Eles, Ontem, Não Falaram De Educação…

… por que no essencial estão de acordo, em tempos de pandemia ou não pandemia. Aquilo da cidadania é mais uma disputa entre a aliança beato-inclusiva de um sector do PS e do Bloco e os mais matarruanos do CDS e Chega. Na semana de regresso às aulas, ambos (mais os “moderadores”) acharam que era um não-assunto. Se em 75 minutos não deu, em 25 muito menos dará.

Mas… quem estivesse a escabecear e sem vontade ver a cara dos dupondt, acabava por se concentrar em detalhes como os oráculos dos canais noticiosos. e num deles (cnn portugal?) passava insistentemente o alerta de que em Fevereiro se vão aposentar 200 professores e os seus alunos vão ficar sem aulas! Alarme!! Todos aos seus abrigos!!! Há 200 professores (menos de 1 por cada 4 agrupamentos) que se vão reformar e a petizada vai ficar sem aulas! Estranhamente, não se preocuparam em saber quantos alunos estão sem aulas porque os professores estão em isolamento ou eles próprios estão em casa, por estarem “positivos” ou coabitarem com alguém que está. E até erraram as contas, porque os números que o Arlindo passou à Lusa são um pouco diferentes.

Mas houve mais notícias alarmantes sobre a velhice dos professores que se acreditava serem eternos: por causa da mortalidade da pandemia (que só existe na televisão, note-se!) a esperança de vida população diminuiu e isso reflecte-se na idade da reforma dos professores, podendo levar a um adicional de mais de 800 aposentações por limite de idade! Nem o maravilhoso estudo que o ME encomendou à Nova Bizness Scule previu tamanho descalabro. Há uma pandemia, as pessoas morrem, a esperança de vida baixa, a idade de reforma reduz-se (três meses) para toda a gente e a aposentação dos professores é que preocupa a comunicação social ou quem atira com estas coisas cá para fora?

Agora, imaginem que a Educação era um assunto importante. Ou será que agora apenas a falta de professores os preocupa? Não fizeram, nestes últimos 20 anos, porcaria suficiente que ajude a explicar que pouca malta nova queira ingressar na carreira com um alvo nas costas?

Valerá A Pena…

… andar a analisar com grande detalhe o que os programas partidários defendem em matéria de Educação? No essencial, fazem proclamações vagas, não explicando como as pretendem implementar na prática. Quando apresentam algo mais concreto, uma pessoa espanta-se com as ideias subjacentes (como aquela de fazer uma espécie de dupla certificação profissional dos futuros docentes). Quase tudo é ditado pelo imediatismo e a “falta de professores” que ninguém pareceu ver a vários anos de distância, como se o envelhecimento fosse algo recente. Em matéria de gestão escolar, umas pinceladas escassas de quem já teve oportunidade de fazer alguma coisa e se ficou por resoluções. Quanto à carreira dos “envelhecidos” e à vergonhosa add, zero em coragem de dizer seja o que for; estive, por exemplo, a ler o programa do Bloco (não chega reclamar pelo fim das quotas, mesmo se isso é importante) e o “Compromisso” do PCP e a ausência de qualquer referência ao tema é uma lástima completa em forças políticas que se pretendem ter alguma representatividade no sindicalismo docente (o mesmo para a questão do tempo de serviço congelado e que todos parecem considerar tema fechado, apesar das tais “resoluções). Fico mesmo pasmo com certas preocupações

A Educação deixou de ser uma prioridade em temos de pandemia, mesmo se as escolas a funcionar são essenciais em tempos de pandemia. À Direita leio coisas que nem me apetece comentar, de tão demagógicas que são, ou seja, como se pode defender uma Escola Pública forte e de qualidade se estamos continuamente a duvidar da qualidade dos professores (PSD) ou a clamar pelo cheque-ensino para levar alunos para um privado de 2ª ou 3ª linha (CDS e Iniciativa Liberal, mesmo se estes nem sequer fingem interessar-se muito pelo funcionamento da rede pública). O Chega diz umas coisas que parecem soar bem, se esquecermos que tudo é “contra os socialismos”, a “esquerda e a extrema-esquerda” e poucas coisas são mais (teoricamente) típicas de uma governação de “esquerda” do que uma Escola Pública para todos. Mesmo se o PS (incluindo o da geringonça) optou transformá-la numa espécie de coutada para as suas clientelas e uma via para canalizar meios financeiros para organismos e estruturas que lhe são externas.

Portanto, não é pela análise das propostas para a Educação que me conseguem convencer que, chegando ao poder uma geringonça de esquerda ou direita (e muito menos uma maioria absoluta do PS), alguma coisa mudará de relevante, excepto a imposição de mais uns remendos no currículo e umas medidas ad hoc para colmatar a falta de professores, considerando que tornar a profissão “mais atractiva” se limita a mais um lote de vinculações “extraordinárias” ou a pagar mais nos primeiros escalões, enquanto se encolhe o horizonte de progressão a partir do primeiro terço da carreira, mesmo que se mantenham formalmente escalões com remunerações nominais comparativamente elevadas nos estudos da OCDE, mas de que 40% ficam na posse do Estado, logo à cabeça.

O “Contágio Zero” Nunca Existiu

Este texto foi originalmente enviado para o Público há mais de uma semana. Como a espera se ia alongando e a actualidade mudando, preferi que fosse cancelada a publicação em vez de estar em marinada até não fazer sentido (a sugestão de que não valia a pena ficar mais dias na fila foi minha, não se trata de nada como na SICN, na 2ª feira, em que percebi claramente que me cortaram o pio, a sangue frio). E deste modo posso colocar a versão relativamente mais longa, não editada para caber nas medidas do espaço em papel e com uma frase adicional em relação ao original. É mais um daqueles textos que não me vai trazer grandes amizades, pelo que assim até fica com circulação mais limitada.

Nesta espécie de desconversa de surdos entre os que encaram a pandemia como uma realidade que deve ser combatida com os meios ao nosso dispor, do simples bom senso aos últimos avanços científicos e aqueles que a consideram um mero acidente de percurso, sem especial gravidade, muito empolamento mediático e aproveitamento político e comercial, estou do lado dos primeiros, mesmo se tenho poucas certezas estabelecidas.

No que se pode chamar a “gestão política da pandemia” existiram vários erros óbvios, uns nascidos do desconhecimento e ignorância, outros de um voluntarismo excessivo e alguns de evidente oportunismo mistificador. Não sendo especialista em Saúde, deixo as questões mais técnicas desta área para quem a função (e dever) de informar do modo mais completo possível a opinião pública, sem ceder demasiado aos interesses particulares ou a crenças ideológicas mais arreigadas. Mesmo se isso nem sempre se tem revelado muito viável, com muita gente mais preocupada em defender uma posição individual ou de grupo definida a priori do que em entrar em qualquer debate a sério.

Prefiro centrar-me nas questões relativas à área da Educação que foi a que, depois da Saúde, maior polémica despertou, nem sempre pelos motivos mais razoáveis. Nesta área notaram-se ainda mais as clivagens ideológicas e a irredutibilidade de preconceitos sem qualquer margem para ouvir a argumentação das partes em confronto e mudar as posições assumidas como as únicas aceitáveis. O encerramento das escolas chegou a parecer a questão central de toda a pandemia, com a discussão a ganhar tons de algum delírio e muitas acusações descabidas à mistura.

Interessa-me aqui revisitar o que desde o início me pareceu ser o argumento mais falacioso dos que defenderam o funcionamento das escolas, não interessa como, de governantes a opinadores mediáticos. O que se apresentou como fundamento mais forte para não encerrar as escolas foi o do pseudo “contágio zero” que nelas se conseguiria manter. De acordo com esta tese, defendida pelo ministro que já foi cientista e muita gente que deve ter falhado as disciplinas de Ciências no Básico e Secundário, nas escolas as crianças não seriam afectadas pela propagação do vírus e, mesmo que fossem atingidas, os sintomas nas idades mais jovens são escassos e os riscos de letalidade muito residuais, pelo que não se justificava que as escolas fechassem.

Não sendo o fecho das escolas e o indesejado regresso ao ensino não-presencial o que em tudo isto mais me incomoda, já me perturba a falácia criada e mantida de um mítico “contágio zero” que qualquer lógica mínima teria dificuldade em defender. Porque nem alguma vez houve “contágio zero” – e quem tem estado nas escolas sabe isso mesmo – nem era essa a questão fundamental. Porque o objectivo era quebrar cadeias de transmissão que podiam vir do exterior da escola e nenhuma “bolha” garantia que as escolas fossem oásis em tempos de pandemia, por muito que se tenha feito nesse sentido.

Com a população adulta por vacinar era importante que as crianças e jovens, que pouco padeceriam com a covid, não funcionassem como agentes transmissores. O que foi intensamente negado, com recurso a estatísticas sobre a incidência da doença. Só que, com os adultos vacinados percebeu-se que, com um caminho dificultado, o vírus passou a atingir de modo mais intenso a população jovem não vacinada. E de novo se ouviram as teses de que a vacinação é desnecessária (e mesmo perigosa), não devendo os mais jovens ter de se sacrificar em defesa dos mais velhos, a quem já se percebeu que as vacinas apenas dão uma defesa parcial. Porque são raras as crianças que morrem e que os casos graves ocorrem apenas quando existem factores de risco acrescido. E regressamos a uma variante da tese do “contágio zero”, mesmo quando já se sabe que isso é falso, mesmo entre os que se dizem “pela verdade”. Reabrir as escolas em todos os níveis de ensino está longe de ser sensato, como já foi sublinhado por diversos especialistas de que podemos gostar mais ou menos.

Só que a “verdade” é outra e passa por um dos lados não querer que as escolas fechem por inconveniências particulares e inclinações ideológicas e do outro porque seria impopular em tempos pré-eleitorais e porque continua por preparar uma demagógica “transição digital” na Educação. Por isso, podemos esperar por tudo, menos por decisões baseadas numa análise vagamente objectiva dos dados disponíveis, sendo muito mais práticos e fáceis (populistas) os chavões como o do “contágio zero”.

A 3ª Prioridade Do PS

Alterar o regime de recrutamento, introduzindo fatores de estabilidade reforçada no acesso à carreira de professor

E detalhes? Nada que tranquilize, até não vejo qual a novidade de se vincular directamente em quadro de escola ou agrupamento (foi assim durante muito tempo) e porque as zonas onde neste momentos os professores escasseiam são as urbanas e não as tradicionais do interior.

Sobre o “resto” (gestão escolar, add, etc), nada de nada. Tudo na mesma.

Sábado – Ano Novo

Após as saídas e entradas, sem balanços ou grandes previsões, resta-me repetir que não guardo grandes (ou pequenas) esperanças acerca de qualquer mudança significativa na área da Educação. podem fazer aqui ou ali uma cosmética, mas não mais do que isso. PS e PSD são, naturalmente, as opções, para a liderança de qualquer governo e partilham no essencial a lógica de muito do que tem sido feito nos últimos vinte (trinta? anos na Educação, mais ou menos prova final ou disciplina no currículo. Se ganhar, o PS apenas “aperfeiçoará” ainda mais o seu “paradigma” de produzir sucesso a qualquer custo, mistificando a opinião pública com o que chama equidade e inclusão, enquanto o PSD tem muito pouco a oferecer de diferente, sendo um quase total deserto em matéria de figuras com algum peso nesta área da governação para além de um pequeno grupo que, implícita ou explicitamente, orbita a galáxia Isaltino. Há o histórico “senador” Justino que talvez almeje algo mais do que voltar a ser ME e há o aspirante Patacho, ainda em tirocínio para SE. Claro que há uma outra possibilidade, menos claramente associada pela opinião pública a este grupo, que eu gostaria sinceramente de ver no cargo, até para provar que, ao contrário de Crato, será capaz de fazer o que tanto diz de forma tonitruante.

Mas o mais certo será ficarmos com mais do mesmo, não valendo sequer pensar que qualquer opção alternativa é viável, quando se teve um governo suportado à esquerda pelo PCP e Bloco e nada mudou, nem sequer na gestão escolar. À direita, o vazio é imenso, apesar das tentativas de alguns se “achegarem” aos professores, tentando capitalizar a sua insatisfação. Mas, por muito que o Gabriel Mithá pense que é possível arregimentar os professores, isso só acontecerá aos que aceito serem crentes de pseudo-lideranças anti-sistémicas de natureza caudilhista ou a gente mesmo muito distraída. Quanto aos “liberais”, tirando umas coisas sobre economia que leram nos seus estudos sobre a “liberdade”, são uma espécie de Bloco de Direita, só que com camisas de melhor corte.

Portanto, e não o digo com qualquer satisfação, 2022 será um ano em pouco diferente dos anteriores, até na forma inábil de lidar com as consequências da pandemia nas escolas, entre os constantes anúncios de que tudo está ou vai acabar bem e a obsessão por agradar a meia dúzia de “influenciadores” mediáticos. “Mudança” só se for em parte das moscas que se alimentam no monturo.

E reparem que nem falei em E@D.

O Meu Copo Ficou Vazio

Como já vi por aí (nas famosas “redes sociais”) a transcrição do texto para o podcast do SIPE, mais vale deixá-lo no “lugar do dono”.

O meu copo ficou vazio

O debate sobre a Educação em Portugal atravessou diversas fases nas últimas duas décadas, tendo chegado em alguns momentos a ser brutalmente conflitual e tóxico. Mas, nos últimos anos, foi-se esvaziando, ficando cada vez mais domesticado, desaparecendo quase por completo qualquer debate de ideias ou discussão de alternativas ao que vamos tendo como modelo único de políticas educativas.

Talvez por ter desaparecido quase por completo das prioridades do debate político, mesmo quando se tonou necessário falar acerca do ensino presencial e não presencial, a Educação tornou-se uma área da governação em que só de forma epidérmica e isolada surge algum contraditório a um estado de coisas que parece ter vindo para ficar, apesar da enunciação de muitas discordâncias e resistência ainda há não tantos ano assim.

Este estado de adormecimento e apatia não foi atingido por acaso, não aconteceu por estar natural mente inscrito na evolução natural das coisas, muito pelo contrário. É o resultado de uma estratégia que teve sucesso na eliminação, silenciamento ou confinamento das posições críticas, através da sedução ou cooptação de sectores da opinião que antes contestavam muitas das políticas implementadas desde os primeiros anos do século XXI.

Da gestão escolar à gestão do currículo, do modelo de avaliação das aprendizagens dos alunos ao modelo de carreira docente e de avaliação do desempenho, não esquecendo a forma de conceber a docência como uma variante de trabalho administrativo ou burocrático, qualquer oposição crítica foi apresentada como “ruído”, adjectivada como resultante de uma visão arcaica da Educação, enquanto se foi cobrindo tudo com uma retórica que usa termos que parecem de uma bondade inquestionável, mesmo se não correspondem às práticas efectivas.

Autonomia, colaboração, flexibilidade, inclusão, inovação foram apenas alguns dos termos que serviram para encher o copo de todos aqueles que surgiram associados ao novo poder na Educação desde 2015, apresentando como se fossem imensas novidades, conceitos e práticas que remontam a momentos diversos da evolução do pensamento educacional e pedagógico dos séculos XIX e XX. E assim se procurou dividir as águas de forma simplista, demagógica e maniqueísta entre “bons” e “maus”, “velhos” e “novos”, “inovadores” e “conservadores”, não hesitando em arregimentar considerações de natureza “moral” contra quem ousou criticar a deriva das políticas educativas para uma espécie de pensamento único que apresenta a “Educação do século XXI” como se tivesse apenas um caminho de sentido único e não como algo necessariamente plural.

E assim se encheu por completo o copo de uns, enquanto se esvaziava por completo o de outros. De um lado ficaram todos aqueles (a que costumo chamar cortesãos, porque tudo isto me faz lembrar o “paradigma” da lógica feudo-vassálica medieval) que aceitaram entrar, do lado das “soluções”, no jogo do funcionamento hierarquizado das escolas, da atomização curricular ao serviço de interesses micro-ideológicos que menorizam os saberes “tradicionais” em favor de sabores do momento, na teia da identificação de áreas prementes de formação que alimenta as clientelas académicas que fizeram essa mesma identificação, no culto do “sucesso” que é nuclear para a aferição das aprendizagens dos alunos, mas que é sujeita a quotas quando se trata de avaliar o desempenho docente.

Pessoalmente, não hesito em colocar-me do lado daqueles que ficaram com o copo vazio, porque vi desertar da “luta” concreta, no tempo certo, muitos do que se opunham à lógica da fragmentação municipal da gestão da Educação ou do modelo unipessoal baseado na obediência hierárquica da gestão escolar. Porque assisti à cristalização de um modelo de avaliação do desempenho docente que se diz norteado pelo reconhecimento do “mérito”, mas que na generalidade das situações premeia a representação do desempenho e a adesão às práticas que as “lideranças” pretendem aplicar para que elas próprias possam ser favoravelmente vistas pelo poder tutelar, central ou local. Porque discordo de um currículo fatiado de acordo com os gostos pessoais deste ou aquele governante ou eminência parda que considera que a Filosofia ou a História são conhecimentos antiquados a substituir por salpicos da espuma dos dias, em forma de filosofias ubuntus ou meditações de fim de semana. Porque acho um erro enorme definir-se como padrão apenas o “essencial” em matéria de aprendizagens, como se a “inclusão” só fosse possível reduzindo o Conhecimento a um esqueleto descarnado de conteúdos desarticulados.

Para o ano de 2022 que começa com campanha eleitoral não guardei quaisquer especiais esperanças que o meu copo receba, sequer, umas pequenas gotas que evitem que fique definitivamente seco, pois sei que, quer os poderes que estão, quer aqueles que poderiam estar, estão de acordo em considerar que o copo está cheio, ou quase, apenas discordando acerca de quem decide com o quê e quem pode beber.


Só Em Junho-Julho Foram Cerca De 750.000 Euros (+ IVA) Para O E360…

… e ele continua uma lástima. E desde 2019 tem sido um sorvedouro de dinheiro. E não se deixem enganar pelos nomes das empresas porque, indo pelo NIF, vai quase tudo dar à Novabase. Só o “módulo” para as provas de aferição levou 280.000 euros.

(clicar na imagem para ler melhor)

4ª Feira

Aproveitei para reler o texto de António Nóvoa no JL/Educação de Dezembro, para ajudar a fazer uma espécie de purga em relação à sujidade quotidiana em que se transformou o quotidiano da gestão da Educação em Portugal fora das salas de aula. Sei que, por feitio e função, o seu discurso é muito mais suave do que o meu em relação a algumas matérias. O nosso contacto foi escasso e em nenhum momento vou (mesmo se lhe pedi para apresentar o livro que fiz sobre a manifestação de 08/03/08) além de encontrar afinidades sobre aquilo que é essencial na Educação e que muitos identificam como o “triângulo pedagógico” (alunos, professores, conhecimento), mas que não poucos desfazem ao menorizar dois dos pilares, relativizando o que se considera “Conhecimento” e apoucando o papel dos professores.

Por isso, transcrevo o que a esse respeito escreve Nóvoa, até pelo modo como sublinha a contextualização histórica da construção desse Conhecimento, o seu carácter evolutivo e não apenas a transmissão acrítica do que existe, em sincronia, de foram relativista em relação ao valor do que se considera serem “saberes” ou “filosofias”, muitas vezes meras crenças locais ou pessoais, por muito que tenham ajudado este ou aquele decisor nalgum momento da sua vida.

A partir do triângulo pedagógico – alunos, professores e conhecimento – a Comissão chama a atenção para a necessidade de pensar a Educação numa nova relação com o mundo e a Terra. Defende, por isso, a importância da literacia científica e de um ensino que ajude a compreender, o que implica integrar no ensino das disciplinas a forma como os conhecimentos se constituíram.

A passagem que destaquei pode ser formalmente subscrita por muitas criaturas que andam por aí em painéis, grupos de trabalho e formações, mas não isso não passa da enunciação. Na prática, nas políticas de desenvolvimento curricular, na opção por “aprendizagens essenciais”, no modelo de micro-registo dos desempenhos atomizados, as últimas duas décadas corresponderam a um esforço consistente e continuado pela fragmentação (e não pela unificação) do currículo e pela erosão dos conteúdos disciplinares, substituindo horas semanais de trabalho com os alunos em torno de conhecimentos construídos e acumulados pela Humanidades por horas que prezam o culto do imediato, do transitório e que desprezam activamente o processo como os conhecimentos científicos (num conceito alargado e não meramente reduzido às tecnologias ou permeável aos pós-modernismos que já deviam ter passado o prazo de validade) se formaram e se souberam renovar a partir dos seus próprios fundamentos de questionamento.

As Ciências Naturais, a História, a Filosofia, a Matemática, contêm em si e no seu método de trabalho o princípio do auto-questionamento, caso contrário não existiria um progresso com resultados demonstráveis e teríamos ficado pela roda quadrada e o isqueiro de sílex. Aliás, a opção pela redução do peso da Filosofia no currículo e a sua transformação num domínio quase exclusivo da Lógica, numa versão exacerbada ao ponto do mecanicismo formal, é um dos sinais mais evidentes do desprezo pela forma como o pensamento humano evoluiu e se redefiniu. assim como o corte em fatias semestrais de disciplinas como a História ou a Geografia, para dar lugar a coisas como “empreendedorismo”, “literacia financeira” ou “prevenção rodoviária” no currículo demonstra o quanto existe de confusão quanto ao que deve ser verdadeiramente o “essencial” e o que não passa de acessório e perfeitamente admissível num espaço extra-curricular.

Como a Maria do Carmo Vieira dizia de forma muito intensa numa formação, daquelas a sério, estamos cada vez mais entregues aos bárbaros. E, acrescento eu, cada vez mais empurrados para umas novas trevas, causadas por um excesso de luz artificial.