que deve ser liminarmente evitado.
  2. As pessoas devem ter a coragem e a liberdade de não recearem consequências se disserem o que acham mesmo e o que sentem, pois só assim teremos um quadro relativamente fiel do que se passou e está a passar. Não é admitir qualquer nódoa profissional, confessar-se o que nos tem desanimado nestes meses.
  3. O número daquel@s que se colocam num plano se superioridade profissional e quiçá ética, incapazes de aceitar que existiram falhas graves como se isso fosse admitir quase um fracasso de tipo pessoal são, apesar de fazerem muito barulho e chatearem ainda mais, uma minoria que não deve ter o poder para intimidar a maioria.
  4. Ninguém faz a mínima ideia de como vai ser o próximo ano lectivo e quem disser o contrário faz parte de uma outra maioria… a dos que não têm dúvidas e têm sempre soluções, a que não admitem contraditório. Mas seria bom que se aprendesse alguma coisa de relevante com o que não correu bem desde Março.
  5. Não há chuva de computadores e de licenças da microsoft, google ou qualquer outra plataforma nacional ou global que resolva o evidente problema de literacia dos alunos em ambientes digitais de aprendizagem (importante não confundir com os de diversão), em especial no Ensino Básico, mas não só.
  6. O futuro maravilhoso da democracia educativa digital vem muito longe, em especial num país de fortíssimas assimetrias sociais e económicas. E dificilmente pode ser preparado com concepções ancoradas em visões prisioneiras de preconceitos ideológicos muito fortes.

PG 4

 

No Público De Hoje

É a recuperação de um texto aqui divulgado há quase duas semanas, antes da reconversão de ideias e/ou inversão de rumo de algum costismo digital educacional.

Que Educação para o século XXI?

Uma “comunidade de aprendizagem” adaptada ao século XXI tem exigências complexas a vários níveis que vão para além das alterações cosméticas das “salas do futuro”.

PG PB