A Ler

Via Rui Cardoso:

The Difference Between Emergency Remote Teaching and Online Learning

Outras propostas, via Livresco, em especial relacionadas com os mais vulneráveis à exclusão. Lá fora, a questão tem estado a ser analisada. Por cá, parece que se começa a ter maior atenção e menos pressa.

With Schools Closed, Kids With Disabilities Are More Vulnerable Than Ever

New Strategies in Special Education as Kids Learn From Home

Families of children with special needs ‘are in crisis mode,’ says Milton mother

With classrooms closed, teachers search for positive ways to connect with isolated students

Finger

 

Prioridades, Lideranças E Outros Bens Políticos Essenciais Em Falta Na Educação Do Nosso Século XXI

Ao fim de uma semana de encerramento das aulas – ou “actividades lectivas presenciais” – começa a ser possível perceber até que ponto a equipa do ME é muito útil em cerimónias, viagens recepções, visitas VIP e conversa mole em tempo de paz, mas um bocado ausente quando as dificuldades apertam.

No actual contesto, seria interessante que se tivessem estabelecido algumas linhas claras de orientação que fossem além de “os professores não estão de férias” do ministro ou daquela enfastiada ida do secretário de Estado a um programa televisivo vespertino para falar de modo vago no ensino à distância. Sabemos que na Educação, tirando a conversa teórica sobre inovação, flexibilidade, inclusão e outros chavões, há escassa autonomia para tomar decisões, mas, neste caso, até porque as questões orçamentais não são as decisivas (isso está dominado, e bem, pela Saúde) até bastaria aparecer alguém com alguma voz de comando e que desse a sensação de perceber o que é prioritário e, já agora, demonstrar que todo aquele parlapatório sobre o século XXI tem reflexos na capacidade prática do ME reagir ao “desafio” que enfrentamos.

Em vez disso, temos um grupo de figuras segundas ou terceiras altamente estimáveis, com evidente saber técnico, a tentar preencher de algum modo ao vazio criado, com recurso às “redes sociais” de que tanto mal por vezes é dito e a formar grupos de “apoio” para “ajudar os professores”. O esforço é meritório, mas não substitui uma verdadeira liderança. E muito menos é capaz de responder às exigências, percebendo-se que o voluntarismo de alguns chega ao terreno em conta-gostas e em modo que eu chamaria “consultivo”.

No grupo de apoio ao e-learning criado no fbook dá para perceber como a maioria das escolas está entregue a si, assim como os professores, na algo vã tentativa de provar que não se está de férias. Repare-se no inquérito lançado pelo Jorge Sottomaior Braga (que anda convencido que estou chateado com ele, não entendendo bem o que verdadeiramente me cansa em certos climas de agitação e pouco “foco”) no grupo há mais de um dia acerca das soluções adoptadas para acompanhar os alunos à distância.

Elearning

Num grupo com mais de 17.300 membros, em mais de 24 horas, existiam menos de 170 respostas (cerca de 1%), sendo que metade declara que não existe qualquer solução padronizada nas suas escolas. Um pouco mais de 30% refere a opção pela plataforma Microsoft Teams (claramente a preferida por alguns dos dinamizadores do grupo) e o resto dispersa-se.

Embora não seja essa a sua vocação, por ser uma ferramente essencialmente para fins administrativos, percebe-se que o E-360 nem é referido. Mesmo se é afirmado no site oficial que:

Com o E-360 pretende-se ainda a facilitar a interação de todos os intervenientes no processo educativo do aluno (encarregados de educação, professores, dirigentes escolares e pessoal administrativo e organismos da administração educativa) que resultará numa maior colaboração, troca de informação mais célere e eficaz, garantindo a segurança de informação.

Ou seja, o ME parece ter-se alheado de fazer mais do que encaminhar para as plataformas e ferramentas existentes, numa espécie de sortido rico das propostas no mercado. Só que a acumulação de sugestões, está longe de permitir que se adoptem soluções com um mínimo de coerência pelo país e não me venham com a “autonomia” para justificar a inexistência de um plano com prioridades claramente definidas e ajustadas ao calendário e especificidades de cada grupo de alunos, conforme os graus de ensino. Apresentar todas as alternativas que um grupo de gente informada conhece há muito é algo muito diferente de ter um rumo claramente traçado.

Não chega a demagogia de afirmar que estamos perante um “enorme desafio” e “uma oportunidade” para inovar os processos de ensino com base em recursos digitais. Porque o resultado é que, um pouco por todo o lado, passámos a ter uma espécie de formigueiros a quem falta uma “cabeça”.

Sim, todos podemos colaborar e fazer a nossa parte, mas depois o conjunto parece uma daquelas mantas das nossas avós, coloridas, criativas qb, e agora até bem caras por serem uma espécie de artesanato gourmet, mas que nem sempre chegam para tapar a cama toda.

Não é tempo para apontar divergências e “unir esforços”? Sim, mas para isso teria de haver com o que convergir ou divergir e, como escrevi, o que se encontra é um enorme vazio de liderança.

Já agora:

Things to Consider Before Implementing Virtual Reality Training

(…)

Ignore Novelty And Start With The Pedagogy

Taking a step back is an essential first thing to consider before implementing virtual reality training for your organization. Firstly, you need to check if VR is best for you to achieve your desired results.

Of course, VR is not right for every situation or performance problem. So, ensure that you start with the pedagogy and define your challenges and learning goals.

(…)

 

 

O Texto Integral Do JL/Educação Da Semana Passada

A pedido de várias famílias.

O professor como um canivete suíço?

Há uns anos pedi a uma aluna com recorrentes problemas de pontualidade e com frequente falta do material mais básico para as actividades (era comum chegar sem nada, pedir uma caneta a uma colega e uma folha de papel a outra) para ficar no final da aula e falarmos acerca da sua atitude. Do diálogo estabelecido, mais longo e complexo em termos emocionais para ambos, por diferentes razões, ficou-me a passagem em que ela disse algo como “professor, já vi tanta coisa na minha vida que me sinto vazia, sem alma e sem vontade para nada”.

Foi um daqueles momentos para que nenhuma formação (inicial, contínua ou fabricada) nos prepara, pois esmurra-nos como pessoas e não como professores. Não existem fórmulas para lidar com situações destas, se queremos enfrentá-las, procurar ajudar quem confiou em nós para desabafar, e ser mais do que a pessoa que passa o problema a outro, alegando que não é essa a função de um professor regular, mesmo que director de turma. E esta é aquela parte do trabalho do professor que escapa a muita gente, desde o comentador mediático, certificado e diplomado, que acha que sabe tudo sobre Educação porque até é encarregado de educação e se calhar deu umas aulas no passado, até ao comentador de esplanada que, por entre umas “bocas” sobre futebol e a corrupção na política lançadas com a jactância das certezas, gosta de zurzir naqueles professores “que nada fazem, que querem todos os direitos e nem sequer percebem que o país está como está por causa de quem como eles”. Esta é a parte do trabalho do professor que nem é assim tão incomum, porque dos seus dias de trabalho fazem parte centenas ou milhares de interacções, com dezenas de alunos, hora a hora minuto a minuto, e é necessário tomar decisões, processar a informação e optar pelo que se considera, quantas vezes em breves momentos, qual a atitude certa a tomar.

Como quando, há não tanto tempo assim, uma aluna que desconhecia me entrou pela sala dentro quanto estava numa tutoria com três alunos, sem pedir ou sequer se dirigir a mim e deu duas palmadas em colegas sentados, enquanto continuava calmamente com o telemóvel na mão e quando a inquiri o que se passava me respondeu que não era nada comigo e que quando insisti e lhe perguntei se percebia com quem estava a falar, replicou que “estou a falar com um professor, e depois?” E é necessário decidir o que fazer, até porque, nos tempos que corremos, este é aquele tipo de ocorrência que as entidades que definem o que é a indisciplina a nível macro e quem a gere a nível micro, consideram de pequena gravidade mas que, quando tolerada, pode ter efeitos graves na imagem de um professor perante uma turma ou grupo de alunos. É necessário combinar firmeza e ponderação, buscar o equilíbrio racional perante provocações que, por si só, parecem menores a quem não as enfrenta com regularidade. E nem sempre se acerta, porque não há fórmulas mágicas para gerir relações humanas ao segundo, com personalidades muito diferentes, muitas delas em formação sem referenciais cívicos mínimos ou estáveis no seu meio de origem e em que a afirmação se faz na base do confronto, da provocação, da agressão. Não nego que reagi e que ainda tive de me irritar após, ao sair da sala ouvir um “vou-me embora, mas é porque eu quero!” com aquela certeza (errada? correcta?) de que nada de grave lhe poderia acontecer e, talvez, até pudesse vir a beneficiar da benévola compreensão de quem gosta de “contextualizar” e de “privilegiar os afectos”, comprazendo-se no vazio de pretensas boas intenções.

A opinião pública está habituada, infelizmente com uma frequência cada vez maior, a serem-lhe servidas notícias de casos bem mais dramáticos de agressões de diverso tipo nas escolas (nos hospitais, até nos tribunais), entre alunos, de encarregados de educação para professores e mesmo de professores para com alunos. Mas essas são situações extremas que, mesmo em crescimento real (não acreditem nas estatísticas extirpadas do que possa prejudicar a “imagem” disto ou daquilo), ainda são excepcionais, uma fuga à regra. As escolas ainda são espaços seguros, mesmo se é perceptível a erosão do respeito para com a instituição escolar e os seus profissionais. Mas são, e não paradoxalmente, lugares onde existe muita violência verbal, fenómenos de pequena indisciplina, um rumorejar de agitação que alguns consideram “normal da idade”, mas que não é compatível com espaços e tempos de aprendizagens significativas desde logo de regras basilares de convivência social e respeito mútuo.

A Cidadania começa aqui, nas pequenas coisas. Aquelas que os professores tentam fazer respeitar, mas tantas vezes não conseguem de forma plena, até porque não se sentem apoiados nessa missão. Se falham uma decisão em cem, haverá logo quem lhes aponte o dedo porque “não sabem gerir a sala de aula”, porque “precisam de formação em gestão de conflitos”, ignorando as outras noventa e nove acertadas ou, no mínimo, não problemáticas. Mesmo se os casos de maior gravidade são traumáticos, não devemos ignorar o quão desmoralizador é alguém tentar fazer o seu melhor e saber que acabará por falhar, mais cedo ou mais tarde, porque as probabilidades são o que são e ninguém lhes escapa. E há quem esteja à espreita…

Mas voltemos ao professor que, por um acaso que tem pouco de coincidência, recebe os testes de uma turma e não dá logo atenção a uma pequena anotação na primeira página de um deles. E que, ao finalizar a aula ao colocá-los por ordem, percebe que na anotação, em letra delicada e discreta, se pode ler “não aguento viver aqui… esse mundo é um inferno… eu não queria ter nascido… já não aguento mais… não quero nascer de novo aqui…” e um pouco mais ao lado “Suicide”. E vai em busca d@ alun@ para perceber se é “apenas” uma chamada de atenção ou uma declaração de desespero com uma situação de potencial risco iminente. Porque aos 11 anos o dramatismo ou o mimetismo do que se vê ou lê algures nem sempre é fácil de caracterizar e nas escolas o “rácio” dos “recursos” especializados para estes casos é ele próprio dramático. E descobre-se que @ alun@ que chegou este ano de longe, chegou porque havia violência no seu quotidiano familiar, que o medo se transformou numa tristeza que é ainda possível afastar com pequenas gentilezas, com a amizade d@s colegas que ousam aproximar-se de quem se recolhe num casulo que não se pretende verdadeiramente fechado. De quem, afinal, deixou ali a ponta do fio que quer que desenrolemos. Mas o desenrolar é todo um outro processo. Complexo. Longo.

Em termos humanos, tudo isto é desgastante e está nos antípodas da imagem dos professores que só se preocupam em “despejar matéria”, em “mandar montes de trabalhos de casa”, que “só se preocupam com os escalões e anos de carreira”. Aquele discurso simplista e demagógico a que se recorre sem se parecer ter consciência dos danos causados e que incita encarregados de educação a entrar pelo espaço escolar e a coagir professores, a exigir-lhes que sejam tudo e mais um pouco quando isso é necessário e dá jeito, mas dando uma pedra sem sopa em troca. Falo dos adultos, porque a petizada, em regra, devolve desde que tenhamos disponibilidade para o apreciar, se não tivermos já tantas cicatrizes ou feridas mal saradas que a reacção automática seja a de erguer um muro de defesa, de indiferença. Porque isso também acontece e é desnecessário ocultá-lo. Há quem só assim consiga sobreviver e, embora não seja a atitude mais desejável, é compreensível. Se devemos “contextualizar” as “rebeldias próprias da idade” também deveremos ser capazes de o fazer com as consequências das mágoas acumuladas ao longo de anos de incompreensão e crescente sensação de isolamento.

A empatia é essencial no processo educativo, mas é um “recurso” relativamente escasso e que tem uma resistência variável à erosão. E não a devemos confundir com outras aparências em forma de fingimento, mais ou menos sorridente. Muito menos com retóricas postiças (em quem as emite) e assumindo a credulidade imbecil (daqueles a que se dirigem). Mesmo se a maioria da petizada, ainda pouco filtrada e com receptores pouco corrompidos pela hipocrisia, é um óptimo detector de encenações.

Tudo o que fica relatado pode ser real, relato fiel dos factos ou pode ser um mero exercício de quase ficção, o recurso a uma efabulação, destinada a captar a atenção do leitor, a fim de demonstrar uma tese. O enorme problema é que, para quem vive o quotidiano escolar em modo acordado, a linha que separa a realidade da imaginação é ela mesma uma quase abstracção.

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Contra Os Filisteus

Cheguei tarde a este autor, mas estou a gostar imenso da clareza como ele, logo nos primeiros anos do famoso século XXI, começou a desmontar o discurso “inclusivo” de alguns responsáveis políticos (e não só) acerca da Sociedade do Conhecimento, que eles pretendem com pouco conhecimento e ainda menos preocupado com padrões de Verdade, que gostam de apresentar como uma questão de interpretação. Assim como passou a ser norma amesquinhar como “elitista” qualquer pretensão ou exigência intelectual de rigor. Poderia ter seleccionado diversas outras passagens, até mais concisas e acutilantes, mas esta parece-me assentar de forma perfeita ao que vivemos, com especial intensidade, desde finais de 2015 na Educação.

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Frank Furedi, Where Have All the Intellectual Gone? (Londres, 2004, pp. 16-17)

(espero poder um dia destes contar as agruras de um tipo a quem dizem – e não foi apenas uma ou outra vez – que escreve de forma demasiado complicada para vender nos tempos que correm…)

A Ler

Embora ninguém, agora, perante as evidências, assuma que asneirou, ao ignorar a História da Educação na Finlândia e o ponto onde se estava e porquê.

O logro finlandês

Os cientistas da educação não nos protegeram do logro finlandês. Muitos encontraram aqui a “prova” das ideias pré-concebidas que tinham para a Escola, gerando-se um autêntico efeito de histeria.

Barrete

E Dizem Que A Municipalização Não Interfere Com A Autonomia Das Escolas E Com A Gestão Pedagógica?

Veja-se o caso de Odivelas e do projecto “Repensar o ano letivo como forma de melhorar a aprendizagem dos alunos”. Deixo aqui todo o documento (Semestres_Odivelas_Relatório), porque até me cansa estar a copiar aquelas passagens típicas da escrita de um certo tempo de final do século XX, tão lido por ocasião das profissionalizações feitas nos anos 80 e 90.

Chamo apenas a atenção para o organograma implícito nesta apresentação:

Odivelas1Odivelas2

A Câmara (do PS), com a benção do governante (do PS) nomeia uma comissão (ver parte sublinhada) para proceder ao acompanhamento e avaliação de um projecto implementado a nível municipal, convidando para consultor um especialista e ex-governante (do PS).

Essa comissão, formada principalmente por elementos da Equipa de Acompanhamento da Autonomia e Flexibilidade Curricular da Região de Lisboa e Vale do Tejo (nomeada em modelo de dependência clara da tutela), acha por bem dar a sua opinião sobre o funcionamento dos órgãos internos de gestão das escolas, apontando-lhes forças e fraquezas, presentes e futuras naquele modelo muito apreciado da análise SWOT (prefiro a versão portuguesa-brasileira de análise FOFA, mas são gostos).

OdivelasPodem dizer-me que é apenas um olhar “externo” para “ajudar”, mas mim parece toda uma outra coisa. E tem muito pouco a ver com “autonomia” e ainda menos “diferenciação” pois promove metodologias e modelos únicos de intervenção.